1. Apresentação
- Motivo da entrevista: pesquisa acadêmica - Apresentação do pesquisador e da pesquisa
- Objetivo da entrevista: conhecer sua experiência e suas percepções como migrante no Brasil - Tempo previsto: aproximadamente 40 minutos
- Método: gravação de áudio e anotações (ou apenas anotações, caso o entrevistado prefira) - Termo de consentimento: garantia para ambos, pesquisador e entrevistado. Exigência do
comitê de ética da universidade. -
2. Dados básicos
- Nome do entrevistado (inclusive nome/tratamento de preferência) - Idade do entrevistado
- Origem (região e cidade no Haiti) - Quando chegou ao Brasil
- Onde mora no Estado do Rio de Janeiro (cidade/bairro) -
3. Experiência migratória
Introdução do tópico: “Primeiro, gostaria que você falasse um pouco sobre como é ser um migrante.”
- Esta é sua primeira experiência morando fora do Haiti? - O que o/a levou a decisão de migrar?
- Por que escolheu o Brasil? - Como foi sua vinda para o país?
- Perguntas complementares (se não receber informação suficiente na resposta à pergunta anterior): como veio para o Brasil (avião, terrestre, qual rota); se tinha contatos aqui (onde, grau de relacionamento)
- Quais eram suas expectativas em relação ao Brasil? Foram correspondidas? - O Rio de Janeiro era o destino pretendido? Se não, questionar qual era o destino. - Deixou família no Haiti?
- Com que frequência contata a família/os amigos que ficou/ficaram no Haiti? - Que meios utiliza para contatar família e amigos no Haiti?
Conclusão do tópico: "Como avalia sua experiência como migrante no Brasil?”
4. Presença/atividade nas redes sociais
Introdução do tópico: “Agora gostaria de saber como você usa a internet e as redes sociais" - Com que frequência acessa a Internet?
- Como acessa? É fácil para você acessar a rede? - O que você mais usa da Internet?
- E redes sociais? Quais?
- Como chegou ao grupo Haïtiens Carioca no Facebook?
- Participa de outros grupos de migrante haitianos no Facebook? Quais? - Como participa do grupo?
- Qual seu propósito/interesse em participar do grupo? - Costuma postar ou apenas observa o que postam?
Conclusão do tópico: “Até que ponto participar do grupo Haïtiens Carioca muda algo em sua experiência como migrante no Brasil?”
5. Relevância do Grupo Haïtiens Carioca para a configuração identitária
Introdução do tópico: “Gostaria de tratar de mais um assunto: participar de uma rede social na internet afeta o modo como você se vê?"
- Na sua opinião, ser haitiano no Brasil é diferente de ser estrangeiro de outra origem?
- Qual das três palavras melhor representa o grupo Haïtiens Carioca para você: Solidariedade, Socialização ou Cidadania Comunicativa? Explique.
Conclusão do tópico: “Na sua opinião, como o grupo Haïtiens Carioca ou outros grupos de que participa podem contribuir para sua integração no Brasil?"
6. Encerramento
Introdução do tópico: “Já vamos encerrar a entrevista. Você gostaria de acrescentar alguma coisa? Alguma observação, alguma pergunta?”
APÊNDICE J – Transcrição das entrevistas em profundidade Entrevista 1
Data: 5 de fevereiro de 2015
Local da entrevista: residência do entrevistado. Travessa Canastra, Inhaúma, Rio de Janeiro. Horário: a partir de 13h
Duração: 1:10:10 (parte I) e 0:30:24 (parte II) Pseudônimo do entrevistado: Jean
Parte I
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Pesquisadora: Vou começar, saber com você, assim, o básico: como é que você fala o seu nome em crioulo
haitiano? Como é que é a pronúncia, direitinho?
Jean: Meu nome é [...].
Pesquisadora: E aí o primeiro nome, na verdade, é… Jean: [...].
