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O poder e suas formas de dominação na perspectiva de Max Weber

CAPÍTULO 2. O PODER NA ORGANIZAÇÃO

2.1. O poder e suas formas de dominação na perspectiva de Max Weber

Para Weber (1999), a dominação é um caso especial do poder e muitas dessas formas de poder estão ligadas a determinadas formas econômicas e também por elas condicionadas. O autor salienta dois tipos de dominação, extremamente opostos: um diz respeito à dominação em relação a interesses e o outro em virtude da autoridade, ou seja, o poder de mandar. Pela primeira forma de dominação, entende-se uma forma de poder monopolizada no mercado e, pela segunda, entende-se uma forma de autoridade detentora de poder. Mas o autor ressalta que, apesar de “opostas”, entre essas formas de dominação, existe a possibilidade de transição. Isso significa que o poder de dominação em virtude de uma constelação de interesses pode se transformar em poder ou forma de dominação autoritária, pois aquele que detém o poder monopolizado pode passar a ditar

suas regras de maneira autoritária, pelo simples fato do poder de dominação que o monopólio lhe garante. Para o autor, essa dominação autoritária gera obediência. Weber ressalta ainda que em toda relação de autoritarismo, onde se impõe a obediência, há também a força que induz a essa relação, que é o interesse por trás da obediência. O autor ressalta ainda que não só as trocas de mercado produzem dominação, as relações sociais são também uma forma de exercer poder e dominação.

Retomando sobre o aspecto de legitimação que, segundo Weber (1999), sustenta as formas de dominação nas relações de poder, o autor ressalta dois princípios pelos quais se legitimam a instituição do poder e da dominação como naturais: o primeiro é apontado pela “validade”, ou seja, o poder é exercido e legitimado por regras e é autorizado a um portador; o outro pode ser exercido em forma de “autoridade” que se fundamenta na crença, na tradição, no carisma e também gera obediência. O autor esclarece que essas formas de dominação são fundamentais nas estruturas históricas de dominação e que são reconhecidas como relações de autoridade tradicionais e estão representadas pelo patriarcalismo. Nessa mesma lógica, quando o poder ou a dominação não estão fundamentados na estrutura tradicional ou patriarcal e são exercidos por uma ação social, de acordo com o autor, a dominação está baseada em uma relação racional, ou seja, é na burocracia que encontra seu tipo específico de poder.

2.2. A moderna administração burocrática como forma racional de dominação

Weber (1999) traz uma análise dos aspectos mais relevantes do poder e da dominação na sociedade e nas instituições administrativas e expõe os mecanismos burocráticos como forma de dominação racional. Para esse autor, a burocracia tem seu caráter racional com práticas através de regras e impessoalidades, nesse caso, dificultando uma mobilização contrária, o que gera a dominação de forma mais racional. O autor defende que o avanço da estrutura burocrática trouxe várias formas de dominação, mas por outro lado, afirma que a racionalização das formas de dominação nas instituições superou outras formas de dominação estruturais, como a dominação patriarcal e patrimonial.

De acordo com análise weberiana, um dos princípios estruturais pré-burocráticos mais importantes é a estrutura de dominação patriarcal, que não se baseia, como a burocracia, na obediência às normas. Pelo contrário, é nas relações pessoais que elas se estabelecem, sua base encontra-se na autoridade do chefe da comunidade doméstica.

Mas, ambas as formas de dominação encontram alguns pontos em comum; um deles é o caráter cotidiano e a obediência pelos submetidos ao poder. Essas normas, no caso da dominação burocrática, encontram legitimidade na legalidade, ou seja, são racionalmente criadas; já nas formas de dominação patriarcal, o fundamento está na tradição, na crença e na inviolabilidade do que sempre foi; sendo assim as normas da dominação patriarcal não são estatuídas, mas são sagradas pela tradição.

