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3 METODOLOGIA E DISCUSSÕES

3.4 O PERCURSO METODOLÓGICO ADOTADO: O MODELO ADDIE

3.4.3 O Plano Individual de Trabalho Docente – PIT

Iniciamos este tópico com uma discussão quanto ao planejamento docente no que se refere a sua concepção. Podemos tratar o ato de planejar na educação de duas formas: ato burocrático de registrar a proposta de trabalho do semestre letivo ou um ato de reflexão, que faz parte do cotidiano voltado para realidade que emerge de uma criticidade do labor docente. Segundo Fusari (1990) há diferença entre o planejamento e o plano de ensino ressaltando que o compromisso do docente referente ao planejamento deve ser maior do que consta no documento denominado, em geral, como plano de ensino.

Um profissional da Educação bem-preparado supera eventuais limites do seu plano de ensino. O inverso, porém, não ocorre: um bom plano não transforma, em si, a realidade da sala de aula, pois ele depende da competência- compromisso do docente. Desta forma, planejamento e plano se complementam e se interpenetram, no processo ação-reflexão-ação da prática social docente (FUSARI, 1990, p.46).

O ato de conceber o plano de ensino pode se tornar penoso se o profissional docente tiver o perfil de apenas realizar a atividade pedagógica e não registrá-la, dessa forma, a realização das atividades se concretizam mas não há registros que indiquem essa ações e nem tão pouco é possível perpetuar o processo educativo, incentivando ações “marginais” que serão vivenciada apenas por um único grupo, criando uma proposta individual.

Brito (2015) descreve diferentes concepções, diferentes tendências pedagógico- filosóficas do planejamento de ensino: tradicional, tecnicista, crítico-dialético (planejamento participativo), e o planejamento de ensino como estratégia de política cultural. Dentre as diferentes concepções, a que vai ao encontro da educação profissional se caracteriza com a dialogicidade e a participação como fundamentos para um plano de ensino crítico.

Conhecendo as perspectivas de planejamento de ensino, o sujeito da sociedade contemporânea tem possibilidades de movimentar sua realidade, perscrutando sobre o que deseja concretizar no ambiente do ensino, para além do que se defronta cotidianamente no contexto escolar. Tanto uma visão crítica – que promove uma dialogicidade – como um planejamento de ensino como política cultural permitem, como condição intrínseca de sua realização, a participação não só na elaboração, mas também nas decisões a serem tomadas. Dessa forma, é preciso avançar no entendimento do que é um planejamento de ensino e desconfiar dos lugares e construções fixas de subjetividades, para centrar esforços em perceber as maneiras como definimos e como nos emocionamos com as produções do nosso tempo, e ainda como se integram tais definições e emoções ao currículo escolar e especificamente ao planejamento de ensino (BRITO, 2015, p.230).

No Instituto Federal do Espírito Santo o PIT é um documento que mapeia informações sobre o planejamento das atividades no que se refere ao ensino, pesquisa e extensão, é um documento auto declarável. Este documento foi atualizado recentemente juntamente com a resolução do conselho superior nº 18 de julho de 2019 (Brasil, 2019) que regulamenta as atividades docente no âmbito do Ifes. Houve um processo de consulta pública e uma comissão foi instituída para este trabalho

O processo de construção deste regulamento, no seu modelo atual, se deu diante de discussões, consultas públicas, porque é um documento político que rege administrativamente as atividades laborais docentes, esta mesma perspectiva infere- se ao formulário denominado PIT, de tal forma que, também esteve em pauta a sua elaboração. Essa discussão teve como base dentre outros documentos a portaria do SETEC/MEC nº 17 de 11 de maio de 2016 (Brasil; MEC,2016) que estabelece diretrizes gerais para o regulamento das atividades docentes no âmbito da educação profissional científica e tecnológica.

A resolução do conselho superior nº 18 de julho de 2019 (Brasil,2019) dentre outros detalhes atribui carga horária máxima e mínima para atividades de ensino, de pesquisa e extensão e discrimina quais são essas atividades dentro de cada vertente em separado. O documento descreve o que é o PIT no capítulo I, do artigo 1º, no inciso V: instrumento de planejamento de cada docente, que contém a relação das atividades docentes que lhe competem e o detalhamento da distribuição de carga horária por atividade, entre outras informações.

