Conforme se pode observar anteriormente, o poder marca a tradição do conceito de território. Entretanto, na concepção po- lítica atual, o território aparece desatrelado do campo institucio- nal e desvinculado da ideia de soberania do estado-nação. Como já tangenciado no tópico anterior e explorado a seguir, o território se fundamenta nas relações de poder, mas em uma perspectiva rela- cional e inteiramente pertinente à análise do território desde um olhar de gênero. A análise sob este enfoque contribui para o enten- dimento de como as mulheres territorializam os espaços sociais e como se expressa o sentido político da territorialidade ou da apro- priação social do espaço.
Gênero é uma categoria de análise que permite o entendimen- to de como a sociedade organiza modos de ser, comportamentos e define pertencimentos, revela diferenças, indica desigualdades, enfim, expressa relações de poder. Sob esse enfoque, admite-se a existência de experiências histórico-sociais pautadas nas dife- renças sexuais que se sobrepõem ao determinismo econômico. O conceito de gênero permite distinguir as diferenças biológicas das desigualdades socioculturais, através da análise das construções
sócio-históricas e culturais sobre o que é ser homem e mulher na sociedade, não mais vistos como segmentos sociais isolados, mas como produtos de relações interpessoais e sociais (relações de poder) por meio das quais são mutuamente constituídos como categorias desiguais. (SARDENBERG, 1998)
A definição de gênero tratada pela historiadora Joan Scott (1995) o considera como uma forma primária de significar o po- der, uma vez que as diferenças entre os sexos se configuram como desigualdades; indica, ainda, que as relações sociais baseadas nas diferenças entre os sexos expressam-se através de normas, valores, costumes, práticas, nos quais tais diferenças são cultu- ralmente significadas e socialmente incorporadas de modo dife- rente. Lourdes Maria Bandeira e Tânia Mara Campos de Almeida (2013) também consideram as relações de poder na construção do conceito de gênero, o qual vai indicar a dimensão social dos fenômenos aparentemente naturais, e afirmam ser esta uma das estratégias de poder que se plasmam na sociedade, uma vez que consiste em naturalizar as relações sociais para mascarar o poder nelas subjacente.
Nesta reflexão, consideram-se os macro e micro poderes, compreendendo-se que estes se constroem na vida cotidiana, perpassando todos os campos sociais, rearticulando e se inter- -relacionando a outras categorias e dimensões do social, além do gênero, que dão forma e sustentação às práticas políticas que mo- vem a sociedade, a exemplo da raça/etnia, idade/gerações, classe social, sexualidades, dentre outras.
Nesse sentido, compreende-se que os fatos da vida aconte- cem no cotidiano de homens e mulheres, sendo este o lócus da prática política e o espaço privilegiado para o exercício do poder. (HELLER, 1987) Essa esfera dos micro poderes, na denominação de Foucault, foi reivindicada pelos movimentos feministas (da segunda onda), sob o lema de que “o pessoal é político”, sob o
argumento de que as relações pessoais são também relações de poder, logo, na vida real, a separação entre o público e o privado, não tinha qualquer base de sustentação. (SARDENBERG, 2004) A sociedade é o espaço da produção e da reprodução, das reali- zações pessoais, das disputas e conflitos interpessoais e coletivos, no qual eclodem os antagonismos; as forças políticas em presença transformam esse espaço em um palco de lutas e afirmação do poder, e isso ultrapassa a esfera pública, perpassando os âmbitos privados, a exemplo da família.
O exame do poder, a partir das formulações de Foucault, permite desvelar os mecanismos de produção de saber. O poder produz saberes e, através de um conjunto de técnicas impostas à sociedade, atua produzindo e reproduzindo mais poder. O poder penetra na vida cotidiana de forma abrangente e difusa, através das práticas sociais que envolvem as sociabilidades e todo o processo de produção cultural. Em outras palavras, homens e mulheres, sujeitos históricos, vivenciam relações sociais na vida cotidiana, nos espaços públicos e privados, constituindo-se em receptáculos e, ao mesmo tempo, produtores e condutores do poder.
