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volta de 1875 e vai até o ano de 1930, encontra forte influência europeia com o

objetivo de “embelezar” as áreas urbanas. De 1930 até meados de 1992 mudanças

econômicas e sociais são trazidas pela Revolução de 1930 que evidencia o capital

imobiliário como principal fator de crescimento urbano. Neste mesmo período,

enquanto a democratização da sociedade brasileira avança, na tecnocracia surge o

plano diretor abordando temas de infraestrutura e transportes, e o planejamento

integrado e superplanos, com planos diretores sem mapas que não apresentam

efetividade (BRASIL, 2013, s/p).

Neste caminho, entre 1992 a 2001 movimentos sociais em torno da reforma

urbana resultam nos Artigos 182 e 183 da Constituição Federal de 1988, sendo

regulamentados posteriormente pelo Estatuto da Cidade, ratificando em seu texto a

função social da propriedade, a participação e o planejamento, retomando a ideia do

Plano Diretor para orientar futuras ações do Município (BRASIL, 2013, s/p).

Os movimentos sociais populares em torno da reforma urbana iniciam-se na

década de 1960, quando em 1963 foi proposta uma reforma urbana nos Municípios

brasileiros no Congresso, promovida pelo Instituto dos Arquitetos do Brasil. Com o

golpe militar em 1964, os temas sobre a reforma urbana reaparecem nas décadas

de 1970 e 1980, momento em que ganharam maior visibilidade e relevância política,

articulando-se em nível nacional para elaboração de uma proposta baseada na

justiça de distribuição do espaço urbano para Assembleia Nacional Constituinte de

1986, concretizada na proposta de Emenda Popular da Reforma Urbana na

Constituição Federal promulgada em 1988 (SAULE JÚNIOR E UZZO, 2009;

CORREA E CATETE, 2011; TONELLA, 2013).

Neste passo, os diversos movimentos sociais urbanos protagonizaram as

conquistas na estruturação da Política Urbana e em seus desdobramentos,

reforçando aspectos no texto constitucional referentes à política urbana e

participação ampliada da sociedade nos processos de formatação das políticas

públicas, incentivando uma nova política e gestão nos Municípios baseada no

cumprimento da função social (SAULE JÚNIOR E UZZO, 2009; CORREA E

CATETE, 2011; TONELLA, 2013).

Neste caminho, a Constituição Federal de 1988 trouxe em seu Capítulo II, os

artigos 182 e 183 que tratam da Política Urbana e nela torna obrigatória para os

Municípios com mais de 20.000 (vinte mil) habitantes a aprovação do Plano Diretor

como instrumento de planejamento municipal norteador para o desenvolvimento e

crescimento urbano (BRASIL, 2015, p. 56).

A Constituição Federal é importante documento jurídico onde são

estabelecidas as normas fundamentais de organização do Estado e da sociedade

que nele vive e tem por finalidade estruturar o modo de exercício do poder político e

estabelecer direitos e garantias destinados à proteção dos cidadãos brasileiros, ou

seja, “permitir que uma comunidade de pessoas se organize e se estruture no

território de um país, de modo que o poder constituído para tal organização esteja

orientado a buscar o bem comum e a garantir os direitos daqueles que o formam”

(LANÇA, 2016).

O Estatuto da Cidade em 2001 veio regulamentando os artigos supracitados

da política urbana na Constituição Federal de 1988, definindo as diretrizes gerais

que devem ser observadas pelos entes federativos – União, Estados, Municípios e

Distrito Federal - “para a promoção da política urbana, voltada a garantir o pleno

desenvolvimento das funções sociais da propriedade urbana e da cidade, o direito a

cidades sustentáveis e o desenvolvimento de gestões democráticas nas cidades”

(TONELLA, 2013, s/p).

O Estatuto da Cidade foi proposto para as cidades, mas ampliada a

compreensão para os Municípios, onde todo o território do Município deve ser

assistido pelo poder público local, bem como em seu Artigo 41 tornou obrigatória a

formulação do Plano Diretor para os locais integrantes de regiões metropolitanas e

aglomerações urbanas; de áreas de especial interesse turístico, entre outros casos

(BRASIL, 2001).

