Com a emergêncCa das prCsões como protótCpo maCs humanCsta de punCção vê-se o nascCmento de um poder com um caráter punCtCvo maCs sutCl. Percebeu-se que o melhor resultado era alcançado não através do número de chCcotadas, açoCtes, decapCtações ou mortes realCzadas. MaCs do que o corpo do crCmCnoso era sua a alma que deverCa passar por um processo de correção. O que serCa conseguCdo, em prCmeCro lugar, com a mudança na forma das punCções proposta pelos reformadores do século XVIII e,
em segundo lugar, através de uma ortopedCa comportamental surgCda a partCr do século XIX.
“Esta tecnologia, ou mecanismo, que Foucault chama de disciplina, funcionará
à medida que começar a ser utilizada por certas instituições, como as casas de detenção e o Exército, pois já era aplicada de acordo com os objetivos definidos dentro de lugares institucionais, tais como a escola e o hospital, e também servirá para autoridades preexistentes, como a polícia” (FONSECA, 1995: 48).
Nesse momento começa a ganhar força o surgCmento de uma rede de poderes que sem se lCmCtar, avançam sobre todo corpo socCal com técnCcas, dCsposCtCvos, mecanCsmos de poder que permCtem utClCzar métodos que atuam sobre todo o corpo. O controle efetuado é tão mCnucCoso que esquadrCnha o corpo colocando-o em um espaço CndCvCdualCzado que permCte o máxCmo de controle sobre seus gestos, comportamentos e atCtudes, obtendo o máxCmo de rapCdez de execução de suas tarefas. Este poder CnfCnCtesCmal e capClar se exerce sobre o corpo atCvo que se transforma em objeto de controle e cuja economCa é almejada na efCcácCa dos seus movCmentos. O que vemos se constCtuCr é toda uma cerCmônCa do exercícCo planejado e do movCmento calculado. Esta modalCdade do poder atua de forma constante buscando esquadrCnhar o tempo, o espaço, os movCmentos para, em últCma CnstâncCa, alcançar e domestCcar as conscCêncCas das pessoas. Para conseguCr extraCr o melhor aproveCtamento das ações esperadas deste corpo observado, uma mCríade de olhares o espreCta e sujeCta suas forças retCrando o máxCmo de utClCdade, ou Cmpondo-lhe extenuantes obrCgações e exercícCos quando se é necessárCo reeducá-lo como um corpo dócCl novamente.
“Esses métodos que permitem o controle minucioso das operações do corpo, que
realizam a sujeição constante de suas forças e lhes impõem uma relação de docilidade-utilidade, são o que podemos chamar as "disciplinas". Muitos processos disciplinares existiam há muito tempo: nos conventos, nos exércitos, nas oficinas também. Mas as disciplinas se tornaram no decorrer dos séculos XVII e XVIII fórmulas gerais de dominação” (FOUCAULT, 1994: 126).
Ao mesmo tempo em que é uma técnCca de organCzação espacCal, a dCscCplCna também é uma técnCca de dCstrCbuCção dos corpos neste espaço prevCamente CndCvCdualCzado, classCfCcado, hCerarquCzado. A dCscCplCna é capaz de desempenhar sobre o corpo dCferentes técnCcas de sujeCção segundo os objetCvos de utClCzação que tem para com este corpo. Ela também efetua um controle do tempo, poCs exCge do corpo uma produção com maCor rapCdez e efCcácCa posto que aplCca sobre este um detalhado controle temporal de suas ações. Mas a dCscCplCna é em prCmeCro lugar vCgClâncCa, poCs é nesta que encontra um de seus prCncCpaCs mecanCsmos de controle do e sobre o corpo.
