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BAÚ DE HAICAIS

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BAÚ DE HAICAIS

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introdução

sobre o haicai

O haicai, como sabemos, é um tipo de poema de origem japonesa, que começou a ser cultivado no Japão no século VII da era cristã, depois que o budismo zen se tornou uma importante prática religiosa naquele país. Sua estrutura poética, que contempla exatamente a virtude mais estimada no Budismo, ou seja, o insight, ou iluminação, foi adaptada exatamente para essa finalidade: expressar, num mínimo de palavras, um estado psíquico interior que a razão não precisa logicizar, mas que, para o espírito de quem o experimenta, é suficiente para lhe acrescentar um laivo de sabedoria.

Os primeiros haicais foram produzidos na forma popularizada como Waka - poemas na forma do país de Wa (Japão),- e publicados em uma antologia de 4500 poemas, no século VII da era cristã. Essa foi a chamada era Elan, no Japão, e durante alguns séculos dessa época (entre os séculos VII e XI, o haicai foi cultivado na corte imperial e entre as classes superiores como uma forma de entretenimento, semelhante ao que fazem, ainda hoje, os repentistas nordestinos e gaúchos, onde um poeta cria o primeiro verso e outro poeta completa o poema com o segundo.

Em princípio, como se disse, o haicai se destinava a expressar um pensamento na forma do budismo zen, ou seja, um momento de iluminação. Soava como uma metáfora, cujo sentido era mais dirigido ao inconsciente do ouvinte do que à sua razão lógica. Como este poema de Bashô, por exemplo:

Trégua de vidro:

o canto da cigarra 2

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Mas com o correr do tempo os compositores de haicais começaram a ligar umas estrofes à outras, versando sobre o o mesmo tema, criando-se poemas completos, onde cada estrofe se seguia à anterior, formando uma composição elaborada. Não era mais uma espécie de koan zen, mas sim forma de poesia burguesa, na qual a ênfase era posta nas coisas simples e cotidianas, e geralmente com um toque de humor rasteiro e às vezes até sensual, como nestes versos de Matsunaga Teitoku (1571-1653), o mais famoso poeta desse tipo de composição:

urayamashi – ah!como invejo omoikiru toki – a maneira que termina

neko no koi – o romance dos gatos.

Esse tipo de haicai receberia o nome de renga haicai, poema popular de larga tradição no Japão. Tempos depois, já pelo início do século XVII, o haicai (hokku) voltaria a ser cultivado na sua forma original tanka, (5-7-5 sílabas) durante o o chamado período Edo. O mais famoso cultivador desse tipo de criação literária foi o poeta Matsuó Bashô ( 1644-1694) que além de reconstituir o haicai às suas origens, voltou a usá-lo também para a transmissão de autoconhecimento, na forma preconizada pelo budismo zen , revivendo a forma koan de ensinamento.

A chamada “Escola de Bashô” se tornou a mais famosa escola literária do Japão. Consta que o poeta teve mais de três mil discípulos em vida, incluindo os “dez grandes” poetas do Japão, que ficaram conhecidos como os maiores compositores de haicais em todos os tempos ( Sampu, Kioray, Ransetsu, Kiorokú, Kikaku, Josô, Yaha, Shicô, Etsujin, Hokúshi).

A era seguinte, após a época de Bashô e seus discípulos, foi dominada pelos praticantes do haicai clássico, liderados

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pelos poetas Buson (1716-1784) Kobaiashi Issa 1763-1827) e Masaoka Shiki (1867-1902). Esse período, chamado de Era Meiji, reflete as transformações históricas e sociais pelas quais passava o Japão, que começava a se abrir para o Ocidente e adotar costumes estranhos à sua tradição.

Nota-se na poesia desses artistas uma preocupação muito grande em preservar a integridade da forma japonesa de poetar, bem como um apego á cultura pátria, em detrimento do modernismo que se instalava em outros setores da cultura japonesa. Foi obra dos poetas desse período a evolução do haicai para haikú, neologismo criado com as palavras haicai e hokkú, termos que designavam a fórmula haicai nos períodos anteriores. A tônica, nos haicais da era Meiji era a contemplação da natureza e a sua expressividade na forma de interjeições (ah!), para expressar a dúvida, a emoção que o acontecimento proporcionava ao observador, como nestes versos de Masaoka Shiki:

“refletido nas folhas novas que cobrem toda a montanha]

ah! o sol da manhã!”

A partícula expletiva, no caso, era o resultado da iluminação kireji, ou seja, algo semelhante ao que os ocidentais chamam de insight ou iluminação.

O haicai foi trazido ao Brasil por Monteiro Lobato. Pelo menos foi esse grande escritor pátrio que primeiro publicou uma tradução que ele fez de um conjunto de seis haicais, em um jornal da cidade de Pindamonhangaba, em 1906. Logo em seguida, em 1908, o navio Kasato Marú traria para o Brasil o seu primeiro haicaísta. Segundo Masuda Goga, o mais profícuo historiador do haicai no Brasil, o primeiro poema dessa forma

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imigrante Shuêhei Uetsuda (1876-1935):

karetaki o (chegando, vê-se)

miagete tsukinu(lá do alto, a nau imigrante) imisen.(a cascata seca.)

