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PARADIGMA

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Na raiz da palavra podemos ver a definição de Platão que entende paradigma como sendo “o mundo dos seres eternos, do qual o mundo sensível é imagem” (ABBAGNANO, 2007, p.864). Tal afirmação nos remete a pensá-lo com uma espécie de qualidade transcendental e superior da busca de uma definição que produza, em conformidade com a perfeição de seu conceito, uma visão ampliada de idéias e pensamentos.

Ainda em Abbagnano, em definição gradativa, somos remetidos a Thomas Kuhn que estrutura o termo quando define a sua aplicabilidade, e desde esta perspectiva é tido como “o conjunto das teorias, das técnicas de pesquisa de determinada comunidade científica” e “o exemplar das soluções concretas para os quebra-cabeças que constituem a organização típica da ciência normal” (KUHN apud ABAGNANO, 2007, p.864)

Embora Kuhn tenha um grande valor em suas características de precursor da visão do termo como uma síntese das ideias, presente no pensamento do momento, vemos no pensamento de Morin uma exposição que vem somar ao conceito, apesar da crítica que faz aos modelos de Kuhn, quando cita a definição do livro A Estrutura

das Revoluções Científicas que, na primeira edição do seu livro, o paradigma é constituído pelas “descobertas científicas universalmente reconhecidas[...]”, tendo posteriormente, à segunda edição, adquirido “um sentido sociologizado e torna-se - o conjunto das crenças, dos valores reconhecidos e das técnicas comuns aos membros e determinado grupo” (2001, p.259).

Morin evoca então a visão de Foucault e sua noção de episteme “aquilo que define as condições de possibilidade de um saber” dando-lhe a prerrogativa de “[...] mais radical e mais amplo do que o paradigma de Kuhn” (Id, p.260).

Embora Morin também critique a visão de Foucault por ser simplificadora por estabelecer que, “Numa cultura, num determinado momento, há apenas uma episteme [...]” e arbitrária pela sua “concepção, na sua localização e na fixação da data dos cortes epistemológicos” (Id, p.260).

Morin, na busca de uma crítica do termo e de seus autores deixa claro, e demonstra familiaridade com as concepções de Magorob Maruyama e sua “radicalidade e sua universalidade” ao definir os quatro tipos epistemológicos que criam a “paisagem mental” (2001, p.260). Para Morin um grande paradigma,

[...] controla não apenas as teorias e os raciocínios, mas, também, o campo cognitivo, intelectual e cultural em que nascem teorias e raciocínios. Controla, além disso, a epistemologia, que controla a teoria e a prática decorrente da teoria. (2001, p.261)

Mais adiante em seu texto, propõe uma definição:

[...] um paradigma contém, para todos os discursos que se realizam sob o seu domínio, os conceitos fundamentais ou as categorias mestras de inteligibilidade, ao mesmo tempo em que o tipo de relações lógicas de atração/repulsão (conjunção disjunção, implicação ou outras) entre esses conceitos e categorias. (2001, p.261)

Evidentemente o assunto seria de complexa intervenção. No entanto, a conceituação de Morin nos serve bem para entender que um paradigma não deve estar simplesmente atrelado à vontade e visão de grupos e/ou interesses de defesa, desta ou daquela teoria e explicação de um fenômeno, mas, unidos por todos os conceitos, que foram observados por Morin em sua fundamentação, para que possa estabelecer as ideias que influenciam a compreensão e significação dos modelos conhecidos ou em análise.

Nota-se, nos autores em questão, que há concordância de que o paradigma é uma fundamentação para uma reflexão, e que sendo e estando situada em um

determinado espaço e tempo tende a apresentar uma lógica baseada em Sofia, isto é, “sabedoria fundada numa longa experiência de vida”. E em episteme, que “significa ciência, isto é, o conhecimento metódico e sistematizado.” (SAVIANI, 2008, p.15).

O que não deixa de ser um diferente modelo de paradigma do modelo cartesiano ou dominante, que não admitia a sabedoria sem a chancela das “ciências duras” e que, nos parece, é visto com simpatia por Morin nas definições de Maruyama, o que fica claro em: “ela se aplica não somente a todas as formas de conhecimento, mas também à estética, à ética e à religião[...]” (2001, p.260). O fato de ter sua formação em Ciências Sociais pode ter sido uma das razões de Morin achar “interessante” a colocação em questão.

Podemos, em um exercício de interpretação, entender paradigma como a imagem dos critérios e/ou representações do momento por que passam os conceitos e estruturas de análise das questões que possam interferir no conhecimento humano.

E em função deste entendimento torna-se evidente que um determinado paradigma tem uma forte influência nas ações e pensamentos que se baseiam nas ideias decorrentes deste, ou como diria Morin,

Assim, os indivíduos conhecem, pensam e agem conforme os paradigmas neles inscritos culturalmente. Os sistemas de idéias são radicalmente organizados em virtude dos paradigmas. (2001, p.261)

Em seus estudos, Morin considera um paradigma fundamental e “poderoso” em influência e em determinação das linhas gerais que possam definir questões e a forma de estudá-las. Ele possui uma capacidade de excluir enunciados e ideias que dele divirjam, problemas que não reconhece e suas premissas são irrefutáveis.

Sua influência sobre o pensamento, a pesquisa, a economia e os demais campos de interesse e conhecimento humano, e em nosso caso específico, a pesquisa em Educação. É forte aliada da manutenção das metodologias reinantes, e entendemos que, a reflexão filosófica possa ser uma aliada na busca de fundamentações e contribuições para sua evolução e modificação, quando necessárias.

Morin define como a única forma de modificação para um paradigma dominante, que por sua invulnerabilidade não pode ser confrontado, o aparecimento de “[...] frestas, fissuras, erosões, corrosões no edifício das concepções e teorias

subentendidas [...] é preciso que surjam novas teses onde fracassaram as antigas” (MORIN, 2001, p.268). Em nossa concepção só é possível a partir de reflexões que tenham condições de atenuar esse poder paradigmático, com vistas ao progresso desenfreado e que aproxime mais os seres humanos em suas relações fraternas.

Seriam os mercados, a economia, o trabalho, a consciência e as próprias relações entre os seres humanos e a natureza, resultados de um paradigma voltado apenas para o progresso material sem responsabilidade e sem apego às questões afetivas e fraternas? Teríamos possibilidade de “corromper” este modelo com vistas a influenciar os pensamentos e as reflexões para um mundo mais feliz? Ele seria mais fraterno, seria melhor?

Acreditamos que, longe de possuirmos as respostas para estas questões, com base no acúmulo do conhecimento humano, a busca por novas experiências, estudos e pesquisas sempre contribuíram com essa evolução e, portanto, qualquer esforço pela evolução dos modelos pode ser importante, senão fundamental para nosso crescimento.

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