4. Realização da prática profissional
4.3 O planeamento da aula como forma de garantir o sucesso
O planeamento da aula é um dos níveis de planeamento fundamentais no processo ensino-aprendizagem, sendo que a definição dos objectivos da aula assume, também, uma importância significativa. Segundo Bento (2003, p. 27), “a concentração no essencial afirma-se como uma exigência didáctica particularmente relevante.”
Apesar da definição dos objectivos ser um aspecto basilar do planeamento e da condução do processo ensino-aprendizagem, a minha percepção desta utilidade não se verificou imediatamente. Deste modo, os objectivos da aula nos planos realizados no início do ano lectivo caracterizavam-se pela existência de uma multiplicidade de objectivos, pouco centrados em determinado(s) conteúdo(s), o que, por sua vez, reflectia a natureza ambígua do próprio objectivo. Assim, esta dispersão, acabava por me
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impedir de verificar o progresso ocorrido na aula, tendo em conta que tinha dificuldade em centrar a minha atenção num único objectivo.
A percepção da impossibilidade de ensinar tudo ao mesmo tempo ficou para mim evidente, no decorrer da primeira reunião após a observação da professora orientadora, visto que a ausência de um objectivo central para a aula, acabou por fazer dispersar a minha actuação, não tendo sido capaz de incidir sobre um comportamento específico. Neste confronto, acabei por detectar um problema ao nível do meu planeamento, com o qual ainda não me tinha deparado. Esta constatação fez com que assumisse este aspecto como uma lacuna a superar na realização dos planos de aula seguintes.
A verificação da necessidade de centrar a minha atenção em aspectos- chave no sentido de direccionar os alunos para a aprendizagem de determinados aspectos, tornou-se manifestamente necessária. Assim, o passo seguinte consistiu em averiguar quais as necessidades reveladas pelos alunos ao longo da aula, no sentido de definir o objectivo para a aula seguinte. Começa aqui o ciclo reflexivo que me permitiu encadear de forma mais consciente, isto é, mais intencional o meu processo de planeamento.
O seguinte excerto revela esta preocupação:
“No entanto, por não ser possível ensinar tudo ao mesmo tempo, considero ser fundamental iniciar o processo pela transmissão do ritmo, de modo a que os alunos consigam realizar a figura nos tempos correctos. Só depois do ritmo e da realização das figuras estar consolidada é que será propício a passagem para as correcções posturais, visto que os alunos têm dificuldade em controlar a postura e o ritmo de forma simultânea, pelo que se torna fundamental consolidar primeiro o ritmo e só depois exercitar a postura.” (Reflexão da Aula nº 44)
A incorporação das necessidades dos alunos, tendo em conta a aula anterior, permitiu-me planear de forma diferente do que tinha feito até então. Assim, passei a definir objectivos desafiantes mas que fossem possíveis de atingir na aula. Paralelamente, passei a centrar a minha atenção naquele objectivo, sem que, com isso, descurasse o processo geral de evolução, ou seja, o todo.
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Acresce que a definição de um objectivo central por aula possibilitou-me, ainda, reflectir sobre a adequabilidade das tarefas para o fim, visando assim como verificar se, no final da aula, os alunos conseguiram atingir o objectivo pré-definido ou não.
Este aspecto é facilmente evidente na reflexão da aula, a seguir apresentada:
“Considerei fundamental que o Rui1 e a Marta1 conseguissem realizar, nesta aula, a viragem fechada, nem que para isso eu estivesse que estar com eles uma parte considerável do tempo de aula. (…) para tentar que o Carlos e a Adriana exercitassem mais vezes as viragens fechadas, sempre que estes alunos chegavam aos 25 metros e tentavam realizar a viragem, eu chamava-os e procurava que eles realizassem mais duas ou três viragens, corrigindo os erros fundamentais de cada um.” (Reflexão da Aula nº 36)
Neste excerto, é visível a preocupação tida em proporcionar aos alunos experiências que os ajudassem a atingir o objectivo fundamental daquela aula. Mais uma vez, ficou evidente a necessidade do professor ser capaz de centrar a sua atenção no essencial, possibilitando a evolução dos alunos com maior dificuldade e, simultaneamente, garantir progressão no conteúdo em causa.
Por sua vez, nas aulas em que os alunos demonstravam dificuldades em atingir os objectivos fundamentais, a alteração do planeamento no decorrer da própria aula foi a solução encontrada para que o processo ensino- aprendizagem não fosse prejudicado. O seguinte excerto elucida bem esta adaptação do plano de aula:
“Esta é uma figura que é bastante complexa (…) Por esta razão, o tempo de
exercitação para esta figura excedeu o tempo previsto para o exercício. No entanto, tendo em conta que este era o objectivo fundamental da aula de hoje, não era adequado avançar na aula, sem que os alunos entendessem como se realiza esta figura.” (Reflexão da Aula nº 47)
Outro aspecto relacionado com a centração no essencial reporta-se à contínua observação que o professor deve efectuar na aula relativamente ao nível dos alunos, no sentido de detectar as suas dificuldades. Deste modo, quando percepcionava que o objectivo central da aula estava em causa,
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procurava reformular o planeado, de forma a tentar superar a dificuldade detectada. Emergiu, assim, outra característica importante que o professor deve possuir: a capacidade de reformular o planeado.
