Formulação de partida
O PAPEL DA IMAGEM
O trabalho está pontuado com imagens da autoria do investigador.
As excepções estão assinaladas. São imagens colhidas dentro de uma prática etnográfica alargada e prospectiva. A escolha é intuitiva embora marque um percurso. Podemos tomar o exercício como uma pequena auto-etnografia ou até uma auto-psicanálise do processo. Mas também como um curto-circuito. Na verdade, mais do que uma dissecação extensa e fria das imagems ou a objectivação da sua função, queremos tornar presente o circuito emaranhado de pensamento em organização através do que vimos e registámos. As imagens são relevantes em si, mas também sobre o contributo do investigador, sobre a sua bagagem e as suas preocupações, bem como sobre a ocupação que ele faz do espaço de investigação, bem como ainda sobre o papel da imagem como instrumento de registo, organização e produção de sentido. O processo é então de algum modo contrário ao de um procedimento e exposição controlados. Em lugar de provar ou marcar factos ou conceitos pré-definidos a partir de
imagens para depois os desdobrar, testa-se como é que as imagens podem, elas próprias, contribuir para precipitar incidências, preocupações, conceitos, linhas de força, abrangências, alargamentos, para a investigação e para os leitores. A decisão tem a sua origem num exercício curricular de etnografia visual (ver, por exemplo, Pink, 2006), mas toma aqui a sua autonomia. Da imagem definida nos seus termos físicos e na sua significância directa – narrativa interna – viajamos para os seus possíveis exteriores. A primeira navegação é íntima ao investigador, por entre arquivos, processos e leituras internas de índole técnica, estratégica, narrativa, metodológica, psicológica, biológica, propositiva. A segunda será em diálogo com o documento, e a terceira a do leitor,
igualmente íntima. Concentramo-nos naquilo que podemos apelidar como o terreno de intersecção entre aquilo que se produz na máquina interna de quem propõe, as expectativas de alcance dessa produção, e o desconhecimento sobre os alcances possíveis. O papel da imagem em si é o de palco no qual a equação da partilha e da intersecção se resolve, terreno de interface entre máquinas internas intradutíveis e as suas possíveis fabricações.
Foque-se então este terreno em que se optou por trabalhar. Ressalta desde logo o facto de se ter estado lá, imerso naquelas coisas que foram ou
aconteceram e que foram fotografadas em diálogo com o universo interno do registador/intérprete. É da posição do envolvido* com a experiência estrita, da qual a imagem é simultaneamente precipitação e testemunho, que se parte para indagar nela um porvir. Visa-se quebrar uma linha de fronteira em direcção a um recomeço ou reanimação para o registo fotográfico que apenas acontece uma vez liberto da mera sedução do objecto fotografado, do seu valor de mercado e do campo estrito do seu valor de superfície, magro de significados internos e externos. Quebrada essa linha, será possível mergulhar na corrente imensa e incerta dos sentidos e até das sensações estéticas possíveis, que desafiam as pré-determinações inscritas na lei, na linguística, na ciência, na técnica ou no comércio. Vê-se o que se quer ver a partir do que está lá ou se experimentou, mas no estrito respeito e curiosidade pela densidade e singularidade disso que esteve e está lá. E quando o exercício de interpretação conduz a construções narrativas ou simbólicas, elas não têm que esconder a maquinação interna do intérprete. Antes denotar a sua autonomia face ao objecto interpretado. Por via desta autonomia, as narrativas aproximam-se de um nível político, teórico, abstracto ou ficcional, mas assumindo a sua parcialidade propositiva sem necessitarem de recorrer à forma de um veredicto definitivo, mantendo em aberto todo o campo interpretativo possível a partir da mesma imagem e experiência.
