Universidade de Brasília Faculdade de Educação
Mestrado em Educação Tecnologias na Educação
As Relações de Poder no Ensino Presencial e no Ensino a Distância
Aloísio Fritzen
Dissertação apresentada ao Programa de Mestrado em Educação da Faculdade de Educação da Universidade de Brasília sob a orientação do professor Dr Gilberto Lacerda santos, como requisito parcial à obtenção do grau de Mestre em
Educação
Universidade de Brasília Faculdade de Educação
Mestrado em Educação Tecnologias na Educação
D i s s e r t a ç ã o d e m e s t r a d o
As Relações de Poder no Ensino Presencial e no Ensino a Distância
Au t o r :
Aloisio Fritzen
B a n c a E x a m i n a d o r a :
Professor Dr. Gilberto Lacerda Santos (orientador) Universidade de Brasília
Professora Drª Raquel de Almeida Moraes (examinadora) Universidade de Brasília
Professor Dr. Mauro Pequeno (examinador externo) Universidade Federal do Ceará
S u p l e n t e
Professora Drª Vânia Lúcia Quintão Carneiro (examinadora suplente) - Universidade de Brasília
R e s u m o
propósito fundamental desta dissertação é analisar e compreender as manifestações de poder que ocorrem na relação professor/alunos no ensino presencial e no ensino a distância. O estudo revelou que no convívio humano as relações de poder estão presentes na evolução da própria história e representam a organização das pessoas na sociedade. O processo de formação dos indivíduos é influenciado pelo modelo social vigente e, ao mesmo tempo, as instituições de ensino oferecem possibilidades de resistência e transformação da realidade na qual está inserido. Para compreender o exercício do poder, mais especificamente na relação professor/aluno, foram pesquisados dez alunos e quatro professores do Sistema Faesa de Educação de Vitória no Espírito Santo. Os participantes integram simultaneamente atividades presenciais e a distância. As entrevistas, que antecederam à aplicação do questionário, foram realizadas com o objetivo de aproximar os participantes do tema. A partir das informações obtidas, constatou-se que as relações de poder entre professor e alunos predominam no ensino presencial. O espaço de sala de aula permite manifestações de poder mais explícitas. Os mecanismos utilizados pelo professor para exercer o poder sobre os alunos nesta modalidade de ensino estão baseados no controle através do discurso, gestos e
regulamentos. O ensino a distância, por sua vez, não está isento desse controle e pode manifestar-se pela observação do número de acessos, tempo de conexão, tipo de resposta e links
Abstract
T
he main purpose of this dissertation is to analyse andAg r a d e c i m e n t o s
lhando para o passado, muitas pessoas e
instituições mereceriam estar registradas neste
espaço.
Com destaque, aos meus pais que não tiveram o privilégio de avançar nos estudos, o que não lhes impediu de olhar para o futuro e compreender a possibilidade de ser promissor aquele que sonha, idealiza, caminha...
Ao professor orientador Profº Dr. Gilberto Lacerda Santos,
pela constante exigência e apoio.
À Professora Drª Raquel Moraes pelo acompanhamento e
sugestões.
À professora Hilda Lobo da Silva pela atenção e valiosas
recomendações.
À Sabrina Batista Garcia pela presteza e dedicação na
Em especial à minha família - Leane, Ismael e Sarah - que
sempre esteve próxima, ao compreender a ausência nos
“Ninguém é, propriamente falando, titular do poder; e, no entanto, ele sempre se exerce em determinada direção, com uns de um lado e outros do outro; não se sabe ao certo quem o detém; mas se sabe quem não o possui”.
Índice Resumo
Abstract
Agradecimentos
Lista de Gráficos
Lista de Tabelas
Introdução,
Capítulo 1 O problema da pesquisa,
1.1. Relevância do estudo, 1.2. Objetivos,
Capítulo 2 Aporte teórico,
2.2. O poder ideológico na relação educativa, 2.2.1. A transposição do poder ideológico para a
prática educativa,
2.2.2. A relação educador x educando, 2.2.3. A comunicação educativa,
2.3. Relações interativas e o ensino a distância 2.3.1. A utilização integrada das tecnologias 2.4. Do poder transmissor à dinâmica dialógica 2.4.1. Indicações para a superação da relação de
poder no Ensino presencial e a distância
Capítulo 3 Metodologia de pesquisa
3.1. Coleta de dados
3.2. Análise dos resultados 3.2.1. Das entrevistas
3.2.2. Do questionário
3.2.2.1. Dados de identificação dos respondentes 4.2.2.2. Das respostas dos pesquisados
Conclusão
Referências Bibliográficas
Lista de Gráficos
Gráfico 1 Distribuição dos sujeitos por faixa etária
Gráfico 2 Distribuição dos sujeitos por escolaridade
Gráfico 3 Distribuição dos sujeitos por disciplina que
estuda/ ministra
Lista de tabelas
Tabela 1 Distribuição dos sujeitos por atividade
Tabela 2 Distribuição dos sujeitos por faixa etária
Tabela 3 Distribuição dos sujeitos por gênero
Tabela 4 Distribuição dos sujeitos por escolaridade
Tabela 5 Distribuição dos sujeitos por disciplina que
s relações de poder estão presentes no contexto histórico da humanidade, construídas pela experiência de vida dos diferentes grupos sociais. Para Foucault (1995), o poder é inerente às relações humanas e está associado ao modelo social vigente, representado pela concepção e organização da própria sociedade. Aspectos econômicos, sociais e culturais, somados aos meios de comunicação e à dinâmica das instituições de ensino, permitem identificar a incidência do poder nas relações sociais.
De modo mais amplo, as relações de poder podem ser percebidas, no âmbito da sociedade, mas também estão relacionadas a situações mais específicas da formação social, como na escola. O poder, tanto na sociedade quanto na escola, neste particular, na relação que se estabelece entre professor e alunos, apresenta uma perspectiva de compreensão do funcionamento das instituições. Resende (1995), considera que o poder acompanha os indivíduos ao longo de suas vidas ao afirmar que “ter poder e submeter-se a ele cobrem, assim, as preocupações e obsessões dos seres do nascimento à morte,
pois todo grupo social pode ser considerado como um feixe de
relações de poder”. Ainda, segundo Ponce (1982), “o homem enquanto homem é social, isto é, está inserido num ambiente
histórico do qual não pode ser separado”.
A escola, na sociedade capitalista, tem se caracterizado por um modelo autoritário que gera o individualismo, a competição e a dependência, cujas conseqüências mais visíveis manifestam-se no bloqueio da criatividade, na distância entre teoria e prática e na restrição do espaço para a efetiva participação e construção da cidadania. Saviani (1995) reforça esta posição ao vincular o surgimento do Estado à legitimação da estrutura social em favor da classe dominante.