Logo após a chegada e acomodação dos imigrantes japoneses no Brasil, não obstante as várias dificuldades de adaptação, inclusive as causadas pela Segunda Guerra Mundial,

na qual os japoneses lutaram do lado oposto ao escolhido pelo Brasil, a forma japonesa de poetar ganhou admiradores entre os

modernistas e passou a ser cultivada por importantes poetas brasileiros, especialmente o grande Guilherme de Almeida.

Nessa conjuntura destacar-se-iá o nome do poeta Nempuku Sato (1898-1979), que foi o principal veiculador desse tipo de criação literária no país. E entre os poetas brasileiros, têm-se como importante o trabalho de Afrânio Peixoto, que deu ao haicai brasileiro a forma que ele viria a se tornar padrão entre os compositores desse tipo de poesia.

A partir de 1922, depois da Semana da Arte Moderna, o haicai se inseriria na onda modernista que a literatura brasileira surfava desde então. O padrão rígido de 5-7-5 sílabas métricas deixaria de ser única para esse tipo de poema, ganhando com os modernistas Oswald de Andrade, Manuel Bandeira , Carlos Drummond de Andrade e outros, uma forma livre onde o gosto ocidental pela metáfora substituiria o hermetismo subconsciente do koan, como nestes haicais:

Não tenho dinheiro no banco, porém,

meu jardim está cheio de rosas”

(Carlos Drummond de Andrade)

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Um gosto de amora comida com sol. A vida

chamava-se ‘Agora’”

(Guilherme de Almeida) Aprendi com meu filho de dez anos

Que a poesia é a descoberta

Das coisas que eu nunca vi” (Oswald de Andrade) Incorporado definitivamente à literatura brasileira como uma das mais criativas formas de poetar, o haicai viria a ser cultivado por grandes nomes da literatura brasileira como Guimarães Rosa, Mário Quintana, Millor Fernandes, Décio Pignatari, Haroldo de Campos, Pedro Xisto, Paulo Leminsky e outros. Esses e outros expoentes da poesia pátria irão dar á essa forma de poema um lugar de destaque nas letras brasileiras.

Hoje, o haicai é um dos mais saborosos tipos de poesia produzidos no Brasil. Um sem número de bons poetas, como o já citado Paulo Levinsky, Olga Savary, Abel Prereira, Alice Ruiz, Carlos Vogt são cultivadores do haicai.

Esta nossa aventura por esse tipo de poema não trás, como é óbvio, nenhuma novidade. Ás vezes mantendo a forma clássica, em outras deixando fluir, á moda dos modernistas, o que se pretende dizer, o objetivo deste nosso baú de haicais é colocar nossos próprios pensamentos, da forma como eles nos vieram: quando deu para acomodá-los na fórmula clássica 5-7-5 nós o fizemos. Quando sentimos que não transmitiriam o sentimento que os inspirava, deixamo-los na forma livre de um poema de três versos, sem preocupação com o número de sílaba. Algo como nos exemplos como segue:

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abri a janela procurando a vida:

lá estava ela.

que é a fórmula clássica, ou

solidão é algo que a gente sente quando descobre que está sozinho

no meio de um monte de gente.

que está na formula livre.

De uma forma ou de outra, espero que eles estejam a gosto dos leitores. No fim, essa é sempre a motivação que leva alguém a se aventurar num território tão cheio de enigmas, como é o caso da poesia. No fundo é o que ela diz e o que o leitor sente quando lê ou escuta que conta.

Considerar-me-ei pago pelo trabalho se algum leitor, ao folhear este livrinho, puder sentir um pouco das emoções que me deram motivo para escrevê-los.

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NATUREMAS

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VISÕES DO SOL

o sol a nascer é a visão de um Deus

no seu vir a Ser.

indo ou vindo, chegando ou partindo

o sol é lindo.

para refrescar o sol baixa o fogo e mergulha no mar.

do ato de amor entre o sol e a terra

nasceu uma flor.

doirada maçã, emoldurada de azul,

o sol da manhã.

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MENSAGENS NAS NUVENS nas nuvens, vejo

as formas que o mundo tem no meu desejo.

não são miragens o que elas mostram; são

ricas mensagens.

no céu nublado minha mente enxerga

anjo alado.

olhos ateus descobrem nas nuvens

faces de Deus.

nuvem informa:

nada se perde ou cria só se transforma.

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NOITE NO CAMPO lindas estrelas na passarela do céu:

adoro vê-las.

é uma beleza:

Deus artista pinta a natureza.

suspiro fundo.

esticando meus braços, abraço o mundo.

neste ensejo dou na boca da noite

um doce beijo.

noite, luar, esse grilo na mata,

um trio a cantar.