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No desempenho profissional que se exerce no gabinete de design, por exemplo, o envolvimento – se é que existe – é feito tendencialmente com as imagens que povoam o espaço mediático e comercial, debatendo nesse universo estrito de significantes e significados as fabricações passí- veis de obter os favores do mercado, mimetizando e remisturando o que já emergiu. Trata-se de uma acção de produção e difusão que visa um impacto previsível, que as imagens prometem no cum- primento de objectivos premeditados e inertes, normalmente os da mera sobrevivência. Em tal processo procura-se imagem enquanto produto acabado cujo referente é um espaço já ele próprio fabricado e fechado de sentido. Tende-se para uma fabricação alheia ao que nela se pode levan- tar de debate, de abertura de possibilidades, de fins, ou de contributos. Um processo assim levado a cabo, em camadas e sobre-camadas de presun- ção de significados, tende a excluir qualquer raiz, tende a não resgatar qualquer proposição oriunda dos substractos mais fundos que presumidamente sustentam as presunções.
Mas então, na prática, por onde andou e com quem andou o investigador? Pelo Porto, certamente. Pelo escondido do Porto? Pelo decrépito do Porto? Pela acção subversiva ou subterrânea ainda que com patrono institucional? Haverá um apego ao incógnito? Haverá uma ética ou uma poética da
desgraça? Haverá uma moral nas imagens e na sua escolha? À luz da escolha das imagens, alega-se que há um apego à força do não inscrito. À luz da estratégia de interpretação, alega-se que há uma ética, mas que ela se refere à recusa da entronização da imagem por si, da sua significação única ou função meramente testemunhal. À luz das narrativas que surtiram, alega-se que se procura incidir subversivamente nas estruturas internas quer dos implicados em cada acontecimento a que as imagens reportam quer em cada leitor que a elas se dedique. É nesse terreno dos programas internos dos referentes e dos possíveis intérpretes que de facto se procura desenhar e explicitar. E estes são externos à imagem. Em síntese:
›› Elege-se a imagem como terreno para o debate, mas não como origem nem desfecho da contenda.
›› Encara-se a imagem enquanto instrumento de tradução, descoberta e produção de sentido, desejavelmente incidentes e transformadores do que dos referentes implicados é possível imaginar, num nível estrutural e não superficial nem pessoalizado.
›› Argumenta-se que este terreno de debate deve estar o mais possível livre de espartilhos formalizados à partida – metodológicos, linguísticos, como produção, como resultado, ou outros – de modo a que a contenda possa evoluir em modo especulativo próprio e aberto aos contendores. Não se encara a imagem nem como cenário nem como objecto-fetiche; nem é tudo o que nos rodeia nem é à partida a coisa final a descobrir, produzir ou transformar. Ao defini-la como terreno para o debate, está-se simplesmente a propor que ela se concretiza apenas na medida dos contendores e da contenda que suscita. O ´todo’ que nos rodeia, esse sim, parece ser o destino final de alguma ambição de transformação pela imagem, a partir do debate nela. Mas esse ´todo’ tem vindo a surtir como um jogo de forças entre entidades ou partículas elas próprias por definir e explorar em profundidade, não explícito, oculto pela sua própria imagem. É como se a imagem que hoje parece dominadora do ecossistema dos sentidos e dos pensamentos se servisse desse estatuto para escamotear, em lugar de estender em terreno, a ordem de uma estrutura que de facto nos governa, seja ancestral, perdida, vigente, manipuladora, ou nova e por definir ou imaginar. Haverá nesta
investigação a ambição de criar uma imagem deste todo estrutural, de o transformar em terreno de debate e de chamar para aí contendores? Por agora, alega-se que se pretendeu indagar e relativizar a perversidade de uma ordem vigente que hiperboliza/esconde a circunstância contemporânea através da imagem, através da sua aparência de realidade, da sua (também já aparente) índole sensorial, da sua velocidade de transmissão e do seu raio de alcance. Alega-se que esta ordem hiperbólica vigente é uma estrutura construída que mascara uma outra, a do apagamento de um legado ancestral histórico, biológico, visceral, humano, que pervalece no quotidiano. Alega-se que hoje interessa intervir em transversalidade e profundidade nestas estruturas, dando assim algum sustento à forma da nossa circunstância. Tome-se a proposta de Baudrillard aqui sumarizada por Gillian Rose:
Baudrillard argued that in postmodernity it was no longer possible to make a distinction between the real and the unreal; images had become detached from any certain relation to a real world with the result that we now live in a scopic regime dominated by simulations, or simulacra. (Rose, 2001, p.8)*
Esta impossibilidade de distinção entre real e simulação merece, então, ser escrutinada. Mas restringir o regime da simulação ao “escópico” parece-nos redutor. Já temos vindo a referir como os léxicos podem ser voluntária e subtilmente extraídos ao seu sentido vivido originalmente para induzir uma vida virtual própria. A questão parece-nos apontar mais para a deturpação subreptícia dos léxicos e, em última instância, para o estado da nossa percepção acerca das superfícies linguísticas e do que elas escondem ou revelam, no que a imagem visual, mesmo que assumindo o papel de protagonista, de metáfora ou de campo de trabalho, não pode ser bode espiatório único.
