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O Poder de Resistência

No documento Dissert.Mestrado_20-08-2002.pdf (páginas 48-56)

Capítulo 2 Aporte teórico

2.1. As relações de poder

2.1.1. O Poder de Resistência

Considerando a indicação de que um dos papéis da educação consiste em atender e legitimar as relações de poder existentes na estrutura social, também é considerado que ela oferece um espaço para o processo das transformações sociais. Teóricos reprodutivistas possuem em comum a consideração de que a escola enquanto instituição propaga valores e normas das classes dominantes. Mas na escola também está a possibilidade de rupturas, contestações e mudanças, enfim, existem elementos que produzem e não apenas reproduzem.

Entre vários autores, Apple (1989) e Giroux (1986) abordam a reprodução social e cultural a partir do interior das escolas, constatando que a resistência representa uma forma de manifestação da inconformidade ao exercício do poder instalado nas relações sociais. A escola não pode ser compreendida

somente com a função de manter a estrutura social vigente mas pode instaurar uma arena de manifestações e resistência através da reflexão e participação.

A escola seria ao mesmo tempo reprodução e produção, repetição e ruptura, manutenção e renovação, dominação e resistência. O processo educacional atuaria de um lado, para manter a organização social, ao mesmo tempo que oferece condições para a mudança. Privilegiar uma das características em detrimento de outra demonstra a dinâmica que é própria da sociedade que representa o movimento entre a continuidade e a ruptura de determinada organização.

Foucault (1995) refere-se às possibilidades produtivas da educação ao relatar o nascimento dos dispositivos disciplinares, entre os quais a escola. O autor menciona o aspecto negativo da repressão e a produção de certos efeitos desejados, tais como corpos dóceis e disciplinados. Aborda a disciplina não como aspecto de proibição e repressão de comportamentos indesejáveis, mas como mecanismos planejados para permitir determinados resultados visados, necessários para a instauração da ordem e de novas relações sociais. Esta noção induz ao horizonte produtivo da educação que pode ser utilizada para outros propósitos que não sejam de dominação e submissão.

Para Giroux (op. cit.), não é todo comportamento de oposição que pode ser considerado manifestação de resistência à autoridade e dominação às normas culturais definidas, valores e determinações sociais. Ao contrário, pode ser expressão de poder que é alimentada pela dominação e reproduz sua mais poderosa gramática. Manifestações e comportamentos de oposição, da mesma forma como os sujeitos que os expressam, são produzidos por discursos e valores contraditórios. Assim, as resistências dizem respeito aos conflitos, ambivalências e contradições que são geradas em múltiplas situações do contexto escolar.

À análise do poder como uma relação que envolve forças que se chocam e se contrapõe, Foucault (1995), condiciona a existência de liberdade por parte de quem exerce o poder e sobre os quais é exercido, para possibilitar a resistência. A capacidade de se rebelar, de se insurgir e resistir caracteriza a própria relação de poder. A partir do momento em que existe uma relação de poder, há uma possibilidade de resistência.

“O poder é exercido somente sobre sujeitos livres e apenas enquanto são livres. Por isso, nós nos referimos a sujeitos individuais ou coletivos que são encarados

sob um leque de possibilidades no qual inúmeros modos de agir, inúmeras reações e comportamentos observados podem ser obtidos” (Foucault,1988).

O autor situa a liberdade como elemento que torna as pessoas capazes de se revoltarem dentro da rede de poder em que suas vidas estão inseridas e da qual fazem parte. A resistência e a manifestação de revolta não consiste na destrutividade, mas no exercício natural de contraposição e na conjugação de forças que produzem a mudança.

“O poder é uma estrutura de ações; ele induz, incita, seduz, incomoda, facilita, dificulta; ao extremo, ele constrange ou, entretanto, é sempre um modo de agir ou ser capaz de ações. Um conjunto de ações sobre outras ações” (Foucault, 1999).

Apoiado na concepção relacional de poder, Burbules (1987), compreende que as relações que envolvem o poder não são simplesmente escolhidas mas compõe intercâmbios tornados necessários sob os quais as pessoas se unem. As relações humanas são manifestações de poder sustentadas pela existência de conflitos de interesses. Nestas relações, as ações dos envolvidos nestes conflitos, variam entre os eixos extremos

de possível interação, ou seja, há uma expressão invisível de consentimento e de dominação. Nas relações de poder há uma seqüência de manifestações começando pela dominação de um lado e pelo consentimento no outro, com uma gama de graus intermediários de submissão relutante ou voluntária. Enfatiza o autor, que nestas relações existe geralmente uma tensão entre submissão e resistência, porém, nem todas as situações de manifestação do poder conservam a tensão, pois o desejo de dominar acaba por destruir a relação e as próprias pessoas.