Pesquisadora: E [...] é o nome da família. Jean: É o nome da família.
Pesquisadora: E como é que você gosta de ser chamado?
Jean: [...]. Só que para muitos brasileiros, eles não conseguem falar (som do “u" em crioulo haitiano, semelhante ao som em francês) aí agora eu deixo passar [...] (com o som de “u" em português).
Pesquisadora: É tranquilo, né? Então tá bom, então vou ter o cuidado de falar Jean. E quantos anos você tem,
Jean?
Jean: Eu tenho 29 anos.
Pesquisadora: Vinte e nove anos. E de onde você é, onde você nasceu no Haiti? Qual região? Jean: Eu nasci em Porto Príncipe.
Pesquisadora: Em Porto Príncipe, mesmo? Certo. E morava lá ou morava em outra região do Haiti?
Jean: Morava em Porto Príncipe, eu cresci lá. Acabei conhecendo outros lugares mas não pra morar. Só pra visitar mesmo. Eu conheci bastante lugares (sic) no Haiti. Eu fiz meu ensino médio em Porto Príncipe. Eu fiz uma faculdade lá também. Eu tava estudando Sistemas… eu tô tentando traduzir para você.
Pesquisadora: Tudo bem. Mas qualquer coisa você fala em crioulo que eu tento chegar perto. Jean: Ok. Assim, Gestão de Sistema Informatizado.
Pesquisadora: Ah, ok. Isso, ok.
Jean: (É) como eu posso traduzir. Mas como eu estava num processo de estudo (intercâmbio) desde 2008 pra vir pra cá e durante esse processo - o processo começou em 2008, 2010 -, eu fiz a viagem e vim pra cá após o terremoto.
Pesquisadora: Então você estava lá no terremoto? Jean: Sim
Pesquisadora: Em Porto Príncipe?
Jean: Exatamente. Eu tava no terremoto e essa experiência foi péssima. Pesquisadora: Eu já ouvi um pouco (sobre a experiência).
Jean: É.
Pesquisadora: Você tava na rua, você tava em casa? Como é que é?
Jean: Não, naquele dia eu fava na igreja. Eu sou cristão também, eu sou, assim…eu tava na igreja, ouvindo o pastor falando e tal e de repente começou o maior barulho. Muita gente no momento achava que era uma caminhão passando.
Pesquisadora: É verdade.
Jean: Só que eu, naquele momento, eu vi que, do jeito que a terra tava tremendo não poderia ser um caminhão. Realmente tem um barulho de caminhão passando mas é um barulho mais o tremor. Aí eu falei: “que isso? Não pode ser só um caminhão”.
Pesquisadora: Um caminhão muito grande!
Jean: Exatamente. Aí começou a aparecer as fissuras nas paredes e tal. E eu fui o primeiro a sair da igreja porque eu tava sentado exatamente no último banco e logo após tive essas fissuras e eu saí. E fui, eu fiquei parado no meio da rua, não podia ficar na calçada porque tinha paredes, eu tive medo das paredes caírem. Aí aconteceu mas ninguém na igreja se machucou.
Pesquisadora: Poxa! Que benção, né?
Jean: Exatamente. Mas meu medo começou no meio da rua porque tanto à esquerda quanto à direita, tanto de cima, quanto do norte, do sul, de leste a oeste, tava chegando pessoas com poeira na cabeça, com sangue, …
Pesquisadora: Machucadas.
Jean: Exatamente. E aí começou o meu medo. E eu comecei a ficar arrepiado quando eu tava passando perto de uma escola e na frente da escola tinha alunos mortos e tal. E meu arrepio era ouvir os gritos desses alunos debaixo dos escombros. Aí eu fiquei, nossa!, muito traumatizado com esse negócio.
[5’20”]
Pesquisadora: É difícil, né? Você não tem, não sabe o que fazer ou como fazer, né?