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AS QUATRO ESTAÇOES mil pirilampos piscando pelos campos;

primaverança.

folhas deitadas dormindo nas calçadas:

outonança.

os passarinhos cantando em seus ninhos;

veranidade.

véu de geada estendido na estrada:

invernidade.

show de emoções perfume e alternância

quatro estações.

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VISÕES DE UM JARDIM rosa em botão:

a natureza mostrando o seu coração.

homens de terno, as árvores peladas.

chegou o inverno.

brilhando na flor, uma gota de orvalho:

lágrima de amor.

na primavera, coloridos rebentos

brotam da terra.

serra florida, natureza grávida,

parindo vida.

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FESTA NO CÉU lua de prata.

cachorro entoando uma serenata.

estrelas demais:

mas nessa festa no céu só entram casais.

festa daquelas!

a mão de Deus acendeu milhões de velas.

a lua realça.

dance comigo, amor, a última valsa.

noite na roça.

estragar esta festa, não há quem possa.

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TARDE NA ROÇA lindo recital essa banda de grilos

no meu quintal.

para se mostrar um cometa-atleta mergulhou no mar.

um sapo cantor chama a fêmea para

fazer amor.

a cigarra, o rio, o vento. vozes que formam

um belo trio.

bem lentamente uma languidez toma

conta da gente.

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NATUREZA VIVA um campo em flor:

Deus escrevendo versos de amor.

folhas caídas adubando florestas

prenhe de vidas.

da pedra bruta jatos expulsam a vida

absoluta.

tristeza da lua:

brilhar tanto e não poder desfilar na rua.

e a da estrela estar tão longe que mal

se pode vê-la.

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VISÕES DO MAR um rio corre.

chega na praia, entra no mar e morre.

tristeza do mar:

refletir as estrelas sem poder pegar.

e elas, que azar:

não podem deitar-se na cama do mar.

de norte a sul, o mar se embriaga

de tanto azul.

canção de ninar, meu coração balança,

no berço do mar.

:

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VISÕES DA AURORA rocio matinal.

ontem, a noite chorou no roseiral.

cor da aurora;

com vergonha da lua é o sol que cora,

a lua disse

que o estresse do sol . é o eclipse.

de madrugada as lágrimas da noite

viram geada.

no crepúsculo o sol mutante se veste

de lusco-fusco.

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VOZES DO CAMPO sabiá na mata, apaixonado, começou

uma serenata.

galo responde com um doce trinado

sabe-se onde.

o alvorecer quando o dia começa

tudo pode ser.

o amanhecer é uma doce promessa

de novo viver.

coisa para crer:

a natureza, de manhã, tem tudo a dizer.

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POETA NA JANELA

noite, solidão;

um coração pulsando, aí tem paixão.

na voz do vento, a canção composta na

dor do relento.

névoa lá fora.

riacho solitário canta e chora.

rasgando o véu flamejantes espadas

cortam o céu.

janela, luar, no coração do poeta

é o amor a cantar.

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CANTIGA DA TERRA o sol se deitou sobre o corpo da terra;

ela engravidou.

a terra no cio recebeu uma semente

gerou um filho.

rosa em botão:

é o coração da terra em exposição.

o caracol lento é a preguiça do mundo

em movimento.

sem ter salário a formiga provou ser

bom operário.

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ROMANCE DA NATUREZA

um pé de milho parindo uma espiga,

são mãe e filho.

a mata em flor é a própria natureza

falando de amor.

a chuva e o sol tingindo o horizonte

lindo arrebol.

trovões no ar na passarela do céu

tambores a soar.

coriscos no céu lâmina flamígera

rasgando o véu.

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O REPOLHO E A ROSA

boa pedida, á medida que se vive,

abrir-se à vida.

o mundo esquece quem fecha sua porta

e adormece..

repolho e rosas:

são lições de vida bem poderosas.

a bela rosa nasce fechada, morre

fica cheirosa.

já o repolho, nasce aberto, morre

vira restolho.

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INSTANTÂNEOS

um corvo bica a carcaça apodrecida

a vida recicla.

abelha pousou no regaço de uma flor

ela engravidou.

borboleta e flor no jardim, pela manhã.

fazendo amor.

a catarata.

véu de noiva que usa a virgem mata.

o dia termina e o sol também já dobrou a esquina.

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VIZINHO PASSARINHO

um passarinho pousou na roseira

e fez um ninho.

outro galhinho e logo o seu ninho

ficou prontinho.

feito o ninho veio a companheira

e três ovinhos.

olá amiguinho muito agradecido

pelo carinho.

tenho vizinho agora não me sinto

aqui tão sozinho.

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. VISÕES DA SERRA

clarão na lagoa;

é a cara alegre do sol que ri á toa.

de flor em flor.

a borboleta transmite mensagens de amor.

vento penteando os cabelos da serra,

assobiando.

rocha no meio da montanha desnuda

parece um seio.

riacho arisco rasgando a floresta

deixa um risco.

