só faz sentido o que em poucas palavras
é entendido.
todo dilema, fica compreensível
posto em poema.
fácil, pequeno relâmpago riscando
um céu sereno.
muito falar?
desnecessário; basta só saber olhar.
escrever demais?
bobagem. porque tudo cabe em haicais.
38
SIMPLICIDADE
abri a janela procurando a vida:
lá estava ela.
bonita assim simples e faceira sorrindo p’ra mim.
sorri de volta.
nas asas do sorriso a alma se solta.
na alma livre alegria floresce em
tudo que vive.
fiz caso demais.
hoje que se dane. só faço haicais.
SABEDORENÇA
a pior doença é a arrogância do néscio.
sabedorença.
ignorante
acha que ler um só livro já é bastante.
quem acha que sabe é alguém que não se cabe
e nunca se abre.
com chaves tortas Deus pode nos abrir
muitas portas.
talvez a vida seja só uma mulher
desconhecida.
40
PEPITAS
a morte, partida, viagem indefinida,
final, só de ida.
o camelo passou no furo da agulha.
o homem ficou.
nossa danação é a vida perdida por
uma religião.
eis a ciência.
a verdade se chama inocência.
foi confirmado.
Deus escreve certo. nós lemos errado.
A VIDA E A ARTE agrada á vista a obra que se vê ou a
alma do artista?
um operário é a pessoa cujo limite
é o seu salário.
o banqueiro é uma pessoa limitada
pelo dinheiro.
capitalista:
pessoa necessária pouco benquista.
aposentado:
presente sustentado pelo passado.
42
o amor não quer presente, o que ele quer
é presente ser.
a fidelidade não pede declaração
só lealdade.
a amizade não manda recado
mora ao lado.
intimidade e cama, só se divide
com quem se ama.
cumplicidade não se fala ou deduz
carrega a cruz
DÁDIVAS DA VIDA
madame sorte é esnobe, evita
casa de pobre.
cobra e inveja quando nos picam, mata
ou aleija.
a vida é frase que a gente constrói
usando a crase.
só acontece aquilo que conosco
mais se parece.
o que a vida dá já é nosso, mas a gente
precisa buscar.
44
a vida passa em frente da gente no
banco da praça.
a criança, o cão, inocência da vida:
real amizade.
abelha e flor trocando carinhos:
amor de verdade.
moça e rapaz se bebem com os olhos:
felicidade. uma tarde que se finda:
tranquilidade.
a praça, o povo, preguiçoso resumo
de uma cidade.
VISÕES DE MÁRIO QUINTANA
voar num ”Vimana”
é como ler poemas do Mário Quintana.
andando à esmo foi que me perdi dentro
de mim mesmo.
jantar fechado um mosquito entrou sem
ser convidado.
os esquisitos desejos incomodam
como mosquitos.
a casa no morro em dias de tempestade
pede socorro.
46
na escuridão até a sombra foge.
os amigos não..
todo covarde carrega no lombo um
feio albarde.
infeliz/minto para que ninguém veja
a dor que sinto.
infeliz/mente quem quer dividir uma dor
que não sente.
sei o que procuro pois sou contemporâneo
do meu futuro.
MUDANÇAS maior a dúvida maior a dívida que
se faz com a vida.
quero mudar: mas como, se onde eu for, vou
me acompanhar?
tudo balança dentro de uma cabeça
que faz mudança.
parei contigo, mas me dei um castigo.
fiquei comigo.
vazio agudo só é sentido por quem se
encheu de tudo.
48
a maior besteira e querer alcançar o sol
com asas de cera.
não pesa nada a consciência. mas a culpa
a deixa pesada.
no cemitério finalmente, alguém nos
leva a sério.
ser um sábio é aprender a ler da vida
o seu alfarrábio.
na vida era mó, moía tudo e todos. na
morte virou pó.
