3 A METAPSICOLOGIA: UM ESFORÇO PARA A COMPREENSÃO FREUDIANA DO
5.3 O significado real do conhecimento humano é ser um produto da Vontade
5.3.1 O papel do eu no conhecimento do sujeito de vontade
O que é o eu para Schopenhauer? O eu é visto de diferentes modos, em sua filosofia.
Primeiramente, a partir do exame do mundo como representação, o eu é o sujeito do conhecimento e da experiência; a partir da perspectiva da Vontade, o eu é um sujeito de vontade, uma manifestação corporal da Vontade de vida ou, ainda, um puro espelho da realidade intemporal, de acordo com a análise de Janaway. Qual dessas concepções predomina? E qual é a importância da dicotomia entre sujeito e objeto aí?
No livro I de O mundo, como examinamos, Schopenhauer define o sujeito como aquele que conhece, e o objeto como aquilo que é conhecido. Como sabemos, o sujeito conhece as coisas materiais e seus pensamentos como representações, então, o sujeito de conhecimento, ou o eu propriamente dito, pensa e percebe, contrapondo-se ao que é pensado e percebido. Só que esse sujeito de representação não faz parte do mundo dos objetos; ele não é uma coisa, posto que está fora do tempo e o do espaço e não interage causalmente com os objetos. Conforme ressalta Janaway, nosso filósofo faz uso de algumas metáforas para nos ajudar a entender esse sujeito. A principal delas é equiparar o sujeito de representação com o olho que tudo vê, mas que não pode ver a si mesmo. Neste sentido, e como observamos ao lado de Janaway no início deste capítulo, podemos aproximar sua concepção de sujeito da visão kantiana e, ainda, dos Upanixades.322
Outro aspecto a ser salientado a partir das observações de Janaway é a posição ambivalente que, segundo seu ponto de vista, Schopenhauer adota com relação a esse sujeito de representação: de um lado, nosso filósofo sustenta que todos nós descobrimos ser esse sujeito, já que somos conscientes não somente do que percebemos e pensamos, mas também do fato de sermos nós quem pensamos e percebemos. Entretanto, paralelamente, somos um indivíduo e cada um de nós está associado, por meio de nosso corpo, a uma parte do mundo material como sujeitos de ação e de vontade:
Parecemos ser a um só tempo dois tipos de sujeito: sujeito de vontade, que é essencialmente corporificado, e sujeito de conhecimento, que conhece todas as coisas objetivamente, incluindo seu próprio corpo e seus próprios atos de vontade, e
322 Cf. JANAWAY. Schopenhauer, p. 67. Upanixades fazem parte das escrituras do Hinduísmo. Tidas como instruções religiosas, representam o ato de se sentar no chão, próximo ao mestre, para, assim, receber instruções.
A primeira tradução desses escritos, do idioma persa para o latim, se deu no início do século XIX.
que paira totalmente fora do mundo de coisas individuais. Nossa concepção de nós mesmos talvez deva ser cindida. Mas pensamos o „eu‟ que pensa e percebe e o „eu‟
que age como um único. Schopenhauer considera isso um “milagre par excellence”.
323
Não temos como discordar de tais colocações de Janaway que, aliás, estão na mesma direção de nossa análise da filosofia de Schopenhauer, ou seja, as relações que o sujeito tem com a vontade, por meio de seu corpo, são difíceis de explicar objetivamente, requerem, pois, uma teoria metafísica.
Tampouco podemos deixar de pensar, ainda ao lado de Janaway, que não há uma recusa, por parte de Schopenhauer, de sua própria concepção do puro sujeito (de conhecimento) que não é um objeto, já que ele mesmo aceita que tal acepção nos proporciona um modo incompleto de refletirmos sobre nós mesmos. É inexplicável que „eu‟ possa se referir tanto ao puro sujeito como ao corpo material, ou corpo encarnado pela Vontade. Aliás, nosso filósofo invoca o termo „milagre‟ para tentar contornar o problema, que persiste e nos deixa embaraçados. Ora, nenhum de nós é apenas um objeto do mundo; precisamos, pois, oferecer alguma exposição de que somos diferentes do resto dos objetos do mundo. Afinal, Schopenhauer não é um dualista e já vimos como ele rejeita o conceito de alma como um componente da realidade.
