As proposições 7 e 8 da segunda parte da Ética serão muito importantes para o debate a respeito do sentido pelo qual podemos dizer que a mente humana não é completamente
destruída com o corpo. Entretanto, a questão da eternidade da alma não é nosso objeto de estudo imediatamente. Essas proposições são mais úteis, aqui, para explicar a relação entre as expressões da essência da substância através de seus atributos.
É interessante notar que Espinosa utiliza o termo “coisas” de forma equivalente ao termo “causas”. Na segunda parte da Ética, essa equivalência é apresentada. Na proposição 7, ele diz “a ordem e a conexão das ideias é o mesmo que a ordem e a conexão das coisas”, mas na demonstração da proposição 9, esse raciocínio reaparece modificado: “ora, a ordem e a conexão das ideias (pela prop. 7), é o mesmo que a ordem e a conexão das causas”, e volta a citar a proposição 7 na segunda demonstração da proposição 9, novamente com o termo “coisas”. Esse é um detalhe interessante, posto que expressa de forma alternativa o novo conceito de essência que está sendo posto por Espinosa, isto é, uma noção de essência das
coisas86 - além de, evidentemente, expressar a equivalência da expressão dos atributos.
A proposição 8 é reconhecida pelos comentadores como fundamental para o projeto espinosista.87 Entretanto, o próprio Espinosa evidencia em sua demonstração que essa proposição é uma consequência direta da anterior. Portanto, adotaremos a proposição 7 como recurso expositivo.88
Na proposição 7 do segundo livro da Ética, é organizado o chamado paralelismo entre pensamento e extensão, fundado na importante proposição: “a ordem e a conexão das ideias é a mesma que a ordem e a conexão das coisas.” Segundo Chantal Jaquet, os comentadores concebiam essa proposição como o testemunho espinosista de uma “união psicofísica e a correlação entre os estados físicos e os estados mentais [...], visto que a mente e o corpo são unidos como uma ideia a seu objeto”.89 Entretanto, a ideia de um paralelismo entre “o que se passa na alma” com o que “ocorre na matéria” tem origem em Leibniz e é utilizada como fórmula explicativa do sistema conceitual espinosista. A série expressa pelos atributos é independente, pois já foi demonstrado por Espinosa no primeiro livro da Ética que dois atributos distintos não podem ser causa um do outro. De fato, naquele ponto do texto está sendo buscada uma forma de eliminar a hipótese de uma substância criadora que possui natureza diferente de uma substância criada, posto que dali se poderia tirar uma exterioridade substancial.
86 Digo pertencer à essência das coisas aquilo que, se dado, a coisa é necessariamente posta e que, se retirado, a coisa é necessariamente retirada; em outras palavras, aquilo sem o qual a coisa não pode existir nem ser concebida e vice-versa, isto é, aquilo que sem a coisa não pode existir nem ser concebido.
87 PINHEIROS, Ulysses. “A heresia oculta de Espinosa. Meditações sobre a morte na Ética.” In Analytica, v.14, n.1, 2010, pp. 217-242.
88 EV, prop. 23.
89 JAQUET, Chantal. A unidade do corpo e da mente: afetos, ações e paixões em Espinosa. Trad. Marcos Ferreira de Paula; Luís César Guimarães Oliva. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2011, p. 24.
Contudo, o termo paralelismo ajuda a fixar a noção de igualdade entre a ordem e a conexão das coisas nos infinitos atributos que expressam a essência da substância. Para que o paralelismo sirva à filosofia de Espinosa, é importante ter em vista que está sendo apontada a equivalência de princípios entre as diferentes maneiras de expressar a essência da substância, ou seja, seus diferentes atributos. Com isso, Espinosa cria uma organização conceitual que não privilegia um atributo sobre outro. Ele não descarta uma hierarquia de realidades substanciais para, em seu lugar, colocar uma hierarquia de atributos, mas, contrariamente, fará dos atributos expressões equivalentes cujo princípio de sua existência é o mesmo. A modalização dos atributos em corpos e ideias também acompanha a equivalência, ou seja, não haverá preeminência do modo de um atributo sobre o outro ao considerarmos uma coisa.
Trata-se de uma tese realmente polêmica para o século XVII. Não bastasse a exclusão da transcendência, Espinosa também ousa, através de seu monismo extremamente particular, equivaler o status da expressão divina em corpos e almas num período em que essa concepção era indefectível tanto nos círculos religiosos quanto nos filosóficos. Colocar a potência das coisas como parte da potência de Deus e paralelizar a expressão da essência da substância é um meio de naturalizar o que quer que apareça como realidade. Mais do que isso, é um meio de estabelecer conceitualmente que a realidade não comporta uma referência externa na série das expressões atributivas e, com isso, se esgota na existência da substância e de seus modos imanentes.
Uma coisa só possui existência real enquanto possuir potência. Pelo que observamos anteriormente, quanto mais atributos compõem uma coisa, maior sua realidade, e, portanto, maior é a sua potência. A definição da coisa não se altera antes, durante e depois da existência da mesma, o que impossibilita que seja essa a origem de sua existência.
As coisas singulares, assim como os modos em geral, são determinadas essencialmente pela substância, o que, pelo sistema que está sendo estudado, implica numa determinação também na extensão. Sendo uma única e mesma substância, esta envolve todo o existir, pois, pela proposição 15 da primeira parte da Ética: “tudo o que existe, existe em Deus, e sem Deus, nada pode existir nem ser concebido”.
Mesmo levando em consideração as distinções entre a essência/potência da substância e a essência/potência dos modos, não se deve fazer uma separação delas. Pela proposição 25 da primeira parte da Ética, tomamos conhecimento de que Deus não é somente causa eficiente da existência das coisas, mas também da essência delas. Algo que possui um nível existencial inferior ao da substância não pode ser explicado sem ela. Se, pelo contrário, algo pudesse ser concebido sem a substância, seria possível dizer que sua potência atual existe de forma
independente da expressão e determinação da substância. Isso romperia a imanência de forma incontornável, pois o sistema espinosista funciona com a equivalência entre a potência de expressar e a potência de compreender. Se algo pode ser concebido, e, portanto, expresso e compreendido sem a substância, isso se chocaria com os princípios da imanência. Assim, a substância será causa tanto de sua existência, quanto de sua essência, dado que não há um instante criador anterior a ela. Tudo o que existe, existe por respeitar a ordem determinada da substância, que, quando compreendida adequadamente, não pode ser confundida com uma limitação ou impotência. A existência real só é possível através da expressão imanente da substância. Acredito, com isso, ter esclarecido de forma razoável a produção imanente da substância.