Para identificar as relações de poder nas escolas é preciso questionar onde estão os conflitos de interesses. Em princípio, a educação envolve de maneira subjetiva e dinâmica essas relações. A aprendizagem de um aluno não implica necessariamente em desvantagem ou submissão de outro, assim como os professores podem representar a autoridade legítima não sendo impositores e autoritários. Onde não há conflito de interesses, o poder não se manifesta de maneira explícita. No entanto, o espaço escolar é propício para desencadear conflitos de interesse e manter permanentemente condições para o exercício das relações de poder.

Burbules (op. cit.), ainda destaca que a resistência por si não ameaça as relações de poder. Na instituição escolar pode

ser identificada uma notável capacidade de incorporar, cooptar, desviar e neutralizar atos de contraposição. A resistência pode ser constituída por ações, comportamentos e atitudes que demonstram se a pessoa está ou não de acordo com as determinações sociais, regras e normas culturais definidas. Nem todo comportamento de oposição pode ser considerado manifestação de resistência à autoridade e à dominação.

O ato de educar implica inferir na vontade do aluno, ao submetê-lo à uma obediência, contrariando a princípio seus desejos. Submeter-se a uma autoridade significa ser dirigido. É por meio dela que os alunos absorvem comportamentos para garantir a apropriação do conhecimento.

Para Davis & Luna (1991), a autoridade torna os alunos cúmplices, cabendo ao educador encaminhá-los para a autonomia de pensamento e ação. Esta autonomia é produto de internalização de regras e valores que se constituem na sociedade mais ampla e que pela autoridade do professor podem ser experimentados no processo pedagógico. A forma como essas regras e valores são trabalhados pela autoridade, ou seja, como a autoridade e o poder se expressam na relação pedagógica, traduzem a maneira de pensar dos sujeitos do

processo educativo, estruturadas em suas vivências e experiências no cotidiano escolar.

Furlani (1995), refere-se ao processo educativo e trata a autoridade como uma qualidade atribuída a uma pessoa pelo reconhecimento da habilidade e competência que ela possui, bem como à posição que ocupa numa instituição. Em nossa sociedade é essa autoridade conferida ao educador, o que legitima o poder que a escola lhe concede. A autoridade, enquanto agente do poder, qualifica as pessoas e institui a reprodução das relações de poder. Na atividade pedagógica, a relação que existe entre professor e aluno subsiste tanto pela força quanto pela autoridade e não cabe questionar se uma autoridade é legítima ou não, mas reconhecer sua existência.

Segundo Epstein (1993), nos casos em que ocorre a obediência, provavelmente ela é favorável ou gratificante, ou mais freqüentemente porque o preço da desobediência é maior do que o da obediência. O cumprimento de uma ordem pode beneficiar, preferencialmente o mandante, o que é mais comum, o que obedece ou a ambos. Delimitar o exercício do poder à situações de emissão e obediência a ordens ou mandatos, deixa aparentemente de lado ocasiões mais latentes em que as ordens

são menos visíveis ou concretas, mas nem por isso menos reais seus efeitos.

“A capacidade à desobediência é, em princípio, sempre possível, mas a probabilidade de não obedecer é inversamente proporcional às conseqüências não desejáveis. Estas são mais ou menos previsíveis no caso do desacato a uma ordem emitida dentro do campo de competência de uma autoridade legalmente investida ou diante de uma ameaça de violência. As conseqüências não desejadas podem referir-se à subjetividade quando se trata de valores ou crenças previamente introjetadas. Neste caso o desconforto subjetivo pode ser tão ou mais real do que aquele decorrente de sanções objetivas” (Epstein, op. cit.).

Ao mesmo tempo que o emissor de uma ordem colhe os benefícios e vê atendidos os seus interesses, têm geralmente do destinatário da ordem uma compensação para obedecer. Nestes casos está implícita a pressuposição de que o mandante detém informações, possui saber superior e conhece o que beneficiará aquele que recebe a ordem.

A capacidade de persuadir já pelos sofistas era considerada uma arte e que supera de longe todas as outras artes pois sujeita os indivíduos pelo conhecimento e não pela violência. Não podendo ou não dispondo de meios para o exercício do poder à base de sanções, o agente utiliza a persuasão. Igualmente a retórica, utilizada como eficiente meio de convencimento tornou-se um recurso imprescindível para articular as relações de poder.

Na medida em que o conhecimento desempenha um papel importante para favorecer a quem detém o poder de persuadir, pode servir de antídoto à persuasão e estimular uma reação crítica, principalmente no processo de manipulação e enganação dos indivíduos.

“Com o saber se desarma o manipulador. Pois quem sabe que é manipulado e quem conhece as técnicas empregadas pela manipulação, sempre as descobrirá com mais presteza e segurança e evitará a manipulação” (Epstein, op. cit.).

No documento Dissert.Mestrado_20-08-2002.pdf (páginas 48-56)

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