“o poder era respaldado pela educação imposta pela
classe proprietária e deveria cumprir as finalidades de
ampliar e consolidar a condição de domínio dessa
classe. Por isso, o ideal pedagógico já não poderia ser
o mesmo à todos e, portanto, tem a missão de impringir
aos dominados a aceitação das desigualdades” (Saviani, 1995).
de educação. Diversas teorias e práticas buscam afirmar posições sobre conteúdos mais ajustados para uma sociedade reivindicada como ideal. No entanto, a ruptura com modelos autoritários ainda presentes na educação, demonstra uma caminhada lenta.
O processo de transposição da lógica do sistema de educação para modalidades inovadoras, utiliza metodologias, conteúdos e discursos que justificam a relativização dos resultados, enquanto não forem acompanhadas de uma nova concepção de homem e de sociedade. No contexto escolar estão refletidas as dimensões e significados para a compreensão histórica e social do próprio homem. A educação é tomada como base responsável pela difusão do pensamento desejado pelo sistema de relações econômicas e sociais. Vale afirmar que o modelo educacional representa as relações manifestadas pelo ser humano na sociedade.
e das exigências político-ideológicas das classes que estão no poder.
A prática pedagógica tradicional, segundo Freire (1999) se caracteriza pela transmissão de conteúdos e considera o aprender uma atividade de memorização ou repetição das informações fornecidas pelo professor, sofre críticas a partir das novas concepções de ensino e aprendizagem, que atribuem ao professor a função de agente facilitador, enquanto o aluno assume papel mais ativo no processo de construção de conhecimento.
razões diversas, têm dificuldade de acesso ao sistema de formação presencial.
Muitos educadores resistem à adoção de uma nova postura solicitada no contexto virtual, persistindo nos hábitos, regulamentos e controles praticados no ensino presencial. O grande desafio para o professor consiste em romper com a prática centralizadora que desencadeia relações alienadas e autoritárias, e passar a desenvolver um processo de formação baseado nas relações interativas.
Na educação a distância o recurso tecnológico é acrescido ao processo de ensino e aprendizagem, somando-se aos componentes já inerentes ao ensino presencial, ou seja, professor, aluno e o conteúdo. A utilização do computador como recurso intermediário da relação professor/aluno, possibilita o acompanhamento além da sala de aula e implica mudança de mentalidade e de atitude do professor que atua como mediador, enquanto o aluno assume, com maior autonomia, a busca de conhecimento.
manifestam nas instituições escolares, especificamente entre professor e alunos Os sujeitos envolvidos tecem um conjunto de idéias na busca de explicação e no intuito de construir convicções em torno do tema. Diante da ausência de um conhecimento sistematizado e diretamente aplicável na atividade educacional, o presente estudo acena com a perspectiva de entendimento do exercício do poder que acompanha a relação professor/aluno e como esta relação de poder se manifesta no ensino a distância.
Percorrer a dimensão do poder na busca de compreensão dos fatos que ocorrem no contexto escolar, justifica-se pela inserção desse tema nas diferentes áreas da organização social. A prática educativa reflete o desenvolvimento social, assim, torna-se dependente do sistema de relações que regem os indivíduos na sociedade. O presente trabalho visa estudar as formas e a repercussão do poder na prática educativa e compreender a manifestação desse poder através de comportamentos e atitudes dos educadores.
fenômeno, contribui para aproximar a compreensão dos fatos e das relações que se estabelecem no cotidiano de suas vidas e no mundo que os cerca. Situar a atividade dos educadores, inserida nas complexas relações inerentes à manifestação de poder e estimular a comunicação entre si para elaborar comportamentos inovadores, constitui também razão para o presente estudo. A reação e o comportamento manifestados por professores e alunos, somado à própria experiência ao longo da formação acadêmica e atividade profissional na área da educação, são aspectos que subsidiam a compreensão das relações de poder que envolve a prática educativa.
O interesse pelo presente estudo fundamenta-se no pressuposto de que existe uma limitação por parte dos educadores para a compreensão do sentido e da influência do poder nas relações sociais e na prática educativa, representado na ação docente no ensino presencial e a distância.
Identificados estes aspectos, a questão a ser abordada situa-se nas relações de poder que ocorrem entre professor e alunos no ensino presencial e em que medida também se manifestam no ensino a distância.
A estrutura do trabalho, além da introdução e conclusão, segue com três capítulos: o problema da pesquisa, o aporte teórico e a metodologia.
O primeiro capítulo é dedicado à delimitação do contexto da temática proposta e o desenvolvimento dos objetivos e argumentos que justificam o interesse pela compreensão das relações de poder.
educativas e o ensino a distância; do poder transmissor à dinâmica dialógica.
As relações de poder, na visão de Foucault (1995) não estão concentradas apenas nas situações de confronto mas ocorrem de forma anônima em que não se sabe exatamente a sua origem. W eber (1970), define poder como probabilidade de impor a própria vontade numa relação social, mesmo contra resistências. No âmbito da educação, o poder está associado às normas, procedimentos e se manifesta nas relações interpessoais adotadas pela instituição de ensino. A escola, enquanto legitima as relações de poder da estrutura social em defesa dos valores e normas da classe dominante, também oferece espaço para a resistência e a mudança.
alunos. A educação, de certo modo, é influenciada pela sociedade, que fornece um modelo a ser desenvolvido, ou seria a educação que cria o modelo para a sociedade na qual está inserida? Para Gramsci (1984), a classe dominante exerce de forma hegemônica a função de monopolizar as instituições, especificamente a escola, para através dela, difundir sua concepção de mundo. A escola está encarregada de suscitar a colaboração e o consenso entre a classe dominada para impedir a circulação de contra-ideologias e minar as resistências. Paulo Freire (2000), explica que a educação utiliza a domesticação para reproduzir o modelo de sociedade vigente. Em sentido contrário, a educação baseada no processo dialogal de ensino, fortalece a visão transformadora da sociedade. Evidentemente, são dois modelos que apontam para metas opostas, direções contrárias, mostrando o conflito, entre a mudança e a permanência.
a mensagem. A expansão do ensino a distância fortalece o argumento de que o professor passa a adotar uma postura mediadora. No entanto, pode ser verificado no contexto virtual que persistem as estratégias, regulamentos e as relações alienadas construídas no processo de ensino presencia.
O terceiro capítulo apresenta os aspectos metodológicos da pesquisa, a caracterização da instituição pesquisada, a coleta de dados e a análise dos resultados. Propõe ainda, indicações pertinentes à superação das relações de poder no ensino presencial e no ensino a distância.