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O MAR, VISTO DA SERRA serra florida

natureza ensina lições de vida.

visto de cima o mar parece uma

grande piscina.

barco ao longe no mosteiro do mar

parece monge.

visão milenar antiga amizade o barco, o mar.

coração puro para qualquer pessoa, é porto seguro.

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ARQUÉTIPOS NATURAIS

no sol da manhã natureza em festa

felicidade.

luz benfazeja clareando caminhos

cumplicidade.

passos rápidos

percorrendo estradas da liberdade.

peitos abertos sem medo ou dúvidas

honestidade.

crer na vida é a dádiva de Deus para

a humanidade.

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A CANÇÃO DO MAR as ondas tocam

num piano de pedra a canção do mar.

a vento assobia a melodia que vibra

nas cordas do ar.

no salão do céu as gaivotas felizes

estão a dançar.

no meio da mata um sabiá seresteiro

se põe a cantar.

fora do mundo pensamento balança

nas ondas do mar.

ondas-gangorra meu coração vai e vem

uma boa zorra.

leve e solto flutuando nas nuvens

sonho a voar.

planando no céu misturando-se no azul

não pensa voltar.

carne e sangue pensamento e desejo

diluem-se no ar.

voltam na forma de movimento e som

na canção do mar.

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CREPÚSCULO

sol minúsculo, se esconde na serra

é o crepúsculo, tarde morrendo mariposas noturnas

estão nascendo.

na Ave-Maria as cigarras começam

uma sinfonia.

ruas cansadas, sombras melancólicas,

cobrem calçadas.

um vento forte soprando os pássaros

rumo ao norte.

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(31)

AMOR EM QUATRO ESTAÇÕES se na infância

amor é o alimento que faz crescer,

adolescente, ele é planta formosa

que vai florescer.

na juventude se torna aventura

de puro prazer.

na maturidade, vira necessidade

de um vir a ser.

mas na velhice todo amor se torna

razão de viver.

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VISÕES DE UM DIA DE SOL

a fotografia grão de felicidade

que a luz irradia.

primeiro beijo.

um passarinho virgem cheio de desejo.

.pendoar do milho.

mãe-natureza prenha parindo filho.

a borboleta pousando na janela.

mensagem dela.

felicidade.

compromisso com o Amor e com a verdade

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FILOSOFEMAS

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IMPOSSIBILIDADES POSSÍVEIS

mundo ensina.

quem achar que já sabe, só imagina.

em qualquer lugar onde se plantar o amor ele vai brotar.

na carpintaria a lição mais completa

de sabedoria.

flor no asfalto impossibilidade que dá um salto.

pé de cipreste refletindo no lago

a paz celeste.

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PAIXÃO DE VIVER

anjo bizarro, o homem. um enigma

feito de barro.

ganhe a vida:

a morte já é herança adquirida.

se pensar era ser pensei muito na vida.

deixei de viver.

A vida é bela, mas a minha mulher é mais

bonita que ela.

morrer, descansar?

mesmo extenuado, quero continuar.

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VIAGEM INDIGESTA

mudei de plano.

troco meu lugar no céu por mais dez anos.

se a morte chegar quero que digam à ela

que fui viajar.

.

eu não morrerei.

vou dar uma saidinha logo voltarei.

indo e vindo:

assim minha alma vai se redimindo.

morte é viagem?

vendo bem baratinho minha passagem.

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O VERBO E O PREDICADO ninguém falava.

Deus fez o universo com uma palavra.

só o que ele usou, para quem quiser saber,

foi o verbo: eu sou.

o mundo foi criado quando Deus se deu

um predicado.

assim, o homem só se justifica na força do nome.

um nome forte não morre: o predicado

é imune à morte.

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O PODER DO HAICAI

só faz sentido o que em poucas palavras

é entendido.

todo dilema, fica compreensível

posto em poema.

fácil, pequeno relâmpago riscando

um céu sereno.

muito falar?

desnecessário; basta só saber olhar.

escrever demais?

bobagem. porque tudo cabe em haicais.

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SIMPLICIDADE

abri a janela procurando a vida:

lá estava ela.

bonita assim simples e faceira sorrindo p’ra mim.

sorri de volta.

nas asas do sorriso a alma se solta.

na alma livre alegria floresce em

tudo que vive.

fiz caso demais.

hoje que se dane. só faço haicais.

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SABEDORENÇA

a pior doença é a arrogância do néscio.

sabedorença.

ignorante

acha que ler um só livro já é bastante.

quem acha que sabe é alguém que não se cabe

e nunca se abre.

com chaves tortas Deus pode nos abrir

muitas portas.

talvez a vida seja só uma mulher

desconhecida.

