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O PAPEL DAS ENTIDADES E DOS PROFISSIONAIS

Após termos percorrido um caminho ao encontro da intervenção mais ajustada ao nível da protecção e da promoção das crianças em perigo, sentimos, agora, a necessidade de compreender que tipo de responsabilidades e qual o papel que os vários intervenientes com competência em matéria de infância e juventude podem assumir. É certo que esta análise que procuraremos realizar não estará de todo completa, porque muitos são os intervenientes que se afiguram e consequentemente, inúmeras funções e responsabilidades. Tentaremos, no entanto, fazer uma abordagem que nos permita perceber que todos somos chamados a intervir e que todos precisamos de estar preparados para agir. Mais do que tudo é crucial que percebamos que as consequências que os maus-tratos podem provocar no funcionamento do ser humano torna-nos a todos, como sociedade, responsáveis por proteger os direitos das crianças e garantirmos os cuidados que merecem (Moreira, 2007). Deste modo, numa primeira fase iremos debruçar-nos sobre as várias entidades responsáveis, desde as que se encontram na primeira instância de intervenção até ao tribunal. Posteriormente, das entidades passaremos para uma sucinta caracterização das funções que os profissionais podem desenvolver no âmbito dos maus-tratos.

9.1 Entidades De Primeira Instância Com Competência

Em Matéria De Infância E Juventude

De acordo com a Lei de Protecção e Promoção, e respeitando o princípio da subsidiariedade, as entidades com competência em matéria de infância e juventude estão situadas numa primeira linha de intervenção. A sua actuação carece de autorização dos pais, dos representantes legais ou de quem tenha a guarda de facto da criança, com excepção das situações de urgência. Estas entidades são frequentadas pelas crianças ao longo do seu percurso normal de desenvolvimento, sendo sua competência intervir nas situações de perigo, com concordância da família. Esta actuação tem como objectivo prevenir que situações de risco se transformem num perigo para vida da criança.

Nestas entidades, onde são fornecidas respostas sociais e educativas às crianças e aos jovens, existem, normalmente, recursos humanos especializados no trabalho da área social, da psicologia e da educação que apresentam competências para avaliar o contexto familiar em que se encontra o menor. Caso seja detectada uma situação de perigo, o profissional

pode tentar articular uma intervenção junto da criança e da sua família, para controlar ou remover o perigo. Estas situações de perigo podem não ser observadas pelo profissional da instituição, mas serem-lhe confidenciadas por outros e podem, igualmente ser alvo de uma intervenção. Deste modo, havendo recursos, quer humanos quer materiais, a entidade pode actuar nestas situações de perigo ou participar à CPCJP ou ao tribunal, seja por falta de recursos para remover atempadamente o perigo a que está sujeita a criança ou por oposição da família ou do menor à intervenção (Goldman, Salus, Wolcott e Kennedy, 2003; Magalhães, 2005; Neto, 2006). Esta participação, principalmente em situações de máxima urgência, pode ser feita aos serviços telefónicos dirigidos às crianças em situação de perigo:

Linha Nacional de Emergência (144)94;

Linha de Emergência Criança Maltratada95

; Linha S.O.S96

(Magalhães, 2005).

Algumas das entidades que actuam nesta primeira área de intervenção apresentam uma responsabilidade acrescida, em parte pela natureza do serviço que prestam, pela proximidade que dispõem junto das crianças ou simplesmente porque reúnem as condições mais adequadas para intervir com eficácia na promoção e protecção do menor em perigo. Destas entidades podemos referir as autarquias, o Instituto de Solidariedade e Segurança Social (através das respectivos centros distritais de solidariedade e segurança social [CDSSS] e respectivas delegações locais), as Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS), o Instituto de Apoio à Criança, SOS Criança, as Escolas, os Hospitais, o Centro de Estudos Judiciários e Entidades Policiais (Ramião, 2006 e Alberto, 2006).

9.1.1 Serviços De Saúde

Neste contexto de perigo, as crianças e os jovens são alvo de acções violentas que comprometem física e mentalmente a sua saúde. Sendo assim, é crescente o número de menores vítimas de violência que recorrem aos serviços de saúde para serem tratados, muitos deles chegam já sem vida e outros regressam a casa sem saber se vivem muito mais

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Serviço de intervenção nacional e está à responsabilidade durante 24 horas por dia das equipas dos Instituto de Solidariedade e Segurança Social.

95 Serviço que cobre todo o país e foi desenvolvido no âmbito do Projecto de Apoio à Família e à

Criança, programa integrado no Instituto para o Desenvolvimento Social e intervém na promoção e protecção das crianças e jovens vitimas de maus-tratos.

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Serviço da responsabilidade do Instituto de Apoio à Criança e que tem como uma das tarefas desencadear o processo de protecção de crianças e jovens.

tempo. Neste sentido, os serviços de saúde assumem um papel primordial na detecção e sinalização de situações de perigo. Assim, e de acordo com a Recomendação do Conselho de Ministros n.º30/92 de 23 de Julho foram criados os Projectos de Apoio à Criança e à Família nos Hospitais e nos Centros de Saúde para apoio à criança maltratada97. Paralelamente, para assegurar um bom atendimento hospitalar à criança foi criada uma Carta da Criança Hospitalizada, tanto a nível nacional (Lei 21/81 de 19 de Agosto) como a nível europeu, a Carta Europeia da Criança Hospitalizada, aprovada em Leiden em 1988. Nesta Carta é exigido o respeito pelos direitos fundamentais de um ser que está em desenvolvimento, isto é, o direito à intimidade, a condições de internamento específicas, ao ser acompanhado pelos seus pais, o direito à informação sobre a sua situação e à participação nas tomadas de decisão sobre a sua própria pessoa (Almeida, 2004; Neto, 2006).

Em contexto hospitalar ou no centro de saúde reúnem-se boas condições para actuar face às situações de maus-tratos, dado ser possível estabelecer um modelo de intervenção de colaboração interdisciplinar e com os parceiros mais ajustados. Neste contexto, mais facilmente se estabelece uma coordenação adequada entre os vários elementos de uma equipa, como por exemplo entre o pediatra e o médico-legista ou o pediatra e o assistente social. Por outro lado, no serviço de saúde encontram-se mais facilmente profissionais sensibilizados para esta problemática e com recursos físicos adequados para a identificação das situações maltratantes e necessidades da criança. Os profissionais de saúde, especialmente os pediatras, têm um papel primordial na prevenção e detecção destas situações pois participam activamente no acompanhamento da vida dos seus pacientes e podem contribuir para a harmonia familiar, sendo muitas vezes referência de apoio e confiança. A formação destes profissionais possibilita o desenvolvimento de uma prática profissional cuidadosa e solidária com as famílias acompanhadas, transmitindo-lhes segurança e confiança para confidenciar os seus problemas familiares (Ferreira, Neto, Silvany, Souza e colaboradores, 2001).

97 Exemplo desta RCM é o Núcleo de Estudo da Criança Maltratada do Hospital Pediátrico de

Coimbra criado em 1985 que tem acompanhado inúmeras crianças vítimas de maus-tratos. Deste modo, quando existe uma suspeita dum diagnóstico de maus-tratos numa criança ou num jovem em qualquer sector do hospital, cabe ao Núcleo o estudo, a orientação e o devido acompanhamento do caso (Canha, 2003).