Capítulo 1
O problema da
momento histórico evidencia profundas transformações sociais, econômicas e tecnológicas. No contexto educacional, segundo Demo (2001), a velocidade da informação provoca novas estratégias para a construção de conhecimento, voltada para o desenvolvimento pessoal e profissional visando atender a inserção no mercado de trabalho. Nesse ritmo acelerado de inovações, os ambientes de aprendizagem vêm sendo dotados de recursos tecnológicos, mesclando modalidades de ensino presenciais e a distância. Em ambas as modalidades, o professor tem um papel fundamental, não só porque é essencial como orientador, mas sobretudo porque torna-se ator importante na emancipação do aluno para a construção de conhecimento. Nesse processo de interatividade, a relação entre professor e alunos pode constituir-se de forma centralizadora, onde o professor assume a prática retransmissora dos conteúdos ou, também, podem ser desenvolvidas atividades dinamizadoras, tornando o aluno sujeito participante na busca de conhecimento.
À luz dessas considerações, a origem do presente estudo está relacionada à reflexão sobre as experiências com o
cotidiano escolar. Como educador, a trajetória profissional permite vislumbrar os mecanismos que permeiam as relações de poder no contexto das instituições de ensino. Fortaleceu-se também a compreensão de que a dinâmica do poder na esfera escolar é inseparável da estrutura econômica e política da sociedade (Althusser, 1985).
Para Freire (1992), as instituições de ensino são suscetíveis aos conflitos e diálogos e se caracterizam simultaneamente pela dinâmica transformadora e conservadora. Na prática educativa, os procedimentos que envolvem relações de poder são freqüentemente revestidos de cumplicidade e tratados de forma velada, como se a instituição tivesse reservas para expor ações de controle.
Lidar com o fluxo do poder nas mais diversas formas no processo educativo, requer uma percepção acurada. A comunicação oral e gestual, aparentemente neutra e considerada de menor importância, pode explicitar interesses e comportamentos vigentes na estrutura organizacional da instituição de ensino.
deste estudo constitui-se, portanto, na investigação das manifestações de poder que o professor exerce sobre os alunos no ensino presencial e se existe transposição dessas relações para o ensino a distância.
2.1. Relevância do estudo
No sistema de educação, as relações que se estabelecem, têm sido foco de crescente atenção para estudiosos, visando compreender e qualificar o processo de ensino e aprendizagem. As transformações sociais provocam mudanças de comportamento, cujos reflexos podem ser observados no ambiente escolar. Neste espaço ocorre a possibilidade de reelaboração do pensamento e das ações através do questionamento e da reflexão. Esta interação desencadeia incertezas que, por sua vez, fortalecem o debate sobre padrões e metodologias vigentes.
A relação entre professor e aluno não permite isenção ou neutralidade. O processo de ensinar passa pelo modelo que o professor utiliza para relacionar-se com os seus alunos. É nestes aspectos, no trato, na atitude e no comportamento diante dos alunos, que o professor referencia o seu perfil docente. É no
ou o caráter dialógico, que se caracteriza pela dinamicidade do processo de construção de conhecimento (Freire, 1999).
A utilização de recursos tecnológicos possibilita diversificar as metodologias de ensino. Os alunos, por outro lado, manifestam-se pela aprovação ou inconformidade em relação ao desempenho docente que passa a ser avaliado permanentemente e que permite ao professor reelaborar os procedimentos em sala de aula.
construídas no percurso da própria formação, instalados como verdades difíceis de serem superadas.
Os fatos que ocorrem atualmente são profundamente dinâmicos e trazem para o seio da escola situações que não devem ser ignoradas, verdades que não podem ser encobertas. Ao contrário, necessitam ser discutidas à luz dos conteúdos e de acordo com o nível permitido pelos alunos (Resende, op. cit.).
Lidar em parceria com os recursos tecnológicos parecia resolver toda esta questão. No entanto, a persistência do professor em revestir os procedimentos de ensino com valores arraigados ao longo da formação, explica, em grande parte, as reivindicações sistemáticas feitas pelos alunos para que se instaure uma relação educativa mais interativa, dinâmica e contextualizadora.
personalização dos roteiros de estudo, como síntese da aprendizagem flexível e aberta através das novas tecnologias interativas?
Ou estaria o modelo virtual de ensino também sendo carregado com o perfil e as características que apóiam o professor no ensino presencial? A dificuldade para dar respostas às questões suscitadas e o interesse para despertar possibilidades de reflexão sobre o assunto constituem a razão principal deste trabalho.
relevância em razão do benefício que as reflexões, ao longo do estudo, podem oferecer aos educadores dispostos a buscar, através da atuação educativa, melhorar a qualidade no processo de ensino / aprendizagem.
2.2. Objetivos
O objetivo mais amplo consiste em analisar as manifestações de poder na relação professor/aluno no ensino presencial e a distância.
Diante deste propósito e na perspectiva de compreender as relações de poder foram destacados os seguintes objetivos específicos:
- Identificar as formas de manifestação do poder na relação professor/aluno no ensino presencial e a distância.
-
Analisar a incidência de manifestações de poder que ocorrem entre professor e aluno no ensino presencial com relação ao ensino a distância.2.1. As relações de poder
um desafio constante no contexto educacional, pensar na dinâmica que o poder assume na escola, as formas pelas quais se manifesta no trabalho pedagógico, essencialmente na relação entre professor e aluno, uma vez que se torna instrumento de forte expressão para submeter e criar vínculos de obediência.
Este estudo, não tem a intenção de concentrar a análise do poder sob o aspecto jurídico ou legislativo ou mesmo percorrer toda história da filosofia política. Ele visa delinear o poder inserido nas relações educativas. Para melhor compreensão desse fenômeno, é preciso desfazer alguns preconceitos e
restringir algumas evidências que cercam as relações de poder. É comum vincular o poder a uma imagem negativa, revestida por um sentido de imposição feita através de uma autoridade. Torna-se compreensível o fato que alguns queiram conquistá-lo ou combatê-lo e que o poder seja destacado ou temido. O que não é fácil de ser compreendido são as relações de poder numa categoria abstrata, algo que não se detém como uma coisa, portanto, impossível de ser palpado ou contido, condições que induzem para que essa forma de manifestação do poder muitas vezes não seja percebida ou seja subestimada.
Por mais isolada que se encontre a estrutura social, por mais simples que seja a organização da sociedade, de um grupo ou mesmo de uma instituição social, as relações de poder estarão presentes.
Segundo Foucault (1995), o poder não é explicado apenas por sua função repressiva ou por inspiração do modelo econômico, mas permeia as relações do ser humano. Assim, não é observado somente nas situações em que ocorre o confronto, mas também nas relações anônimas em que não se sabe exatamente quem o detém. Não há necessidade de existir determinadas estruturas no sistema social para que o poder perpasse as relações pessoais ou grupais. A origem do poder se localiza no conjunto das organizações que se formam em todo corpo social.