Por um lado, a metodologia que se vai esboçando neste escrito tende a contrariar nas duas camadas – estrutura superficial simbólica (imagem, léxico) e estrutura primordial (magma, todo) – a impossibilidade alegada por Baudrillard, já que procura precisamente re-estabelecer ligações ditas como perdidas definitivamente, na medida em que procura ‘viver o’ quotidiano e ‘viver com’ os símbolos em simultâneo. Por outro lado, a deslocação para fora de um contexto de produção no qual prevalece a pré-determinação dos sentidos – como são o gabinete de design e o desempenho institucionalizado – em direcção a um campo aberto de fruição, curiosidade e debate, faz emergir uma outra hipótese: a de que o contexto de simulacro proposto por
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Nota de tradução:
Baudrillard argumentou que, na pós-modernidade, já não era possível fazer uma distinção entre o real e o irreal; as imagens tornaram-se desligadas de qualquer relação com um mundo real, e isso tem como resultado que, agora, vivemos num regime escópico dominado por simulações, ou simulacros.
Baudrillard (e do qual pretendemos encontrar um desbloqueamento) poderá ter a sua origem numa hiper-racionalização controlada e disseminada e não numa hiper-subjectivação a partir das imagens. Porventura, o que se perdeu na dita pós-modernidade foi a capacidade para reconhecer e lidar, individual e colectivamente, com factores indetermináveis e subtis de tradução lexical do ser e do viver, capacidade que estamos supostamente treinados para exercer e desenvolver na comunidade, enquanto designers. Faz sentido, então, contribuir para uma pedagogia dos léxicos, da percepção e dos sentidos, não apenas na imagem, mas também na linguagem em geral. Aprender a lidar individual e colectivamente com o magma, inclusivamente através da imagem, em lugar de presumir que evoluimos ordeiramente num caldo laboratorial fotografado, sistematicamente, na sua inevitabilidade.
Tentando equilibrar aquilo que parece neste momento ser uma dose excessiva de presunção de descoberta e de vontade de mudança de paradigmas, diga-se que a tentativa em curso pode simplesmente almejar maior detalhe e consciência do papel possível da imagem – e do imaginável – hoje, e que daí poderá surtir matéria de interesse para o design como disciplina, como método, como pedagogia e como prática.
Traz-se à mesa o trabalho de Damásio (1995) sobre o comportamento do cérebro humano. Por um lado, Damásio releva a contribuição dos factores emotivos, afectivos e intuitivos no comportamento e no processo de tomada de decisão, relativizando a razão. E fá-lo analisando a máquina cérebro na sua ancestralidade, na sua história biológica, nos seus acidentes significativos e na sua estrutura física fina, hoje finalmente traduzida em imagem. Por outro lado, fá-lo reconhecendo a imensidão do que hoje não sabemos sobre esse comportamento, exercendo nesse terreno do desconhecido o sério desafio da especulação que lhe permite avançar. Talvez no campo do design e da imagem se trate, no princípio e no fim, da descoberta e da denúncia do que não se sabe, não se experimentou, ou não se sabe simplesmente traduzir ou partilhar inteiramente, como acto de conhecimento, reconhecimento e tentativa disciplinar. Reconhecer que os efeitos de tranformação pela imagem que interessam ocorrem principalmente fora dela e fora do nosso alcance. As imagens – todos os léxicos, todas as linguagens – são apenas campos da contenda partilhada do presente, apenas ilusórias se vistas fora da sua evidência, que é a de serem pele de um magma onde se luta também. Neste sentido, neste documento, na nossa metodologia, e apesar do seu aparente papel de diversão, o uso pontuado da imagem fotográfica não é, de todo secundário.