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O Villa Lobos foi entregue incompleto e seu espaço começou a ser apropriado por outros, não pelas pessoas, mas sim pelo capital da seguinte forma: enormes pistas de concreto que com o tempo começam a ser utilizadas para empréstimo ao comércio, lançamento de produtos, pistas de testes de marcas famosas ou maratonas, shows comemorativos e patrocinados por empresas, megaeventos publicitários. Como se não bastasse a apropriação dos espaços da cidade pelo capital com a tutela do Estado, reduzindo o espaço apropriado pela vida, este invade o espaço público, utilizando-o

154 segundo seus interesses, reduzindo o espaço que deveria ser apropriado pelas relações sociais.

Em entrevista realizada com Nelson de La Corte torna-se claro a perda que há na tensão entre capital e Estado:

quando as pessoas de visão mais pública assumem o poder e verificam que o Estado não tem poder frente ao poder do sistema, porque o Estado é uma superestrutura mais subjugada à infra-estrutura definitivamente, você em lugar de assistir ao movimento de oposição a esta natureza você começa assistir um movimento de funcionalização do Estado a essa natureza. Nos últimos quatro anos o que se têm visto em São Paulo. Não há dinheiro para fazer as coisas então começa-se a privatizar o que ainda não está privatizado, privatiza-se o jardim da esquina, a rua tal, a conservação da rua tal, nada disso é feito de graça está sendo feito em troca de alguma coisa e você sabe que ninguém troca nada perdendo, seguramente em princípio o poder púbico está perdendo, ganha oportunidade do jardim ficar mais bonito. Eu reclamei para você de que o Villa Lobos teve uma época que foi privatizado por eventos para iniciativa privada que fez dele um espaço para grandes shows para empresas. Eu faço algumas objeções, acho que um parque público originalmente não foi concebido para servir de espaço de aluguel para empreendimentos privados. Tenho em mente esta figura da privatização do público numa má troca seguramente ... Eu gostaria de saber o que a prefeitura deu em troca para a instalação do Shopping Villa Lobos, para ele cuidar da avenida, não deu muita coisa, deu o direito de fazer dela um grande tapume de propaganda, sabe quanto custa fazer propaganda? Vá saber quanto custam os out doors nas ruas, seguramente a prefeitura está sendo uma agência pior de propaganda do que as... (Entrevista, 2003)

Neste depoimento fica claro a perda do espaço público para uso do setor privado, no momento em que lhe é concedido. Além de ser uma má troca a população está perdendo a apropriação daquele espaço para seu uso de forma a entender os seus interesses em direção à continuidade da vida.

Em entrevista com advogado membro na Sociedade Amigos do Bairro de Boaçava que trabalha no sentido da finalização do projeto do parque Villa Lobos, relata que a Philips, no dia 17 de dezembro de 1999 às 22:horas patrocinaria um show – “A Rave Urbana que São Paulo ainda não viu” que seria realizado em 10 pistas cobertas para a população “bombar” a noite inteira, no valor de 10 a 30 reais. A Sociedade Amigos do Bairro de Boaçava convocou uma assembléia extraordinária onde foi decidido enviar um telegrama ao presidente da Phillips mundial, na Holanda informando

155 do evento. Segundo J., o presidente mundial da Phillips em contato com o presidente da Phillips do Brasil, solicitando que o show fosse cancelado30.

Além disso, o referido advogado tem cinco ou seis pastas com comprovantes de uso indevido do Parque contendo venda de veículos da Cauá, eventos de esporte da Córpore, entre outros. Décio Tozzi, acredita que para a realização desses eventos no Parque não houve concorrência pública.

Junto à privatização do Parque, vieram os reclamos dos moradores do bairro devido aos eventos acompanhados de enormes equipamentos de som de milhares de quilowatts até a madrugada, a invasão dos automóveis para estacionamento já que a capacidade de seu estacionamento é bastante limitada.

Em entrevista com residentes do bairro de Boaçava, Nelson De La Corte e Judite De La Corte, que apreciam muito a presença do Parque no Boaçava, relataram que o som dos eventos era demasiadamente alto sem levar em consideração às pessoas do entorno, também não devia ter nenhum controle pelo poder oficial, virando nos finais de semana algo assustador.

Após esses acontecimentos, os moradores do bairro, pertencentes à uma classe de poder aquisitivo elevado31, decidiram por uma ação civil pública contra os usos

indevidos do parque e a favor da concretização do projeto inicialmente proposto.