“Ninguém é, propriamente falando, titular do poder; e, no entanto, ele sempre se exerce em determinada
direção, com uns de um lado e outros do outro; não se
sabe ao certo quem o detém; mas se sabe quem não o
possui” (Foucault, 1995).
apenas sob o aspecto da dominação. Para compreender melhor as ações provenientes das relações estabelecidas entre os envolvidos no processo educacional, é necessário buscar o entendimento mais elevado do conceito de poder. Na medida em que nos debruçamos a desvelar as formas negativas ou positivas do funcionamento do poder na escola, confrontado pelas próprias relações que determinam ou limitam o espaço de atuação, teremos uma compreensão mais ampla desse fenômeno.
As relações de poder estão presentes desde o início da humanidade e se manifestam pelas interdições, regras e recomendações que determinam a organização social. Nas comunidades primitivas as relações de poder e o controle mútuo eram menos visíveis, decorrente da distribuição e troca de tarefas sem a submissão e exploração de alguns sobre outros. Baseadas na política da economia coletiva, as funções tanto de homens quanto das mulheres eram socialmente necessárias.
A idéia de que todo poder emana de Deus, se contrapõe à teoria da origem social do pacto feito sob o consentimento dos homens. A origem e a legitimação do poder não mais vem da divindade, mas se encontra na força do próprio homem que o instituiu.
No entanto, a sociedade atual, que envolve um complexo sistema organizacional, desenvolveu uma ampla rede que dissemina o poder nas relações. Em nossa cultura, o modo de produção capitalista orienta as relações que se estabelecem baseadas na dominação dos meios de produção centrados na minoria que explora através do trabalho e mantém o controle sobre a maioria que dispõe apenas da força de trabalho como condição de sobrevivência. Em decorrência do acesso desigual aos frutos do trabalho, surgem grupos sociais que decidem, dirigem e controlam as ações e outros que são submetidos à obediência.
produzir efeitos. Para que alguém exerça o poder é preciso que tenha um instrumento de força. A idéia de força repercute normalmente como violência física e coerção, mas na verdade estes são apenas alguns dos instrumentos para a incidência do poder. A força não significa necessariamente a posse de meios violentos de coerção, mas de formas que permitem a autoridade instituída obter a adesão das pessoas, grupos ou organizações, e, conseqüentemente, influir no seu comportamento.
O poder não é um objeto, coisa ou propriedade, mas expressa uma relação e não se fixa em lugar determinado da estrutura social, porém, envolve os grupos que a formam. Existem com maior ênfase as práticas ou relações de poder e não um poder central. Na lição de Foucault (1995), “O que faz com que o poder se mantenha e que seja aceito é simplesmente
que ele não pesa só como a força que diz não, mas que de fato
ele produz coisas, induz ao prazer, forma saber, produ z
Pela análise desenvolvida por Foucault (1995), podemos constatar que atualmente o poder não compreende essencialmente uma instância repressiva e nem transcendente, mas um mecanismo de controle que envolve o indivíduo, induzindo-lhe um determinado comportamento. Diminuíram as proibições, abrandaram-se os regimes, mas o poder disciplinar a que nos vemos submetido na vida pública e privada cresce discreta e continuamente. As formas de poder utilizadas são mais sutis e exercem um caráter subjetivo cada vez maior.
Numa visão tradicional, W eber (1970), define poder “como a probabilidade de impor a própria vontade numa relação social,
mesmo contra resistências”. Este conceito caracteriza uma relação de domínio que permite alguém fazer valer sua vontade sobre o outro. Porém, o exercício do poder e a dominação não significa necessariamente a possibilidade de influir diretamente e condicionar as pessoas, considerando que é preciso haver um mínimo de vontade e interesse por parte daquele que é submetido à obediência.
ocupam da educação. Ainda que a subordinação e a obediência estejam presentes na instituição escolar, revelam sentidos diferentes. Isso nos leva a compreender que as vias de organização encontradas, por exemplo, nas escolas e que parecem tão naturais, na verdade são determinadas por idéias que se constituem num contexto político, social e econômico mais amplo, inseridas e aceitas naturalmente pela cultura escolar. Estas idéias que refletem a visão instituída em torno do poder, enunciam não somente as explicações para os problemas que se delineiam, mas também a forma de agir sobre os mesmos.
Para Foucault (1995), as relações de poder não se encontram em posição de exterioridade com respeito a outras relações, mas possuem papel determinante. Toda economia, fábrica, relações culturais e a escola pressupõem mecanismos de poder, de técnicas disciplinares agindo sobre as pessoas envolvidas. Para o autor, poder e saber estão muito próximos. “Não há relação de poder sem constituição correlata de um campo de saber, nem saber que se suponha e não se constitua
são utilizados como instrumentos capazes de promover aos sujeitos o acesso sempre maior no domínio do conhecimento.
Tanto na instância popular quanto na dimensão científica, o saber é um componente que passa a ser visto como dispositivo para articular com maior ou menor influência no jogo de forças que se estabelece entre as instituições e no interior de cada uma. Nesta perspectiva, é possível compreender que o poder não se circunscreve a instituições e normas determinadas que possam ser apropriadas e reorientadas por determinados grupos, mas funciona como uma rede de relações conflitivas que produzem e são produzidas por estas mesmas instituições.
Trata-se na realidade de poderes disciplinares. A escola é um espaço onde o poder disciplinar se produz, fundamentando sua legitimidade no fato de esta ser detentora do saber. Ela utiliza métodos com os quais exerce um controle sobre os indivíduos através de exercícios que permitem fiscalizar o tempo, o espaço, o movimento, os gestos e atitudes com a finalidade de obter o controle institucional.
comportamentos previamente idealizados pela estrutura social e ratificados pela prática educativa. Estes comportamentos instituídos pela escola são internalizados pelos alunos em suas vivências, passando a constituir representações sociais de poder num nível mais amplo da sociedade.