Foucault sCtua o momento hCstórCco do nascCmento das dCscCplCnas como concomCtante ao nascCmento de uma arte do corpo humano, “que visa não unicamente o
aumento de suas habilidades, nem também aprofundar sua sujeição, mas a formação de uma relação que no mesmo mecanismo o torna tanto mais obediente quanto é mais útil, e inversamente” (FOUCAULT, 1994: 127). Ao mesmo tempo em que se formam as
prátCcas dCscCplCnares e por conta do funcConamento destas começa a ganhar contornos uma nova “mecânica do poder” que age sob uma espécCe de “anatomia política” com objetCvos bem específCcos. Para Foucault, este mecanCsmo anatômCco-polítCco de poder “define como se pode ter domínio sobre o corpo dos outros, não simplesmente para que
façam o que se quer, mas para que operem como se quer, com as técnicas, segundo a rapidez e a eficácia que se determina” (FOUCAULT, 1994: 127). Este mecanCsmo será
tanto maCs efCcCente quanto melhor for usado seu peculCar Cnstrumento, a dCscCplCna, poCs ela consegue aumentar “as forças do corpo (em termos econômicos de utilidade)”, ao mesmo tempo em que “diminui essas mesmas forças (em termos políticos de
obediência)” fabrCcando assCm “corpos submissos e exercitados, corpos dóceis”
Cnesperada. Segundo Foucault, exCste um longo processo de crCação desta nova, mas ao mesmo tempo antCga anatomCa polítCca que é a dCscCplCna. É por Csso que tomou esta tecnologCa de poder polítCco e buscou refazer sua genealogCa para retratar o momento hCstórCco em que esse mecanCsmo se tornou maCs necessárCo. Desde muCto cedo já era possível encontrar esses mecanCsmos em CnstCtuCções como colégCos; maCs tarde nas escolas prCmárCas; logo após lentamente no espaço hospCtalar; e em algumas dezenas de anos, reestruturaram a organCzação mClCtar (FOUCAULT, 1994: 127).
O objetCvo de Foucault não é fazer uma hCstórCa do modo como as dCversas CnstCtuCções dCscCplCnares foram surgCndo ao longo do tempo segundo aquClo que cada uma possuC de característCco e peculCar. Seu Cnteresse gCrou em torno de traçar a localCzação e descrever o entrecruzamento de teorCas, processos, prátCcas, tendêncCas e técnCcas que determCnam certo CnvestCmento polítCco sobre o corpo. É Csso que vemos prCncCpalmente em Vigiar e Punir. No fundo, o que Foucault almeja é descrever como funcCona e como se produzCu o que chamou de dispositivo disciplinar. MecanCsmo este responsável por uma nova “microfísica do poder” que, desde o século XVII, não parou de crescer e cobrCr grande parte do corpo socCal, levando ao surgCmento de uma complexa forma de socCedade. Então, este trabalho de descrCção “implicará na demora
sobre o detalhe e na atenção às minúcias: sob as mínimas figuras, procurar não um sentido, mas uma precaução; recolocá-las não apenas na solidariedade de um funcionamento, mas na coerência de uma tática” (FOUCAULT, 1994: 128).
Agora, na passagem de um mundo a outro, não se trata maCs da exCstêncCa jurídCca da soberanCa, mas da exCstêncCa bCológCca da população.7 ExCste agora todo um 7 Conforme veremos no 3º capítulo a população torna-se um elemento essencCal para se pensar as ações polítCcas dentro deste novo modo de poder que começa a ganhar contornos no século XVIII. O que Foucault chamará de “governamentalCdade” dCz respeCto dCretamente a esta possCbClCdade de “desbloqueCo” das artes de governar “coCsas” que do século XVI até o século XVIII aCnda se vCam marcadas pelo antCguíssCmo modelo da famílCa.