A Lei 10.257/2001, Estatuto da Cidade, modificou a obrigatoriedade de que o

Plano Diretor fosse relativo à cidade para que fosse relativo ao Município, sem

alteração do conjunto de regulamentações que dariam suporte legal ao ordenamento

das duas esferas de competências em suas especificidades.

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), cidade é

considerada a “localidade com o mesmo nome do Município a que pertence (sede

municipal) e onde está sediada a respectiva prefeitura” e os Municípios

São as unidades de menor hierarquia dentro da organização político-administrativa do Brasil, criadas através de leis ordinárias das Assembleias Legislativas de cada Unidade da Federação e sancionadas pelo Governador (IBGE, 2010).

Então, apesar de o Plano Diretor original ser urbano, o PDDU, para nortear as

conquistas sociais de direito à cidade, legalmente, o desenvolvimento urbano não

contemplaria os de fora da condição de cidade, ou seja, tanto as áreas rurais quanto

as áreas periurbanas e as áreas urbanas dos demais distritos que não o da sede

municipal – a cidade.

Além de urbano e cidade não estarem equacionados, o ordenamento jurídico

que regula o desenvolvimento municipal, isto é, o Plano Diretor de Desenvolvimento

Municipal, traz o ordenamento urbano metamorfoseado em ordenamento municipal.

Desse modo, cidade, urbano e Município se confundem ou se homogeneízam nessa

regulação, enquanto o planejamento municipal se dilui no planejamento urbano

(ALENCAR, 2015).

Acresce-se à polêmica delimitação da cidade, a definição pelo mesmo

Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) do que é área rural, como “área

de um Município externa ao perímetro urbano”, e área urbana como “área interna ao

perímetro urbano de uma cidade ou vila, definida por lei municipal”.

Conforme os estudos de Veiga (2001) e Wanderley (2001) o critério

administrativo de corte físico espacial de delimitação de fronteiras utilizado nesta

definição é questionável para os fins de ordenamento do desenvolvimento municipal

devido a não atender às particularidades dinâmicas e identitárias dos Municípios

brasileiros (RAMOS, PEREIRA, ALENCAR, 2017).

O Plano Diretor, segundo dispõe o Estatuto da Cidade, abrange todo o

território do Município, estabelecendo limites às atividades desempenhadas pelo

particular e pelo Poder Público e buscando a eficácia da gestão pública municipal

nas esferas ambiental, social, de infraestrutura, econômica e cultural.

Para dirimir dúvidas acerca da problematização aqui levantada, “o Plano

Diretor pode ser definido como um conjunto de princípios e regras orientadoras da

ação dos agentes que constroem e utilizam o espaço urbano” (BRASIL, 2002, p. 40).

Para Flávio Villaça (1998, p. 2) o Plano Diretor:

Seria um plano que, a partir de um diagnóstico científico da realidade física, social, econômica, política e administrativa da cidade, do Município e de sua região, apresentaria um conjunto de propostas para o futuro desenvolvimento socioeconômico e futura organização espacial dos usos do solo urbano, das redes de infraestrutura e de elementos fundamentais da estrutura urbana, para a cidade e para o Município, propostas estas definidas para curto, médio e longo prazos, e aprovadas por lei municipal (VILLAÇA, 1998, p. 2).

Na perspectiva de Villaça (1998), o desenvolvimento urbano deveria

responder a diagnóstico multiescalar que o nortearia; acrescente-se a isso que é

possível afirmar que Plano Diretor deve retratar os anseios e necessidades da

população local por meio da participação e do diálogo com as diversas esferas de

governo e iniciativa privada possibilitando a criação, construção e manutenção de

uma gestão pública decorrente desta interação com o objetivo de proporcionar o

desenvolvimento e planejamento municipal.

