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3 CONFIGURAÇÃO IDENTITÁRIA NA DIÁSPORA

3.1 Conceitos de identidade

3.1.2 O poder da identidade para Castells

No segundo volume da Era da Informação (2013), Castells discorre sobre o poder da identidade. O autor inicia seu raciocínio sobre a construção da identidade recuperando o que o sociólogo americano Craig Calhoun (1994) fala sobre autoconhecimento: um processo de construção que parte da necessidade de ser conhecido pelo outro de um modo específico. O processo diferencia o Eu e o Outro. Na raiz da noção de identidade, temos a distinção: para saber ser algo, é preciso distinguir o que não é.

Castells faz uma diferenciação entre papéis e identidades: os papéis “são definidos por normas estruturadas pelas instituições e organizações da sociedade” (CASTELLS, 2013, p. 22-23). São os papéis que organizam funções, de certo modo, de fora (sociedade) para dentro (ator social). Já as identidades organizam significados. Mesmo quando formadas a partir de instituições dominantes, é necessário que os atores sociais as internalizem para que de fato assumam significados.

Ao tratar da representação do “eu” na vida cotidiana, o sociólogo Erving Goffman (2002) propõe o conceito de fachada, semelhante ao de Weber para atores sociais. A vida é compreendida como um grande teatro, um grande palco. O sujeito dispõe de fachadas para sobreviver e essas fachadas formam a identidade: “fachada, portanto, é o equipamento

expressivo de tipo padronizado intencional ou inconscientemente empregado pelo indivíduo durante sua representação” (GOFFMAN, 2002, p. 29).

As interações no cotidiano podem “tirar” do sujeito determinadas fachadas. Trata-se de um conceito interessante para se pensar os perfis de usuários no Facebook. É importante enfatizar que, segundo Goffman, fachada não é máscara. A fachada é necessária, a máscara pode ser confundida com a atmosfera do falso. Ambas são usadas na interação com o outro.

Focando nos atores sociais, Castells apresenta a identidade como “o processo de construção de significado com base em um atributo cultural, ou ainda, um conjunto de atributos culturais inter-relacionados, o(s) qual(is) prevalece(m) sobre outras fontes de significado” (CASTELLS, 2013, p. 22). Complementarmente, o autor lança um olhar mais amplo, saindo do indivíduo e indo para o grupo, e define identidade como a “fonte de significado e experiência de um povo” (CASTELLS, 2013, p. 22). Na sociedade em rede, Castells entende que uma identidade primária estrutura as demais identidades para os atores sociais, uma identidade que se sustenta no decorrer do tempo e através do espaço.

Castells esclarece que, do ponto de vista sociológico, “toda e qualquer identidade é construída” (CASTELLS, 2013, p. 23); este processo de construção se dá em um contexto determinado, estando, portanto, sujeito às relações de poder que o configuram (como, por que e para que determinadas identidades são construídas só pode ser entendido em relação ao contexto histórico em que surgem). Castells apresenta, então, três formas de construção de identidades - identidade legitimadora, identidade de resistência e identidade de projeto – que originam diferentes dinâmicas de sociedade. A identidade legitimadora parte de instituições dominantes na sociedade e tem como objetivo expandir e assentar o domínio sobre os atores sociais; dá origem a uma sociedade civil, na acepção gramsciana do termo99. A identidade de resistência parte de atores sociais em posições desvalorizadas e tem como objetivo, como o próprio nome diz, resistir à lógica dominante. Trata-se de uma identidade defensiva, de “exclusão dos que excluem pelos excluídos” (CASTELLS, 2013, p. 25), que resulta, segundo Castells, em comunidades. Finalmente, a identidade de projeto surge quando os atores sociais conseguem construir uma nova identidade que muda sua posição na sociedade e, no processo, transforma a estrutura social. Uma identidade de projeto pode nascer de uma identidade de resistência e, eventualmente, tornar-se dominante.

                                                                                                               

99 Sociedade civil, em Gramsci, diz respeito “(a)o conjunto de instituições responsáveis pela elaboração e propagação de ideologias enquanto concepções de mundo, compreendendo o sistema escolar, a Igreja, os partidos políticos, as organizações profissionais, os sindicatos, os meios de comunicação, as instituições de caráter cientifico e artístico, etc.”. Ver MORAES, D. Comunicação, Hegemonia e Contra-hegemonia: a contribuição teórica de Gramsci. In: Dossiê Comunicação e Política. Revista Debates, Porto Alegre, v.4, n.1, p. 54-77, jan.-jun. 2010

É interessante pensar as diferentes formas de construção de identidade no contexto da sociedade em rede e em particular no caso dos indivíduos diaspóricos. Castells entende que a sociedade em rede se fundamenta em uma divisão entre o local e o global: “a sociedade em rede está fundamentada na disjunção sistêmica entre o local e o global para a maioria dos indivíduos e grupos sociais” (CASTELLS, 2013, p. 27). Até o período que se entende por modernidade, o poder estabelecido em uma dada sociedade eventualmente teria de lidar com forças antagônicas e de resistência, provocando ajustes na estrutura social ou mesmo levando a novas estruturas. Giddens afirma que, na modernidade tardia, as influências globalizantes se fazem mais presentes:

Quanto mais a tradição perde terreno, e quanto mais reconstitui-se a vida cotidiana em termos da interação dialética entre o local e o global, mais os indivíduos se veem forçados a negociar opções por estilos de vida em meio a uma série de possibilidades (GIDDENS apud CASTELLS, 2000, p. 27).

Castells parte de Giddens mas defende que, na sociedade em rede, “a busca pelo significado ocorre no âmbito da reconstrução de identidades defensivas em torno de princípios comunais” (CASTELLS, 2013, p. 27). Deste modo, se na modernidade a identidade de projeto podia se constituir a partir da sociedade civil, Castells afirma que, na sociedade em rede, essa identidade só pode se desenvolver a partir da resistência comunal. Ao pensar no indivíduo diaspórico, essa mudança delineia um cenário mais dinâmico: na modernidade, para se firmar como um ator social na sociedade de imigração, o migrante precisava organizar e compor associações na sociedade civil para deter representatividade; enquanto isso, a distância dificultava ou impedia por completo qualquer participação ou influência nos acontecimentos na sociedade de emigração. Ao migrante, restava um limbo de não-cidadania. Com o rápido avanço das TICs e a conformação da sociedade em rede, como posto por Castells, sem dúvida, essas representações na sociedade de imigração continuam tendo seu valor. Porém agora são atravessadas pela formação de comunidades virtuais através das quais o migrante também pode alcançar representatividade, com maior agilidade e, pelas próprias características da rede mundial de computadores, com maior alcance. Paralelamente, as TICs também expandiram as possibilidades de participação na sociedade de emigração.

É importante, no entanto, entender que o cenário mais dinâmico não implica diretamente uma realidade mais acolhedora ou um momento particularmente positivo para o indivíduo diaspórico. Fala-se aqui de potencial para mudança, sem deixar de considerar que ainda há muito que percorrer para que o migrante se distancie do papel de não-cidadão. Até

porque há várias conjunturas que impactam sua aceitação e sua participação em uma nova sociedade, como veremos nos itens seguintes.