VIDA DE POETA
laica ou asceta sempre incompleta
vida de poeta.
trancos e barrancos pintaram estes meus
cabelos brancos.
mais que memória eles são o registro da
minha história.
vida sem glória, e dinheiro, nunca triste
nem merencória.
muito sofrida mas com certeza, digna
de ser vivida.
50
períodos longos por que? a vida se liga
pelos ditongos.
tudo que eu sou;
opções cuja porta é sempre um “ou”
sem ser omisso obrigo-me a escolher
aquilo ou isso.
e os hiatos podem cortar a ligação
entre os fatos.
com freqüência nos perdemos nas nossas
desinências.
COMUNICAÇÃO
os antenados são cérebros que estão
sempre ligados.
celular na mão mundo se afogando
mar de solidão.
telinha rolando.
comunicação moderna.
mundo pirando.
. por bem ou mal estou me transformando
num ser virtual.
que alvoroço...
para no fim, ficar um monte de osso...
52
bem dolorido ser na vida artigo
indefinido.
a gente não sente que ás vezes é sujeito
inexistente.
outra opção:
viver como ponto de interrogação.
o pior marasmo:
sujeito parecido com pleonasmo.
homem ativo é como se fosse verbo
intransitivo.
GRAMÁTICA (II)
expectativa cruel. só se conjugar
na voz passiva.
nesse estado a gente vira sujeito
sem predicado.
na audição o desejo eterno de
aliteração.
pedir desculpa eterno eufemismo
da nossa culpa.
sem as idéias todos seríamos só
prosopopéias.
54
placa na grama lápide de um homem.
o epigrama.
mente confusa qualquer ideia difusa
nos parafusa.
um ovo choco um palhaço louco
boçal e mouco.
autor: destino.
ele é que me escreve eu só assino.
sou ortodoxo, mas as vezes me perco
no paradoxo.
VISÃO DA CIDADE
o tempo parou no relógio quebrado.
o homem andou.
a droga, a vida uma placa que avisa:
rua sem saída.
muros pichados:
doença de cérebros desocupados.
gente sem teto cidade sem coração
amor e afeto.
gente armada as vidas perdidas na
encruzilhada.
56
coisas que faço são as marcas que traço
com o meu braço.
sonhos que tenho por tristes que sejam, são
o meu desenho.
aprenda a voar as estrelas brilhantes
só vivem no ar.
sonhe bem alto pois um sonho rasante
não dá nem salto.
pássaro e avião podem ser derrubados.
as estrelas não.
DESEJOS DA ALMA peça bastante:
quem pouco deseja nada garante.
não é na esquina que a gente acha nossa
autoestima.
abra seu olho;
só vai ver a estrela quem não é caolho.
a vida é prisão de onde só se sai morto,
em um caixão.
sonhos que tive desejo da minh’alma
voando livre.
58
as horas dançam, na passarela da noite
uma valsa lenta.
ao cair da tarde o sol rouba beijos da
boca da noite.
as bocas calam o que um coração sente.
os olhos falam.
a mão do destino sempre escreve certo
por linhas tortas.
um passarinho pode ser derrubado
uma cobra não.
COMPRIMIDOS empolgação é fazer de um cometa
nosso avião.
a pior escória são as mágoas guardadas
em nossa memória.
mas quem semear esperanças na vida
herda um pomar.
lutar é viver.
quem não é combatente é morte o nascer.
quanto mais viver maior certeza se tem
de nada saber.
60
REENCARNAÇÃO não tenho medo
de morrer. só não quero deixar de viver.
ser obrigado a nascer eternamente
velho novo ser.
pagar os erros de uma vida anterior
desse jeito.
que injustiça!
se nosso deus é Deus e ele é perfeito.
podia mas não fez o que devia ter feito
uma única vez.
pecado hoje virtude de amanhã.
porque pagamos?
não há na vida definitiva morte.
reencarnamos?
não será o carma um cartão de crédito
que inventamos?
doce ilusão que nos consola a alma
tão consumista, que paga a prazo o que deveria ser pago
sempre á vista?
o anjo caído foi quem disse tais coisas ao meu ouvido
MORADORES DE RUA na noite densa
os moradores de rua indiferença.