Jean: Exatamente, você não sabe o que fazer porque, tentando ajudar a tirar escombro pra tirar umas pessoas, você corria o risco de morrer também, porque logo após da, do terremoto, teve vários tremores, entendeu? Depois.
Pesquisadora: Eles chamam de aftershock.
Jean: Exatamente. Aí, isso, eu não podia, eu tive o receio de correr esse risco e tal. Aí o que acontece é que… Pesquisadora: Você já estava com passagem marcada?
Jean: Não, não, não. Ainda não. Aí eu fava com minha mãe e meu irmão mais novo, ele está aqui no Brasil comigo também, e… a gente foi pra casa pra verificar se estava tudo, se todo mundo estava bem. Minha avó tava doente e só andava de cadeira roulant…
Pesquisadora: De rodas.
Jean: De rodas, tal e eu não podia, eu queria ver se a casa não caiu e tal. Aí eu fui lá, realmente a casa não caiu. Só que ela estava apavorada, estava assustada e perguntava o que tava acontecendo, tal, tal, tal, tal. Só que a gente não queria apavorar mais ela, a gente deu uma palavra, explicando pra ela. A gente não falava que era um terremoto, entendeu?
Pesquisadora: Tudo que tava acontecendo.
Jean: A gente falava algumas coisas pra acalmar ela. Mas o...desde...trinta minutos depois, apareceu um amigo meu. Ele tava saindo da escola, tal, voltou da escola, nem foi pra casa dela. Foi pra minha casa pra saber que tá tudo bem.
Pesquisadora: Arrã.
Jean: Quando ele chegou, me deu um abraço. Aí falando: “Cara, Jean, você não viu o que eu vi. Porque eu vi lá onde eu tava, era pior porque (do que) tava acontecendo perto da igreja porque ele também é da igreja. Ele tava no ônibus, saindo da escola, e, de repente, o ônibus não conseguia mais andar. A parte da frente subia e descia e tal. Aí começou a força do terremoto.
Pesquisadora: Eu nunca peguei um tão forte. Eu peguei 5 (Richter) só, 5 pontos. Que já é suficiente pra você
ficar meio zonzo. Mas eu nem consigo imaginar.
Jean: Sei, sei. Então, era terrível a sensação. Aí, o que... a gente vai lá... a gente ficou conversando um tempo pra saber o que tá acontecendo e tal. Aí a gente chegar num momento, se não ajudar, é como você não é um ser humano, entendeu? Você se sente, você vê a tristeza, você vê as coisas acontecendo, só que se escolher não ajudar, você realmente...você não é qualquer ser humano. Você realmente não é uma pessoa, entendeu?
Pesquisadora: Chega uma hora que você não consegue... Jean: Exatamente.
Pesquisadora: Você vê as pessoas desesperadas, você vê criança, vê tudo. Jean: Exatamente. Você vê e não quer ajudar...aí, realmente.
Pesquisadora: Ou seja, você acabou se envolvendo nesse processo.
Jean: Exatamente. Naquela noite, eu e ele saímos na rua pra ajudar as pessoas. Teve pessoas que realmente conseguiram sair, ajudando a sair. Mas tem outros que realmente era difícil... o que me assustou mais... essas coisas que eu tô falando, tem pessoas que eu já dei entrevista que eu não contei essa parte porque eu preferi não entrar nessa parte. Porque tem gente, você tá ajudando, e durante a ajuda, a pessoa acaba morrendo, ali, na sua frente. Você imagina, eu não sou médico, eu não estou acostumado a ver essas coisas.
Pesquisadora: Lidar com isso...
Jean: Exatamente. Aí no momento que você tá ajudando, você vê que a pessoa tá dando o último suspiro. Era muito triste. E naquela noite, eu andei muito, andei muitos quilômetros. Para uma pessoa que já foi pro Haiti, eu saí, eu deixei Delmas 65, eu passei... eu andei pela rua principal de Porto Príncipe, Delmas, e andei pelo...eu andei na rua Toussant L’Ouverture que é a rua que vai chegar no aeroporto. Eu andei, continuei até chegar na, em um lugar que se chama Bon Repos. É um bairro . Para uma pessoa que conhece o Haiti vai ver que eu andei muito (risos).