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(41)

PEPITAS

a morte, partida, viagem indefinida,

final, só de ida.

o camelo passou no furo da agulha.

o homem ficou.

nossa danação é a vida perdida por

uma religião.

eis a ciência.

a verdade se chama inocência.

foi confirmado.

Deus escreve certo. nós lemos errado.

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A VIDA E A ARTE agrada á vista a obra que se vê ou a

alma do artista?

um operário é a pessoa cujo limite

é o seu salário.

o banqueiro é uma pessoa limitada

pelo dinheiro.

capitalista:

pessoa necessária pouco benquista.

aposentado:

presente sustentado pelo passado.

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(43)

o amor não quer presente, o que ele quer

é presente ser.

a fidelidade não pede declaração

só lealdade.

a amizade não manda recado

mora ao lado.

intimidade e cama, só se divide

com quem se ama.

cumplicidade não se fala ou deduz

carrega a cruz

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DÁDIVAS DA VIDA

madame sorte é esnobe, evita

casa de pobre.

cobra e inveja quando nos picam, mata

ou aleija.

a vida é frase que a gente constrói

usando a crase.

só acontece aquilo que conosco

mais se parece.

o que a vida dá já é nosso, mas a gente

precisa buscar.

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(45)

a vida passa em frente da gente no

banco da praça.

a criança, o cão, inocência da vida:

real amizade.

abelha e flor trocando carinhos:

amor de verdade.

moça e rapaz se bebem com os olhos:

felicidade.

casal idoso compartilha segredos:

privacidade.

um relógio na torre da igreja:

regularidade.

um pipoqueiro testemunha ocular:

cumplicidade.

beijos,carinho combinação singular:

humanidade.

bancos, pessoas, uma tarde que se finda:

tranquilidade.

a praça, o povo, preguiçoso resumo

de uma cidade.

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VISÕES DE MÁRIO QUINTANA

voar num ”Vimana”

é como ler poemas do Mário Quintana.

andando à esmo foi que me perdi dentro

de mim mesmo.

jantar fechado um mosquito entrou sem

ser convidado.

os esquisitos desejos incomodam

como mosquitos.

a casa no morro em dias de tempestade

pede socorro.

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(47)

na escuridão até a sombra foge.

os amigos não..

todo covarde carrega no lombo um

feio albarde.

infeliz/minto para que ninguém veja

a dor que sinto.

infeliz/mente quem quer dividir uma dor

que não sente.

sei o que procuro pois sou contemporâneo

do meu futuro.

(48)

MUDANÇAS maior a dúvida maior a dívida que

se faz com a vida.

quero mudar: mas como, se onde eu for, vou

me acompanhar?

tudo balança dentro de uma cabeça

que faz mudança.

parei contigo, mas me dei um castigo.

fiquei comigo.

vazio agudo só é sentido por quem se

encheu de tudo.

48

(49)

a maior besteira e querer alcançar o sol

com asas de cera.

não pesa nada a consciência. mas a culpa

a deixa pesada.

no cemitério finalmente, alguém nos

leva a sério.

ser um sábio é aprender a ler da vida

o seu alfarrábio.

na vida era mó, moía tudo e todos. na

morte virou pó.

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VIDA DE POETA

laica ou asceta sempre incompleta

vida de poeta.

trancos e barrancos pintaram estes meus

cabelos brancos.

mais que memória eles são o registro da

minha história.

vida sem glória, e dinheiro, nunca triste

nem merencória.

muito sofrida mas com certeza, digna

de ser vivida.

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(51)

períodos longos por que? a vida se liga

pelos ditongos.

tudo que eu sou;

opções cuja porta é sempre um “ou”

sem ser omisso obrigo-me a escolher

aquilo ou isso.

e os hiatos podem cortar a ligação

entre os fatos.

com freqüência nos perdemos nas nossas

desinências.

(52)

COMUNICAÇÃO

os antenados são cérebros que estão

sempre ligados.

celular na mão mundo se afogando

mar de solidão.

telinha rolando.

comunicação moderna.

mundo pirando.

. por bem ou mal estou me transformando

num ser virtual.

que alvoroço...

para no fim, ficar um monte de osso...

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(53)

bem dolorido ser na vida artigo

indefinido.

a gente não sente que ás vezes é sujeito

inexistente.

outra opção:

viver como ponto de interrogação.

o pior marasmo:

sujeito parecido com pleonasmo.

homem ativo é como se fosse verbo

intransitivo.

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GRAMÁTICA (II)

expectativa cruel. só se conjugar

na voz passiva.

nesse estado a gente vira sujeito

sem predicado.

na audição o desejo eterno de

aliteração.

pedir desculpa eterno eufemismo

da nossa culpa.

sem as idéias todos seríamos só

prosopopéias.

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(55)

placa na grama lápide de um homem.

o epigrama.

mente confusa qualquer ideia difusa

nos parafusa.

um ovo choco um palhaço louco

boçal e mouco.

autor: destino.

ele é que me escreve eu só assino.

sou ortodoxo, mas as vezes me perco

no paradoxo.

