1 INTRODUÇÃO
2.2 A passagem da neurologia à metapsicologia
2.2.1 Projeto para uma psicologia científica (1895)
Segundo afirma o psicanalista Luiz Alfredo Garcia-Roza,61 o objetivo de Freud ao escrever o Projeto, trabalho que ele jamais publicou, era elaborar uma teoria acerca do funcionamento mental de acordo com uma abordagem quantitativa, além de transpor algumas conclusões psicopatológicas para a esfera da psicologia do indivíduo normal.62 Não temos como discordar de tal avaliação, que é, aliás, a proposição inicial do texto feita pelo próprio Freud.
59 Cf. ASSOUN. Introdução à epistemologia freudiana, p. 95-96.
60 Cf. ASSOUN. Introdução à epistemologia freudiana, p. 101-102.
61 Cf. GARCIA-ROZA. Freud e o inconsciente. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1984.
62 Cf. GARCIA-ROZA. Freud e o inconsciente. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1984, capítulos II e III.
Desta forma, conforme assinala Jones, há uma continuidade quase irrecusável entre a formação de Freud e a construção deste texto. Em 1894, apenas um ano antes de Freud redigir o Projeto, Sigmund Exner – o fisiologista que substitui Brücke no laboratório de fisiologia e que também foi professor de Freud – publica um trabalho que deve ter sido a influência mais imediata que Freud sofreu no período que antecedeu a escrita do Projeto. Assim como acontece com Herbart, ao qual fizemos menção no início deste capítulo, o texto de Exner está repleto de pontos em comum com o texto freudiano do Projeto. Trata-se, em ambos os escritos, de uma concepção quantitativa do funcionamento psíquico, recorrendo a expressões e conceitos como “soma de excitação”, “função de inibição” e a afirmação do princípio de prazer-desprazer como sendo o princípio regulador da mente. Assim, o Projeto deve ser considerado uma obra típica da investigação científica alemã e austríaca de sua época, embora já contenha muitas antecipações da posterior teoria psicanalítica.63
Sinteticamente, dizemos que o Projeto é formado por três partes que compõem (I) um esquema geral do funcionamento do psiquismo, (II) uma psicopatologia e (III) uma tentativa de representar os processos psicológicos normais. Na parte I, a referência que primeiro chama nossa atenção é, justamente, a que aponta para a pretensão freudiana de fazer da psicanálise uma ciência natural. Assim, conforme as palavras de Freud:
A intenção é prover uma psicologia que seja ciência natural: isto é, representar os processos psíquicos como estados quantitativamente determinados de partículas materiais especificáveis, tornando assim esses processos claros e livres de contradição.64
O que são as partículas materiais especificáveis? Os neurônios. Neurônios estes que são a base do aparelho psíquico e que se diferenciam posteriormente, segundo a passagem e a retenção, ou não, de energia, em três sistemas designados como (phi), (psi) e (ômega).
Curiosamente, “os neurônios” aos quais Freud se refere não são, propriamente falando, os da histologia, já que a neurologia e a anatomia que Freud institui a partir de então são fantasmáticas, mas, ao mesmo tempo, os neurônios não deixam de estar referenciados à materialidade corporal, mesmo que o corpo esteja subvertido.
63 Cf. JONES. Vida e obra de S. Freud. Vol. I. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1989.
64 FREUD. Projeto para uma psicologia científica, Parte I, p. 347; ______. Proyecto de psicología, Amorrortu editores, volumen 1, p. 339.
De acordo com Freud, existem dois sistemas de neurônios que se diferenciam segundo a passagem de estímulos. Ele qualifica o sistema (phi) como o grupo de neurônios atingidos pelos estímulos externos, enquanto o sistema (psi) contém os neurônios responsáveis pela recepção das excitações endógenas. Após afirmar que, do ponto de vista morfológico, isto é, histopatológico, nada de conhecido até então corrobora esta distinção entre os sistemas neuronais, Freud sustenta que tal divisão deve ser situada no desenvolvimento biológico do sistema nervoso, já que a anatomia nos ensina que existe um sistema de neurônios representados pela massa cinzenta da medula espinhal, que é o único sistema a estar em contato com o mundo externo, e outro sistema superposto, a massa cinzenta do cérebro, que, apesar de não ter ligações periféricas, se relaciona ao sistema nervoso central e às funções psíquicas. Logo, para Freud, o cérebro se enquadra muito bem na caracterização do sistema (psi) se admitimos que ele tem conexões diretas e independentes de (psi) com o interior do corpo. Tais aspectos permitem constatarmos como Freud ainda se encontra imerso no referencial biológico.
