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A justificação como dispositivo que fundamenta as ações do defensor durante as audiências está associada a sua função institucional como representante formal dos interesses do adolescente acusado na situação judicial. O defensor aciona a justificação como dispositivo de ação através da utilização das categorias “delito leve”, “primariedade”, “frequência escolar”, “capacitação profissional”, “realização de trabalho lícito” e “apoio familiar” associadas à condição pessoal do adolescente acusado como forma de ressaltar os aspectos positivos de sua ação e da situação a qual o adolescente está envolvido minimizando ou excluindo da situação elementos que podem ser considerados pelos demais agentes jurídicos como negativos. Isto se dá através da reificação positiva das categorias que são acionadas como fundamento para a formulação de seu requerimento de não aplicação de punição ao adolescente ou então, para que seja aplicada uma punição menos gravosa a este. Tais categorias agregam a sua actância um caráter positivo, na medida em que os elementos que fundamentam sua ação são aspectos positivos

da condição pessoal do adolescente e que representa para o defensor a possibilidade de o adolescente “recomeçar” uma “vida organizada e produtiva” distante das práticas dos atos infracionais, após o contato com o sistema de justiça juvenil.

A justificação também é acionada como dispositivo que fundamenta a actância do defensor quando o adolescente confessa a prática do ato infracional. Isto repercute de maneira significativa em favor do adolescente quando ele é acusado de um crime leve. Nesta hipótese, mesmo que o adolescente não tenha em seu histórico pessoal outro elemento considerado positivo, como, por exemplo, a primariedade, a actância do defensor é mobilizada no sentido de considerar a confissão como representativa da capacidade de autocrítica e de arrependimento do adolescente em relação à prática do ato infracional, o que é interpretado por este agente jurídico como um indicativo do comprometimento do adolescente em não mais reincidir na prática de ato infracional. Neste caso, a confissão, a autocrítica e o arrependimento operam para os atores sociais presentes na audiência como uma demonstração da conversão subjetiva do adolescente a sua adesão às práticas e ao padrão ético relacionado à formação escolar, a capacitação profissional, ao exercício de um trabalho lícito e a vinculação a uma família organizada que possa auxiliá-lo em sua inclusão nestas práticas e nestes valores.

Tais elementos caracterizam a utilização da justificação como dispositivo de actância do defensor, pois, ao fundamentar sua atuação por meio da justificação ele ressalta as características positivas da condição pessoal do adolescente e da confissão da prática de ato infracional como forma de demonstrar que sua atuação é baseada no caráter positivo do ato que realiza: defender formalmente o adolescente e evitar que ele seja punido ou, em último caso, que ele seja punido de forma mais branda, isto é, com a medida socioeducativa em meio aberto em detrimento da medida de privação de liberdade. Ou seja, a dimensão positiva da actância do defensor está associada ao convencimento do adolescente e dos outros agentes jurídicos que o momento da audiência pode representar para o adolescente o recomeço de uma “vida organizada e produtiva” vinculada à formação escolar e profissional, a realização de trabalho lítico e o fortalecimento dos vínculos familiares saudáveis, distante das práticas dos atos infracionais.

O acionamento da justificação como dispositivo de prestação de contas das ações do defensor nas audiências produz tanto a padronização das suas ações durante seu desempenho profissional, quanto expressa a ética que dá sentido a elas.

A actância do defensor configura-se através da padronização das suas práticas profissionais direcionadas a obtenção da veracidade dos fatos narrados na acusação contra o adolescente através da confissão deste. Este elemento associado à significação positiva de alguns aspectos da condição pessoal do adolescente – “delito leve”, “primariedade”, “apoio familiar”, “frequência escolar e profissionalização” e a realização de “trabalho lícito” – constituem o fundamento das ações no momento da formulação do requerimento final ao magistrado, que caracteriza no objetivo de minimizar os prejuízos ao adolescente acusado, seja através do pedido de revogação da internação provisória, seja através do pedido de remissão (suspensão processual) combinado com a aplicação da medida socioeducativa de meio aberto (prestação de serviços a comunidade ou liberdade assistida) ao adolescente.

Ao agir desta forma, o defensor mostra-se um ator social competente que age para influenciar as ações dos outros atores e expressa a ética que dá sentido a sua prática profissional cuja marca principal é a crença de que o livre arbítrio, a força de vontade e a autonomia individual são elementos necessários para que os adolescentes acusados possam se incluir no modo de vida considerado por este agente jurídico como adequada, honesta, ordeira e saudável. Tal ética parte do pressuposto de que a vontade subjetiva do adolescente é o elemento essencial para que ele possa aderir ao modelo de vida constituído por uma família que o apoie na busca da formação escolar e profissionalizante e no exercício de trabalho legal e formal. É por isto que, para o defensor, o “juízo crítico”, o “arrependimento” e a “confissão” do adolescente representa a iniciativa autônoma e a força de vontade do jovem em efetivar uma conversão subjetiva à ética de vida e ao padrão de conduta valorizado pelo próprio defensor, o que é estrategicamente mobilizado juntamente com outros elementos da condição pessoal do adolescente como forma de fundamentar via justificação a sua actância e proporcionar menores danos ao adolescente acusado.