Por um lado, a realidade é material; o eu é, em parte, uma coisa material que está no mundo, mas, por outro, conforme ressalta Janaway, este não é o final da história. De fato, pode ser verdade que „eu‟, de alguma maneira, „me descubra como sujeito‟, independentemente do modo como explicamos isso. Talvez esse problema, ou a tentativa de conciliarmos os aspectos
„subjetivo‟ e „objetivo‟ de nós mesmos, apesar de ser uma questão fundamental, seja insuperável. Logo, as dificuldades de Schopenhauer para lidar com tais assuntos não estão restritas à sua doutrina metafísica, mas revelam uma questão filosófica mais substancial e de difícil solução.324 Trata-se, pois, de uma tentativa de responder à antiga questão acerca do que é o homem, investigada aqui sob a perspectiva do eu.
Tentando responder à pergunta sobre qual concepção de eu (cognoscente ou volente) prevalece na teoria de Schopenhauer, Janaway defende que tal disputa se torna mais intensa a partir da exposição materialista que ele faz do funcionamento do intelecto como sendo uma função cerebral e, também, pela doutrina da identidade do corpo com a vontade. Para apoiar o
323 JANAWAY. Schopenhauer, p. 68.
324 Cf. JANAWAY. Schopenhauer, p. 68-69.
primeiro aspecto desse seu ponto de vista, Janaway cita um trecho do início do parágrafo vinte do segundo tomo de O mundo, no qual Schopenhauer se refere às formas de objetidade da Vontade no organismo animal:
Aquilo que na consciência de si, e portanto subjetivamente, é o intelecto, apresenta-se na consciência de outras coisas, e portanto objetivamente, como o cérebro; e aquilo que na consciência de si, e portanto subjetivamente, é a vontade, apresenta-se na consciência de outras coisas, e portanto objetivamente, como todo o organismo. 325
Já comentamos, em parte, tal aspecto no início do capítulo anterior, e, num primeiro momento, poderíamos até concordar com Janaway em sua tese de que a abordagem de Schopenhauer acerca do intelecto é um exemplo que sustenta certa concepção materialista por parte do filósofo, não fossem as afirmações em contrário do próprio Schopenhauer, que antecedem a citação acima: “Agora, depois de encontrar na autoconsciência [ou consciência de si] a vontade como seu objeto real ou substância, devemos, com o mesmo propósito, levar em consideração a consciência das outras coisas como conhecimento objetivo”.326
Devemos, então, perceber que tudo no mundo é Vontade. Schopenhauer defende a prevalência da Vontade diante do intelecto. Ela (Vontade) é o fundamento, a essência. É justamente isso que o distancia do materialismo. Em outro momento, nosso autor clareia ainda mais a questão, afirmando que:
O intelecto e a matéria são correlativos, em outras palavras, um existe apenas para o outro; ambos são e perecem juntos; um é apenas o reflexo do outro. Eles [intelecto e matéria] são, de fato, realmente uma e a mesma coisa, considerada a partir de dois pontos de vista opostos; e esta coisa é o fenômeno da vontade ou da coisa em si.
Consequentemente, ambos são secundários e, além disso, a origem do mundo não é para ser buscada em nenhum deles. [...] Ambos juntos constituem o mundo como representação, o que é precisamente o phenomenon kantiano, e consequentemente algo secundário. Primário é o que aparece, que aprenderemos posteriormente a reconhecer como a vontade. 327
Voltaremos ao exame deste aspecto um pouco adiante.
Com relação às implicações que a doutrina da identidade do corpo com a vontade tem sobre o eu, Janaway recorre a um fragmento do parágrafo vinte e dois do segundo tomo de O mundo,
325SCHOPENHAUER. Objectification of the Will in the Animal Organism, § 20, p. 245 (tradução nossa). In:
________ The World as Will and Representation. Volume II.
326SCHOPENHAUER. Objectification of the Will in the Animal Organism, § 20, p. 245 (tradução nossa).