Nas palavras de Foucault (1979, p. 183-184):
[...] o indivíduo não é o outro do poder: é um dos seus primeiros efeitos. O indivíduo é um efeito do poder e simultaneamente, ou pelo próprio fato de ser um efeito, é seu centro de transmissão. O poder passa através do indivíduo.
Em sua genealogia ou analítica do poder, Foucault busca exa- minar as conexões que o poder estabelece com as ações da vida social e cultural. O poder aparece como uma forma de saber, constituindo-se uma atividade que se exercita constantemente, presente nas práticas sociais cotidianas e enraizado na cultura, como uma atividade desenvolvida por entre as relações sociais como uma prática positiva.
O poder, assim concebido, para além do aparato estatal e institucional, compreende, pois, relações multidirecionais que não se localizam em nenhum ponto específico da estrutura social e não é propriedade de ninguém, espraiando-se e reproduzindo- -se por todo o corpo social. Nas palavras do autor:
O poder deve ser analisado como algo que circula, ou melhor, como algo que só funciona em cadeia. Nunca está localizado aqui ou ali, nunca está nas mãos de alguns, nunca é apropriado como uma riqueza ou um bem. O poder funciona e se exerce em rede. Nas suas malhas os indivíduos não só circulam, mas estão sem- pre em posição de exercer esse poder e de sofrer sua ação, nunca são o alvo inerte ou consentido do poder, são sempre centros de transmissão. (FOUCAULT, 2004, p. 193)
O que faz com que o poder se mantenha e seja aceito é o fato de que ele não pesa como uma força, “[...] mas que de fato ele permeia, produz coisas, induz ao prazer, forma saber, produz discursos”. (FOUCAULT, 2004, p. 8) O autor reafirma que, em última análise, o poder produz saber, e não há relação de poder sem constituição correlata de um “campo de saber”, nem saber que não suponha e não constitua, ao mesmo tempo, relações de poder.
Cabe observar que, no poder do saber, os processos e as lu- tas que atravessam o poder e que o constituem, determinam as formas e os campos possíveis do conhecimento. Nessa relação recíproca, a questão do poder torna-se um instrumento de aná- lise capaz de explicar a produção dos saberes, os quais têm uma relação com a moral dos povos, com os seus anseios e com os seus códigos, assumindo o regime de verdade de cada sociedade, cujo
ethos social consiste no modo de sujeição ou subjetivação dos
indivíduos. (TORRES, 2001) Com base nessas referências, a fe- minilidade e a masculinidade são entendidas como construções sociais que resultam de uma produção discursiva fundamentada
por uma ideologia patriarcal, em torno da qual são construídas as subjetividades e configuradas as territorialidades.
Entretanto, admitindo-se o poder como uma relação, abre- -se a possibilidade de um contra-exercício ao poder. Existe, pois, nas relações de poder, uma potencial reação e possibilidades de enfrentamento por parte daqueles e daquelas que estão sofrendo imposição de poder, e isso está expresso na analítica do poder de- senvolvida por Foucault. Para isso, o autor apresenta uma chave de interpretação histórica, pautada em procedimentos de poder pró- prios das sociedades modernas, que funcionam “[...] não mais pelo direito, mas pela técnica, não pela lei, mas pela normalização, não pelo castigo, mas pelo controle e que se exercem em níveis e formas que extravasam do estado e de seus aparelhos”. (FOUCAULT, 1988, p. 100) Envolvendo dominadores e dominados, esse poder supõe que as correlações de forças múltiplas que se formam e atuam nos aparelhos de produção, nas famílias, nos grupos restritos e insti- tuições, servem de suporte a amplos efeitos de clivagens que atra- vessam o conjunto do corpo social. (FOUCAULT, 1988) O exercício do poder, sob essa ótica, só se realiza através da política, à medida que se incorpora aos valores e ao modus vivendi dos sujeitos so- ciais, enraizando-se no cotidiano. É no plano do cotidiano que se expressa “[...] a marca da diversidade do humano que se desfaz na diferença produto e produtor das desigualdades políticas”, salien- ta Tânia Swain (2005, p. 340).