Foi adotado, neste trabalho, o banco dos PITs, disponível online, para consulta a esse corpo documental. O ano de 2019/2 foi selecionado para esta verificação, pois era o período mais atual, ao qual os planos já haviam sido executados ou revistos, de

acordo com cada necessidade e, por trazer um modelo de formulário atualizado, visando atender às diretrizes da instituição de acordo com a resolução 18/2019. Apesar do problema central da pesquisa se dar sobre o planejamento das ações indissociáveis, nesta pesquisa, encontramos dificuldades em visualizar, de fato, essas ações no documento institucional PIT. Segundo Reimer e Zagonel (2014, p.51) percebemos "que no interior da estrutura física e administrativa, construída pela universidade para que as ações tenham um caráter legal, é muitas vezes difícil enxergá-las como algo único e construído articuladamente". Assim, buscando suporte em Filatro (2008, p. 36), compreende-se que a fase da análise contextual "consiste em examinar a dinamicidade entre os diferentes níveis contextuais a fim de identificar as necessidades ou problemas de aprendizagem , caracterizar o público-alvo e levantar restrições técnicas, administrativas e culturais", ou seja, percorrendo esses dados institucionais que permeiam as atividades docentes é possível que as necessidades de aprendizagem desses docentes emerjam, além dos tensionamentos que envolvem as discussões acerca da indissociabilidade, quanto à produção do produto educacional e, também sua implantação e uso.

A partir dos dados disponíveis, então, partimos para o mapeamento das ações de ensino, pesquisa e extensão, pois elas são a base do tripé institucional e isso nos indicou se os docentes transitam nessas três vertentes.

Inicialmente, realizei um levantamento do quantitativo de professores que realizam as atividades alvo desta investigação e os resultados demonstraram, a partir da autodeclaração dos sujeitos, que do universo de 80 professores, 40 deles desenvolvem atividades exclusivamente de ensino, 16 atuam na área da pesquisa e ensino, e 16 são envolvidos com a extensão e ensino, no campus Colatina. Desse universo, o número que autodeclara desenvolver atividades nas três vertentes ensino, pesquisa e extensão é de 8 professores, conforme Gráfico 4:

Gráfico 04 - Atividades pedagógicas docentes do Ifes - Campus Colatina

Fonte: Elaborado pela autora (2020).

Para que a atividade de pesquisa e extensão sejam atribuídas carga horária a elas, segundo o Regulamento n. 18/2019, é preciso que as atividades estejam devidamente institucionalizadas, conforme regulamentações específicas do Ifes. As Pró-Reitorias de ensino, pesquisa e a extensão realizam os cadastramentos das ações, em bancos de dados da instituição, o cadastramento, o acompanhamento e a avaliação são distintos para cada vertente, cada qual é regido por uma regulamentação própria, elaborada por seus pares nas respectivas câmaras, composta por membros de todos os campi do Ifes .

Para auxiliar na compreensão dos dados que constam no PIT buscamos, também, informações na Plataforma Nilo Peçanha (PNP), é um ambiente virtual de coleta, validação e disseminação das estatísticas da Rede Federal de Educação Profissional Científica e Tecnológica. E tem por objetivo reunir dados relativos ao corpo docente, discente, técnico-administrativo e de gastos financeiros. Dessa forma foi possível extrair informações quanto as horas de trabalho dos docentes do Campus Colatina e confrontar tais dados com a literatura. A plataforma traz dados quanto às horas de trabalho dos professores do campus, sendo que 77 professores atuam sob o regime de dedicação exclusiva (DE). Segundo Maciel (2017, p. 136) esse regime traz aspectos positivos quanto à proposta de materialização da indissociabilidade, pois apesar das limitações nas instituições de ensino, públicas, “ – principalmente de

financiamento – ainda representa algo relevante em termos das possibilidades dos docentes poderem dedicar-se ao ensino, à pesquisa e à extensão”.

O Campus Colatina, levando em consideração a carga horária dos professores, apresenta um cenário favorável para que os docentes realizem ações que envolvam além do ensino, a pesquisa e a extensão. Segundo Maciel (2017, p. 148), “via de regra, para se aplicar o princípio da indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão a universidade vai requerer que o professor esteja num regime de trabalho de tempo integral para poder exercer essas três funções”. Além da dedicação exclusiva ou trabalho de tempo integral para este autor a pós-graduação consolidada e a titulação acadêmica também fazem parte do referencial para constituir maior possibilidade de materializar a indissociabilidade. Compreender que tais aspectos fazem parte do caminho a percorrer para uma proposta de indissociabilidade no campus Colatina contribui para entender a complexidade que orbita sobre o tema, pois apesar do número de professores que atuam em regime integral, bem como, o elevado número de professores mestres e doutores, tais fatos não determinam número elevado de ações de pesquisa ou extensão.

O PIT se caracteriza como um instrumento político pedagógico que é constituído em um período histórico, mas que traz heranças de uma educação fragmentada. Segundo Mazelli (2011, p. 218), “a concretização da associação entre ensino, pesquisa e extensão na prática acadêmica, de fato, tem se mostrado difícil, pois o que se observa é que, via de regra, o trabalho continua fragmentado entre ensinar, pesquisar e fazer extensão”.

