3 AS REDES SOCIAIS E O FACEBOOK
3.3 O poder do curtir, comentar, compartilhar
Segundo a “Pirâmide da Hierarquia de Necessidades de Maslow31”, o ser
humano precisa se sentir aceito e fazer parte de um grupo ou mais, como os grupos da família, amigos, igrejas, clubes de futebol, hobbies em comum ou outros aspectos sociais. (REZ, 2016, online). Em crianças e adolescentes, ter suprida a necessidade de pertencimento pode ser crucial na formação da personalidade. Na década de 90 fiz bacharelado em Teologia em Goiânia. Uma professora de Psicologia contou uma história ocorrida na cidade envolvendo a necessidade de
31 A hierarquia das necessidades de Maslow, é um conceito criado na década de 50 pelo psicólogo norte americano Abraham H. Maslow com o objetivo de determinar o conjunto de condições necessárias para que um indivíduo alcance a satisfação, seja ela pessoal ou profissional. REZ, Rafael. Pirâmide de Maslow: Hierarquia de Necessidades do Consumidor. 02 de fevereiro de 2016. 02/02/2016. Disponível em: <https://novaescolademarketing.com.br/piramide-de-maslow/>. Acesso em: 10 de Mar. de 2020.
pertencer. Havia muitos meninos de rua na cidade. Um menino pegava sempre o mesmo ônibus e sentava ao lado da mesma mulher. Como eles não pagavam a passagem, certo dia o motorista veio questionar a mulher sobre seu “filho”, que não teria pago, no que ela respondeu que não era sua mãe. Segundo a psicóloga, este menino queria suprir a necessidade da falta da mãe. Queria gerar a imagem de que tinha uma mãe, que pertencia a alguém. Queria satisfazer a necessidade social de pertencimento. Trago essa narrativa para reforçar a necessidade interior do ser humano em fazer parte. Nas redes sociais, a maneira de suprir esta necessidade de fazer parte, de pertencer, é comentando, curtindo, compartilhando, os três “Cês”.
Segundo Recuero (2014, p.119), curtir, compartilhar e comentar, funções conversacionais no Facebook, são maneiras de tomar parte da conversa. “Curtir” é uma maneira de aprovar, concordar, elogiar ou admirar a postagem, sem se comprometer muito com a publicação. Todavia, a minha manifestação denuncia meus interesses, minhas posições em relação ao assunto abordado, minha visão de mundo, minhas convicções. Parafraseando Nietzsche em Vontade de Poder, podemos dizer que a manifestação através dos três “Cês” no Facebook envolve a vontade de se manifestar, vontade de ser, vontade de curtir, vontade de ser visto. “Mostre-me o que postou e curtirei quem você é! Nós somos (ou queremos que pensem que somos) aquilo que postamos no Facebook”. (PERISSÉ, 2020, online). Ao curtir um comentário, uma foto, um texto bíblico, um poema, uma posição ideológica revelamos que pessoa somos e como nos construímos diante destas possibilidades de curtir, comentar ou compartilhar.
Então, o objetivo é fazer com que as pessoas que veem a informação que você produziu a aprovem, clicando no onipresente indicador “curtir” ou fazendo um comentário. Isso gera mais uma notícia para sua rede de amigos e, pela natureza viral do serviço, mantém a informação inicial viva. Devido em grande parte à eficiência desse processo, o Facebook tornou- se um dos principais geradores de tráfego para os maiores sites de mídia, muitas vezes superado apenas pelo Google. (KIRKPATRICK, 2011, p. 286).
Neste objetivo de manifestar-se, mantendo o status e as informações atualizadas nas redes sociais, na vontade de ser visto, de ser parte de um grupo, de ser relevante, surgiu um distúrbio de comportamento, os viciados em redes sociais. Assim como adolescentes são impelidos a checar as redes sociais várias vezes ao dia, conforme descrito no capítulo um, e senhoras brasileiras
acompanham as novelas diariamente, há um público cativo no que diz respeito a programas religiosos nas mídias.
“Curtir” pode significar simplesmente “eu vi sua postagem” ou “eu não te ignorei”, mas “não quero me comprometer” com o que foi postado, já comentar envolve engajamento, envolve se posicionar quanto à postagem, ideologia ou crítica emitida.
