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2 Referencial Teórico

2.1 O paradigma do Desenvolvimento Sustentável

O processo histórico tem evidenciado problemas econômicos, sociais e principalmente ambientais, e demonstrando a necessidade de todos os atores sociais, tais como governo, sociedade e empresa, se organizarem com o intuito de implementar um estilo de desenvolvimento que contemple as questões ambientais e sociais no processo de produção e consumo e nas tomadas de decisões. Os debates acerca dos problemas observados reforçam essa ideia de adotar um modelo de desenvolvimento alternativo. No entanto, para substituir o modelo de desenvolvimento é preciso entender o que levou a esse descompasso, para que se possa ter ciência do que precisa ser alterado. Sendo assim, mostra-se útil recorrer às informações históricas acerca do desenvolvimento.

Segundo Buarque (2008), até a década de setenta imperou o modelo denominado fordismo, com foco econômico e fundamentado, sobretudo, na perspectiva de abundância de recursos naturais. Embora não tenha fornecido a devida importância às questões ambientais e sociais, é preciso assumir que esse modelo de crescimento – hoje sob a pressão de inúmeros críticos – e o seu propulsor, a Revolução Industrial, foram responsáveis por grande progresso econômico. O problema é que os mesmos processos responsáveis por esse avanço, como a exploração desenfreada dos recursos naturais,

acarretaram graves problemas ambientais (WCED, 1987; AFONSO, 2006), por isso precisam ser revistos e novos padrões de comportamento estabelecidos (WCED, 1987).

Um dos movimentos que mais contribuíram para repensar esse paradigma foi o movimento ambientalista iniciado na década de 60 e seguido por diferentes marcos como a criação do Clube de Roma e a Conferência de Estocolmo (DIAS, 2003) que serviram para disseminar na comunidade internacional a preocupação ambiental e aspectos relacionados com a qualidade de vida e com o futuro da humanidade. Ciente de que o modelo vigente tem gerado degradação ambiental, aumento das desigualdades sociais e concentração da riqueza (MARTINS; CÂNDIDO, 2008) é preciso construir um novo paradigma no qual tanto o crescimento econômico quanto a qualidade do meio ambiente e as questões sociais possam ser harmonizadas.

Diante dessa necessidade de se atingir um desenvolvimento mais equitativo, que vai além da multiplicação da riqueza material objetivada no crescimento econômico (SACHS, 2008b), surge a ideia de desenvolvimento sustentável. Diferente daquele a ser substituído, esse modelo visa não apenas a atingir a prosperidade econômica, mas a atender simultaneamente critérios de relevância social, prudência ambiental e, claro, viabilidade econômica (SACHS, 2008a). Assim sendo, o desenvolvimento sustentável mostra-se como alternativa para dar continuidade ao progresso econômico, ao mesmo tempo em que minimiza os problemas ambientais e sociais gerados pelo mesmo.

Embora os princípios do DS tenham sido apresentados anteriormente por meio da definição de ecodesenvolvimento, e as dimensões sociais e ambientais que segundo Elkington (2001) se juntariam à econômica para formar o tripé do DS estivessem sendo discutidas há décadas, foi apenas em 1987 com a publicação do Relatório de Brudtland que o termo ganhou destaque. Segundo este documento, desenvolvimento sustentável é aquele que permite a satisfação das necessidades presentes, sem comprometer a capacidade das gerações futuras de suprir suas próprias necessidades (WCED, 1987).

Assim sendo, as pessoas (estejam elas como representantes da sociedade, de empresas ou do poder público) têm que estar cientes de suas responsabilidades ao fazer suas escolhas, já que podem restringir as oportunidades dos seus sucessores. Sabendo da dificuldade do processo de mudança do paradigma e na tentativa de encontrar

alternativas é preciso ressaltar que os problemas enfrentados devem ser entendidos em sua totalidade. Essa afirmação se fundamenta no fato de que a harmonia entre as dimensões do novo paradigma, do DS, requer uma visão sistêmica, sendo preciso analisar os valores cultuados e desenvolver estilos de vida, métodos de produção e padrões de consumo que suportem essa ideia de sustentabilidade (SCHUMACHER, 2001). Van Bellen (2006) versa sobre as dificuldades de se adotar a perspectiva sustentável, e ressalta a questão da escolha da sociedade, das organizações, e dos indivíduos em direcionar-se nesse sentido.

Apresentando a mesma linha de raciocínio de Van Bellen (2006), CNUMAD (1992) ressalta a importância do envolvimento e participação do governo, das empresas, dos indivíduos e da sociedade de maneira geral no processo de mudança dos padrões de consumo. Mas, esse documento vai além e de forma semelhante à visão de Schumacher (2001) indica que para alcançar a qualidade ambiental e o desenvolvimento sustentável será necessário obter eficiência na produção e modificar os padrões de consumo a fim de otimizar os recursos e reduzir o desperdício. Sendo assim, pelo fato de abranger questões como eficiência e redução de desperdícios, o consumo e a produção sustentável surgem como padrões direcionados ao DS. Nesse contexto, a LR é considerada como prática sustentável, que pode ser implementada no relacionamento entre produção e consumo.

Embora não aborde especificamente a prática, CNUMAD (1992) deixa margem para ressaltar a importância da LR nessa busca pelo consumo sustentável, já que destaca a redução da geração de resíduos. Em primeira análise, essa indicação pode ser associada com a maior eficiência na utilização dos recursos na fase de produção propriamente dita, mas, não se restringe a esse ponto. Ela também está relacionada com a logística reversa pelo fato de essa prática dar suporte à reutilização, remanufatura e reciclagem de produtos e componentes, que seriam analisados como materiais e resíduos inservíveis e descartados, e reinseri-los no processo produtivo ou diretamente no mercado.

No entanto, é importante ressaltar que a logística reversa não deve ser analisada apenas no momento em que for necessária a realização da destinação dos resíduos, materiais ou produtos. É preciso que a mesma seja pensada desde o momento da concepção do produto para facilitar o reaproveitamento dos componentes. De maneira semelhante o consumo não deve ser analisado como o simples ato de compra e

utilização, é preciso que seja considerado em todas suas etapas. Sendo assim, considera- se que o mesmo se inicia na escolha do produto, mas que só tem fim após a sua destinação.

Assim sendo, percebe-se não apenas a interligação entre os temas, como também o fato de que práticas de LR e de CS podem ser utilizadas como forma de atingir esse novo paradigma, tendo em vista o equilíbrio das três dimensões elencadas por Elkington (2001) e o atendimento das necessidades da geração presente e da futura. É com esse entendimento que a discussão acerca das práticas de consumo e de sustentabilidade será realizada. Para tanto, serão apresentados o contexto em que a modalidade consumo atual está inserida, as transformações pelas quais tem passado e o envolvimento dos atores sociais nesse processo de direcionamento para a sustentabilidade.