Segundo o advogado todas as fases da ação civil pública para a finalização do parque movida pela Associação Amigos do Boaçava, Alto de Pinheiros e entidade Defenda São Paulo, “foram ganhas e o importante é que há respaldo da participação dos moradores, que os deixam bastante otimistas”. Há diversos documentos sob a tutela desse advogado de usos indevidos do Parque e uma liminar culminando multa diária por toda atividade que estiver fora da finalidade. Segundo o entrevistado o poder público está onerado em cento e trinta mil reais até a data da entrevista – 06 de maio de 2003.

Porém, antes mesmo destes transtornos e durante esses transtornos ocorreu um movimento para fechamento do bairro, o que não se realizou porque também houve

30 Vide ingresso em anexo.

31 O Bairro de Boaçava atualmente é considerado um bairro de poder aquisitivo elevado por ter sofrido alta valorização nas últimas décadas do século XX. Nem sempre foi assim segundo relato dos nossos entrevistados, moradores antigos do bairro.

156 um movimento dentro do próprio bairro contra, que encontrou respaldo na lei impedindo o fechamento.

Alguns entrevistados fizeram considerações relativas ao movimento a favor do fechamento do bairro:

Eles começaram a fazer reuniões para fechar o bairro, tornar um condomínio fechado, haveria uma entrada e uma saída talvez no mesmo lugar ou em lugares separados mas só com porteiros, isso foi antes de funcionar o Villa Lobos, porque eles já estavam se prevenindo com problemas de assaltos para ficar mais seguro em relação ao problema que o futuro Parque Villa Lobos iria trazer: congestionamento de veículos nos fins de semanas, muitos ambulantes para as periferias das entradas, etc. uns dez anos mais ou menos, em 1985. Fizeram uma pesquisa com questionário e debate entre os moradores chegando a conclusão que deveria permanecer aberto. Eu sempre fui favorável a ser aberto”. (LA CORTE, J., Entrevista, 2003)

É muito declarado, começa muito barulho logo cedo, as ruas ficam completamente cheias de carro, houve um movimento para fechar o bairro por causa do Parque Villa Lobos, fechar as ruas para não deixar os carros entrarem. Eu votei contra e mais duas professoras que moram no bairro, até fui chamada a atenção pelos vizinhos. Ninguém se conversa, mas numa hora dessas... meu vizinho me chamou para perguntar como eu podia ter assinado contra o fechamento... Existe uma convivência danosa porque eles não querem show porque não querem barulho, porque não querem carros... não conseguiram por causa da lei, eu não sei qual é a lei que não permitiu o fechamento do bairro. (SEABRA, O. Entrevista, 2003) Se você deixa por conta dos moradores do bairro eles fecham com muros de 5 m de altura e se torna condomínio fechado. Só não fechou por legislação e porque no fim houve movimento contrário de moradores que encontrou respaldo na lei para impedir que fechasse. (LA CORTE, N., Entrevista, 2003)

Sobre o histórico do movimento de fechamento do bairro Boaçava há registroS na Gazeta de Pinheiros e na Biblioteca de Pinheiros da Sub-Prefeitura. O parque trouxe barulho, problemas de estacionamento e as pessoas que vem junto. Ocorreram também reclamações da Associação para a Regional de Pinheiros na tentativa de fechar o bairro.

O bairro, segundo Odette Seabra, cabe uma análise no que se refere à vida social:

157 O bairro tem uma auto segregação administrada, as pessoas não têm convívio entre si, nem se respeitam e nem se cumprimentam. Cada um na sua. É o individualismo moderno que entre os americanos é uma conquista, e que consideram isso uma liberdade. O resultado nessa vida segregada, quando aparece a história do Parque, quebra a liberdade porque pessoas diferentes estarão circulando na rua. Esse individualismo que ascende e que cresce é que vai exigir seguir caminhos que não tenham shows, etc. Tentaram por todos os meios fechar o bairro mas não conseguiram. (SEABRA, O. Entrevista, 2003)

Apesar das características sócio econômicas do bairro Boaçava, os problemas que vieram com o uso do espaço pela iniciativa privada, serviu para unir os moradores, levando a uma ação civil pública contra os usos indevidos do Parque. A construção do Parque Villa Lobos, de certa forma, alterou o modo de vida dos moradores do bairro Boaçava, exigindo que as pessoas conversassem.