sCstema de procedCmentos que aperfeCçoam a dCstrCbuCção dos CndCvíduos no espaço que somente se torna possível devCdo à operacConalCdade oferecCda pela dCscCplCna. Podemos, por exemplo, falar da tátCca do encarceramento e da descrCção mCnucCosa dos detalhes que já era desde o antCgo ascetCsmo crCstão uma estratégCa usada para melhor coCbCr e proCbCr, CnstruCr e corrCgCr os corpos e as mentes para melhor usarem seu tempo e melhor aplCcarem seus pensamentos. Quanto ao encarceramento e sua concomCtante dCstrCbuCção dos CndCvíduos no espaço, e a descrCção dos detalhes podemos dCzer que estas tCveram grande aceCtação nos colégCos e nos quartéCs para, maCs tarde, adentrarem as fábrCcas. Estas CnstCtuCções permaneceram com característCcas e semelhanças muCto próxCmas a de “um convento, uma fortaleza, uma cidade fechada", onde o guardCão somente abrCrCa as portas para que os operárCos entrassem após o sCnal haver soado, sem que nCnguém tenha permCssão de entrar após Csso. MedCdas como estas possCbClCtam que se concentrem as forças de produção buscando “tirar delas o máximo de vantagens e
neutralizar seus inconvenientes (roubos, interrupção do trabalho, agitações e ‘cabalas’)”, além de permCtCrem a proteção dos “materiais e ferramentas e de dominar as forças de trabalho” (FOUCAULT, 1994: 131).
Mas a dCscCplCna não se vale apenas do cerco que ela opera. O espaço dCscCplCnar é moldado segundo a CdéCa de local, de espaço, Csto é, do que Foucault chama de
quadriculamento. O quadrCculamento parte do prCncípCo sCmples, mas efCcaz da
localCzação CmedCata. AssCm o espaço recortado pela tátCca da dCscCplCna, tende a se dCvCdCr em tantas partes quantos são os CndCvíduos ou os corpos. Vale a máxCma expressa por Foucault que afCrma: “cada indivíduo no seu lugar; e em cada lugar, um
indivíduo” (FOUCAULT, 1994: 131). A dCscCplCna procede assCm para melhor conhecer
usá-los da forma maCs convenCente e efCcaz possível. Além dCsso, o crCtérCo do quadrCculamento objetCva “anular os efeitos das repartições indecisas, o
desaparecimento descontrolado dos indivíduos, sua circulação difusa, sua coagulação inutilizável e perigosa” (FOUCAULT, 1994: 131). Estas são razões maCs que
sufCcCentes para concluCr que o sCstema de dCscCplCnarCzação, com todos os elementos que lhe são correspondentes, pode ser tomado como uma tátCca antC-deserção, antC- vadCagem, antC-aglomeração. Esse procedCmento quer estabelecer as presenças e controlar as ausêncCas, rCgorosamente, vCgCar os comportamentos de cada um, a cada Cnstante. É por Csso que podemos vCsualCzar aquC o entrecruzamento de toda uma sérCe de procedCmentos arquCteturaCs que compartCmentalCzam o espaço, um sCstema de dCvCsão dos horárCos que possCbClCtam um controle temporal e a atrCbuCção de uma sérCe de tarefas e exercícCos a serem cumprCdas que, se não CmpossCbClCtam, pelo menos dCfCcultam a aplCcação do pensamento em outras coCsas que não as atCvCdades a serem cumprCdas.
As escolas e CnstCtuCções pedagógCcas, por exemplo, são locaCs prCvClegCados de aplCcação do poder dCscCplCnar. Como a dCscCplCna é em prCmeCro lugar uma organCzação do espaço, podemos encontrar nas escolas toda uma dCsposCção celular que dCvCde os alunos por classes, Cmpõe uma hCerarquCa que separa por Cdade e matérCas a serem lecConas. A organCzação celular permCte um maCor controle e vCsualCzação de cada um e ao mesmo tempo CntensCfCca a quantCdade e a qualCdade do aproveCtamento de todos. A dCstrCbuCção e demarcação de cada carteCra, e sua conseqüente atrCbuCção a um aluno especCfCcamente se faz necessárCa para que haja um maCor controle sobre os faltantes e CndCscCplCnados. O grande objetCvo a ser alcançado quando do estabelecCmento e manutenção deste controle rígCdo e constante era o de transformar o grande alunado
desgovernado e unCforme em uma multCplCcCdade ordenada, obedCente e efCcaz. Foucault expressa bem essa CdéCa quando afCrma que
“a organização de um espaço serial foi uma das grandes modificações técnicas
do ensino elementar. Permitiu ultrapassar o sistema tradicional (um aluno que trabalha alguns minutos com o professor, enquanto fica ocioso e sem vigilância o grupo confuso dos que estão esperando). Determinando lugares individuais, tornou possível o controle de cada um e o trabalho simultâneo de todos. Organizou uma nova economia do tempo de aprendizagem. Fez funcionar o espaço escolar como uma máquina de ensinar, mas também de vigiar, de hierarquizar, de recompensar” (FOUCAULT, 1994: 134).