Weber (1999) reconhece a importância dada às tarefas especializadas que são administradas por profissionais também especializados quando analisa as organizações. Essas atribuições ganharam força a partir da necessidade de repartição de trabalho que surge com o aparato burocrático, visando uma melhor qualidade e eficiência dos serviços prestados. Passa-se então a supervalorizar o profissional especializado. Para Weber, a valorização do especialista é uma característica da moderna administração burocrática que tem como meta a eficiência e o resultado com bases objetivas. Nessa direção:

A peculiaridade da cultura moderna, especialmente a de sua base técnico- econômica, exige precisamente esta “calculabilidade” do resultado. A burocracia em seu desenvolvimento pleno, encontra-se, também, num sentido específico, sob o princípio sine ira acstudio. Ela desenvolve sua peculiaridade específica, bem-vinda ao capitalismo, com tanto maior perfeição quanto mais se “desumaniza”, vale dizer, quanto mais perfeitamente consegue realizar aquela qualidade específica que é louvada como sua virtude: a eliminação do amor, do ódio e de todos os elementos sentimentais, puramente pessoais e, de modo geral, irracionais, que se subtraem ao cálculo, na execução das tarefas oficiais. Em vez do senhor das ordens mais antigas, movido por simpatia pessoal, favor, graça e gratidão, a cultura moderna exige para o aparato externo em que se apoia o especialista não envolvido pessoalmente e, por isso, rigorosamente “objetivo”, e isto tanto mais quanto mais ela se complica e especializa. E tudo isto a estrutura burocrática oferece numa combinação favorável. Sobretudo é só ela que costuma criar para a jurisdição o fundamento para a realização de um direito conceitualmente sistematizado e racional, na base de “leis”, tal como o criou, pela primeira vez, com alta perfeição técnica, a época imperial romana tardia. (p. 213)

Nesta mesma lógica, o autor aponta outras características que permeiam a moderna burocracia administrativa e geram formas de dominação e de poder que culminam na negação da manifestação da autonomia dos sujeitos. Assim como a especialização funcional ou dos saberes específicos, a comunicação também é um fator que gera poder e dela, segundo Weber, pode resultar o fracasso ou o sucesso das determinações estabelecidas no cotidiano organizacional.

Como pudemos perceber, Max Weber analisa o poder e seus mecanismos de dominação de fundamentação tradicional e destaca a administração moderna como burocrática para analisar o poder racionalizado e seus mecanismos, apontando a relevância da administração como espaço ou lugar onde esse tipo de poder é exercido em sua plenitude. O autor também evidencia o que Bourdieu (1989) entende como símbolos subjetivos do poder quando considera o patrimonialismo e o patriarcalismo como fontes de poder baseadas na crença, na cultura e na tradição. Ainda sobre esse aspecto, Melo (apud CAPPELLE, MELO E BRITO, 2005) ressalta que se faz necessária uma observação mais acurada das ações não verbais, das atividades no cotidiano, da obtenção de confissões e de significados via métodos capazes de captar as subjetividades, as verdadeiras raízes dos comportamentos individuais e coletivos, ou seja, do universo simbólico humano.

Seguindo essa lógica, Bourdieu (1989) considera dimensões mais abrangentes nos estudos sobre as relações de poder nas organizações. Sua abordagem envolve sistemas de dominação que permeiam as relações sociais e, nesse sentido, o poder é exercido por diversos meios e pelos diversos atores que se encontram envolvidos na organização. Esse poder encontra suas raízes onde menos se deixa ver, num universo de relações simbólicas que é produto e, ao mesmo tempo, reproduz o poder, reforçando os interesses dominantes.

2.3. Análise do poder na perspectiva de Bourdieu

Bourdieu (1989) chama a atenção para as formas subjetivas de poder, que são estruturantes e estruturadas socialmente, servindo como produtoras e reprodutoras das desigualdades, distinções e hierarquias, bases das ideologias políticas de dominação, e são instituídas e legitimadas socialmente, conhecidas ou denominadas pelo autor como “sistemas simbólicos” (arte, religião, comunicação). Esses sistemas simbólicos servem como legitimadores de uma cultura dominante. Sendo assim, os símbolos constituem a integração social e estabelecem meios para o consenso acerca dos sentidos sociais sobre o que é correto ou não, sobre o que é ético e, dessa forma, estruturam a ordem social e, ao mesmo tempo, essas produções simbólicas instituem instrumentos de dominação social.

