4 O PROJETO UCA DE SJP
4.1 O percurso da pesquisa sobre o UCA em SJP
A pesquisa de campo em SJP deu-se a partir do mês de agosto de 2012, período que coincide com o retorno dos alunos das férias escolares, tanto nas escolas municipais quanto estaduais no estado do Pará. Nessa etapa inicial o objetivo era conhecer a cidade ver os locais de maior aglomeração de estudantes com o laptop do UCA e, como havia ido a SJP um ano antes no momento de implantação do projeto UCA e lembrava de ter visto vários alunos nas ruas, praças e espaços públicos do município, acreditava poder encontrar a mesma realidade observada no início de 2011 no ano de 2012. Como tinha a intenção de encontrar os estudantes que usavam o UCA18 foi estabelecida uma rede de contatos de forma a encontrar os informantes deste estudo.
18 A expressão “usavam o UCA” significa “usavam o laptop do UCA”, pois os estudantes ao falarem do laptop
Para tal empreitada realizamos uma pesquisa de cunho etnográfico. Sobre a etnografia autores como Atkinson apud Pfaff (2010) a compreendem como uma abordagem metodológica e usam este termo devido ao fato deste tipo de pesquisa incluir diferentes formas de coleta de informações como: observação participante; entrevistas e, de uma forma geral, estar aberta a todos os tipos de coleta de dados.
Nessa direção, André (2010, p.28), expõe técnicas “tradicionalmente são associadas à etnografia, ou seja, a observação participante, a entrevista e análise de documentos”. A análise de documentos é importante para contextualizar o fenômeno expor as vinculações mais profundas deste e relacioná-la às informações coletadas de outras fontes da pesquisa. Já a observação é considerada participante, partindo do pressuposto que o pesquisador tem sempre uma relação com a situação estudada. Desta forma, ao mesmo tempo em que ele a afeta é também afetado por ela. E as entrevistas constituem fontes importantes para aprofundar e esclarecer as questões e os problemas observados (ANDRÉ, 2010).
No que concerne à observação, esta é uma das mais importantes fontes de informação nas pesquisas qualitativas em educação, pois sem uma observação cuidadosa não há Ciência. Para esta observação cuidadosa, anotações de qualidade são imprescindíveis no trabalho do pesquisador. Estas anotações podem ser feitas num diário de campo que consiste em um caderno onde são registradas as informações observadas. Neste sentido, concordo com Vianna(2007, p.19) quando afirma que:
Anotações cuidadosas e detalhadas vão constituir os dados brutos das observações, cuja qualidade vai depender, em grande parte, da maior ou menor habilidade do observador e também da sua capacidade de observar, sendo ambas as características desenvolvidas, predominantemente, por intermédio de intensa formação.
Assim, buscamos informantes através das pessoas que conhecemos na cidade, como a dona da pousada, o dono da lanchonete da praça e sua esposa, as pessoas que ia conhecendo no restaurante da pousada na hora do almoço. Conversávamos com essas pessoas com o intuito de saber onde encontrar esses estudantes utilizando o UCA. Desta forma, passamos os meses de agosto e setembro conhecendo a cidade por meio desses novos informantes para conhecer as pessoas, inserir-nos na comunidade e observarmos os estudantes com o UCA. Todas as observações e conversas com os estudantes e ex-estudantes ocorreram de agosto de 2012 a maio de 2013.
Pensamos que seria fácil encontrá-los, mas na maioria das vezes não foi assim que se deu. No “início só observava, sentia que os poucos e possíveis participantes não queriam conversar tinham receio de falar comigo, foi uma barreira difícil de ultrapassar”. Outra questão era a presença de poucos estudantes encontrados nos espaços públicos da sede do município.
