Procuramos um autor de referência que nos auxiliasse nos estudos da relação entre o ensino superior e os avanços representados pelo Paradigma Educacional Emergente, com vistas a solidificar os conceitos e as relações entre o pensamento educacional desenvolvido neste capítulo e, posteriormente, com as possibilidades desta análise para a formação em Educação Física.
A opção pela autora Maria Cândida de Moraes deveu-se à sua íntima ligação com o tema e sua evidente contribuição, especialmente através do livro ‘O paradigma educacional emergente’, adaptado de seu doutoramento, na área de Educação, obtido junto à Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP), em 1996. Trabalho este que possui em sua composição alto grau de concordância com as ideias e conceitos dos pesquisadores considerados na presente dissertação.
A obra em questão carrega um grau de preocupação com as relações humanas com vistas a uma melhoria da qualidade de vida e uma preocupação evidente com os rumos e as possibilidades de sua aplicação no campo educacional.
A ciência está exigindo uma nova visão do mundo, diferente e não fragmentada. [...] por outro lado, acreditamos na necessidade de construção e reconstrução do homem e do mundo, tendo como um dos eixos fundamentais a educação [...] com base em um enfoque mais holístico [...] para que a mente humana funcione de modo mais harmoniosa no sentido de colaborar para a construção de uma sociedade mais ordenada, justa, fraterna e estável (MORAES, 2010, p.20)
Observamos que a Educação está contida, prioritariamente na pesquisa da autora:
A ciência que explica nossa relação com a natureza, com a própria vida, esclarece também como aprendemos e compreendemos o mundo, mostrando que o individuo ensina e constrói o conhecimento baseado na forma como compreende a realização deste processo. Uma ciência do passado produz uma escola morta [...] uma escola sem vida produz seres incompetentes, incapazes de pensar, construir e reconstruir conhecimento e realizar descobertas científicas... (MORAES, 2010, p.18)
Pelo tom das palavras utilizadas entendemos uma forte tendência a considerar a Educação como visceralmente dependente do pensamento científico. De modo especial, pela visão que este difunde sobre como aprendemos e compreendemos o mundo, e vemos clara relação que faz a autora deste pensamento com as repercussões da Filosofia da Educação como determinante nos rumos das ideias para a condução da Educação.
A autora substancia sua pesquisa nas teorias da Relatividade e da Física Quântica e justifica sua utilização como forma de permitir “uma relação dialética, interativa” com os caminhos observados nas relações educacionais e suas práticas pedagógicas. (2010, p.20)
A autora utiliza-se da teoria da incerteza de Heisenberg, que ao estabelecer a impossibilidade da medição no nível subatômico pode ser considerado como um paralelo à impossibilidade de se estabelecer fórmulas de mensuração das individualidades humanas; e também de Steven Weinberg – Nobel de Física de 1979, que entende a mecânica quântica como muito importante para as bases da compreensão do mundo doravante, por sua gama de possibilidades.(Id, p.21).
Moraes nos alerta para o fato de que o modelo vigente está fora de sintonia com a contemporaneidade e muito se assemelha, na incapacidade de levar ao questionamento e à liberdade crítica e à criatividade, em uma ligação direta com os modelos Newtonianos e Cartesianos; assim como estabelece uma proximidade destes modelos com a ação domesticadora da educação bancária tão combatia por Freire. (2010, p.51).
Critica a forma de utilização de novas tecnologias ao observar que mesmo estas são uma versão nova de velhas práticas, usando o exemplo dos softwares educacionais, modernos com conteúdos antigos; ao mesmo tempo nos incita a,
[...] fugir do velho modelo tecnicista, da pedagogia transmissiva e encontrar uma nova forma de trabalhar em educação diferente da sequencia de conteúdos preestabelecidos, de disciplinas estanques, em que o feedback, em vez de emergir do controle externo ao indivíduo, constitua-se em mecanismos internos de auto-regulação [...] (MORAES, 2010,p.54)
Tratando de escola fica claro que as relações humanas e a formação de um novo modelo da parceria professor-aluno faz-se necessária para se adaptar a essa nova realidade.
A autora reflete sobre as contribuições do pensamento quântico nas relações de compreensão da nova realidade ao tratar desta visão como provida de características ecológicas de interdependência entre os diversos componentes da natureza e da relação essencial e interligada entre esses. O que mais uma vez nos remete à consciência do Chefe Seattle descrita por Campbell.