(56)

VISÃO DA CIDADE

o tempo parou no relógio quebrado.

o homem andou.

a droga, a vida uma placa que avisa:

rua sem saída.

muros pichados:

doença de cérebros desocupados.

gente sem teto cidade sem coração

amor e afeto.

gente armada as vidas perdidas na

encruzilhada.

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(57)

coisas que faço são as marcas que traço

com o meu braço.

sonhos que tenho por tristes que sejam, são

o meu desenho.

aprenda a voar as estrelas brilhantes

só vivem no ar.

sonhe bem alto pois um sonho rasante

não dá nem salto.

pássaro e avião podem ser derrubados.

as estrelas não.

(58)

DESEJOS DA ALMA peça bastante:

quem pouco deseja nada garante.

não é na esquina que a gente acha nossa

autoestima.

abra seu olho;

só vai ver a estrela quem não é caolho.

a vida é prisão de onde só se sai morto,

em um caixão.

sonhos que tive desejo da minh’alma

voando livre.

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(59)

as horas dançam, na passarela da noite

uma valsa lenta.

ao cair da tarde o sol rouba beijos da

boca da noite.

as bocas calam o que um coração sente.

os olhos falam.

a mão do destino sempre escreve certo

por linhas tortas.

um passarinho pode ser derrubado

uma cobra não.

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COMPRIMIDOS empolgação é fazer de um cometa

nosso avião.

a pior escória são as mágoas guardadas

em nossa memória.

mas quem semear esperanças na vida

herda um pomar.

lutar é viver.

quem não é combatente é morte o nascer.

quanto mais viver maior certeza se tem

de nada saber.

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REENCARNAÇÃO não tenho medo

de morrer. só não quero deixar de viver.

ser obrigado a nascer eternamente

velho novo ser.

pagar os erros de uma vida anterior

desse jeito.

que injustiça!

se nosso deus é Deus e ele é perfeito.

podia mas não fez o que devia ter feito

uma única vez.

pecado hoje virtude de amanhã.

porque pagamos?

não há na vida definitiva morte.

reencarnamos?

não será o carma um cartão de crédito

que inventamos?

doce ilusão que nos consola a alma

tão consumista, que paga a prazo o que deveria ser pago

sempre á vista?

o anjo caído foi quem disse tais coisas ao meu ouvido

(62)

MORADORES DE RUA na noite densa

os moradores de rua indiferença.

ébrios tardios, vadias seminuas, nos bares vazios.

um cão sem dono, cobertores puídos,

o abandono.

vida cansada dormindo na sarjeta

de madrugada.

morte não falha toda a cidade dorme

só ela trabalha.

constrangimento um corpo atrapalha

o movimento.

espetáculo.

polícia removendo o obstáculo.

desponta o dia.

outro mendigo ocupa a marquise vazia.

naturalmente o mundo se recompõe

segue em frente.

não é cena rara.

a vida faz “pit stop”

mas nunca pára.

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(63)

passa o cometa.

sublimes letras de luz atrás do monte.

dedo de Deus escrevendo poesia

no horizonte?

seu farolete perscrutando o espaço

á nossa procura?

olho de Deus brilhando num buraco

de fechadura?

sopro divino, travesso, desgarrado

feito menino?

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AMOREMAS

PARALELAS

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(65)

no infinito a minha paralela

deve ser ela.

tracei um ponto.

quem sabe no espaço vai dar encontro.

passo a passo com régua e compasso

o destino traço.

meu diagrama:

traço do meu desejo até a sua cama.

coração, vetor cujo sentido é dado

só pelo amor.

(66)

MOLECAGENS a velha cama

cavalo que rinchava enquanto a gente cavalgava.

coisa de moleque...

nós embaixo do cobertor e a cama fazendo nhec nech...

minha paralela me chama para se encontrar com ela no infinito da nossa cama.

oferta do dia:

troco coração vago por um afago.

ah! estrelinha!

te daria para ela se tu fosses minha...

66

(67)

o amor/tece o triste amor/tecido

que nos veste.

na coletânea Amar a mais bela poesia

é o seu olhar.

no empurra e puxa ele planta a semente

ela embuxa.

poeta é quem transforma as medusas

em belas musas.

o amor ganha.

mas num jogo viciado ele só apanha.

SENSUALIDADE

(68)

olhos que cruzam estrelas se procuram

em meio á noite.

corpos se tocam plantando os desejos

em terras no cio.

bocas unidas uma abelha, uma rosa

fazendo amor.

mãos atrevidas tomam forma de seios

e seios de mãos.

corpos desnudos num tapete mágico no céu do prazer.

ORGASMO 68

(69)

o êxtase diluído em doce prazer.

mundos em guerra dormem pacificados.

na paz do amor.

amor, mistério;

todos querem entender sem levar a sério.

amante, amor, profissão de sofredor,

eu enganador?

A ESSÊNCIA DO AMOR o espirito

e o verdadeiro amor são invisíveis.