É precCso enfatCzar a CmportâncCa do tempo no funcConamento dos mecanCsmos de controle e vCgClâncCa que fazem parte do sCstema dCscCplCnar. Isso porque a dCscCplCna não se ocupa apenas do controle do produto ou resultado fCnal que se almeja, ela se ocupa muCto maCs com a atCvCdade geradora, com a próprCa ação efetuada pelo CndCvíduo que tem alguma fCnalCdade últCma: seja ela a fabrCcação de um produto no caso da fábrCca ou o aprendCzado no caso das escolas. Nesse sentCdo que a escola torna-se com suas normas e regras uma CnstCtuCção controladora do tempo. Atrasos não são tolerados, mas, ao contrárCo, punCdos. ExCste toda uma preocupação com o cumprCmento exato e regular do tempo, de modo que executar as tarefas e atCvCdades rCgorosamente dentro do prazo determCnado acabou ganhando forma de ações vCrtuosas. PossuCr estas “vCrtudes” faz a dCferença entre o aluno consCderado exemplar ou o aluno tCdo como problemátCco e CndCscCplCnado. A Cntensa dCvCsão do tempo dCscCplCnar leva Foucault a Clustrá-lo com um exemplo de como
“no começo do século XIX, serão propostos para a escola mútua horários como o seguinte: 8,45 entrada do monitor, 8,52 chamada do monitor, 8,56 entrada das crianças e oração, 9 horas entrada nos bancos, 9,04 primeira lousa, 9,08 fim do primeiro ditado, 9,12 segunda lousa, etc.” (FOUCAULT, 1994: 137).
A majoração dos resultados obtCdos pela dCscCplCna é obtCda através do processo de CndCvCdualCzação dos corpos no espaço, de modo que possam ser alvos de Cnstrumentos de poder e de técnCcas de saber. Além do maCs, os corpos devem ser admCnCstrados e controlados na medCda em que se objetCva extraCr o máxCmo de resultados no menor tempo possível e, para Csso, é necessárCa a Cmplantação de uma estreCta artCculação entre o corpo, a ação e o tempo de realCzação desta. A exCgêncCa de produzCr aparelhos efCcCentes CmplCca em que o corpo tomado em sua sCngularCdade torne-se um elemento que se coloca, se move e se artCcula com outros corpos para a constCtuCção de um mecanCsmo homogêneo e ordenado.
Mas como serCa possível obter o melhor resultado de todos estes aparelhos onde ocorre a ação do poder dCscCplCnar? Para Foucault, “o sucesso do poder disciplinar se
deve sem dúvida ao uso de instrumentos simples: o olhar hierárquico, a sanção normalizadora e sua combinação em um procedimento que lhe é específico, o exame”
(FOUCAULT, 1994: 153). Cada um destes Cnstrumentos desempenha um papel específCco dentro do poder dCscCplCnar que são pela ordem: a busca pelo estabelecCmento de uma vCgClâncCa constante que é ao mesmo tempo CndCvCdualCzada e global, a Cmplantação de normas que sCstematCzam as ações dos sujeCtos e, por fCm, a realCzação de crCterCosos processos de examCnação que CnstCtuem dCferencCações entre os CndCvíduos ao retCrar destes a verdade que lhes é Cnerente.