327SCHOPENHAUER. On the Fundamental View of Idealism, § 1, p. 15-16 (tradução nossa). Grifos do autor.
In: ________. The World as Will and Representation. Volume II.
intitulado “Visão objetiva do intelecto”, para sustentar suas ideias. Àquela ocasião, Schopenhauer afirma que:
Esse foco da atividade cerebral (ou o sujeito do conhecimento) é, de fato, como um ponto indivisível, simples, mas não é, nesse modo de ver as coisas, uma substância (alma), mas uma mera condição ou estado. Isto do qual ele mesmo [sujeito/eu] é um estado ou a condição pode ser conhecido por ele só indiretamente, como reflexão que foi. Mas a cessação do estado ou condição não pode ser considerada como a aniquilação daquela [Vontade] da qual ele [sujeito/eu] é um estado ou a condição.
Esse ego cognoscente e consciente se vincula com a vontade, que é a base de sua aparência fenomênica, da mesma maneira como a imagem no foco do espelho côncavo se vincula com esse mesmo espelho; e, tal como essa imagem, tem apenas uma realidade condicionada, e na verdade, propriamente falando, uma realidade aparente. 328
Logo, e ao lado de Janaway, podemos perceber claramente os dois lados da questão, ou, melhor dizendo, as „duas faces‟ do nosso eu e as consequências disso para o modo como temos acesso ao mundo como representação e como vontade: do ponto de vista objetivo, ou seja, a partir do relato de nós mesmos como coisas que habitam o mundo empírico, somos fenômenos ou representações – meras aparências – e, na perspectiva subjetiva, de maneira imediata, ao olharmos para dentro de nós, vemos a nós mesmos como Vontade.329
Finalizando seus comentários a respeito das condições nas quais Schopenhauer pensa o eu, Janaway sustenta que mesmo a combinação dos aspectos „subjetivo‟ e „objetivo‟ de nós mesmos não encerra a questão. De fato, o cérebro e o organismo não são apenas partes de uma realidade material inerte. Ambos são, essencialmente, expressão da Vontade cega na natureza. A Vontade é primária, como as palavras do próprio Schopenhauer ressaltam, e ela (Vontade) suplanta a divisão entre sujeito e objeto, pois o sujeito que representa e o objeto que é representado são, em certo sentido, ilusões, já que, no mundo em si, não há essa divisão.
Mesmo que eu desaparecesse e, com isso, todo o mundo empírico a minha volta, a Vontade permaneceria, buscando seu objetivo e gerando novas formas de vida. Assim, o ponto mais fundamental acerca do eu na teoria metafísica de Schopenhauer, segundo Janaway, “é que essa mesma vontade é exatamente aquilo que agora impele para uma meta no interior do organismo corporificado que produziu a mim, o sujeito”.330 Há, pois, uma meta, um objetivo
328 SCHOPENHAUER. Objective View of the Intellect, § 22, p. 278 (tradução nossa). Grifos do autor. In:
________. The World as Will and Representation. Volume II.
329 Cf. JANAWAY. Schopenhauer, p. 70.
330 JANAWAY. Schopenhauer, p. 71. Grifos nossos.
interno ao eu, que se atualiza por meio de seu corpo. Ora, a “meta” da Vontade, por excelência, é se manifestar e, neste sentido, nada melhor que o corpo.
Oportunamente, retomaremos tais aspectos relativos ao eu em Schopenhauer, comparando-os com o modo como Freud pensa o mesmo tema. Chama-nos a atenção, inicialmente, o fato de o filósofo se referir ao corpo como uma “imagem especular”, que tem uma realidade apenas aparente. Na metapsicologia, tal como vimos no capítulo dois, o eu também é definido a partir de suas relações imagéticas e relativas à extensão. Talvez possamos afirmar, a partir de tais observações, existir outro ponto de confluência entre a filosofia de Schopenhauer e a psicanálise freudiana, com consequências antropológicas e éticas.