Na escola, o poder envolve as normas, regimentos e as ordens que emanam do órgão ou setor que concentra a atribuição de administrar o funcionamento da instituição. O poder age pronunciando a regra que circula e se dissemina entre as pessoas através das atividades exercidas de forma hierarquizada. O poder se manifesta principalmente pelas normas que regulam as relações na sala de aula, pela organização do tempo, com a distribuição das atividades medidas entre a transmissão de conhecimento e a avaliação, além da ocupação do espaço, onde cada um dos sujeitos reconhece seu lugar e sua posição no processo de ensino e aprendizagem. De maneira não menos explícita, o poder também se manifesta através dos discursos, da linguagem e das idéias reconhecidas e que se transformam em prática adotada nas relações da instituição educacional.
disciplina ou para verificar o nível de desempenho do aluno em determinado conteúdo, para classificá-lo em termos de aprovação ou reprovação, satisfazendo as exigências das normas curriculares do sistema de ensino. À avaliação é atribuído um caráter autoritário e de poder do professor sobre o aluno quando privilegia momentos específicos para sua aplicação, precedida de um patrulhamento exercido pelo educador na forma de pressão e vigilância para que o aluno se comporte de acordo com os padrões e valores legitimados pela escola, geralmente alheios à vivência e às relações estabelecidas pela própria sociedade no seu cotidiano. Para legitimar os padrões e valores estabelecidos pela escola, o professor utiliza os instrumentos que estão à sua disposição: provas, notas, diários de classe, reprovação, exclusão e coerção, para exercer maior poder na relação entre aquele que transmite e outro que adquire conhecimento. Nesta situação, o poder pode expressar um modo autoritário e explícito, sendo o educador quem determina as práticas pedagógicas, as atividades, as técnicas e os instrumentos de avaliação, como pode também exercê-lo de maneira implícita, mascarando as verdadeiras relações de poder e autoridade.
um caráter dialético e se manifestam de maneira flexível e discreta. De outra forma, porém, podem traduzir uma relação de confronto, imposição e de cobrança, objetivando o controle e a obediência. O conjunto de procedimentos adotados pela instituição de ensino exerce sempre um ato político, portanto, expressam uma relação de poder, fato pelo qual, jamais podem ser julgados neutros.
2.1.1. O Poder de Resistência
Considerando a indicação de que um dos papéis da educação consiste em atender e legitimar as relações de poder existentes na estrutura social, também é considerado que ela oferece um espaço para o processo das transformações sociais. Teóricos reprodutivistas possuem em comum a consideração de que a escola enquanto instituição propaga valores e normas das classes dominantes. Mas na escola também está a possibilidade de rupturas, contestações e mudanças, enfim, existem elementos que produzem e não apenas reproduzem.
somente com a função de manter a estrutura social vigente mas pode instaurar uma arena de manifestações e resistência através da reflexão e participação.
A escola seria ao mesmo tempo reprodução e produção, repetição e ruptura, manutenção e renovação, dominação e resistência. O processo educacional atuaria de um lado, para manter a organização social, ao mesmo tempo que oferece condições para a mudança. Privilegiar uma das características em detrimento de outra demonstra a dinâmica que é própria da sociedade que representa o movimento entre a continuidade e a ruptura de determinada organização.
Para Giroux (op. cit.), não é todo comportamento de oposição que pode ser considerado manifestação de resistência à autoridade e dominação às normas culturais definidas, valores e determinações sociais. Ao contrário, pode ser expressão de poder que é alimentada pela dominação e reproduz sua mais poderosa gramática. Manifestações e comportamentos de oposição, da mesma forma como os sujeitos que os expressam, são produzidos por discursos e valores contraditórios. Assim, as resistências dizem respeito aos conflitos, ambivalências e contradições que são geradas em múltiplas situações do contexto escolar.
À análise do poder como uma relação que envolve forças que se chocam e se contrapõe, Foucault (1995), condiciona a existência de liberdade por parte de quem exerce o poder e sobre os quais é exercido, para possibilitar a resistência. A capacidade de se rebelar, de se insurgir e resistir caracteriza a própria relação de poder. A partir do momento em que existe uma relação de poder, há uma possibilidade de resistência.
“O poder é exercido somente sobre sujeitos livres e
apenas enquanto são livres. Por isso, nós nos referimos
sob um leque de possibilidades no qual inúmeros modos
de agir, inúmeras reações e comportamentos
observados podem ser obtidos” (Foucault,1988).
O autor situa a liberdade como elemento que torna as pessoas capazes de se revoltarem dentro da rede de poder em que suas vidas estão inseridas e da qual fazem parte. A resistência e a manifestação de revolta não consiste na destrutividade, mas no exercício natural de contraposição e na conjugação de forças que produzem a mudança.
“O poder é uma estrutura de ações; ele induz, incita,
seduz, incomoda, facilita, dificulta; ao extremo, ele
constrange ou, entretanto, é sempre um modo de agir ou
ser capaz de ações. Um conjunto de ações sobre outras
ações” (Foucault, 1999).
de possível interação, ou seja, há uma expressão invisível de consentimento e de dominação. Nas relações de poder há uma seqüência de manifestações começando pela dominação de um lado e pelo consentimento no outro, com uma gama de graus intermediários de submissão relutante ou voluntária. Enfatiza o autor, que nestas relações existe geralmente uma tensão entre submissão e resistência, porém, nem todas as situações de manifestação do poder conservam a tensão, pois o desejo de dominar acaba por destruir a relação e as próprias pessoas.
Para identificar as relações de poder nas escolas é preciso questionar onde estão os conflitos de interesses. Em princípio, a educação envolve de maneira subjetiva e dinâmica essas relações. A aprendizagem de um aluno não implica necessariamente em desvantagem ou submissão de outro, assim como os professores podem representar a autoridade legítima não sendo impositores e autoritários. Onde não há conflito de interesses, o poder não se manifesta de maneira explícita. No entanto, o espaço escolar é propício para desencadear conflitos de interesse e manter permanentemente condições para o exercício das relações de poder.
ser identificada uma notável capacidade de incorporar, cooptar, desviar e neutralizar atos de contraposição. A resistência pode ser constituída por ações, comportamentos e atitudes que demonstram se a pessoa está ou não de acordo com as determinações sociais, regras e normas culturais definidas. Nem todo comportamento de oposição pode ser considerado manifestação de resistência à autoridade e à dominação.
O ato de educar implica inferir na vontade do aluno, ao submetê-lo à uma obediência, contrariando a princípio seus desejos. Submeter-se a uma autoridade significa ser dirigido. É por meio dela que os alunos absorvem comportamentos para garantir a apropriação do conhecimento.
processo educativo, estruturadas em suas vivências e experiências no cotidiano escolar.
Furlani (1995), refere-se ao processo educativo e trata a autoridade como uma qualidade atribuída a uma pessoa pelo reconhecimento da habilidade e competência que ela possui, bem como à posição que ocupa numa instituição. Em nossa sociedade é essa autoridade conferida ao educador, o que legitima o poder que a escola lhe concede. A autoridade, enquanto agente do poder, qualifica as pessoas e institui a reprodução das relações de poder. Na atividade pedagógica, a relação que existe entre professor e aluno subsiste tanto pela força quanto pela autoridade e não cabe questionar se uma autoridade é legítima ou não, mas reconhecer sua existência.
são menos visíveis ou concretas, mas nem por isso menos reais seus efeitos.
“A capacidade à desobediência é, em princípio, sempre
possível, mas a probabilidade de não obedecer é
inversamente proporcional às conseqüências não
desejáveis. Estas são mais ou menos previsíveis no
caso do desacato a uma ordem emitida dentro do campo
de competência de uma autoridade legalmente investida
ou diante de uma ameaça de violência. As
conseqüências não desejadas podem referir-se à
subjetividade quando se trata de valores ou crenças
previamente introjetadas. Neste caso o desconforto
subjetivo pode ser tão ou mais real do que aquele
decorrente de sanções objetivas” (Epstein, op. cit.).