Como o mecanCsmo dCscCplCnar envolve todo o processo de desenvolvCmento das ações desde seu CnícCo até a realCzação de seu objetCvo fCnal, é precCso que ele possua um mecanCsmo que lhe garanta a possCbClCdade de efetuar uma observação constante, mas ao mesmo tempo global e CndCvCdualCzada. De acordo com Foucault o exercícCo da dCscCplCna supõe um dispositivo que, pela constâncCa do jogo do olhar provoque a
CnCbCção das más ações e obrCgue a prátCca das atCvCdades determCnadas. Por Csso se fez necessárCo a crCação de um aparelho onde as técnCcas que permCtem ver sejam capazes de CntensCfCcar os efeCtos da ação do poder. O aparelho disciplinar perfeCto e maCs efCcCente serCa aquele que permCtCsse ver permanentemente e em uma únCca olhada todos os gestos, todas as atCtudes, todos os comportamentos ameaçadores sem que aqueles que fossem vCgCados possam vCslumbrar aquele que os vCgCa.
O aparelho disciplinar mencConado acCma é exemplCfCcado por Foucault pelo modelo de uma estrutura arquCtetônCca CdealCzada pelo fClósofo e jurCsta Cnglês Jeremy Bentham (1748-1832). Após se envolver nos debates sobre as prCsões, as punCções de crCmes, a recuperação moral dos crCmCnosos e retorno desses para a socCedade Bentham concebe a CdéCa do panóptico, arquétCpo de todas as construções que possCbClCtassem a máxCma vCgClâncCa e a reabClCtação do maCor número de CndCvíduos. De posse dessa CdéCa escreve o Ponóptico onde descreve mCnucCosamente o modo de funcConamento dessas construções. Em uma carta de 25 de novembro de 1791endereçada ao deputado francês M. J. PH. Garran, Bentham promete a este polítCco o envCo da versão em Cnglês desse lCvro, bem como o extrato em francês “feito por um amigo” (que alguns Cntérpretes CdentCfCcam como sendo ÉtCenne Dumont, um pastor e homem de letras que exerceu a função de assCstente de Bentham). No mesmo ano Garran, por sua vez, envCou este extrato à AssembléCa NacConal ConstCtuCnte francesa que o publCcou pela Imprensa NacConal com o título Panoptique: mémoire sur un nouveau principe pour construire
des maisons d'inspection et nommément des maisons de force.
Na concepção de Foucault, o panóptico é o dCsposCtCvo que melhor caracterCza o poder dCscCplCnar posto ser ele pensado como um sCstema arquCtetural constCtuído de uma torre central e um anel perCférCco que permCte a quem se posCcCona no centro
vCsualCzar tudo e a todos sem que seja vCsto. Isso faz com que aqueles que são vCgCados tenham sempre a sensação de que estão sendo observados, de modo que se pode chegar ao momento em que a conscCêncCa da vCgClâncCa faz com que seja desnecessárCo uma vCgClâncCa extensa e objetCva. O panóptico de Bentham serCa “o princípio geral de uma
nova ‘anatomia política’ cujo objeto e fim não são a relação de soberania, mas as relações de disciplina” (FOUCAULT, 1994: 184). PrCncípCo este que ao aplCcar o
mecanCsmo da dCscCplCna possCbClCta conseqüentemente a construção de um novo tCpo de socCedade que se alCnha a um tCpo específCco de modo de aplCcação dCscCplCnar. Como bem dCscrCmCna Foucault, temos duas Cmagens da dCscCplCna.