Outro ponto que merece nosso destaque é a formulação freudiana de que os estímulos endógenos, recebidos desde o interior do corpo, são aqueles que criam as grandes necessidades para o psiquismo: a fome, a respiração e a sexualidade, além do fato de que deles não podemos fugir.65 Mais uma vez, portanto, vemos Freud tentando dar conta do enigma do corpo. É como se ele se perguntasse: que é isto, o corpo? Em que medida está relacionado ao psíquico? E, novamente, podemos observar um esboço do que, em 1915, Freud postula como um conceito fundamental da metapsicologia, ou seja, a pulsão, entendida como uma força que articula o mental com o somático.
Para o psicanalista Antônio Ribeiro,66 podemos analisar alguns fatores que fizeram com que Freud abandonasse o Projeto, sendo o principal deles o fato de a linguagem neurológica de que Freud dispunha na época não dar conta da experiência clínica com seus pacientes.
Contudo, as ideias que Freud esboça no referido texto não são deixadas de lado, ou seja, o estabelecimento de uma „nova psicologia‟ continua ocupando seu pensamento. O que de fato se modifica é, pois, o modo freudiano de abordar as mesmas questões. Por exemplo, a linguagem médica deixa de ser utilizada e a concepção de um modelo para a psicologia, tendo
65 Cf. FREUD. Projeto para uma psicologia científica, Parte I, p. 348-349; ______. Proyecto de psicología, Amorrortu editores, volumen 1, p. 341.
66 Cf. RIBEIRO. As cartas não mentem jamais (a propósito dos enigmas da carta 52). In: ______ O desejo de Freud. São Paulo: Iluminuras, 1994, p. 137-165.
como base as ciências da natureza, praticamente desaparece. Tudo isto pode ser depreendido, na acepção deste autor, a partir da leitura da “Carta 52”, de 1896, que, por tais aspectos, marca justamente o momento de rompimento de Freud com o discurso médico. A partir daí, vemos Freud falando de outro lugar, mesmo que algumas das fórmulas e dos conceitos, que encontramos no Projeto, permaneçam como objetos de sua investigação.67
2.2.2 “Carta 52” (1896)
Já se tornou um hábito entre os psicanalistas afirmar que esta é uma das mais importantes cartas que constituem a correspondência de Freud com Wilhelm Fliess (1858-1928), médico alemão e amigo que Freud tinha em alta conta. A “Carta 52” foi redigida no dia 6 de dezembro de 1896 e sua importância advém não só do fato de tornar visível o modo de pensar freudiano no momento em que está se orientando para a fundação da psicanálise, mas também porque algumas das ideias nela contidas seriam retomadas e explicitadas em vários textos posteriores, principalmente em A interpretação de sonhos. Além do fato, é claro, de significar o momento de ruptura com o discurso da medicina. De acordo com Ribeiro, a conjunção de todos estes fatores torna esta carta fundamental para nosso entendimento dos artigos metapsicológicos.68
O que diz Freud nessa carta? O fundador da psicanálise relata a Fliess o andamento de suas hipóteses acerca do modo de funcionamento psíquico. Desta maneira, propõe um quadro esquemático, constituído por meio de um processo de estratificação, no qual o material, presente na forma de traços mnêmicos, pode sofrer rearranjos e transcrições, ou mudanças de registros. Freud afirma não saber ao certo quantos registros há, mas são ao menos três, que se encontram separados segundo os neurônios que funcionam como base de retenção e transmissão desses traços.69
O aparelho psíquico seria ordenado nos seguintes níveis: W [Wahrnehmungen] (percepções) são os neurônios originados das percepções, que se ligam à consciência e pode ser considerado como uma espécie de “entrada” dos estímulos no psiquismo e não propriamente como um registro mnêmico; Wz [Wahrnehmungszeichen] (indicação de percepção) é o primeiro registro das percepções, que se arranja por associações simultâneas e é incapaz de