A mobilização da justificação como dispositivo de ação do defensor público revela que sua atuação profissional fundamenta-se em sua própria ética e percepção sobre o que é a vida do bem, honesta, ordeira, produtiva e saudável. É sua ética individualista que percebe o adolescente como responsável pela construção de sua trajetória pessoal vinculada à constituição de uma família que o apoie e lhe de condições de realizar a formação escolar formal, a capacitação profissional e o exercício de um trabalho lícito e formal, o que direciona suas práticas durante as audiências.

A consequência desta prática profissional é que sua atuação acaba tendo uma natureza essencialmente punitivista, pois, mesmo que ele com o intuito de defender o adolescente e de evitar os prejuízos causados pelo cumprimento de alguma medida socioeducativa, invariavelmente, faça seus requerimentos pela aplicação da medida socioeducativa mais branda sua actância na maioria das vezes não é direcionada no sentido de evitar as violações dos direitos humanos dos adolescentes em relação à segurança, a saúde, a educação, ao lazer, a habitação, etc. oriundas das condições socioeconômicas e culturais dos universos relacionais em que eles estão inseridos, o que acaba por produzir efeitos contrários dos previstos no sistema normativo socioeducativo brasileiro que prevê a garantia dos direitos fundamentais e humanos a todos os adolescentes. Ao agir desta forma, o defensor abre mão de realizar intervenções judiciais e administrativas direcionadas ao universo relacional e ao contexto econômico e sociocultural dos adolescentes, que se caracteriza pelas precárias condições sociais e econômicas, focadas nas questões que originam a violação dos seus direitos fundamentais a segurança, a saúde, a escolarização, a profissionalização e as condições dignas de habitação, tanto em caráter preventivo, quanto durante a aplicação da medida socioeducativa, o que poderia evitar o envolvimento dos jovens com as práticas ilícitas ou mesmo a não reincidência na prática de atos infracionais se os direitos e as garantias fundamentais fossem viabilizados no universo relacional e no contexto socioeconômico do adolescente.

O acionamento da justificação como dispositivo de ação do defensor também pode ser interpretada como um dispositivo de exercício de poder sobre os adolescentes acusados e seus familiares. Tal interpretação é possível porque a prática deste agente jurídico tem como objetivo não somente a satisfação dos requisitos procedimentais e legais de sua atuação profissional, mas, também a

transferência de sua ética de vida aos adolescentes e familiares através da transmissão de valores éticos sobre o que considera ser uma vida boa. Ou seja, o defensor exerce a governamentalidade ou a condução das condutas dos atores envolvidos com a justiça juvenil de Porto Alegre por meio da busca da adesão dos adolescentes e seus familiares à ética e ao modo de vida considerado bom por este agente jurídico. Isto significa que sua atuação almeja como resultado a adesão do adolescente a uma ética de vida baseada na capacidade individual como elemento determinante à construção de uma trajetória de vida direcionada ao mundo produtivo e legal através da formação de uma “família estruturada” que lhe ajude na obtenção da formação escolar e profissional formal e no exercício de um trabalho lícito e legalizado distante das práticas ilícitas, ilegais e imorais.

Conforme referido anteriormente por Costa (2004), as práticas dos agentes jurídicos no sistema de justiça juvenil diferem das práticas dos agentes jurídicos atuantes no sistema de justiça criminal dos adultos e isto decorre do alto grau de discricionariedade com que atuam e na falta de clareza em relação aos papéis que cada agente jurídico deve desempenhar durante as audiências. Se no âmbito da justiça criminal dos adultos há uma disputa maior entre os agentes jurídicos na formulação da tese jurídica que prevalecerá, no âmbito juvenil não há tal disputa, mas, sim, um consenso sobre os objetivos que se quer alcançar com os adolescentes a partir das práticas profissionais: a adesão do adolescente a ética e ao modelo de vida proposto pelos agentes jurídicos estatais através do exercício do poder. O efeito desta prática e desta ética profissional é que a ação jurídica estatal não alcança os elementos socioculturais e econômicos e as interações do universo relacional que conduzem os adolescentes ao sistema de justiça juvenil, pois, as ações jurídicas limitam-se aos aspectos formais processuais e aos elementos ligados ao perfil pessoal do adolescente e ao tipo de delito cometido, o que transforma a punição no principal instrumento que busca a adesão do adolescente ao modelo e a ética de vida considerada saudável pelos agentes jurídicos.

Desse modo, o elemento que determinada o tipo de requerimento proposto pelo defensor ao magistrado durante as audiências não é a busca pela garantia dos direitos aos adolescentes e sim o tipo de relação que o adolescente possui com o modelo ético e de vida considerado positivo pelo agente jurídico. Isto é, o requerimento será de aplicação da medida socioeducativa mais branda aos adolescentes que tem um tipo de vida mais próximo do modelo de vida ética e boa

almejado pelo defensor ou será de silêncio quando tratar-se de adolescentes com perfis mais distantes do modelo de vida almejado pelo agente jurídico.

5.9 A DESCULPA COMO DISPOSITIVO DE RESISTÊNCIA DOS FAMILIARES E