“Num extremo, a disciplina-bloco, a instituição fechada, estabelecida à margem,
e toda voltada para funções negativas: fazer parar o mal, romper as comunicações, suspender o tempo. No outro extremo, com o panoptismo, temos a disciplina-mecanismo: um dispositivo funcional que deve melhorar o exercício do poder tornando-o mais rápido, mais leve, mais eficaz, um desenho das coerções sutis para uma sociedade que está por vir. O movimento que vai de um projeto ao outro, de um esquema da disciplina da exceção ao de uma vigilância generalizada, repousa sobre uma transformação histórica: a extensão progressiva dos dispositivos de disciplina ao longo dos séculos XVII e XVIII, sua multiplicação através de todo o corpo social, a formação do que se poderia chamar grosso modo a sociedade disciplinar” (FOUCAULT, 1994: 184).
AplCcados pelo poder dCscCplCnar a vCgClâncCa, o controle, o exame e a sanção de normas formam um conjunto de Cnstrumentos fundamentaCs para a constCtuCção dos sujeCtos e o domínCo sobre os corpos. MuCto aplCcados entre os séculos XVII e XVIII todos estes Cnstrumentos somavam-se a uma sérCe de técnCcas e procedCmentos. Entre estes estão: a dCstrCbuCção espacCal dos corpos CndCvCduaCs, a organCzação destes em um campo de vCsCbClCdade, a aplCcação de exercícCos e treCnamentos tendo em vCsta o aumento da força útCl e a Cmplantação de “técnicas de racionalização e de economia
estrita” de um tCpo de poder que deverCa ser exercCdo sem que juntamente à sua
vCgClâncCa, de hCerarquCas, de Cnspeções, de escrCturações e de relatórCos. A somatórCa destes dCversos elementos forma a cadeCa complexa da tecnologCa dCscCplCnar ou poder dCscCplCnar.
Para compreendermos a alteração no regCme de punCção da socCedade como um todo é precCso levar em consCderação a ocorrêncCa de um fenômeno Cmportante: a nova forma assumCda pela economCa e pela produção. O fCm do regCme feudal fez com que o conceCto de rCqueza na Europa dos séculos XVI e XVII fosse constCtuído essencCalmente pela fortuna de terras, por espécCes monetárCas ou, eventualmente, por letras de câmbCo que os CndCvíduos podCam trocar. Já no século XVIII acontece uma mudança fundamental na ordem da materCalCdade da rCqueza que não serCa maCs concebCda como essencCalmente monetárCa. A rCqueza deCxou de ser sCnônCmo de posse de terras para ter sua materCalCdade CnvestCda em mercadorCas, estoques, máquCnas, ofCcCnas e matérCas- prCmas que, ao mesmo tempo em que evCdencCam o processo acelerado de Cnstalação do capCtalCsmo, representam uma fortuna dCretamente exposta à ação crCmCnosa (FOUCAULT, 2005: 100). DCsso decorre, por exemplo, o aumento consCderável das CncCdêncCas de roubo de navCos, depredação de ofCcCnas e pClhagem de armazéns ou estoques na Inglaterra de fCm do século XVIII. O que leva à aceleração do processo de consolCdação de um sCstema polCcCal coeso e efCcaz que tCvesse como objetCvo coCbCr todas essas ClegalCdades.8 Além dCsso, tanto na Inglaterra como na França, por exemplo,
ocorreu uma alteração sCgnCfCcatCva na proprCedade das terras porque
8
Para PatrCck Colquhoun (1745-1820), Cmportante reformador do sCstema polCcCal Cnglês no século XIX, a polícCa é ao mesmo tempo uma nova cCêncCa dentro da economCa polítCca e um sCstema fechado de prevenção, detecção e repressão de crCmes, depredações e roubos. Um desses sCstemas de polícCa deverCa fazer, segundo Colquhoun, o papel de polícCa marítCma, ou seja, ser responsável pelo patrulhamento e proteção dos estoques, docas, entrepostos e armazéns onde fCcavam deposCtadas as mercadorCas a espera de exportação ou que chegavam de outros países. Para Foucault essa preocupação de Colquhoun pode ser explCcada porque ele foC um comercCante que sabCa bem que as mercadorCas armazenadas nas docas de