67 Cf. RIBEIRO. As cartas não mentem jamais (a propósito dos enigmas da carta 52), p. 139-141.
68 Cf. RIBEIRO. As cartas não mentem jamais (a propósito dos enigmas da carta 52), p. 142.
69 Cf. FREUD. “Carta 52”, p. 281; ______. Carta 52, Amorrortu editores, volumen 1, p. 274.
chegar à consciência; Ub [Unberwusstsein] (inconsciência), por sua vez, é o segundo registro, podendo se dispor segundo outras relações, talvez causais. Também não tem acesso direto à consciência, mas já possui uma organização representacional que possibilita certa transmissão ao registro seguinte e corresponderia às representações-coisa (Sachvorstellungen); Vb [Vorbewusstsein] (pré-consciência) é o terceiro registro, estando, pois, ligado às representações verbais (Wortvorstellungen) que teriam acesso à consciência. Equivale-se, ainda, ao nosso eu.70
Os investimentos advindos da pré-consciência (Vb) tornam-se conscientes segundo regras determinadas, ou seja, ligando-se às representações verbais alucinatoriamente. Nesta medida, os neurônios da consciência também são perceptivos. Diz Freud que, se conseguisse fornecer uma completa descrição das características psicológicas da percepção e dos três registros, teria, pois, traçado uma nova psicologia. Esta aí, então, um forte indício de que suas ideias permanecem as mesmas um ano após deixar de lado a redação do Projeto.
Para Ribeiro, precisamos ter em mente que este aparelho que Freud idealiza na “Carta 52”
representa o abandono da referência médica, sendo, pois, uma ficção que nada tem de concreto ou de objetivo na perspectiva da investigação neurocientífica de seu tempo, uma vez que os „lugares‟ representados no diagrama não têm qualquer relação com uma localização anatômica.71
Segundo Freud, os consecutivos registros concebem a realização psíquica de épocas sucessivas da vida e, na fronteira entre tais épocas precisa acontecer uma tradução do material psíquico. É assim que ele é capaz de explicar as psiconeuroses, entre elas a histeria, como sendo, justamente, uma ausência de tradução de certa parte do material, o que gera consequências quanto ao equilíbrio quantitativo. Então, quando falta uma transcrição, a excitação é manejada de acordo com as leis psicológicas do período precedente, segundo as vias daquela época. Se isso ocorre, então persiste no psiquismo, um anacronismo, uma certa regressão psíquica responsável pela estranheza dos sintomas ou, como ele diz, “numa determinada região ainda vigoram os fueros; estamos na presença de „sobrevivências‟”.72 Há, então, uma falha na tradução do material, que Freud nomeia como sendo o que conhecemos
70 Cf. FREUD. “Carta 52”, p. 282; ______. Carta 52, Amorrortu editores, volumen 1, p. 275.
71 Cf. RIBEIRO. As cartas não mentem jamais (a propósito dos enigmas da carta 52), p. 143.
72 FREUD. “Carta 52”, p. 283. Fuero é uma antiga lei da Espanha que vigorava em determinada cidade e garantia os privilégios perpétuos dessa região; ______. Carta 52, Amorrortu editores, volumen 1, p. 276.
clinicamente como recalcamento. Tal mecanismo é desencadeado pela produção de desprazer que seria gerado, caso ocorresse a tradução. Sabemos estar postas aí as ideias que constituirão o mecanismo de defesa principal das neuroses, o recalcamento, e que serão desenvolvidas em A interpretação de sonhos e nos textos metapsicológicos de 1915.
O que determina a defesa, ou seja, o recalcamento, não é, de acordo com Freud, a magnitude da produção de desprazer, mas, sobretudo, a natureza sexual do evento e a sua ocorrência em uma fase prévia. Para explicar isto, Freud chama nossa atenção para o fato de que somente as experiências sexuais não são inibidas à medida que as lembranças de sua ocorrência são sucessivamente redespertadas, e isto ocorre porque as magnitudes das excitações, causadas pelos eventos sexuais, aumentam com o tempo. Logo, a maioria das experiências deste tipo está conectada a um prazer que não é passível de inibição, gerando, ao contrário, uma compulsão. Tais aspectos permitem que Freud conclua que,
Quando uma experiência sexual é recordada numa fase diferente, a liberação de prazer é acompanhada por uma compulsão e a liberação de desprazer é acompanhada pelo recalcamento. Em ambos os casos, a tradução para as indicações de uma nova fase parece ser inibida.73
As consequências de tais vivências, segundo Freud, seriam determinantes da neurose e da perversão.