(70)

são entidades que só podem existir

em certos níveis.

incorpóreas imaterialidades

incorruptíveis.

peremptórias as duas realidades

são incindíveis.

só se hospedam em almas e corações

muito sensíveis.

CANTOS E DESENCANTOS (I) se eu contasse

todos meus desencantos talvez sarasse.

70

(71)

adiantaria?

só se eu acreditasse em bruxaria.

quando eu minto estou violentando coisas que sinto.

o que é o amor?

só quem perdeu um sabe pois sentiu a dor.

esquecimento?

só mesmo quando a dor não vem de dentro.

CANTOS E DESENCANTOS (II) homem e mulher:

paralelas cruzando o ponto prazer.

(72)

olho maldoso secou a rosa no vaso.

o nosso caso.

orgasmo de amor, doce paz conquistada

sem guerra ou dor.

se o amor existe sem mesmo a morte pode

torná-lo triste.

ele sobrevive até ao aniquilamento

do pensamento.

CINCO FACES DO AMOR

no outro mundo talvez o amor possa ser

mais profundo.

72

(73)

morrer amando não é morrer. é mais viver

divinizando.

de Deus foi o dito que o nome dele é Amor:

eu acredito amor sem respeito.

tirano que governa sem direito.

amor ciumento.

um abraço de urso, sufocamento.

ROMANCE NA CHUVA

noite chuvosa coração solitário

colhe uma rosa.

(74)

pensando nela moleque teimoso

pula a janela.

. no rio lá fora meu coração é um barco

na enxurrada.

vai navegando com a carga de amor

na madrugada.

negro pelágio enfrenta garboso sem

temer naufrágio.

mesmo escuro

os braços dela são meu porto seguro.

rosto estrela indicando o caminho

em meio à procela.

na noite o lume dos olhos dela parecem

dois vagalumes.

como um farol levando meu barco em

em busca do sol.

braços abertos esperando por mim

lá estava ela...

LOUCURA DE AMOR

mata-me de amor assassina querida 74

(75)

no mundo do amor não existe bem nem o mal.

tudo é natural.

se amor é ilusão que eu morra iludido

por essa visão.

loucura de amor a verdadeira razão

de um coração.

vê como te amo no meu olhar eloqüente.

ele não mente.

(76)

POESOFISMAS

O CONGRESSO NACIONAL

piada patética:

o Congresso Nacional tem duas comissões de ética.

76

(77)

.confesso que sou néscio.

um dia também já votei num tal de Aécio.

talvez seja destino.

para viver no Brasil é preciso virar bizantino.

viver de arranjos sustentar os políticos crer no sexo dos anjos.

quer que lhes conte?

no Planalto o jogo preferido é o rouba-monte.

A CARNE É FRACA

o mal que ataca a reputação dos políticos

é culpa da vaca.

(78)

a carne é fraca.

a propina que ela paga é forte paca...

proteína demais para quem já tem tudo mas sempre quer mais.

mas ela é que vai ser a mistura da marmita da quentinha do Temer.

não parece, mas quem manda no Brasil

é uma tal de JBS.

DELAÇÃO PREMIADA

na dúvida, cale.

na dívida, negue, na dádiva, pegue.

78

(79)

não diga nada.

mas se quiser falar faça delação premiada.

denuncie uma autoridade.

quanto mais alto ela estiver mais acharão que é verdade.

a História é travessa:

Joaquim Tirava-Dentes e acabou perdendo a cabeça.

quando a coisa é fria a fidelidade nos ferra mas a delação alivia.

HAICAIS DO BEM-TE-VI bem-te-vi no jardim

tinha muitos segredos.

contou para mim.

consciência pesada, se ouve bem-te-vi

sai em disparada.

não sei de nada, mas se fosse bem-te-vi iria para a Explanada.

ficaria na entrada

(80)

do Congresso, vendendo delação premiada.

ganharia mesada

e muito reconhecimento da nação cansada de ser estuprada, sustentar vagabundo e ser roubada.

amigo bem-te-vi seu lugar é em Brasília não é por aqui.

lá só se faz mutreta e bem que faz falta um passarinho cagueta.

te pagaria salário para ficar cantando

naquele plenário.

ia ver salafrário morrer feito peixe

quando quebra o aquário.

ao ouvir “bem-te-vi”

quanta gente não diria

“eu não fico aqui.”

e seria tão bom não esperar eleição para trocar de ladrão.

meu caro bem-te-vi voe para Brasília que eu já te elegi.

ah! que estouro você ajudando o Sérgio Moro!

.

POLITIQUEMAS esse Congresso precisa ser mantido?

só tem bandido...

e esse governo?

80

(81)

só rouba e não faz.

e o governador, presidente, prefeito,

isso tem jeito?

se até o Supremo não dá uma esperança.

já entrou na dança.

crime provado, mas ninguém na cadeia:

coisa mais feia.

pouca vergonha.

embargos infringentes.

que indecentes!

e o tal mensalão?

não será honorário de salafrário?

um país assim só vai poder se dar mal.

aí vem o General.

