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2. IGREJA CATÓLICA, TENDÊNCIAS POLÍTICAS E PRÁTICAS

2.3 BASES TEÓRICO-SOCIOLÓGICAS

2.3.3 TRADICÃO, CULTURA E PRÁTICAS DO COTIDIANO BRASILEIRO

No sistema sócio-político brasileiro, encontramos diversidades culturais do Oiapoque ao Chuí, mas encontramos também elementos comuns que constituem a “identidade brasileira.”42 Sendo assim, DA MATTA (1990) trás à tona uma valiosa discussão a respeito da prática do “Você Sabe com Quem Está Falando?,” expressão essa que configura as relações de poder e dominação em nossa sociedade. Essa prática, encontrada em todos os rincões do Brasil é reveladora do lado hierárquico da sociedade brasileira e, é considerado um trunfo de “nosso formalismo – o Caxias, e da nossa maneira velada – e até hipócrita, de demonstração dos mais violentos preconceitos.”43 Essa expressão é ainda a negação do jeitinho, da cordialidade e da malandragem, traços marcantes da sociedade brasileira.

42 Para FREITAS (2002: 40) “a identidade é um resultado, um estado psicossocial que pode variar no tempo, ou seja,

não é fixa e depende de seu ponto de definição, pois pode dizer respeito ao indivíduo, ao grupo e à sociedade em geral”.

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DA MATTA, R., Carnavais, malandros e heróis: para uma sociologia do dilema brasileiro. 5a ed. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1990, p-147.

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Ao analisar as relações sociais em nosso cotidiano, DA MATTA (1990) observou que essa expressão nos mostra a constituição de uma verdadeira legislação de modos e costumes hierarquizados. A utilização dessa expressão em nosso cotidiano, ocorre, geralmente, quando a posição social é ameaçada ou quando se quer fazê-la conhecida. É patente encontrar nas relações sociais, o uso da expressão por pessoas situadas nas mesmas camadas populares da sociedade brasileira, tomando a projeção social do seu chefe ou patrão: “Você sabe com quem está falando? Eu sou o secretário particular do juiz da cidade!” Essa atitude frente aos demais cidadãos, demonstra uma verdadeira gradação de posições ou de conquista dos espaços sociais, o que significa que, quanto mais alta a posição social, mais impacto ela projeta com o uso dessa expressão. Portanto, para DA MATTA (1990), o uso dessa expressão “não é exclusivo de uma categoria, grupo, classe ou segmento social”, o que “possibilita uma hierarquização contínua e múltipla de todas as posições no sistema.”44 Entretanto, essa prática, dada as suas circunstâncias e peculiaridades, têm encontrado uma certa dificuldade no meio social brasileiro de se formarem identidades horizontais entre as pessoas de mesma posição ou camada social, pois é “muito mais fácil a identificação com o superior do que com o igual.”45

Diferentemente ao “Você Sabe com Quem Está Falando?”, mas muitas vezes semelhante em aspectos que objetivam romper as barreiras legais instituídas que regulamentam as relações sociais, encontramos fortes evidências do uso freqüente no cotidiano brasileiro do chamado “jeitinho brasileiro”, onde as relações sociais se dão através das trocas de favores, favorecimento, mandonismo e proteção, como observou MOTTA (1997). Essa expressão faz parte do dia a dia de muitas práticas políticas e institucionais na sociedade brasileira, principalmente no interior do país. Neste caso, é necessário que o provável beneficiado tenha um vínculo ou contato prévio com o intermediário, ou seja, com aquele que o tende a proporcionar certos benefícios ou uma “pequena ajuda”. Nota-se que, neste caso, há uma ruptura das normas legais institucionalizadas que além de ferir os princípios democráticos em nossa sociedade, conseqüentemente, poderá se observar o crescimento das desigualdades e injustiças

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Idem, 1990, p-155.

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sociais no que se refere ao tratamento e direitos igualitários que deveriam ser comuns a todos os cidadãos brasileiros como previsto na Constituição Federal.

No entanto, é neste momento que se configura as disparidades de posições ou status entre as pessoas e o aprofundamento das desigualdades sociais fruto muitas vezes da injusta distribuição de renda e de oportunidades. A partir desse cenário de antagonismos entre os diversos segmentos sociais, pode-se observar conflitos e manifestações de insatisfação ou reivindicação, por parte daqueles que são excluídos ou impedidos de participar do processo de reconhecimento social e político em termos de igualdade de direitos e oportunidades.

É, portanto, neste sistema de dominação onde o conflito aberto é evitado que encontramos, dentro mesmo da relação entre superior e inferior, a idéia de consideração como um valor fundamental. Dentro desse quadro, o conflito não pode ser visto como um sintoma de crise no sistema, mas como uma revolta que deve e precisa ser reprimida. Enquanto crise, o esforço seria para modificar toda a teia de relações implicadas na estrutura, mas, como revolta, o conflito é pessoalmente circunscrito, e assim resolvido.46

Os conflitos sociais advindos das relações de prestígios e abuso de poder, concedidos a determinado grupo ou indivíduo, tende a gerar manifestações sociais exigindo o cumprimento e aplicação das leis, e a legitimidade da igualdade de todos perante a Constituição Federal. Constata-se, através deste episódio, que apenas os casos que extrapolam ou que são considerados abusivos, possuem um combate mais acirrado por aqueles que buscam devolver ao meio social o equilíbrio e a manutenção da ordem e justiça social. Em contrapartida, as práticas consideradas “menos graves”, como por exemplo, o favorecimento de uns em detrimento de outros, o protecionismo em instituições públicas, a indicação de cargos institucionalizados, dentre outros, são considerados comuns e são vistos como parte da normalidade das relações na sociedade brasileira, mesmo que essas práticas venham de uma forma ou outra deturpar os procedimentos legais estatuídos.

Nesse cenário de perspectivas e incertezas, as instituições possuem papel preponderante no que se refere à mobilização, conscientização e organização das pessoas em um espaço que tende a propiciar a elaboração de ações coletivas com objetivos específicos a serem atingidos, mas sem favorecimentos e práticas ilícitas. Por

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outro lado o cenário sócio-político encontrado em muitas das localidades espalhadas pelo Brasil afora, traz evidências de um jogo de relações de poder e dominação que configuram práticas cotidianas que fogem à realidade pré-estabelecida em vários capítulos e artigos prescritos na Constituição Federal do Brasil. São elementos que ganharam força de lei e legitimidade, principalmente nos municípios do interior e em localidades que possuem a maior parcela populacional com baixa renda e reduzido grau de instrução.

A partir de então, os atores sociais são submetidos a princípios, valores e práticas, que apesar de sua ilegitimidade perante o aparato legal brasileiro institucionalizado, são vistos como parte de uma realidade que é multifuncional e na maioria das vezes concorrem para políticas de caráter clientelista e de cunho patronal. Esses elementos analíticos, discutidos anteriormente, foram encontrados com maior ou menor abrangência no contexto sócio-político no município de São Domingos do Prata, no período que se inicia em 1958 e termina em 1998, sendo este recorte histórico intencional, pois representa o período de maior atuação do padre. Por outro lado, esse cenário sócio-político permite trazer à tona elementos e práticas como o “jeitinho brasileiro” e chavões como “Você sabe com quem está falando?” que fomentaram, durante quatro décadas analisadas, as ações comunitárias, o jogo político e as relações de dominação e poder local, como será demonstrado no capítulo seguinte por meio de evidências documentais e testemunhos encontrados em poder da população local.

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3. POLÍTICA, RELIGIÃO E TRABALHO COMUNITÁRIO EM SÃO