Nesse contexto, é possível levantar três pontos: o primeiro, situa-se no PIT em sua materialidade. O formulário não permite enxergar o estabelecimento da indissociabilidade devido à fragmentação entre as vertentes; o segundo ponto situa- se na dificuldade em se afirmar que a indissociabilidade não ocorra, pois são contados para fins de carga horária apenas as ações institucionalizadas e é bastante possível que as ações triúnas ocorram na informalidade do dia-a-dia do campus. Os editais de livre iniciativa, ou seja, o registro dessas ações no âmbito dos institutos federais é recente por parte das pró-reitorias e departamentos de pesquisa e extensão dos campi institucionais e, por isso, para conhecimento da comunidade podem estar sendo conhecidos tardiamente, ou até mesmo ocorrendo à margem dos procedimentos; e,

ainda, constata-se, de acordo com a Gráfico 04 poucos professores abarcam em seu planejamento pesquisa e extensão, mesmo que em ações separadas, dentro de um mesmo período letivo.

Um planejamento na perspectiva da integração, quanto à propostas de práticas pedagógicas, é uma problemática na EPT, em especial no ensino médio integrado, pois:

A escolha por um arranjo depende de várias variáveis como as condições concretas de realização da formação, o conhecimento e a maturidade profissional do professor, o perfil da turma e o tempo disponível, mas, decisivo é o compromisso docente com as ideias de formação integrada e de transformação social (ARAÚJO, 2014, p.71).

A proposta de formação integrada carece de profissionais comprometidos em romper com a cultura de fragmentação entre o fazer e o pensar, ou seja, entre a teoria e prática. A proposta da indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão como elemento integrador para compor a proposta de um currículo integrado não se define como solução, mas como caminho possível para agregar valor, pois suas características corroboram para a integração:

Assim sendo, a cada período letivo as atividades integradoras podem ser planejadas a partir das relações entre situações reais existentes nas práticas sociais concretas (ou simulações) e os conteúdos das disciplinas, tendo como fio condutor as conexões entre o trabalho e as demais dimensões acima evidenciadas (SANTOMÉ, 1988 in ARAÚJO,2014, p.77).

O planejamento docente se constitui o início de um processo de ensino-aprendizagem que pode se estabelecer em apenas uma atividade, em um período letivo, ou se perpetuar por meio de programas e projetos de fluxo contínuo e para que se perpetue, para que sejam de fato institucionalizados e se desenvolvam permanentemente é preciso um planejamento integrador.

A indissociabilidade como prática educativa se constitui de natureza integradora, isso é possível devido a aproximação de suas características com os fundamentos almejados para construção de um currículo integrado:

Essas práticas com fundamentos interdisciplinares e embasadas no currículo integrado buscam produzir os conhecimentos almejados no currículo integrado, sendo elas, a formação omnilateral, politécnica e o trabalho como princípio educativo, por meio da articulação entre teoria e prática, o que não significa apenas distribuir disciplinas técnicas e propedêuticas no currículo. As escolhas destas práticas não devem ser neutras, mas embasadas na

concepção de um projeto de transformação social, na busca de emancipação e autonomia dos estudantes para que sejam capazes de refletir criticamente e intervir na realidade social e política (SANTOS et.al, 2018, p. 188).

Segundo Libâneo (2013, p.13) a pedagogia é a "ciência que investiga a teoria e a prática da educação com vínculos com a prática social global" e, sendo assim, o planejamento docente na educação profissional se faz necessário a vincular práticas pedagógicas que articulem a teoria do ofício à sua efetivação na prática em meio a contextos reais da sociedade. E essa relação, segundo Morais (2017) teoria e prática, se constitui como um problema na formação do docente e isto é levado para seu fazer profissional. Outras dificuldades somadas a isto, nos conduzem a alguns desafios que permeiam a concretização da indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão, principalmente nos moldes proposto de integração e de superação da dicotomia teoria-prática.Tratamos neste trabalho a indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão uma realidade mais que possível, uma realidade desejável, mas de difícil compreensão para constituir-se enquanto prática institucional no planejamento docente do Instituto Federal do Espírito Santo - campus Colatina. Levando em consideração o contexto do planejamento das ações de ensino, pesquisa e extensão no Ifes - Campus Colatina e a dificuldade de enxergar as ações triunas no plano individual de trabalho dos professores, bem como, a identificação em menor número dos professores nas ações de pesquisa e extensão e, tendo em vista que o planejamento pedagógico se dá em virtude do projeto pedagógico de curso, utilizamos o documento como fonte de pesquisa para verificar se há indícios e características da proposta de indissociabilidade no contexto da proposta de currículo integrado.

3.4.4 A indissociabilidade e o campus Colatina: as percepções sobre a