O botão “curtir” parece ser percebido como uma forma de tomar parte na conversação sem precisar elaborar uma resposta. Toma-se parte, torna- se visível a participação, portanto, com um investimento mínimo, pois o ator não necessariamente precisa ler tudo o que foi dito. É uma forma de participar da conversação sinalizando que a mensagem foi recebida. Além disso, ao “curtir” algum enunciado, os atores passam a ter seu nome vinculado a ele e tornam público a toda sua rede social que a mensagem foi “curtida” (RECUERO, 2014, p. 119).
Nesta mesma pesquisa, Recuero (2014) aponta que 92,3% dos entrevistados argumentaram que a ação de curtir serve para mostrar que viram a postagem e 76% associaram a ação de “curtir” com a concordância em relação à postagem.
A partir de 2016, o Facebook disponibilizou mais cinco novos botões alternativos ao botão “curtir”. Através de emojis que representam, ter amado a postagem, ter ficado surpreso, triste, zangado ou alegre. O Facebook percebeu que as emoções dos usuários diante da postagem não poderiam se resumir em curtir e, assim, através dos emojis, foi dada a possibilidade de expressar mais precisamente a emoção e a posição frente à informação.
Comentar é um passo mais à frente do que simplesmente curtir. Comentar envolve opinar, posicionar-se frente à postagem, expor-se a outros comentários, muitas vezes contrários e conflituosos. É reconhecida no Brasil a polaridade político- ideológica que foi exacerbada pelos comentários em redes sociais durante a campanha presidencial de 2018.
O comentário, portanto, parece envolver um maior engajamento do ator com a conversação e um maior risco para a face, pois é uma participação mais visível. Isso porque aquilo que é dito pode ser facilmente descontextualizado quando migrar para outras redes através das ferramentas de compartilhamento, de curtida e mesmo de comentário. Essa compreensão do comentário como um risco para a face também leva muitos usuários a desistir de comentar e optar por apenas “curtir” a postagem, uma vez que o risco para a face é melhor. “Já deixei de comentar sim. Achei que ia rolar xingamento e discussão e não quis me expor” (usuária, 25 anos). (RECUERO, 2014, p. 121).
comunicação, de expressão, de livre manifestação de ideias, pois vivemos em uma cultura participativa e não aceitamos mais o consumo passivo de informações, queremos fazer parte. (JENKINS, 2006, p. 31). Para um fiel, o ato de comentar uma postagem de seu pregador favorito parece trazer a sensação de fazer parte e estar mais próximo de seu pastor, de seu conselheiro religioso, aquele que, para esses religiosos, é o canal de comunicação com o divino. Quando este comentário é um pedido de oração, o usuário pode ter a sensação de que seu pedido tem mais chances de ser atendido, pois certamente Deus atenderia a oração deste pregador que fala diretamente a ele.
Compartilhar a postagem é um passo mais à frente do que simplesmente comentar. Compartilhar significa “eu concordo e assino em baixo”, a não ser que o usuário inclua no post sua discordância. Segundo a pesquisa de Recuero (2014), 73% dos entrevistados compartilham a informação que consideram importante para o seu grupo social. Quanto ao compartilhamento, a “principal função parece ser a de dar visibilidade para a conversação ou da mensagem, ampliando o alcance dela”. (RECUERO, 2014, p. 120). No caso da religião, estes compartilhamentos funcionam à semelhança de militância religiosa e podem envolver o desejo de abençoar uma pessoa querida através de uma mensagem ou oração; dar um recado quanto à necessidade de mudança de comportamento no que diz respeito ao assunto abordado; ou evangelismo; catequização; tentar levar a pessoa à conversão religiosa. Para o religioso, compartilhar mensagens religiosas é muito relevante. Quanto à relevância das postagens para a tomada de decisão de compartilhamento, Recuero encontrou o seguinte:
No questionário, a principal função elencada para a ferramenta foi justamente a divulgação de algo relevante (81%, N=243). A percepção deste algo como relevante para a rede social é igualmente um valor para aquele que compartilha e para aquele que foi compartilhado. “Compartilho aquilo que acho importante ou que acho que interessa aos meus amigos.”(usuária, 30 anos). (RECUERO, 2014, p. 120).
Se a ferramenta Facebook parece ter caído nas graças dos jovens, também é verdade que tem caído nas graças da sociedade como um todo. Se empresas têm se aprimorado em patrocinar e investir na captação de clientes via Facebook, a religião também o tem feito. Cria-se, assim, uma rede de memórias que vai se perpetuando.
4 O PENTECOSTALISMO, O NEOPENTECOSTALISMO E A IGREJA