Para o autor, o poder simbólico é construtor da realidade social, agrega sentido a ela e é no campo social que Bourdieu busca salientar as relações de poder, propondo-se

a expor as formas de dominação das classes capitalistas que se encontram implícitas no capital simbólico. Dessa forma, esse capital simbólico é constantemente reproduzido pelas instituições e práticas sociais que viabilizam o exercício do poder. Sobre esse poder o autor destaca que:

É necessário saber descobri-lo onde ele se deixa ver menos, onde ele é mais completamente ignorado e, portanto, reconhecido. O poder simbólico é, com efeito, esse poder invisível o qual só pode ser exercido com a cumplicidade daqueles que não querem saber que lhe estão sujeitos ou mesmo que o exercem. (1989, p.8)

Percebe-se, contudo, que o poder, de acordo com a abordagem do autor, precisa ser legitimado pelo outro para que exerça suas características dominantes. Seguindo a mesma lógica, Friedberg (1993) destaca que a ação política está sempre presente nas relações humanas e que delas surgem relações de força que se regulam por meio de negociações, nas quais a legitimidade se faz fundamental. Nesta mesma perspectiva, Bernoux (1995) sinaliza para a questão da reciprocidade na relação de poder, em que o poder se constitui de uma relação e não de um atributo, ou seja, depende da aceitação do outro ou não, nesse caso a legitimidade também se faz necessária.

Sobre esse aspecto Weber (1999) destaca que a subsistência de toda a dominação consiste na sua legitimação. Porém Bourdieu (1989) vai além da tradição funcionalista quando consegue captar, a partir da análise estrutural, as formas de poder que circulam no universo simbólico, destacando assim a língua, a comunicação, os discursos, o comportamento e a cultura como estruturas estruturadas que refletem a relação entre o objeto simbólico e seu sentido. Dessa forma, o autor deixa clara a característica abrangente de sua análise.

Nessa mesma perspectiva podemos considerar o caráter cultural como instrumento balizador das relações sociais e de poder, é preciso reconhecer que uma transformação, ou seja, uma proposta de mudança tem sua eficácia ou não de acordo com sua compatibilidade com a cultura organizacional de determinada instituição. Nesse caso, os padrões culturais podem constituir ou não uma barreira às transformações a que se almeje. Isso significa dizer que tratar de mudanças ou de sua resistência requer mais do que uma simples constatação do fato, requer um

aprofundamento nas relações e subjetividades dos padrões culturais envolvidos.

Nesse mesmo raciocínio, Fischer (1996), tomando como foco de análise a cultura e o poder nas organizações, ressalta como fundamental para a discussão e

apreensão da complexidade das organizações, tratar as relações existentes entre os padrões culturais e as relações de poder que são determinantes de cada realidade.

Ao enfocar as esferas da cultura e do poder organizacional, não as concebo como características independentes, mas, ao contrário, como padrões inter- relacionados, que se influenciam mutuamente e guardam entre si práticas pouco conhecidas, mas que são significativamente importantes para definir o perfil de uma organização, penetrar em seu complexo universo e compreender as causas de fenômenos aparentemente inexplicáveis. (FISCHER,1996, p.66)

Essas observações são relevantes, pois demonstram o poder que os traços

culturais exercem como limitadores no processo de mudanças. Seguindo essa lógica,

Bourdieu (1989) enfatiza o sistema simbólico como um importante balizador nas análises organizacionais com o qual se faz possível apreender o universo cultural de uma organização e as peculiaridades que salientam o cerne dos conflitos que vão distinguir uma organização da outra e ao mesmo tempo sinalizar novas construções de superação ou regulação desses conflitos.

Em se tratando dos sistemas simbólicos, o autor chama a atenção para formas de dominação e coloca o conhecimento e a comunicação como importantes instrumentos de concretização desse poder, situando as formas de comunicação como relações de poder, inevitavelmente. Para o autor, as relações de comunicação como relações de poder exigem dos sujeitos e instituições a acomodação do poder simbólico e, assim, é enquanto instrumentos estruturados e estruturantes de comunicação e de conhecimento que os “sistemas simbólicos” cumprem a sua função política de instrumentos de imposição ou de legitimação da dominação, que contribuem para assegurar a dominação de uma classe sobre a outra (violência simbólica), acentuando as relações de força que a fundamenta.

