• Nenhum resultado encontrado

O Passado E O Presente Da Criança Em Risco

6 O CONCEITO DA CRIANÇA/JOVEM EM RISCO

6.1 O Passado E O Presente Da Criança Em Risco

A criança em risco, ou por outras palavras, a criança maltratada é um conceito bastante recente dado ter sido apenas no século XIX que surgiu a primeira publicação médica sobre o tema. Como já fizemos referência no capítulo sobre os Direitos da Criança e do Jovem, a história da criança passou ao longo dos tempos por várias transformações. Na antiguidade, as crianças não usufruíam de qualquer protecção, sendo alvo de infanticídio, abandono, prostituição, mendicidade, não existindo qualquer consciência que a infância era uma fase de vida com particularidades próprias. De facto a história está repleta de actos bárbaros contra crianças, onde o castigo corporal era visto como necessário e indispensável para educar.

No entanto, mesmo tendo existido atitudes menos correctas com a criança, desde sempre existiram alguns defensores da infância, como foi o caso de Platão, no século IV a.C. que, mesmo tendo sido apologista do abandono dos inválidos e dos deficientes, alertou para o facto do castigo ser pouco favorável na educação (Kempe e Kempe, 1978; Radbill, 1987 citados por Canha, 2003). Outro pioneiro notável na defesa da criança foi Jean Jacques

47 O termo factor de risco diz respeito a toda e qualquer situação, característica da criança que

aumenta a probabilidade de surgir um problema ou um comportamento indesejável (Fonseca, 2004). Este conceito será oportunamente objecto de desenvolvimento.

48 Este grupo será o que tem menos sujeitos, mas que por outro lado apresenta pior prognóstico e

que provocará um maior número de problemas na sociedade. Assim, fará todo o sentido que qualquer intervenção, seja médica, educativa, social e económica, tenha como prioridade este grupo de elevado risco.

Rousseau, reconhecendo na criança autonomia e direitos próprios. Segundo este autor a criança era um ser com capacidades múltiplas e digno de respeito. Para este defensor vivido no século XVIII as crianças só deixavam de ser inocentes quando eram corrompidas pela sociedade, incentivando o término do castigo corporal. Acrescenta ainda que as crianças têm valor próprio, sendo necessário identificar as suas necessidades (Magalhães, 2005; Azevedo e Maia, 2006). Ainda no século XVIII começa a surgir alguma preocupação com o crescente número de infanticídios praticados pelos próprios pais, o que levou à criação da “Roda”. Por toda a Europa foram criadas plataformas giratórias nas misericórdias ou conventos, com o intuito das crianças aí serem colocadas para serem recolhidas e educadas, evitando deste modo a sua morte. Contudo, e ainda assim, muitas destas crianças abandonadas acabavam por falecer (Canha, 2003; Magalhães, 2005; Azevedo e Maia, 2006). Foi já no século XIX que o interesse da sociedade pela protecção infantil floresceu de facto, com o surgimento da convicção da necessidade de se criarem melhores condições de vida à criança, na sequência das profundas alterações sociais que se faziam na época. Contudo, foi também nesta altura, a par da Revolução Industrial, que apareceram outras formas de maltratar a criança, através da sua exploração pelo trabalho infantil. Deste modo, as crianças oriundas de meios desfavorecidos eram obrigadas a trabalhar em condições desumanas, isto é, com horários de trabalho demasiado prolongados e mal nutridas (Canha, 2003; Magalhães, 2005).

Assim, é em 1860 que Ambroise Tardieu (Professor de Medicina Legal de Paris) publica o primeiro artigo sobre a síndrome da criança maltratada, onde descreve o problema dos maus-tratos49 (Tardieu, 1860; Gallardo, 1994). Neste artigo foram relatadas trinta e duas autópsias realizadas em crianças com menos de cinco anos de idade e que tinham sido alvo de violência, provavelmente praticada pelos seus pais. Ainda neste documento foram descritas as lesões cutâneas, ósseas e cerebrais, as possíveis causas, alguns elementos fisiopatológicos, bem como a pouca coerência entre o relato dos pais sobre as causas de morte e as lesões encontradas (Canha, 2003; Azevedo e Maia, 2006). Contudo, e apesar de Tardieu ter sido uma referência de excelência na comunidade cientifica, dado ter conseguido descrever a síndrome que só cem anos mais tarde seria conhecida por síndrome de criança batida (Canha, 2003), as suas descobertas na época tiveram pouco impacto

