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V. Axiomas processuais

V.3. O papel da teoria geral do processo

A teoria geral do processo traz a idéia de sistemas de conceitos e princípios elevados ao grau máximo de generalização útil, condensados a partir dos diversos ramos do direito processual. Ela examina as diversas espécies de processos, jurisdicionais ou não, rejeita a desagregação metodológica e propõe uma necessária visão metodológica unitária do direito processual, com idéias comuns tidas como princípios formativos do processo.237 J. E. Carreira Alvim faz coro ao afirmar que “a tendência que se manifesta entre os cultores da ciência do processo é pela unificação doutrinária do direito processual, com estudos dedicados a institutos comuns”.238

Essas linhas gerais do processo trazem um “sistema de institutos, princípios e normas estruturados para o exercício do poder segundo determinados objetivos”.239 E nessa construção, Dinamarco ampara-se na idéia de Fazzalari para destacar os “princípios comuns aos processos contemplados no nosso ordenamento, desde aqueles que realizam atividades fundamentais do Estado (jurisdição sobretudo, mas não só, sendo o processo empregado também para o cumprimento de outras tarefas: legislação, administração, jurisdição voluntária)”.240

Esses princípios foram expostos com especial atenção pela doutrina brasileira por Cintra, Grinover e Dinamarco em obra clássica sobre a teoria geral do processo,241 que preza pela síntese e didática dos principais tópicos de interesse para o processualista. Com ênfase na premissa processual constitucional, destaca o movimento internacional pela efetividade do processo, pelo oferecimento à população de canais eficientes para o acesso à justiça e pela formação de um diálogo produtivo ao longo da instrução de toda a causa. Examina o processo constitucional conforme exposto acima, a ciência processual como autônoma e pertencente ao ramo de direito público. É pertinente extrair da obra as idéias de que a despeito da função jurisdicional ser reconhecida como

de que „o núcleo de todas as teorias clássicas do procedimento é a relação com a verdade ou com a verdadeira justiça como objetivo‟” (idem, p. 67).

237 Dinamarco, A instrumentalidade do processo, p. 22. 238 Carreira Alvim, Teoria geral do processo, p. 49. 239

Dinamarco, A instrumentalidade do processo, p. 69.

240 Dinamarco, A instrumentalidade do processo, p. 70. Para a concepção evolutiva do processo

administrativo no Brasil, cfr. Sundfeld, “Introdução ao processo administrativo – processo e procedimento administrativo no Brasil”, pp. 20-24.

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89 pacificadora em sua essência, reconhece a falha do Estado na missão em razão (fruto do conflito segurança-garantias x celeridade) e a importância de novos meios para a solução de conflitos – e será verificado aqui em que medida o processo administrativo se apresenta como solução. Trabalha ainda como o direito processual como complexo de normas e princípios que organizam um método de trabalho, conjugando os princípios processuais constitucionais e outros princípios infraconstitucionais, para a definição de um sistema de imposição de poder destinado à realização dos ditames da ordem social, econômica e jurídica e a dirimir conflitos.

Além dos princípios já examinados no âmbito constitucional (a imparcialidade do juiz, o dever de fundamentar – sistema de persuasão racional, publicidade), é feita referência ao princípio da igualdade (em sua vertente substancial, tratada no âmbito do contraditório e da ampla defesa, com o objetivo de equalizar oportunidades de interação e exposição de razões perante o juiz); o princípio da demanda (pelo qual se atribui à parte a iniciativa de provocar o exercício da função de dizer o direito, também chamado de princípio da inércia; princípios da disponibilidade e indisponibilidade, princípio dispositivo e da livre investigação das provas (de exercício de direitos processuais, que será examinado com especial atenção na disciplina da prova); princípio do impulso oficial (uma vez instaurada e relação processual, cabe ao órgão que a dirige movimentar o procedimento até o esgotamento da função prevista); princípio da oralidade (como instrumento de imediatidade e concentração de atos processuais que favorece a interação, o debate, o consenso e a sujeição das partes à decisão, mas que no Brasil se rende à necessidade de documentação e à inerente desconfiança que assombra o processo); o princípio da lealdade processual (as partes devem pautar suas condutas pela verdade, sem utilizar-se de artifícios, abusos e desvios de conduta com o objetivo de prejudicar outro sujeito processual ou o andamento do próprio processo); princípio da economia e da instrumentalidade das formas (a concepção finalística dos atos processuais e seu necessário equilíbrio com os meios e a atuação do direito com o mínimo emprego de atividades possíveis) e princípio do duplo grau de jurisdição (doble conformidad, outorga de maior segurança às decisões e controle dos atos estatais, à luz da falibilidade humana).242