A capacidade de persuadir já pelos sofistas era considerada uma arte e que supera de longe todas as outras artes pois sujeita os indivíduos pelo conhecimento e não pela violência. Não podendo ou não dispondo de meios para o exercício do poder à base de sanções, o agente utiliza a persuasão. Igualmente a retórica, utilizada como eficiente meio de convencimento tornou-se um recurso imprescindível para articular as relações de poder.
Na medida em que o conhecimento desempenha um papel importante para favorecer a quem detém o poder de persuadir, pode servir de antídoto à persuasão e estimular uma reação crítica, principalmente no processo de manipulação e enganação dos indivíduos.
“Com o saber se desarma o manipulador. Pois quem
sabe que é manipulado e quem conhece as técnicas
empregadas pela manipulação, sempre as descobrirá
com mais presteza e segurança e evitará a
manipulação” (Epstein, op. cit.).
2.2. O poder ideologico na relação educativa
mais especificamente o professor e o aluno, como fenômeno característico da estrutura do pensamento que se manifesta em toda comunicação humana.
Pressupondo que todo comportamento social contempla aspectos ideológicos, podemos verificar que o processo educativo também é revestido de caráter ideológico. Todo ser humano assume uma herança relacionada à sua trajetória cultural que é anterior a ele e que imprime uma determinada direção à sua vida. Ninguém no mundo vive separado ou isento de uma história, uma nação, uma classe, uma instituição, uma família, uma linguagem, uma ideologia.
Marx (1989), assegura ainda que a história é explicada pela vida material dos homens. Assim sendo, sua consciência e suas ideologias não seriam mais do que o fenômeno de sua vida material. As ideologias se formariam como mascaramento e ocultação da realidade fundamental econômica. A classe social dominante ocultaria seus verdadeiros propósitos por meio de uma ideologia.
Somado á contribuição Marxista, Mannheim (1976), introduz a idéia de inadequação entre pensamento e realidade para explicar a tendência ideológica. As ideologias seriam como reflexos que ao mesmo tempo ocultam e revelam uma situação social. Reflexos do conflito político, do fato de que os grupos dominantes possam estar em seu pensamento tão agregados a determinada situação de interesses, que deixam de perceber aquilo que de algum modo possa por em risco seu sentido de dominação. Nesta ótica, poder-se-ia entender ideologia como a estrutura que torna implícito o conteúdo transmitido, formando um conjunto de expressões que encobrem os vínculos reais do relacionamento humano.
ensino, assim como em entidades que se dediquem à pesquisa ou a trabalhos teóricos. No entanto, é possível identificar a existência de aspectos ideológicos a elas subjacentes e que as justificam e mantém em suas atividades.
A atividade educacional é marcada pela influência da ideologia, na medida que envolve relações humanas. Tanto a ciência da educação quanto as ciências em geral, assumem uma posição ideológica que é demonstrada através de princípios representados numa hierarquia de valores e pela linha de ação, que parece-nos impossível ser totalmente neutra. Posturas, comportamentos e as dinâmicas aplicadas pelo educador estão relacionadas com o contexto social e político vigente. A utilização desses instrumentos de modo inovador, por isso, diferentemente da forma adotada no conjunto mais amplo das relações sociais, pode provocar mudanças no processo e nos resultados da ação educativa, e, com efeito na sociedade.
Considerando que o indivíduo não age nem sobrevive sozinho, mas está sempre inserido no contexto social, ocorre a oportunidade de ele conhecer a realidade e perceber, mesmo de modo simples, a interferência do fenômeno ideológico. A possibilidade de percepção dessa influência aumenta quando envolve sujeitos atuantes, mais especificamente no âmbito das relações educativas.
Cabe ao educador manter-se alerta e tornar eficiente a busca constante da compreensão do poder ideológico em suas ações. Também é importante tomar ciência da complexidade de perceber e determinar o grau de influência que exerce na formação de seus alunos.
Paulo Freire (1997) ensina que o produto de determinada ação educativa influirá na formação e na transformação do próprio sistema educacional, e, conseqüentemente, na sociedade. Existe uma dialética, uma interação entre ação e reflexão, prática e teoria, qualquer que seja o contexto ou organização.
Parece ingênuo negar o caráter político da educação e não admitir que os problemas educacionais básicos são reflexos da situação mais abrangente da sociedade. Todo problema, atividade ou questão pedagógica remete a um conjunto de fatores sociais, políticos e ideológicos que hão de interferir na construção do modelo educacional e no comportamento do educador.
O processo educativo não ocorre no abstrato mas circundado por questões sociais com características culturais próprias. É um processo que não visa apenas o indivíduo, mas o grupo, a comunidade, estabelecendo regras e padrões de comportamento, vinculados ao percurso histórico e à ordem social vigente. A ação educativa não é uma prática autônoma, isolada, mas reflete com certa medida uma teoria da sociedade sob o enfoque educacional. Ao mesmo tempo, o processo educacional se desenvolve dentro de uma estrutura em que aspectos sociais interagem continuamente.
reprodução das relações materiais e sociais de produção. Mesmo que apresentasse uma aparência de neutralidade, a prática educativa estaria garantindo o poder e os privilégios da classe dominante. A ideologia, na concepção do mesmo autor, constitui um corpo de regras que determinam a organização e o funcionamento das imagens e conceitos, que por sua vez, determinam a significação de todo discurso e de toda conduta. Ao mesmo tempo que critica a possibilidade de uma escola apolítica, admite também a sua existência,
“...aplaudindo os professores que em condições
terríveis tentam voltar contra o sistema e contra as
práticas em que este os encerra, as armas que podem
encontrar na história e no saber que ensinam. Em certa
medida são heróis. Mas são raros, e quantos (a maioria)
não tem sequer um vislumbre de dúvida quanto ao
trabalho que o sistema (que os ultrapassa e esmaga) os
obriga a fazer...” (Althusser, 1979).
Segundo os pensadores, o próprio processo educacional promoveria, juntamente com a transmissão da cultura, a reprodução da estrutura social, caracterizando os indivíduos como pertencentes a um grupo ou a uma classe. Na base estaria o poder econômico como princípio determinador das classes sociais. A ação pedagógica seria uma força simbólica pelo fato de que ao selecionar, impondo e inculcando certas significações convencionadas, ao mesmo tempo que exclui outras, reproduz fazendo com que se repitam e se recriem aquelas significações arbitrárias do grupo ou classe dominante. Esta imposição seria feita cada vez de maneira mais radical às classes dominadas, levando-as a aceitar sua sujeição à dominação como natural. Assim, a escola atuaria simultaneamente na função de reprodução cultural e social, na medida em que reproduz as relações sociais de reprodução da sociedade capitalista.