[11’31”]
Jean: E tudo isso era meu objetivo, era o objetivo de ver como que eu posso ajudar. Chegando lá, eu tava muito cansado. Eu tava com fome e nada tava aberto porque não tinha luz, não tinha... não tinha nada funcionando. Se eu precisava comer alguma coisa é só com pessoas que tão vendendo coisas na rua. Não tem mercado aberto. E naquele momento, minha sorte é que eu tinha pensado de levar minha carteira (risos).
Pesquisadora: Podia comprar alguma coisa.
Jean: É, eu tinha um pouco de dinheiro, acabei comprando. Aí mas a gente dormiu na rua, num terreno vazio que tava lá. A gente colocou um lençol, um lençol...uma coisa pra não ter o contato direto com a terra, com o chão e
tal. E a gente colocou um negócio aí em cima e a gente deitou. Só que eu não consegui, não consegui dormir porque...
Pesquisadora: Imagina!
Jean:...porque durante esse tempo deitado, teve vários tremores. Aí eu sentia o coração da terra, eu sentia o tremor direto! Entendeu? (risos) Quer dizer, o contato direto com o negócio. Esses não eram fortes mas... Pesquisadora: Você já tá... num sobrou nada de cabeça pra lidar com isso.
Jean: Exatamente. Era muito, ah,... frustrante esse negócio.
Pesquisadora: E aí como é que foi, você passa por isso, uma situação traumática e aí tomar a decisão de manter
o seu plano de vir pra cá?
Jean: Aí o…depois de tudo isso, eu, no dia seguinte, nos dias depois, eu continuei ajudando. Vendo o que eu podia fazer. Tem coisas que eu vi lá, realmente é bastante, é muito triste. Eu…o maior, o que mais me anima nessa história é que, depois de vários dias. Eu ouvia tal pessoa que era intelectual, o cara que é engenheiro tá morto, o cara que é da, que é jornalista tá morto, o cara que é músico tá morto, entendeu? Muita gente morta, eu pensei: “então, se eu não, se eu deixar isso acabar comigo, não vai ter mais pessoas pra ajudar mais pra frente”. Porque a maior perda do país não era os carros, os prédios mas são as pessoas que poderiam contribuir na reconstrução do país. É a maior perda que o país perdeu. E é isso que me anima…
Pesquisadora: De sair, né?
Jean: Exatamente. De sair, de procurar estudar e voltar para ajudar na reconstrução do meu país. E é isso, eu estou estudando nesse momento, eu faço…
[15’44”]
Pesquisadora: Você está terminando a sua graduação então?
Jean: Eu deveria terminar só que eu cheguei num momento no estudo onde eu quero estudar uma... eu quero fazer uma mudança de curso. Porque o que eu estou estudando nesse momento realmente seria muito útil pro meu país só que, já que eu tinha um pouco de conhecimento nessa área, e essa área eu não fiz muita questão de continuar. Eu quero passar a cursar, a fazer outro curso que poderia completar meu conhecimento, que poderia me ajudar em outra área. Porque em questão de informática, tem muita coisa que eu já sei porque eu já tenho um conhecimento legal. Eu fiz um curso como já falei, Gestão de Conhecimento Informatizado e o que estou estudando nesse momento não sinto muito essa... não sinto, não tenho essa vontade de continuar. Eu pretendo fazer Relações Internacionais porque eu acho que isso tem mais a ver com o meu perfil.
Pesquisadora: E como é que é isso? Você está aqui como bolsista da universidade? Jean: Isso. Eu tô aqui como…
Pesquisadora: No intercâmbio?