A tomada de decisão inter-activa revelou-se decisiva para alcançar dos objectivos referidos. Este comportamento é bem evidente nos seguintes excertos:
“Após algumas tentativas, a Marta1 já conseguiu realizar a viragem fechada,
mas o Rui1 estava com a alguma dificuldade em realizar a parte final da viragem, porque não matinha o corpo fechado (…) percebi que o Rui1 precisava (…) sentir, no próprio corpo (…) a necessidade de manter o corpo engrupado durante a mesma. Assim pedi à Marta5 que o ajudasse a realizar o rolamento ventral, para ele percepcionar como o corpo se deve manter engrupado. Foi o ponto-chave que o (me) fez atingir o objectivo essencial para esta aula, pois a partir dai o Rui1 conseguiu realizar a viragem fechada.” (Reflexão da Aula nº 36)
“Penso também que a minha decisão de jogar, acabou por ser bastante positiva, visto que permitiu-me centrar a minha atenção nos alunos que ainda não tinham adquirido o comportamento táctico (identificar o espaço vulnerável do adversário) que era o objectivo fundamental da aula de hoje.” (Reflexão da Aula nº 41)
A tomada de decisão na acção, no sentido de criar novas soluções, possibilitando aos alunos com mais dificuldade, progredir na execução de determinado conteúdo, ganhou relevo na minha actuação.
Por fim, e não menos importante, a emissão de feedback revelou-se uma das ferramentas essenciais que o professor tem que utilizar para fazer chegar aos alunos uma mensagem que lhes possibilite identificar potenciais erros, ou que lhe estimule a procura da solução mais indicada para as suas dificuldades sentidas.
Assim, a utilidade do feedback no alcance do objectivo fundamental da aula, foi também alvo de reflexão, por parte de uma das colegas do núcleo de estágio, tal como evidencia o excerto.
“O feedback foi o aspecto mais positivo da aula, e que contribuiu largamente para o alcançar dos objectivos delineados para a mesma. Este objectivo nunca
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foi esquecido, nem mesmo nos jogos onde o professor esteve em prática com os alunos, visto que procurou sempre jogar com os alunos que demonstram mais dificuldades, enfatizando estas componentes críticas.” (Reflexão de observação nº 7)
Este conjunto singular de aspectos realçados anteriormente, foi fundamental para o aperfeiçoamento do plano de aula. Esta evolução no planeamento permitiu-me evoluir de um patamar, onde os objectivos delineados para as aulas eram ambíguos e gerais, para um patamar superior, onde estes se tornaram específicos e congruentes com a evolução planeada na construção da Unidade Didáctica.
Assim, a definição de objectivos desafiantes, mas alcançáveis, permitiu proporcionar aos alunos um conjunto de tarefas que lhes trouxesse a possibilidade de evoluir na execução ou interpretação dos conteúdos de determinada modalidade.
Por fim, e tendo em conta que o processo de planeamento requer uma continuidade da observação do desempenho dos alunos no decorrer das aulas, este facilitou a determinação de novos objectivos de aula para aula, possibilitando aos alunos um processo ensino-aprendizagem progressivo e evolutivo, no sentido de atingir os objectivos terminais para a modalidade (Módulo 5 do MEC).
A constatação de que a mudança ao nível do planeamento possibilitou alcançar resultados melhorados no processo ensino-aprendizagem, está bem espelhada no excerto seguinte:
“É então possível afirmar que a melhoria da definição dos objectivos definidos para as aulas de Natação (centrando-me primeiro nas distâncias e ultimamente nas viragens), permitiu que todos os alunos atingissem os objectivos definidos.” (Reflexão da Aula nº 36)
O ano de estágio mostrou-me que a concentração no essencial se afigura como a questão indispensável no sucesso da aula. Esta necessidade assumiu-se como indispensável, tendo em conta que queremos formar alunos com conhecimentos e capacidades consistentes, sendo necessário aproveitar o escasso tempo disponível (Bento, 2003).
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Paralelamente a este aspecto do planeamento, verifica-se a importância de possibilitar experiências que permitam o sucesso dos alunos na aula. Aqui, a gestão da aula assume-se também como um papel essencial no que se refere à possibilidade de conduzir os alunos a aprendizagens de qualidade. Assim, a gestão da aula, designadamente dos espaços, materiais, além das tarefas de aprendizagem, mostram-se também indispensáveis no sucesso da aula.