242 Cintra-Grinover-Dinamarco, Teoria Geral do Processo, esp. cap. 4. O direito italiano não distoa,

recorrendo aos mesmos preceitos, com denominações específicas: instrumentalidade das formas, da livre valoração das provas, da oralidade, da concentração e da imediatidade (que a despeito de não serem

90 Concebido o processo como ramo do direito público e autônomo em relação ao direito material, o exame dos princípios torna-se dado de extrema relevância na definição do ponto de partida de todo e qualquer processo destinado à solução de conflitos, na condensação metodológica do ramo do direito e na percepção da síntese evolutiva histórica e comparativa. Fixam-se as balizas para o questionamento e desenvolvimento de um módulo específico do direito processual – o que se pretende fazer em relação ao processo administrativo de apuração de conduta. Isso porque a partir da concepção constitucional do processo, iluminada ainda por uma sólida teoria geral, o processo administrativo inegavelmente se insere no modelo amplo proposto, como instrumento de exercício do poder da administração: verificam-se claramente os limites ao exercício de poder, o respeito à legalidade, formas institucionalizadas, a participação efetiva dos interessados em bases substancialmente isonômicas e direito de influir e dialogar com o órgão judicante. Por essa razão, “tais e tantos pontos comuns, entre os muitos que marcam a analogia com o processo jurisdicional, impõem que se inclua o direito processual administrativo na teoria geral do processo (modalidade „processo estatal não- jurisdicional‟)”.243

No direito administrativo, os princípios processuais são tidos como a legalidade objetiva, oficialidade (iniciativa e movimentação do processo), verdade material (busca por provas sem limitações às considerações dos administrados), pluralidade de instância (com revisão autônoma dos atos ou por provocação), informalismo (dispensa de formas solenes quando a lei determinar), garantia de defesa (audiência do interessado), representação e acessoramento, acessibilidade aos elementos do expediente, ampla instrução probatória, finalidade, motivação, razoabilidade, proporcionalidade, segurança

constitucionais, são corolário de uma justiça rápida e não formalística), da disponibilidade da prova (sem parâmetro constitucional), da economia processual, da conservação dos atos processuais e do duplo grau de jurisdição (Mandrioli, Diritto processuale civile, vol. I, p. 88 e ss.). Conforme Gian Luigi Tosato, no âmbito da Comunidade Européia são reconhecidos princípios de ordem processual, “come il rispetto del contraddittorio, dei dirtti di difesa, della riservatezza della corripondenza tra cliente ed avvocato, il dirtto ad una tutela giurisdizionale effettiva, a non testimoniare contro se stessi (principio di non autoincriminazione), all‟inviolabilità del domicilio privato, il diritto di accedere ai documenti delle istituzioni comunitarie. Alcuni di questi principi sono stati considerati dalla Corte alla stregua di veri e propri diritti fondamentali”. Trata-se de uma concepção que se assemelha à brasileira (direitos processuais vinculados ao devido processo legal como verdadeiros direitos fundamentais), acrescidos por princípios do sigilo da correspondência entre cliente e advogado, a inviolabilidade do domicílio e a não auto-incriminação. São axiomas pertientes a um histórico particular em relação ao brasileiro, que sobrelevam, de qualquer forma, direitos fundamentais de defesa (“Le fonti”, p. 12).

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91 jurídica, lealdade e boa-fé, e interesse público,244 que em sua essência não distoam dos princípios processuais acima expostos, com as ressalvas que serão feitas ao longo deste trabalho.

Conjuntamente aplicados, os princípios delimitam a construção de um processo administrativo que contribui de maneira efetiva para a consecução de um processo administrativo legítimo e bem estruturado.