49 Já no século X foi elaborada uma documentação médica que retrata uma situação de maus-tratos

infantis. Nesta monografia são referidas fracturas de “crianças choronas” onde é afirmado, pela primeira vez, que a sua origem poderia ser dolosa (Terreros, 1997 citado por Magalhães, 2005).

(Marcelli, 1998). Conseguiu, no entanto, despertar a sociedade francesa para a problemática descrita, sendo que foi possível mais tarde promulgar-se uma lei de protecção das crianças maltratadas (Magalhães, 2005).

Em 1874, o caso de Mary Ellen torna-se no primeiro reconhecimento oficial de violência infantil. Tratava-se de uma criança de nove anos, de Nova York, filha ilegítima, que era enclausurada em casa, espancada e mal nutrida. O seu apoio veio de uma trabalhadora que recorreu à Sociedade Americana para Prevenção da Crueldade com os Animais, alegando no processo judicial que a criança também fazia parte do reino animal. Deste modo, em Setembro do mesmo ano, é ganho oficialmente o primeiro processo nesta matéria. Estava deste modo reconhecido o mau trato infantil (Almeida, 2001; Martins, 2002; Canha, 2003; Magalhães, 2005). Este acontecimento apresentou-se como um marco histórico na história da criança, no que diz respeito à sua protecção.

Paulatinamente, despertava-se para uma maior consciência sobre o tema dos maus-tratos à criança, sendo a Declaração dos Direitos da Criança em 1924 a oficialização desta preocupação social e o estabelecimento de um compromisso, inicialmente pouco respeitado, da sociedade em defender os direitos da criança. É com John Caffey em 1946, radiologista pediátrico, que o abuso físico passa a ser encarado com uma entidade médica. Durante este período, este autor descreveu uma série de crianças com facturas múltiplas dos ossos longos acompanhadas de hematomas subdurais, alegando que tinham uma etiologia traumática. Chega mesmo a referir “traumatismo de origem desconhecida”; foi porém foi ignorado pela comunidade científica (Bergman e Feldman, 2002).

No início da década de 60, os maus-tratos infantis começam a tornar-se num problema social com maior relevância, em parte influenciado pelos estudos de Caffey e pela tomada de consciência dos profissionais de saúde das atrocidades praticadas por alguns pais contra os seus filhos. Trata-se dum período bastante produtivo no que diz respeito a publicações e discussões sobre esta problemática. Em 1961 Henry Kempe, pediatra norte-americano, juntamente com outros médicos, após estudos realizados, começam a utilizar a expressão

battered child (criança batida). No ano seguinte, em 1962, Kempe e os seus colaboradores,

publicam um artigo sobre crianças vítimas de agressões físicas, classificando-o como “The

battered child syndrome” (Kempe, Silvermen, Steele, Drogemueller, Silver, 1962). Segundo

Canha (2003), este artigo passa a ser um documento de referência sobre a criança maltratada, dado expressar um vasto conhecimento sobre a problemática. Aqui são

descritos os factores de risco, a fisiopatologia, as manifestações clínicas, os diversos tipos de maus-tratos, as manifestações radiológicas, os sinais que permitem concluir o diagnóstico, os riscos de recorrência e de morte. Este estudo publicado permitiu que emergisse uma visão mais global do problema que se traduziu na necessidade de existir uma equipa multidisciplinar que pudesse dar uma resposta adequada à criança e de promover o afastamento temporário dos pais.

Após a apresentação dos trabalhos de Kempe e colaboradores, foi possível constatar uma evolução significativa ao nível da investigação e produção científica no domínio dos maus- tratos infantis. A própria sociedade tornou-se mais sensível relativamente a esta problemática. Nomeadamente, nos Estados Unidos da América surgiram propostas legislativas que obrigavam à denúncia de qualquer suspeita (Magalhães, 2005).