Os instrumentos de planejamento municipal são apresentados no Estatuto da

Cidade, em seu Artigo 4º, inciso III, dentre eles, o Plano Diretor que determinará

objetivos, estratégias e ações do Município, reconhecendo a participação dos

sujeitos sociais e a articulação entre os poderes, tornando legais os planos enquanto

instrumentos de planejamento, gestão e fiscalização de ampla abrangência. O plano

diretor também traz como objetivo integrar os diversos aspectos ambientais e

identificar riscos para assim aproveitar as potencialidades socioeconômicas e

ambientais locais continuadamente e a longo prazo (GODECKE, 2015).

Neste caminho, conforme a Constituição Federal de 1988 e Estatuto da

Cidade – Lei 10.257/2001, em 2007 São Felipe elaborou o seu Plano Diretor que

denominou participativo, abrangendo “as funções da vida coletiva, em que se

inserem habitação, trabalho, circulação e lazer, e visa a melhoria da qualidade de

vida da comunidade local” (SÃO FELIPE, 2007, s/p), em que:

Para elaboração do Plano Diretor, o Município de São Felipe contou com uma equipe técnica especializada da Comissão Nacional dos Municípios (CNM, 2007) que realizou um levantamento de dados, com a participação da equipe técnica local (Secretarias da Prefeitura Municipal de São Felipe), que auxiliaram na organização e sistematização das informações e no processo de negociação e reflexão para a tomada de decisões (OLIVEIRA, 2012, p. 61).

Apesar do auxílio técnico especializado do CNM no processo de elaboração

do Plano Diretor Participativo do Município de São Felipe e da equipe técnica da

Prefeitura Municipal, conforme orientações das capacitações do Ministério das

Cidades (PREFEITURA SÃO FELIPE, 2007), o plano não modificou o perímetro

urbano e nem integrou o rural, bem como não criou regras para o ordenamento do

uso do solo.

O Plano Diretor não inclui mapas e nem demarcação e descrição para as

ZEIS, deixando a elaboração de inúmeros outros instrumentos essenciais para o

desenvolvimento do Município a cargo da gestão municipal que não concretizou com

os prazos estipulados no Plano Diretor, mesmo constando em seu bojo os seguintes

documentos direcionados ao urbano ou que apenas beneficiariam a sede do

Município:

I – O Plano de Ação, II – Os Relatórios de Leituras da Realidade Municipal (Técnica, Comunitária e Compartilhada) e as atas das Reuniões realizadas com as respectivas listas de registros de presenças, fotos e filmagem; III – O Relatório de Seleção e Pactuação das Propostas com as atas das reuniões e audiências realizadas; IV – Mapas; V – Planta da Cidade com delimitação: a) perímetro urbano; b) evolução urbana; c) hierarquia viária; d) equipamentos institucionais; e) uso do solo; f) território municipal; g) localização e inserção regional; h) infraestrutura urbana. (OLIVEIRA, 2012, p. 65).

O Plano Diretor deve ser constituído pela dinâmica social e ambiental local,

estabelecendo um retrato da história e das transformações do território conforme os

anseios e necessidades do Município e sua população. Assim sendo, ao Município

de São Felipe, preponderantemente rural, cabe o reconhecimento do rural como

parte do todo e a relação agrária e ambiental, uma vez que estão vinculadas e os

indivíduos que há muito convivem e “mexem com a terra” criam uma relação de

pertencimento e possivelmente de proteção, capaz de potencializar atividades

econômicas propiciando o desenvolvimento local sustentável.

O Plano Diretor deve representar a realidade daquela sociedade e precisa ser

constituído por um processo contínuo de planejamento decorrente das relações

sociais, das necessidades e anseios da população, respeitando o curso histórico e

suas transformações, revelando um Plano Diretor como fruto da história viva e real

do local (VILLAÇA, 1993, p. 1 e 2); o planejamento deve representar a realidade do

Município e não impor parâmetros do que seria o padrão de desenvolvimento

hegemônico sem se analisar as peculiaridades do local. Adotar o padrão

hegemônico globalizante dificilmente contemplará o cotidiano da população, que

deverá ser beneficiada economicamente, socialmente e ambientalmente.