“ O sistema educacional promove aqueles que segundo
os padrões da classe dominante se mostram capazes de
participar dos privilégios do uso do poder. Por outro
lado exclui os não considerados aptos, por meios por
ele legitimados, fazendo com que aceitem essa exclusão
e se submetam passivamente à dominação” (Bourdieu e
Os autores mostram assim, que existe uma clara interferência da ideologia tanto na ação pedagógica como nas teorias da educação. Mais difícil é perceber em que medida a ideologia interfere em cada atividade pedagógica, se é determinante ou não e como ocorre o controle do poder ideológico inserido na prática pedagógica.
Gramsci (op. cit.), vincula as relações hegemônicas à relação pedagógica, processo pelo qual o aprendizado se realiza a partir da ideologia da classe dominante. Segundo o autor, a escola está encarregada de suscitar o consenso e a colaboração da classe oprimida que vive sua opressão como se fosse a liberdade. A função hegemônica consiste no poder de impedir a circulação de contra ideologias e minar as resistências, fazendo que a classe oprimida assuma e interiorize a ideologia dominante.
A classe dominante, no exercício de sua hegemonia, monopoliza as instituições, especificamente a escola, para através delas, difundir sua concepção de mundo.
sociedade, a estrutura do Estado capitalista introduz ao nível da sociedade a concepção do mundo da classe hegemônica, da burguesia, usando a escola como um dos meios de divulgação, inculcação e introjeção. Um dos agentes mediadores, entre a transformação da filosofia da classe hegemônica em senso comum da classe subalterna é o sistema educacional, dirigido e controlado pelo Estado. A escola exerce o papel de interpretar, e traduzir a concepção de mundo da classe dominante para uma linguagem adequada, sancionando-a mediante a sociedade. A escola, segundo Gramsci (op. cit.), é um dos agentes centrais de formação e de propagação dos interesses da classe dominante.
A política educacional estatal evita expor e evidenciar o exercício do domínio e a defesa do interesse da classe dominante, mas cria condições para que os indivíduos das classes subalternas façam suas opções de forma aparentemente livre. Por isso, na sustentação do autor,
“o Estado não pode impor rigidamente a escolha das
profissões, limitar as leituras dos estudantes ou
privá-los ostensivamente à reflexão. O pequeno grau de
liberdade que necessariamente precisa haver na
sociedade civil, para conseguir a dominação pelo
a chance de liberação da classe subalterna” (Gramsci,
op. cit.).
O Estado através de sua política educacional demonstra atender a todos de modo igual. Em verdade seu papel é o de mediador dos interesses da classe dominante. Por isso, para disseminar a ideologia daqueles que estão no poder, o Estado elegeu seu braço direito: o sistema educacional.
A influência ideológica, aparece, portanto, como fenômeno mais profundo e constante nas diferentes sociedades humanas, característico da própria estrutura do pensamento, não se restringindo apenas à sociedade capitalista. Seria, afinal, ilusório sustentar a idéia de que a educação pode ser desvinculada do poder da ideologia e que é possível uma educação neutra e desinteressada.
W erneck (1982) enfatiza que na dinâmica educacional há sempre a transmissão de uma cultura existente num processo de conservação de valores sociais e uma necessidade de renovação com a inovação, a criação de novos valores culturais que vão transformar a sociedade.
2.2.1. A transposição do poder ideológico para a prática
educativa
A prática educativa compreende a ação de educadores que se valem de princípios filosóficos e científicos sobre o educando para atingir determinado objetivo.
“A educação é a ação exercida pelas gerações adultas
sobre as gerações que não se encontram ainda
preparadas para a vida social; tem por objetivo suscitar
e desenvolver na criança certo número de estados
físicos, intelectuais e morais reclamados pela sociedade
política, no seu conjunto, e pelo meio especial a que a
criança particularmente se destina” (Durkheim, 1973).
conforme o aperfeiçoamento de suas funções cognitivas, afetivas para integrar-se adequadamente na sociedade.
Ao educador, seja no espaço da família, escola ou meio social, caberá o papel de propiciar as situações para esse crescimento. Ao desenvolver uma atividade educativa, como ser humano que é, aplicaria tendências ideológicas e a ela somaria seus próprios valores, baseados nas características de personalidade, interesse e sua própria formação.
“A ideologia não teria apenas a função explicativa e
esclarecedora das ações pedagógicas, mas de
apresentar projetos sociais de controle e critérios de
avaliação das atuações. Parece-nos, se a educação tem
a função de promover a reprodução de uma situação de
dominação, quanto mais elaborada e formali zada fosse
ela, maior seria o índice de estabilidade cultural nas
sociedades” (Werneck, op. cit.).
que irão desenvolver modelos que hão de orientar a conduta dos educadores. A ideologia, então, se apresentará sempre como um modelo para a atuação no processo educativo que desencadeia resultados diferenciados conforme o desempenho e atuação de cada educador.
“É próprio da educação a prática, a ação. Ela
operacionaliza as diferentes formas de intervenção na
realidade social nos diferentes níveis, estejam ou não
os educadores conscientes desse fenômeno. Ao mesmo
tempo, a educação não apenas promoverá a repetição
de situações existentes, refletindo modos de pensar,
mas vai propiciar novos modelos, novas fórmulas de
interpretação do real. Ela é influenciada e influencia o
todo social” (W erneck, op. cit.).
É neste aspecto que Althusser (1979), considera tão importante nas relações capitalistas o aparelho ideológico escolar que, segundo sua visão, teria função de garantir a reprodução das relações de produção, ou seja, das relações de exploração capitalista.
doutrinário que transmite visando um posicionamento do aluno, não somente em relação à escola e ao professor, mas em relação à sociedade. Portanto, na ação educativa, o conteúdo e a forma não podem ser vistos separadamente.
É fundamental distinguir a intenção do educador e o que realmente ocorre. A eficácia da intenção convertida em ação vai estabelecer as teorias para a prática educativa. Nesta relação não pode ser omitida a análise da interferência de ordem ideológica que hão de se dar na prática, distanciando, muitas vezes, a intenção da ação.
2.2.2. A relação educador x educando
Neste aspecto é preciso considerar inicialmente a condição humana inerente ao educador e ao educando, com limitações e características próprias. Tanto um quanto outro expressam valores através das ações. Atitudes e comportamentos ultrapassam o plano da imediata percepção sobre os mesmos. Essas atitudes estabelecem uma intercomunicação que ocorre em níveis diferenciados de significação.
em torno daquilo que considera significativo. A mensagem revela, explicita ou implicitamente, através da transmissão de conhecimentos e técnicas, a proposta educativa. Todo seu ser, suas funções, sua maneira de comportar-se, funcionam como sinais substituindo as expressões verbais.
