3. POLÍTICA, RELIGIÃO E TRABALHO COMUNITÁRIO EM SÃO
3.2 O PAPEL INSTITUCIONAL DAS LIDERANÇAS LOCAIS
De maneira geral, as ações elaboradas e implementadas sob a liderança de Padre Antônio, aliadas aos mais variados segmentos da sociedade de São Domingos do Prata, foram desenvolvidas das seguintes maneiras: em primeiro lugar, foram uma tentativa de assistir a população menos favorecida, com orientações religiosas fundamentadas na doutrina católica e parcerias com diversas instituições, visando assegurar a promoção de cursos profissionalizantes; em segundo, buscou-se organizar alguns segmentos do município em associações, procurando conscientizá-los da importância do trabalho cooperativo, como forma de aumentar sua atuação no mercado; por último, procurou-se promover os mesmos setores, oferecendo-lhes a formação necessária para a constituição de empreendimentos coletivos, como a criação de cooperativas e sindicatos, com o intuito de obter maior dinamismo e objetividade em suas relações sócio-econômicas.
Para DOUGLAS (1998), os funcionários das instituições, o que inclui as Igrejas, órgãos públicos, associações, organizações não governamentais, recorrem aos seus compromissos institucionais para realizar suas reflexões e promover suas ações. Os funcionários agem de acordo com o pensamento dominante da Instituição a que estão ligados e seguem estruturas organizacionais claras, estabelecidas e rotinizadas para desenvolver suas ações. Este tipo de ação pode ser verificado também na trajetória de padre Antônio, que passou de uma fase de ações assistencialistas para uma fase de ações desenvolvimentistas, acompanhando as mudanças gerais ocorridas no pensamento dominante da Igreja Católica (PEREIRA, 1991).
Nesse sentido, como observou PEREIRA (1991), das muitas intervenções feitas pelo pároco no município, uma culminou com a formação do Movimento Associativista Rural de São Domingos do Prata (MARDSP), via organização de pequenos produtores rurais da região. Dessa forma, a história do MARSDP está diretamente ligada à trajetória de vida política e religiosa de Padre Antônio, bem como de uma série de ações comunitárias implementadas por ele em benefício da população local.
A totalidade de suas ações apresentou características específicas, nas dimensões, econômica, religiosa, comunitária, institucional e, principalmente, política:
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1º) Como presidente das Obras Sociais de São Domingos de Gusmão (1960-1972) organizou a construção da igreja matriz, mobilizando centenas de pessoas; promoveu a realização de cursos de natureza religiosa e de natureza técnica, envolvendo cerca de 300 pequenos produtores rurais; e criou 12 “células comunitárias”.47 2o) Na condição de presidente da “Feira do Produtor” (1972-1977), organizou cursos para pequenos produtores rurais oferecidos pela EMATER, SUDECOOP e Secretaria da Agricultura do Estado de Minas Gerais (SAEMG); articulou com a Fundação João Pinheiro (FJP) a elaboração de projeto para implantação de uma cooperativa hortifrutigranjeira; conseguiu que a Fundação Inter-Americana (FIA) financiasse a implantação de uma fábrica de farinha, câmara de maturação de frutas e frota de transporte; e obteve apoio de diversos órgãos do governo, para transformação da “Feira do Produtor” em cooperativa, motivando a participação de pequenos produtores rurais que pertenciam à “Feira do Produtor” a se associarem na cooperativa, conseguindo a adesão de cerca de 488 associados em 1976. 3o) Em 1977, deixou de exercer o sarcedócio e a direção das atividades comunitárias do município e assumiu, em Belo Horizonte, o Projeto de
Complementação Alimentar, na Secretaria de Trabalho e Ação Social (SETAS), do
Estado de Minas Gerais. Em 1978, assumiu a presidência da Cooperativa Regional Agroindustrial de São Domingos do Prata (CORPRATA/1978-1982), instituição que ajudou a criar. Na cooperativa organizou a realização de cursos sobre Educação Cooperativista, pela SUDECOOP; incentivou a elaboração de projeto de instalação de uma micro-destilaria de álcool, visando estender o campo de atuação da CORPRATA. 4o) Ascendeu, em 1983, ao cargo político de vice-prefeito do Município de São Domingos do Prata (1983-1988), realizando, ao longo de seu mandato político indireto, a criação de 63 Associações Comunitárias de Desenvolvimento (ACD’S), integradas ao Conselho de Desenvolvimento Comunitário (CDC). Promoveu a criação e construção de creches para filhos de famílias carentes, chegando a atender cerca de 175 crianças no meio rural e urbano do município. 5o) Almejando concorrer ao cargo de prefeito da cidade de São Domingos do Prata, no ano de 1988, ano de eleições municipais,
47 PEREIRA (1991) afirma que “as células comunitárias eram pequenas organizações religiosas e de assistência
social constituídas por produtores de pequenas comunidades, tanto urbanas quanto rurais, correspondendo à divisão do município em zonas e zonais”, para melhor facilitar as intervenções das lideranças locais junto à população rural do município de São Domingos do Prata – MG.