No novo paradigma não se opõem os conhecimentos e assim como o observado nas relações transdiciplinares, as diversas formas de conhecimento contidos nas disciplinas e as diversas teorias encabeçadas pelos grandes pensadores que influenciaram a Educação devem interagir sem hierarquias.
A razão disso está na ideia que desenvolve a autora sobre que, após analisar a contribuição de Morin, Piaget, Wallon, Gramsci, Freire e outros tantos pensadores, esses conhecimentos se alinham e produzem uma “visão do conhecimento em rede”. Carrega em sua essência o pressuposto de um conhecimento com características de “[...] flexibilidade, plasticidade, interatividade, adaptabilidade, cooperação, parceria, apoio mútuo e auto-organização”. (Id, p.96)
A Educação deve se transformar com vistas a uma condição mais humana e mais focada na relação com o outro e para isso a autora defende a existência de ambientes propícios.
[...] ambientes e aprendizagem nos quais as atenções estejam voltadas para o resgate do ser humano [...] Esses ambientes deverão colaborar tanto para uma nova construção do conhecimento quanto para promover o desenvolvimento das inteligências pessoais e também para uma revisão nos princípios éticos presentes nas relações humanas (MORAES, 2010, p.111)1
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Pode-se entender a visão de Moraes, na síntese que faz, como uma forma de iniciar a resposta à questão que reflete sobre as mudanças que se mostram necessárias no âmbito escolar:
Compreendemos que a cosmovisão quântica nos traz uma compreensão do mundo mais holística, global, sistêmica, que enfatiza o todo em vez das partes. Apresenta uma visão ecológica que reconhece a interconectividade, a interdependência e a interatividade de todos os fenômenos da natureza e o perfeito entrosamento dos indivíduos e das sociedades nos processos cíclicos da natureza. (MORAES, 2010, p.135)
Neste trecho evidencia-se o fato de que uma nova relação ensino- aprendizagem se faz presente. A autora percorre as questões da escola tradicional e promove uma análise dos avanços e possibilidades das relações mais inter- relacionadas entre os diversos objetos e atores do processo educacional. O que podemos observar com o uso constante de palavras e expressões como: transformações: produção do conhecimento; criatividade; mudança na missão da escola; sistemas mais leves, flexíveis; pluralista; diferente e único. Palavras muito observadas no capítulo acerca do paradigma emergente.
A autora traça um paralelo entre este novo modelo, e suas características, com as afirmações de Piaget. Como que reforçando suas teorias e reproduzindo-as em sintonia com a influência do Paradigma Emergente, e que observamos no ítem 3.4 deste trabalho, quando tratarmos da questão das influências no ensino superior:
[...] um estímulo só atua se o organismo estiver preparado para a ‘ele’ responder. [...] se os órgãos dos sentidos estão preparados para captar apenas determinados estímulos, ainda assim, é o organismo que irá determinar se deve ou não entrar em ação e se deve ou não se modificar para incorporar o objeto que os provocou [...]. Aquilo que não concorre para a auto-regulação do organismo é soberanamente desprezado pelo organismo (MORAES,2010, p.142)
A proposta de Moraes é a de que possamos participar de um mundo mais equilibrado e em sintonia com a evolução do homem nos campos do conhecimento e que dizem respeito à universalidade deste conhecimento com vistas a um mundo melhor.
A Educação passaria a ser instrumento fundamental e, na construção do conhecimento compartilhado, as propostas situam-se no campo da integração e na ampliação da visão dos diversos fundamentos que a compõem, indo, num movimento de integração e não de exclusão, das relações pessoais e de produção
para os espaços físicos de ação; das relações técnicas para as relações afetivas; para a preocupação com construção da inter-relação entre ensino e aprendizagem, com atores mais integrados e interdependentes nessa construção e com uma maior preocupação na relação com o direito do outro, o que afirma a importância do aspecto político desta abordagem holística.
É uma proposta que compreende a ciência não apenas como mediadora das interações os raciocínios concreto e abstrato, dos métodos indutivos e dedutivos, dos sentidos que registram os dados observáveis e que os ordenam em esquemas de ações significativos. Mas uma ciência que vai muito mais além, que busca compreender a natureza não como uma simples coleção de objetos isolados, mas como uma realidade única cuja grandeza e beleza podem ser experimentadas em múltiplos níveis. (MORAES,2010. p.206)