Jean: Isso, como intercâmbio mas não é aquele intercâmbio onde você passa um tempo no exterior e volta pra continuar o estudo. Mas é um tipo de intercâmbio onde você sai do país pra fazer o curso inteiro e depois volta para ajudar o seu país.
Pesquisadora: Aí você está pensando em fazer essa mudança…
Jean: Exatamente. Eu pretendo fazer essa mudança de curso, fazer Relações Internacionais que u acho que mais no meu perfil. Porque eu sou um tipo que...
[pausa em 18’03”, retoma em 18’16”]
Jean: Eu tenho essa vontade de ajudar as pessoas, eu gosto de conhecer novas culturas, eu gosto…o que… eu gosto dessa coisa de valorizar a cultura do outro.
Pesquisadora: Entendo totalmente.
Jean: (risos) Recentemente eu fui no Ano Novo chinês. Pesquisadora: Ah, eu vi. Você postou.
Jean: Exatamente (risos). Eu coloquei essa foto no Facebook. Eu nunca vi como que era o comportamento dos chineses antes mas, quem foi nessa festa, uau!, era impressionante. Tudo, o jeito deles, sabe? Cara, eu gostei muito. E no Brasil também, eu gostei do jeito que o povo se manifesta . Eu gosto como, quando eles querem algo, eles se unem pra conseguir. É como… no Haiti, é diferente. É só pra mostrar uma diferença…
Pesquisadora: Isso pra mim é bem importante. Fale.
Jean: Por exemplo, no Haiti, se, por exemplo, do lado político: você pode ver, o povo pode ter alguns problemas com esse presidente. Aí você vai ter a oposição, entendeu? Vai se unir de alguma forma pra tentar derrubar o presidente. Só que essa oposição também um tá oposto do outro, ao outro. É que eles se unem só pra aquele momento mas, se, por exemplo, eles conseguem derrubar o presidente, você vai ver, nessa oposição, tem brigas, entendeu? Vários lugares. No Brasil, é um pouco diferente. Você consegue ver durante... essa época de... época presidencial...
Pesquisadora: De eleições.
Jean: De eleições e tal, você vê o que, a Dilma tava na frente e aí os outros tavam atrás. Tinha Dilma, Aécio e tal, ok. Os outros perceberam que não vão conseguir. Aí eles resolveram fazer... juntar com o outro partido e tal, pra poder conseguir algo. Só que eles fizeram uma, assim... um.. eles se unem pra fazer isso, é um acordo que eles fazem.
Pesquisadora: Isso.
[21’15”]
Jean: Aí, conseguindo, se o Aécio tivesse eleito, eles não iriam assim derrubar o acordo logo, assim, entendeu? Eles iriam continuar vendo até fazer um desacordo, se posso falar assim. Mas lá no Haiti, não. É direto. Você, se você passa, então acabou o acordo (risos). Então no final é praticamente algo semelhante, a história. Aí eu acabei conhecendo vários, várias pessoas aqui também no Brasil.
Pesquisadora: Você chegou
Jean: Eu cheguei em 2010, eu cheguei em fevereiro de 2010, dezenove. Pesquisadora: Você veio direto pro Rio?
[22’15”]
Jean: É, saí de Porto Príncipe, porque naquela época, naquela época, por causa do terremoto, parou os voos
comerciais. Aí eu não tive como comprar uma passagem pra sair do país. E eu nem podia ir pra República Dominicana também pra comprar uma passagem. Eu tive que fazer uma viagem aí eu usei avião militar pra poder sair do Haiti. Eu saí, eu fui para... eu vim direto para, pro Brasil. Minha primeira escala era Boa Vista na Rondônia. Aí era uma escala só que aí é assim, do Haiti pra Boa Vista, o tempo que eu demorei
pra chegar em Boa Vista é menor do que Boa Vista até Rio de Janeiro. Pesquisadora: Mas é normal isso (no Brasil).
Jean: Aí...