Ademais, sob a visão foucaultiana, o poder pressupõe a exis- tência da liberdade – vista numa perspectiva política e não como um conceito abstrato, mas conduzida por sujeitos concretos, po- dendo-se, então, situar homens e mulheres que têm vontades, desejos, que fazem escolhas e reúnem, potencialmente, capaci- dade de autossuperação. Essa perspectiva de superação está refe- renciada por um poder que não é essencialmente repressivo, pois, conforme já ressaltado, não se pauta na negatividade da lei, ou
está estritamente vinculado aos diferentes modos de dominação, submissão, rejeição e reduzido unicamente à obediência. Ao con- trário, em Foucault (1988) o poder é produtivo, ele incita, suscita, produz, logo, admite resistências, no plural, as quais, por defini- ção, não podem existir a não ser no campo estratégico das rela- ções de poder. Aqui as resistências constituem-se o outro termo nas relações de poder e inscrevem-se nestas como o interlocutor irredutível. Sob essa visão de poder, admite-se que, numa relação de forças, a força afetada não deixa de ter uma capacidade e uma possibilidade de resistência.
Isso é dado pelo próprio caráter relacional das correlações de poder, reafirmado pelo autor, quando diz que “[...] não existe, com respeito ao poder, um lugar da grande Recusa”. (FOUCAULT, 1988, p. 106) Significa que as resistências são distribuídas de modo irregular, como focos de resistência, que se disseminam em tempos e espaços variados, às vezes provocando o levante de grupos ou indivíduos de maneira definitiva, inflamando cer- tos pontos do corpo, certos momentos da vida, certos tipos de comportamentos.
As mulheres, individual ou coletivamente, através de suas organizações, vêm rejeitando e contestando as relações desiguais e opressoras de gênero e identificado diferentes modos de agir, de reagir e de lutar. Dessa forma, tecem novas territorialidades, entendida segundo a definição de Sack (1986 apud HAESBAERT, 2004, p. 89) “como uma estratégia ou um recurso estratégico que pode ser mobilizado de acordo com o grupo social e seu contex- to histórico e geográfico e, como estratégia, pode ser ativada e desativada”. Raffestin (1993) contribui nesse sentido, afirmando que os indivíduos vivem, ao mesmo tempo, o processo territorial e o produto territorial, por meio de um sistema de relações exis- tenciais e/ou produtivistas, sendo todas elas relações de poder, nas quais há interações entre os atores que procuram modificar
tanto as relações com a natureza como as relações sociais e, nesse processo, se automodificam também.
Quando organizadas através do movimento feminista, “[...] as mulheres também realizam práticas espaciais cujas ações de resis- tência, são ações de territorialização”. (SOUZA, 2008, p. 68) Esse movimento social emancipatório está organizado em diferentes escalas, dando lugar a diversas ações coletivas e ativismos em prol de um projeto político-social que, de forma ampla, propõe a construção de poderes e territorialidades autônomas, nos quais homens e mulheres possam se autodeterminar, livres de hierar- quias institucionalizadas e assimetrias estruturais e legitimadas do poder. Mais especificamente, os movimentos feministas re- jeitam e contestam o lugar hierarquicamente subalterno ocupado pelas mulheres na ordem social em vigor e propõem outro lugar político para as mulheres, uma outra territorialidade.
O território feminino, como é dado a perceber, pode ser con- siderado numa perspectiva multiespacial, abrangendo as terri- torialidades que perpassam a existência das mulheres, seja nos domínios da política – entendida como o campo de atuação das relações e disputas do poder, seja nas esferas institucional e or- ganizacional, seja no domínio das práticas sociais –, entendidas como ações e interações cotidianas de homens e mulheres para viabilizar a produção e a reprodução social – considerem-se a unidade familiar/doméstica, o Estado e suas institucionalida- des, o mercado, as organizações da sociedade civil, como alguns exemplos.
A territorialidade feminina pode também ser vista como um fenômeno em permanente mutação, que se constrói e reconstrói, a partir das ações humanas, nas quais estão presentes as relações afetivas, de trabalho, políticas etc. A territorialização do espa- ço social pelas mulheres implica, pois, na reconstrução dessas relações, em novas bases, mais equitativas e menos desiguais,
envolvendo as dimensões social, cultural (simbólica, de pertenci- mento), política, econômica e a natural.