Para Bourdieu (1989), o conhecimento é reconhecido como forma de dominação estruturada que fortalece uma luta ideológica e é nessa ideologia que o discurso dominante se impõe como ordem natural, portanto mascarada das formas ajustadas socialmente. Essas formas de imposição que objetivamente e subjetivamente se conformam às estruturas mentais dos sujeitos inseridos socialmente escondem as reais intenções políticas que se encontram substantivamente nas especificidades de cada campo do saber, como o trabalho e suas leis, a religião, o campo político, jurídico. Ou seja, os sistemas simbólicos ganham suas forças e as exprimem por meio das relações de sentido. Sendo assim:

O poder simbólico como poder de construir o dado pela enunciação, de fazer ver e fazer crer, de confirmar ou de transformar a visão do mundo e, deste modo, a ação sobre o mundo, portanto o mundo, poder quase mágico que permite obter o equivalente daquilo que é obtido pela força (física ou econômica), graças ao efeito de mobilização, só se exerce se for reconhecido, quer dizer, ignorado como arbitrário. (BOURDIEU, 1989, p.14).

Para o entendimento desse efeito ideológico é fundamental a existência de universos onde as estruturas objetivas (coisas) sejam capazes de se reproduzir nas estruturas subjetivas (mente). Dessa forma:

Este efeito ideológico, produz-lo a cultura dominante dissimulando a função de divisão na função de comunicação: a cultura que une (intermediário de comunicação) é também a cultura que separa ( instrumento de distinção) e que legitima as distinções compelindo todas as culturas (designadas como subculturas) a definirem-se pela sua distância em relação à cultura dominante. (BOURDIEU, 1989, p. 10-11)

No quadro abaixo, Bourdieu (1989, p. 16) expõe esquematicamente os instrumentos simbólicos que, de maneira dinâmica, circulam no mundo social produzindo e reproduzindo as formas de poder.

Quadro 1: Instrumentos Simbólicos

Como Estruturas estruturantes Como Estruturas estruturadas Como Instrumento de dominação  Instrumentos de conhecimento e de construção do mundo objetivo.  Meios de comunicação (língua ou culturas, vs. Discursou conduta).  Poder  Divisão do trabalho (classes sociais)  Divisão do trabalho ideológico (manual/intelectual)  Função de dominação. Fonte: (BOURDIEU, 1989)

O quadro nos auxilia a compreender que o poder simbólico não atua como forma de força ou obrigatoriedade, mas através de uma relação de aceitação, crença e crédito

entre os que exercem o poder e aqueles que se sujeitam a ele como legítima verdade e justiça, internalizando e objetivando o poder simbólico e a violência que ele exerce. O poder encontra suas fontes no campo social mais abrangente e, através das instituições sociais, suas leis e regras se reproduzem e disseminam a cultura de dominação que permeiam as relações de poder em nossas organizações. Abaixo, trazemos a compreensão sobre poder, na ótica de Foucault (1988),numa perspectiva positiva do poder na qual são consideradas as estratégias e técnicas do exercício do poder como possibilidades de mudanças. Nessa perspectiva o poder é flutuante e também um importante instrumento de luta.

2.4. Análise do poder na perspectiva de Foucault

Foucault (1988) desenvolve uma abordagem sobre o poder a partir de seu aspecto relacional e localizado, ou seja, em campos de análises específicos e, assim, rompe com a visão tradicional de poder. Foucault, assim como Bourdieu, também considera a existência de uma estrutura silenciosa e camuflada do poder que preserva as práticas, os discursos e o conhecimento que conduz à reprodução de uma “verdade” que mantém o poder. A abordagem de Foucault traz sua grande contribuição quando se propõe à análise de técnicas de exercício do poder, de suas possibilidades de resistência e por considerar o lado positivo e produtivo do poder, superando a perspectiva unicamente negativa que lhe era conferida.