O educador, no exercício de sua atividade, assume a posição de quem reconstrói o processo educativo, adotando práticas que com ele são compatíveis. Ele deixará de propor o que julga ser verdadeiro somente por um mecanismo artificial. Mesmo se racionalmente suspender o juízo sobre determinado assunto ou se por decisão deixar de transmitir os seus valores e objetivos, estará situado em um ponto de vista que considere válido, remetendo à sua consciência ideológica.
Também o educando traz, talvez de modo mais incipiente, porque menos reforçada, uma cosmovisão e uma ideologia. Para alcançar resultados mais favoráveis, é importante desenvolver, através do processo educativo, a consciência em torno da realidade do professor e do aluno, promovendo o respeito mútuo, considerando a maneira de ser de cada um.
determinado contexto social. O educador não se situa numa posição neutra, descomprometida, mas está sempre sujeito às dificuldades e circunstâncias da vida social. Não se pode considerar na relação da educação apenas um educador que ensina e um educando que aprende, mas é importante analisar o vínculo que os une.
Como deveria ser a relação educador x educando para estabelecer uma comunicação, um diálogo em busca da construção de significados para uma maior liberdade e autonomia de ação e crescimento de ambas as partes? Qual a maneira ideal de comunicação entre professor e aluno na construção de caminhos para ampliar os conhecimentos? Como evitar que no processo educativo a opinião válida seja a do professor, carregada de valores e visão de mundo, desconsiderando as condições próprias do educando?
valores básicos que são veiculados ou transmitidos simultaneamente.
Na prática educativa pode ser observada a transferência do modo de pensar e agir do educador, que expõe o seu jeito de ser para o educando. Nesta atividade, o educador extrapola a função unicamente de instrutor que visa o domínio de técnicas e desenvolve o saber e a vida como um todo, por isso, ao transmitir os conhecimentos, promove no educando um conjunto de influências.
Cabe ao educador conhecer a realidade onde está inserida sua prática educativa para analisar com espírito crítico o contexto ideológico e proporcionar a si próprio e aos educandos melhor desempenho, através das suas ações. A posição eminentemente crítica atribui ao educador uma perspectiva maior para descobrir, criar, propor soluções, questionar, refletir e apontar caminhos. É fundamental que participe e através de seu discurso, pela sua palavra e atos, estabeleça relações que resultem na construção de conhecimentos que beneficiem mutuamente o educador e o educando.
uma troca constante do modo de ser entre ambos. Isso não ocorre, no entanto, quando o educador julga ser auto suficiente e dono da verdade, transformando o exercício de sua atividade numa demonstração de poder e superioridade no processo relacional com o educando.
Na expressão de W erneck (op. cit.), podemos observar que existem maneiras diversas de estabelecer a relação entre os agentes envolvidos no processo educativo:
“se essa relação é espontânea ela se faz de acordo com
as forças envolvidas, podendo ir da dominação à
submissão, ou seja, daquele que exerce o poder em
relação àquele que é destinado à obediência. No
entanto, se essa relação ocorre fruto de um processo
educativo que vise a autodeterminação dos seres, há de
promover o diálogo, a interação. Não haverá dominador
nem dominado, ambas as partes funcionarão como
educador e educando pela ação mútua que se
estabelecerá entre elas. Só nesse caso as duas partes
poderão em conjunto buscar os significados e as
soluções dos problemas da comunidade. Os agentes da
educação devem pelo menos ter certeza de estarem
necessário um contínuo estado de vigilância e de
investigação no meio dos educandos para que pela
observação dos resultados práticos obtidos fosse feita
esta verificação (Werneck, op. cit.).
Focalizando o papel do educador na prática educativa, observa-se que sua ação extrapola o âmbito do aluno e constitui-se numa prática social e política. De certa forma, sua função ultrapassa a relação escolar para atingir a própria sociedade.
Desse modo, o educador não pode limitar-se aos problemas, métodos e técnicas educacionais mas terá de conhecer também a situação e as dificuldades da própria sociedade. Considerando sua relação com o aluno, a ação educativa, para ser adequada, supõe ainda que o educador conheça o meio social de seus alunos.
para conhecer sua forma de poder e saber que é responsável pelo uso que dele fizer. Moacir Gadotti (1978) confirma esta posição:
“o ato educativo é essencialmente político. O papel do
pedagogo é um papel político. Não é possível
neutralidade em educação. Sempre que o pedagogo
deixou de fazer política, escondido atrás de uma
pseudoneutralidade da educação estava fazendo com
sua omissão, a política do mais forte, a política da
dominação (Gadotti, op. cit.).
Mesmo no exercício de desvincular a questão política da educação, na verdade, o educador estará ainda tomando uma posição, agindo politicamente, só que de uma forma ingênua e inconsciente.
3.2.3. A Comunicação Educativa
Além do enfoque ideológico na prática educativa e a relação entre educador e educando, analisados anteriormente, é importante abordar a mensagem comunicada e a ideologia que esta mensagem traduz.
A prática educativa decorre do contexto que envolve a instituição de ensino não se restringindo à relação professo/aluno. Ela reflete continuamente o relacionamento humano, é anterior à reflexão e independe dela. Não decorre apenas do ensino formal, mas começa antes dele e vai além dele. As diversas formas de comunicação humana constituem-se em processos educativos e nem sempre o emissor ou receptor tem plena consciência deste fato.
Toda mensagem representa um determinado pensamento, um tipo de ser-no-mundo. Ela é formada partindo de fatores que estruturam uma intenção. O significado da mensagem não depende somente do teor expresso pelo emissor mas da conotação impregnada na mensagem.
de valores não previstos e não intencionados pelo emissor. Esta situação aplicada ao espaço exclusivamente reservado para o professor e aluno, assume proporções que por vezes escapam ao controle da razão. De maneira explícita ou implícita, toda mensagem transmitida reflete uma cosmovisão, uma ideologia.
A ideologia constitui-se numa forma de linguagem, cujas características peculiares freqüentemente fogem do domínio da consciência do educador. A inconstância no domínio da mensagem transmitida pelo educador pode fazer com que sua ação se torne dominadora. A ideologia reflete um significado próprio aos conhecimentos, aos comportamentos, ao mundo em que vivemos. Este caráter permite muitas vezes associar a ideologia à noção de dominação no sentido de que as formas ideológicas, escapando ao controle da razão, manifestam-se de modo categórico, imperativo, mais intensamente no campo da educação, na relação entre educador e educando.
Habermas (1975), considera que “a linguagem, veiculando a ideologia e assim expressando interesses, deturparia o conteúdo
intencional do emissor, constituindo-se numa forma de