HAICAIS DO STF

ninguém merece um Supremo Tribunal

igual a esse.

oh! infelizes!

que podemos esperar desses juízes?

(82)

se a impunidade é criada pela própria

autoridade?

que aberração é o próprio empregado

julgando o patrão.

me tiram o sono mas que cão vai morde seu próprio dono?

hoje o que se vê é um tribunal que virou

bancada do PT.

mas não faz mal no mês de fevereiro

temos carnaval.

a beca e a toga são uma bela fantasia

estão na moda.

a Dona Justiça na quarta pela manhã

rezará missa.

e o magistrado com cinzas na cabeça

será perdoado.

MARIANA E BRUMADINHO

na indiferença ecológica de um povo a espada gananciosa dos capitalistas

abriu uma ferida incurável de novo.

82

(83)

a montanha reclama

o ferro que roubaram do seu corpo vomitando rios de lama.

por caminhos mais que tortos os parentes vivos serão indenizados.

quem fará justiça aos mortos?

Mariana, Brumadinho.

quem quiser saber onde ficam siga a cruzes no caminho.

o rio é doce, o vale é forte.

as acionistas levam os dividendos, e o povo mineiro que fique com a morte.

IM(PROVÉRBIOS)

saco cheio é um sinal que a vida

ficou vazia.

(84)

se alguém bater na sua face direita

esquerda nele.

mulher bonita e jaca ninguém consegue

comer sozinho.

um pássaro no ar vale + que um na mão

Ass: IBAMA.

dinheiro não traz felicidade; compra

uma fábrica.

INDISCRICIONICES (I) sou compadre da Aurora.

ela me convidou para batizar o dia que acaba de nascer.

84

(85)

a rua velha olha com inveja a rua nova, vestida de asfalto.

a serpente encantada pela mágica das mãos cuspiu o primeiro orgasmo.

os girassóis nos campos são como rosas do vento guiando o sol no oceano do céu.

se o criado-mudo do motel fizesse uma delação premiada,

pouca gente escaparia...

INDISCRICIONICES (II) olho para o futuro

e não consigo ver nada.

está tudo muito escuro.

o que parece estar claro é que a bolsa-família vai virar Bolsa-naro.

(86)

sinônimo de calamidade é fazer uma escolha entre

Bolsonaro e Hadad.

“quem qué comprá”

sítio em Atibaia e apê em Guarujá?

existe coisa mais feia do que país governado por uma cara na cadeia?

mas se acontecer não será novidade.

isso já faz o PCC.

coisa de maluco.

ter que escolher entre a grade e o trabuco.

que esperança!

se ficar o bicho pega, se correr o bicho alcança.

e o Papa Francisco?

com tanto padre tarado, até o dele corre risco.

cueca de padre de agora em diante, é cinto de castidade.

HAICAIS DO RIO nas ruas do Rio desespero, calafrio

86

(87)

no sul, no norte, no leste, no oeste,

a bala, a morte.

que intervenção vai deter a gangrena

da corrupção?

parar a sangria?

como, se próprio Estado é quem financia.

Marielle é morta.

a caravana vai passar.

quem se importa?

(88)

BLENORRAGIA VERBORÁGICA.

sem mulher tudo é transtorno. não se pode

nem ser corno.

sem mulher não rola. se rolar é porque

o cara é boiola.

“maria chuteira”

e futebol: um é peixe outro é anzol.

jogo de azar

é o amor; todos perdem mas gostam de jogar.

coração que ama acha que bate, mas de fato

ele só apanha.

88

(89)

PÍLULAS ANTICONCEPTODIAIS a vida é boa

caminhando com o tempo.

mas ele voa.

a maldição do ser é sempre o querer ter

sem o merecer . a terra pensou um pensamento de amor

e nasceu a flor.

só na bateria dois pólos contrários

geram energia.

em termos de amor contrários só podem

gerar calor.

(90)

CRENÇAS

solidão é algo que a gente sente quando descobre que está sozinho

no meio de um monte de gente.

a verdadeira crença dos ateus é que os homens são apenas desejos egoístas de um Deus.

quando sinto que estou vivo é porque uma alma desencarnada

está reivindicando meu ativo.

quem não acende uma luz para sua guia gera uma noite de trevas

para todos os seus dias.

na queda do nosso avião de dúvida a fé é o único pára-quedas que pode salvar a nossa vida.

90

(91)

PITADAS o reacionário é um astronauta vestido num sudário.

o progressista é um avião que quer decolar

sem ter uma pista.

um bom político pensa que pode ser honesto e não sabe o quanto é mítico.

mas quem não quer ser vaiado que se conserve na platéia

e nunca suba no tablado.

se ela não fosse criada-muda quanta gente em Brasília já não estaria na Papupa?

Referências

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