Desejamos ressaltar, ao lado de Ribeiro, o aspecto da intensidade da quantidade como sendo um dos objetos que permanecem ocupando a mente de Freud desde os tempos do Projeto, e que tomam esta forma na “Carta 52”. Não podemos deixar de lembrar, ainda, que tais aspectos quantitativos são o fundamento do modo econômico de apreensão dos fenômenos psíquicos, de acordo com a posterior teoria metapsicológica. Segundo Ribeiro, estas ideias, originalmente apresentadas no Projeto e na “Carta 52”, dão origem à teoria das pulsões.
Desta maneira, a pulsão, tal como é inicialmente descrita por Freud, é uma excitação endógena que emana do corpo, mas cujo registro só é possível no psíquico. A pulsão necessita, pois, de um representante para se fazer presente no psiquismo. Na “Carta 52”, na opinião de Ribeiro, o representante psíquico da pulsão é a inscrição. No entanto, a inscrição não é, ainda, uma representação, pois não está ligada a nenhuma ideia. A inscrição se dá a ver
73 FREUD. “Carta 52”, p. 284; ______. Carta 52, Amorrortu editores, volumen 1, p. 277.
como o traço (indicação) de percepção, e ocorre a partir do modo como a excitação endógena chega ao aparelho psíquico e se inscreve nele. Assim, como o próprio Freud afirma, a memória não se constitui de uma única vez e é somente por meio de rearranjos que as inscrições se tornam representações. E, desde que há transcrição, os outros registros, que são simultâneos, aparecem, sem, porém, seguir uma ordem ou uma cronologia. Para Freud, eles existem para que compreendamos a existência de lugares psíquicos distintos. A transcrição entra em cena, justamente, como uma tentativa de simbolização das inscrições, mas que nem sempre acontece.74
A partir do que acabamos de expor, podemos dizer que em Wz há apenas inscrições, que podem vir a ser transcritas se tornando, então, representações em Ub. Contudo, para que haja um terceiro registro, a pré-consciência, é necessária, ainda, uma tradução da representação para Vb. Desta forma, a tradução corresponde à passagem da moção pulsional de Ub para Vb.
Há, aí, então, uma tradução de uma linguagem para outra, já que isto torna possível uma ligação entre uma representação inconsciente e outra representação pré-consciente.
Todas estas considerações são relevantes na sustentação da hipótese que desenvolvemos no presente capítulo, pois nos ajudam a situar o papel do corpo como o fundamento que põe Freud a trabalho, ao mesmo tempo em que tornam possível investigarmos os aspectos originários da teoria metapsicológica, em seus três aspectos: o topográfico, pensado neste momento a partir dos registros psíquicos (Wz, Ub e Vb), o dinâmico, visualizado a partir das origens e do modo de funcionamento do mecanismo de recalcamento, e, ainda, o econômico, atestado por meio das questões relativas à quantidade e à pulsão. Não podemos deixar de salientar, ainda, que todos estes aspectos, relativos ao corpo e à metapsicologia, carregam em si uma dimensão ética e se intercruzam na tese do inconsciente como sendo constituído como uma linguagem. Logo, como lembra Ribeiro,
É interessante ressaltar que o recalque, sendo uma falha na tradução, está diretamente ligado a uma questão da linguagem. Este fato não passou despercebido a Freud, que chega a dizer que na histeria a regressão chegaria a uma fase na qual ainda não haveria uma divisão nítida entre o inconsciente e o pré-consciente. 75
74Cf. RIBEIRO. As cartas não mentem jamais (a propósito dos enigmas da carta 52), p. 149-154.
75 RIBEIRO. As cartas não mentem jamais (a propósito dos enigmas da carta 52), p. 163. Grifos do autor.
Obviamente, tais questões ainda estão incipientes neste período da construção do texto freudiano. Vejamos como as mesmas são retomadas no momento inaugural da psicanálise e, portanto, da teoria metapsicológica propriamente dita tal como apresentada no sétimo capítulo de A interpretação de sonhos.