[pausa em 23’40”, retoma em 23’58”]
Pesquisadora: Então tem muito isso aqui no Brasil, não tem voo direto. Boa Vista não é uma capital grande,
então não interessa fazer voo direto. Então o cara faz de Boa Vista pra Manaus, ou de Boa Vista pra São Luís, ali no Norte, e aí vem descendo, tem um monte de parada. Ou seja, você levou mais tempo de lá pra cá.
Jean: Exatamente! Aí, pô, mas é... foi legal, a gente se divertiu muito. Porque, naquele período, naquela época, era como... dez pessoas.
Pesquisadora: Você veio com um grupo de dez pessoas?
Jean: Exatamente. Nesse grupo eu acho que tem três aqui no Rio comigo e os outros estão espalhados. Tem um em Belo Horizonte, um em Manaus...não, tem dois em Belo Horizonte e um no João Pessoa, dois Recife, ah...ah, tem um em São Paulo. Ah, eu não lembro.
Pesquisadora: Vocês se conheciam antes ou vocês ficaram se conhecendo na viagem?
[25’18”]
Jean: Por causa do processo na embaixada, toda hora a embaixada tava chamando a gente para trazer
alguns documentos e ele fazia isso muito bem. Ele não fazia um por um. Ele chamava todos, entendeu? Aí para todo mundo conhecer um o outro, entendeu? Porque a gente vai estudar juntos. Aí acaba conhecendo o outro durante o processo. Quer dizer, desde 2008 até 2010, a gente teve um conhecimento bacana antes de fazer essa viagem.
Pesquisadora: Que legal! Você tem, você tinha uma rede de amigos, então, né? Jean: Exato.
Pesquisadora: Aí quando vocês chegaram aqui, saíram do avião, e aí?
Jean: Ah, aí começou, começou o maior problema porque a gente não falava português. Teve alguns no meio, alguns que falavam um pouco - o meu amigo Bernardin, ele falava um pouco; o cara que tá em João Pessoa, o Denison, falava também. Eu falava um pouco. “Bom dia, tudo bem”, se falar isso comigo eu podia entender e responder. Mas assim, quando eu cheguei no restaurante aqui, né? (risos) Dá um jeito, com os gestos: “Aí, quero isso aqui”. Eu fiquei apontando. Aí eu, quando o garçom falar pra mim “É com salada?”, eu não sabia o que ele tava falando. Aí eu continuei apontando. Já que eu tava com o fome e o cara ficava assim, não conseguia entender, eu falei: “Hum, hum, hum”. Só pra não ficar assim, querendo... discutir, eu ficava assim com medo. Pesquisadora: Então, quando vocês chegaram aqui, tinha alguém desse programa pra receber vocês ou não? Jean: Não, não.
Pesquisadora: Porque era um programa de intercâmbio. Não tinha ninguém pra ajudar vocês no processo? Jean: Não. No processo, para ajuda, quando a gente chegou, tinha um brasileiro – melhor dizendo, três brasileiros que estavam sabendo da nossa viagem. Porque eles que foram o, Zé Renato, o Renato, o João Batista. A gente conheceu ele lá no Haiti. Ele chegou a dar aula de Português pra muita gente lá, inclusive eu. Eu peguei uma aula básica com ele e tal. E ele encontrou a gente no aeroporto e levou a gente no hotel. Ficou no hotel. Foi ele que ajudou a gente a ficar numa república, porque eu fui estudar idioma português na UFF.
Pesquisadora: Ah, olha só! Que legal!
Jean: Aí eu morava em São Domingos, perto da universidade. Aí eu fiquei mais ou menos um ano em Niterói. Pesquisadora: Nessa época, só pra eu entender, você estudava só o português?
Jean: Só o português. Porque pra poder cursar, eu precisava passar no curso de português. Se eu não tivesse passado, eu não iria poder cursar também. Aí fiz prova, passei e consegui fazer o curso.