O conceito de battered child, à medida que surgiam novos estudos, começou a ter necessidade de se tornar mais amplo, e surge, assim, com Fontana, em 1963, o termo “criança maltratada”. Este novo conceito, para além de incluir a violência física, abrange também aquela criança que apresenta manifestações de privação emocional, afectiva e nutritiva, de negligência ou de agressão (Gallardo, 1994). Neste conceito mais alargado passam a ser incluídos outros tipos de maus-tratos, em que a criança batida se revela como o problema major e a negligência o menor (Canha, 2003). Mais tarde, a partir de 1965, dá- se uma nova mudança, começando a aparecer na literatura específica a designação de child

abuse (abuso de crianças) que abrange um maior leque de maus-tratos, nomeadamente, o de

abuso sexual (Magalhães, 2005). Em 1969, D. Gil define os maus-tratos como “[…]

qualquer acto deliberado, por omissão ou negligência, originado por pessoas, instituições ou sociedades, que prive a criança dos seus direitos e liberdades ou que interfira” (citado por Canha, 2003, pp. 26), isto

é, prova que os maus-tratos infantis não ocorrem só em ambiente familiar, mas também no seio da própria sociedade.

Progressivamente, foram-se criando inúmeros documentos legais que tinham como objectivo proteger a vulnerabilidade da criança, onde se destacam, especialmente, as suas necessidades básicas e a responsabilidade da família em relação à sua protecção. Assim, como já referimos anteriormente alguns instrumentos legais foram essenciais para uma maior eficácia na protecção da infância, nomeadamente a Declaração dos Direitos da Criança (1959) e a Convenção dos Direitos da Criança (1989). Paralelamente, no sentido de se identificarem e orientarem as crianças em risco, foram criados grupos multidisciplinares

em alguns hospitais, bem como algumas instituições que zelassem pela protecção dos menores.

Em Portugal, esta problemática começou a ser discutida em 1911, mas foi sobretudo durante a década de oitenta que o tema passou a receber mais atenção. Inicialmente, começou por ser um objecto de preocupação da comunidade pediátrica, onde se destaca o trabalho de interligação entre a Secção de Pediatria Social da Sociedade Portuguesa de Pediatria, o Centro de Estudos Judiciários (CEJ) de Lisboa e algumas instituições e associações de solidariedade social, públicas ou privadas (Canha, 2003). Assim, em 1986 é apresentado o primeiro grande estudo epidemiológico português, cujas estimativas apontavam para existência de 30000 novos casos de maus-tratos por ano (Amaro, 1986). Ainda na década de oitenta foram criados os primeiros núcleos de estudo e apoio à criança maltratada com sede no Hospital Pediátrico de Coimbra e no Hospital de Santa Maria em Lisboa (Canha, 2003). Quanto à legislação portuguesa, foi acompanhando os desenvolvimentos científicos e culturais, destacando-se a criação das Comissões de Protecção de Menores em 1991 e da Lei de Protecção de Crianças e Jovens em Perigo em 1999.

Em suma, a forma de olhar a criança maltratada e a intervenção disponibilizada à mesma foi acompanhada pelo ritmo da evolução científica e social, permitindo a criação de melhores condições que favorecessem o crescimento e desenvolvimento. Assim, numa fase inicial eram identificadas atitudes e tratamentos pouco adequados, onde a violência era a estratégia mais evidente, para, lentamente, serem adoptadas outras mais subtis, mas que colocavam do mesmo modo a dignidade da criança e do jovem em causa. Assiste-se, assim, a um aperfeiçoamento do acto de maltratar, tornando mais difícil a sua identificação e tratamento (Canha, 2003). Ora se na história da criança encontramos o infanticídio como o acto mais grave de maltratar a criança, seguiram-se e associaram-se outros tipos de maus- tratos que iremos tentar analisar e caracterizar na próxima secção: negligência, maus-tratos físicos e psicológicos, abuso sexual, síndrome de Munchausen, abandono e exploração infantil.