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assumiu a presidência do Grupo Integrado para o Progresso do Prata (GIPP/1988- 1994). No GIPP, como pano de fundo de suas campanhas políticas para ocupar o cargo de prefeito, divulgou e incentivou a implantação de técnicas alternativas na produção e armazenagem para pequenos produtores rurais, procurando simultaneamente, conscientizar as comunidades rurais para melhoria da saúde, por meio da alimentação integral e medicação através de ervas medicinais. No campo da cultura, apoiou socialmente crianças e jovens, e as respectivas famílias, por meio do atendimento às suas necessidades sócio-culturais, pelo trabalho junto a seus grupos de origem e sua comunidade. Eis mais um testemunho sobre sua atuação: “Ele tinha uma capacidade para movimentar, integrar e incentivar as pessoas. Ele tinha uma fé misturada com a vida e sua simplicidade. Padre Antônio nunca foi muito teórico não, não era de muita especulação não. Ele era de senso prático. Realizou muito mais do que os especulativos”. (Entrevista de Dom Misericordioso ao Jornal Caminhando em 20/10/2001).
Apesar de toda a sua ampla atuação junto aos setores sociais mais desfavorecidos, mas também àqueles de prestígio econômico e político no município, Padre Antônio não conseguiu êxito nas duas vezes que se candidatou a um cargo político institucional (1988 e 1992). Dessa forma, os relatos orais, via entrevistas semi- estruturadas e a análise de documentação em poder da população de São Domingos do Prata, permitiram compreender os motivos que orientaram os diversos setores sociais, conhecidamente simpatizantes da prática do pároco, a não legitimá-lo como um político institucionalizado, eleito pela população local:
Político ele sempre foi, não como político partidário. Ele sempre foi mais atuante como religioso, devido a sua própria vocação. Ele não tinha vocação como político partidário que muitas vezes acontece por acidente. Mas, ele foi um verdadeiro político quando se preocupava com o “bem-estar” do povo. Agora para se fazer isso [sua candidatura] ele teve que entrar em um partido, e para isso nunca teve “maldade política”, nunca teve vocação para essa prática. Ele entrou em um partido apenas por uma obrigação legal ou formal, mas se não fosse isso ele jamais teria sido político partidário, pois ele nunca teve vocação para isso. (Sr. Cooperado, Professor, 60 anos, 10/10/2004).
Em meio as várias respostas dos entrevistados, que buscaram refletir sob a situação política local, algumas são unânimes em afirmar sobre acontecimentos e fatos que concorriam quase sempre para fraudes eleitorais, perseguições políticas, mandonismo, “voto de cabresto”, troca de favores, intrigas, compras de votos e
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ameaças, coincidindo com práticas eleitorais de caráter clientelista e patronal que refletem a permanência, em algumas regiões do Brasil, dos valores políticos tradicionais vinculados ao autoritarismo e abuso de poder.