ébrios tardios, vadias seminuas, nos bares vazios.
um cão sem dono, cobertores puídos,
o abandono.
vida cansada dormindo na sarjeta
de madrugada.
morte não falha toda a cidade dorme
só ela trabalha.
constrangimento um corpo atrapalha
o movimento.
espetáculo.
polícia removendo o obstáculo.
desponta o dia.
outro mendigo ocupa a marquise vazia.
naturalmente o mundo se recompõe
segue em frente.
não é cena rara.
a vida faz “pit stop”
mas nunca pára.
62
passa o cometa.
sublimes letras de luz atrás do monte.
dedo de Deus escrevendo poesia
no horizonte?
seu farolete perscrutando o espaço
á nossa procura?
olho de Deus brilhando num buraco
de fechadura?
sopro divino, travesso, desgarrado
feito menino?
AMOREMAS
PARALELAS
64
no infinito a minha paralela
deve ser ela.
tracei um ponto.
quem sabe no espaço vai dar encontro.
passo a passo com régua e compasso
o destino traço.
meu diagrama:
traço do meu desejo até a sua cama.
coração, vetor cujo sentido é dado
só pelo amor.
MOLECAGENS a velha cama
cavalo que rinchava enquanto a gente cavalgava.
coisa de moleque...
nós embaixo do cobertor e a cama fazendo nhec nech...
minha paralela me chama para se encontrar com ela no infinito da nossa cama.
oferta do dia:
troco coração vago por um afago.
ah! estrelinha!
te daria para ela se tu fosses minha...
66
o amor/tece o triste amor/tecido
que nos veste.
na coletânea Amar a mais bela poesia
é o seu olhar.
no empurra e puxa ele planta a semente
ela embuxa.
poeta é quem transforma as medusas
em belas musas.
o amor ganha.
mas num jogo viciado ele só apanha.
SENSUALIDADE
olhos que cruzam estrelas se procuram
em meio á noite.
corpos se tocam plantando os desejos
em terras no cio.
bocas unidas uma abelha, uma rosa
fazendo amor.
mãos atrevidas tomam forma de seios
e seios de mãos.
corpos desnudos num tapete mágico no céu do prazer.
ORGASMO 68
o êxtase diluído em doce prazer.
mundos em guerra dormem pacificados.
na paz do amor.
amor, mistério;
todos querem entender sem levar a sério.
amante, amor, profissão de sofredor,
eu enganador?
A ESSÊNCIA DO AMOR o espirito
e o verdadeiro amor são invisíveis.
são entidades que só podem existir
em certos níveis.
incorpóreas imaterialidades
incorruptíveis.
peremptórias as duas realidades
são incindíveis.
só se hospedam em almas e corações
muito sensíveis.
CANTOS E DESENCANTOS (I) se eu contasse
todos meus desencantos talvez sarasse.
70
adiantaria?
só se eu acreditasse em bruxaria.
quando eu minto estou violentando coisas que sinto.
o que é o amor?
só quem perdeu um sabe pois sentiu a dor.
esquecimento?
só mesmo quando a dor não vem de dentro.
CANTOS E DESENCANTOS (II) homem e mulher:
paralelas cruzando o ponto prazer.
olho maldoso secou a rosa no vaso.
o nosso caso.
orgasmo de amor, doce paz conquistada
sem guerra ou dor.
se o amor existe sem mesmo a morte pode
torná-lo triste.
ele sobrevive até ao aniquilamento
do pensamento.
CINCO FACES DO AMOR
no outro mundo talvez o amor possa ser
mais profundo.
72
morrer amando não é morrer. é mais viver
divinizando.
de Deus foi o dito que o nome dele é Amor:
eu acredito amor sem respeito.
tirano que governa sem direito.
amor ciumento.
um abraço de urso, sufocamento.