Na perspectiva foucaultiana, o poder está envolvido na interação de um campo de forças que também pode levar ao prazer, à produção do discurso. Ou seja, o poder não é apenas visto como uma força que nega e que castra. Nesse sentido, o poder é visto como um conjunto de estratégias e está sujeito a jogos de interações e de manobras em meio a um conjunto de tensas relações, sendo exercido de forma flutuante e não uma propriedade daquele que o detém. De acordo com o pensamento do autor, o poder é um importante mecanismo de luta quando não concebido do ponto de vista unicamente negativo. Assim, o poder se move no cotidiano e estabelece as relações de acordo com as interações sociais e coligações em função de interesses. Daí a necessidade de discutir o poder como relações de poder, considerando seu caráter interacional e flutuante. Nesse sentido “O que faz com que o poder se mantenha e que seja aceito é simplesmente que ele não pesa só como uma força que diz não, mas que de fato ele

permeia, produz coisas, induz ao prazer, forma saber, produz discurso” (FOUCAULT, 1999, p.8).

O autor se coloca em relação à repressão como forma de poder ou conflitos de poder, sinalizando que a repressão é uma forma inadequada para justificar os mecanismos do poder e ressalta ainda que o poder exerce outras formas mais eficazes de dominação. Foucault (1999) analisa o poder e sua ligação com a “verdade” numa relação em que o poder extrapola os limites da repressão e da proibição. Nessa perspectiva, o poder não se manifesta somente como forma de repressão, mas produz “verdade”, e nela legitima seu domínio quando:

Há um combate "pela verdade" ou, ao menos, "em torno da verdade" − entendendo−se, mais uma vez, que por verdade não quero dizer "o conjunto das coisas verdadeiras a descobrir ou a fazer aceitar", mas o "conjunto das regras segundo as quais se distingue o verdadeiro do falso e se atribui ao verdadeiro efeitos específicos de poder"; entendendo−se também que não se trata de um combate "em favor" da verdade, mas em torno do estatuto da verdade e do papel econômico−político que ela desempenha. É preciso pensar os problemas políticos dos intelectuais não em termos de "ciência/ideologia", mas em termos de "verdade/poder". E então que a questão da profissionalização do intelectual, da divisão entre trabalho manual e intelectual, pode ser novamente colocada. (op cit., p. 11)

Nessa direção, o poder surge como força porque está baseado no discurso de

verdade, ou através do que se produz como verdade.

Vale salientar que também para Bourdieu o poder encontra suas bases de sustentação nas relações sociais e na forma de exercer o conhecimento enquanto verdade que reproduz sua ordem e, nesse sentido, a comunicação tem um importante papel como reprodutor. Assim como Bourdieu, Foucault também reconhece a função das instituições como reprodutoras de uma ordem vigente, de um discurso de verdade que privilegia uma determinada classe social.

Cada sociedade tem seu regime de verdade, sua "política geral" de verdade: isto é, os tipos de discurso que ela acolhe e faz funcionar como verdadeiros; os mecanismos e as instâncias que permitem distinguir os enunciados verdadeiros dos falsos, a maneira como se sanciona uns e outros; as técnicas e os procedimentos que são valorizados para a obtenção da verdade; o estatuto daqueles que têm o encargo de dizer o que funciona como verdadeiro (p.10).

É importante salientar que para Foucault (1999) o conhecimento gera poder a partir da conscientização pelo sujeito e de sua habilidade para intervir nas relações. O autor reconhece que o poder circula através da macroestrutura, como o Estado e suas

instituições, mas ressalta que o poder é circulante no mundo das relações cotidianas, nas expressões silenciosas, ou seja, nas microestruturas. Mas, para exercer esse poder, o indivíduo necessita, além de possuir determinados recursos, saber conduzi-los de acordo com seus interesses. Isso significa que, mesmo diante de limitadores estruturalmente estabelecidos socialmente, faz-se possível, através da interação dos sujeitos, construir processos de mudanças. Nesse sentido, o autor esclarece que, para que seja possível o exercício do poder através das ações, é necessário que haja liberdade. Isso significa que a liberdade de agir dos indivíduos os liberta de relações de poder desumanas, de força ou coação. Sendo assim, a liberdade é exercida como inerente às relações de poder, e não contra elas. Na concepção foucaultiana, a verdade está diretamente ligada a um