Como não sabíamos o que acontecia, e tomando a chuva como razão para os poucos estudantes encontrados com o UCA nos espaços públicos, apesar de saber que na Amazônia, e o estado do Pará como parte integrante dela, tem apenas duas estações - a com chuvas (primeiro semestre) e outra sem chuvas (segundo semestre). Porém, há alguns anos as mudanças climáticas têm provocado modificações nesta norma climática em toda a região. O ambiente começou a clarear após uma conversa com uma professora da sede onde perguntamos “por que poucos alunos ficavam na praça com o laptop do UCA”, visto que já tinha tido a oportunidade de ir antes a SJP e presenciáramos, antes, muitos estudantes na praça com os equipamentos. A resposta dada pela professora foi que “as escolas tinham tomado o UCA dos alunos e agora só era possível usar na escola, e os alunos que ficavam na praça não tinham devolvido o UCA, mas era pra devolverem e o município tava fazendo vista grossa com esses alunos”. Assim, os primeiros meses (agosto, setembro e dezembro de 2012) foram importantes para conhecer o contexto, geografia, cultura e infraestrutura da sede de SJP e encontrar participantes.
De forma a mapear as escolas do UCA e as localidades onde estão inseridas partir, no mês de março de 2013, rumo às vilas mais longínquas e as mais próximas da sede de SJP de modo a conhecer todas as escolas e vilas participantes do projeto. Aproveitamos essas visitas para saber sobre a estrutura física das escolas para funcionamento do projeto UCA, conversar com os gestores das escolas/diretores sobre o projeto e seu atual funcionamento e, também, conhecer a localidade onde estas escolas estão inseridas. Posteriormente fomos à
secretaria municipal de educação de SJP, conversar com a secretaria municipal de educação, para saber mais informações sobre a implantação do projeto UCA e o andamento dele até o presente momento e, principalmente, saber sobre as orientações da secretaria quanto a tomada do laptops e a questão da manutenção dos UCAs no município.
As primeiras observações e conversas com os estudantes e ex-estudantes com o UCA nos espaços de SJP e também a ida a todas as escolas do UCA em SJP foram importantes para a escolha da escola onde faríamos a seleção de estudantes e suas famílias para entrevista.
A escola selecionada foi a Estadual de Ensino Médio Antonia Rosa, por considerar que nela a maioria dos alunos havia participado do projeto UCA deste a sua implantação em 2010 e, portanto tinham tido a experiência de levar o UCA para casa. Outro fator foi por considerar que dos alunos observados e com quem tinha conversado todos os que ainda estudavam eram dessa escola, e por fim que os alunos desta escola não são moradores apenas da sede de SJP, mas também de outras vilas que formam SJP, pois esta é a única escola de Ensino Médio do município. Assim, no mês de maio de 2013, fizemos à seleção e entrevista dos estudantes e famílias (Apêndice A e Apêndice B, respectivamente), consideramos, para tanto, o questionário (Apêndice C) socioeconômico aplicado a todos os estudantes da escola Antonia Rosa no mês de abril de 2013, que nos proporcionou selecionar cerca de 55 estudantes: destes um total de cinco apresentaram interesse em participar das entrevistas desta pesquisa. A todos os participantes foi entregue e assinado o termo de consentimento para pesquisa (Apêndice D)
As entrevistas com os estudantes e suas famílias ocorreram no mês de maio de 2013. A seguir, um quadro com os eventos desta pesquisa.
Quadro 07: Eventos da pesquisa.
EVENTOS PERÍODO
Conhecendo o contexto Agosto, setembro e dezembro de 2012
Observação de estudantes e ex-estudantes com o UCA na sede de SJP
Agosto, setembro, dezembro de 2012 e março, abril e maio de 2013
Visita a todas as escolas do UCA e conversa com os Gestores Escolares*
Março de 2013
Questionário socioeconômico Abril 2013
Entrevista com estudantes e famílias Maio de 2013 Fonte: Elaborado pela autora.
* O mesmo que Diretor Escolar, nesta pesquisa.
Nos tópicos seguintes apresento os resultados que emergiram a partir da pesquisa realizada em SJP.