3 DAS TEORIAS ECONOMICO-SOCIAIS E SUAS IMPLICAÇÕES NO MUNDO DO
5.1 O POSICIONAMENTO DOS AUTORES CLÁSSICOS
5.1.2 O posicionamento de Amauri Mascaro Nascimento
Amauri Mascaro Nascimento, em seu livro Curso de Direito do Trabalho: história
e teoria geral do direito do trabalho: relações individuais e coletivas do trabalho
198,
reserva tópico próprio para a análise do estado atual do Direito do Trabalho,
comentando acerca da problemática do desemprego estrutural e das perspectivas
futuras desse ramo do direito. Aponta os problemas ocasionados não apenas pelo
advento das novas tecnologias informacionais, mas também pela reestruturação
produtiva ocorrida no final do Século XX. Nesse sentido é que afirma
199:
A conjuntura internacional mostra uma sociedade exposta a sérios problemas que atingiram em escala mundial os sistemas econômicos capitalistas. Os empregos diminuíram, cresceram outras formas de trabalho sem vínculo de emprego, as empresas passaram a produzir mais com pouca mão de obra, a informática e a robótica trouxeram produtividade crescente e trabalho decrescente.
E continua, apontando o que alguns autores entendem ser o iminente fim do
trabalho humano
200:
Estamos diante de uma nova questào social, a resultante da extinção de postos de trabalho sem perspectivas de reaproveitamento do trabalhador reciclado para novas atribuições, situação iniciada no período pós-1970 e que provoca discussões sobre os fins do direito do trabalho como direito exclusivamente garantístico do empregado ou, além disso, um direito sensível aos imperativos do desenvolvimento econômico e do avanço do processo produtivo. O professor norte-americano Jeremy Rifkin, em obra de grande divulgação, The end of work (1994), ao analisar as duas faces da tecnologia, mostrou o seu lado cruel, a substituição dos empregados pelo software, a desnecessidade, cada vez maior, de um quadro numeroso de empregados e o crescimento da produtividade das empresas com o emprego da alta tecnologia no lugar dos trabalhadores.
E continua, tratando do cenário de aumento do número de desempregados e de
precarização dos trabalhos
201:
É elevado o número de pessoas no mundo desempregadas ou subempregadas, As estimativas são de crescimento desse contingente, e o direito do trabalho ainda não encontrou meios eficazes de enfrentar o problema que caracteriza o período contemporâneo com a nova questão social, resultante do crescimento do exército de excedentes atingidos pela redução da necessidade de trabalho humano, substituído pela maior e mais barata produtividade da tecnologia,
198NASCIMENTO, Amauri Mascaro. Curso de Direito do Trabalho: história e teoria geral do direito do trabalho: relações individuais e coletivas do trabalho. 26. ed. São Paulo: Ed. Saraiva, 2011.
199Ibidem, p. 69. 200Ibidem, p. 70-71. 201Ibidem, p. 73.
fenômeno desintegrador que não poupou nem mesmo os países de economia mais consistente. A reengenharia do processo produtivo, a informática e a globalização levaram as empresas a reestruturar os serviços transferidos para unidades menores e a dispensar por motivos econômicos, tecnológicos ou estruturais, aumentando a produção com um número menor de empregados. Surigram novos tipos de trabalho, que os computadores e a televisão criaram, como o teletrabalho na residência do prestador.
Amauri Mascaro aponta ainda a fragilidade do modelo sindical atual, que passou
a adotar uma pauta com o objetivo de meramente manter os empregos atuais ante o
avanço tecnológico e o aumento do desemprego estrutural. É nesse sentido que diz
202:
O desemprego, problema não apenas brasileiro, resultado do extraordinário avanço tecnológico e do seu potencial de aumento da produção, com diminuição do número de empregos, atuou, também, no sentido de conter os sindicatos em uma posição defensiva, mas mais reivindicativa, tendo na manutenção dos empregos existentes a sua bandeira e na participação nas discussões sobre demissões coletivas e suspensões coletivas dos contratos de trabalho a sua natural preocupacão. [...] O trabalho cada vez mais está escasso, começa a faltar, é substituído pelas inovações da tecnologia, por um menor número de empregados. As compras feitas pela Internet dispensam a intermediação dos vendedores, ap intura dos carros na indústria é automática, os caixas eletrônicos, dos bancos, substituem os bancários, o teletrabalho evita o transporte para o local de serviços, as dispensas de empregados pelos empregadores são em massa. Enfim, é um dos períodos agudos da história do trabalho no qual é desenhado um novo paradigma de emprego. A era das tecnologias da informação.O avanço tecnológico e a informática criaram um mundo dos computadores, disponibilizaram mão de obra, novas profissões surgiram, privatizações de empresas públicas intensificaram-se, sempre com profundas alterações nas relações de trabalho e no poder dos sindicatos perante o empregador.
Como os demais autores aqui mencionados, Amauri Mascaro aponta a
insuficiência do Direito do Trabalho em seu modelo atual para tutelar as relações
surgidas no período pós-industrial. Especificamente, insurge-se contra o binômino
autonomia-subordinação que é atualmente utilizado para configurar uma relação como
de emprego ou de autonomia. A partir daí passa o autor a comentar alternativas
buscadas por doutrinadores italianos para o problema do desemprego estrutural e para
a crescente flexibilização dos trabalhos
203.
Menciona alternativas como a parassubordinação e o modelo utilizado no
Estatuto do Trabalho Autônomo da Espanha
204, dentre outras. Aponta um retorno aos
202Ibidem, p. 77-78. 203Ibidem, p. 80-81. 204Ibidem, p. 82.
fundamentos da social-democracia como uma alternativa aos problemas ocasionados
pelas novas tecnologias
205e sugere, ainda, que a parassubordinação deveria ser o
caminho a ser trilhado para superar o binômino autonomia-subordinação. Nesse sentido
é que menciona Congresso ocorrido na Università Degli Studi di Roma Tor Vergata que
reuniu especialistas de vários lugares do mundo para debater acerca dos rumos do
Direito do Trabalho na atualidade. Diz que
206:
A principal conclusão do Congresso foi a insuficiência da concepção binária autonomia-subordinação para abranger toda a multiplicidade de situações que se desenvolvem na sociedade pós-industrial e a nova tipologia de contratos de trabalho que não se enquadram rigorosamente nem como autônomos nem como subordinados, o que levou os debates para a análise da necessidade, no direito do trabalho, de uma construção teórica de classificação com três, e não mais duas, dimensões, de binária – autonomia-subordinação – para tricotômica ou trinária. Discutiu-se qual seria a melhor forma dogmática de expressar essa transformação no direito do trabalho, e, por influência da doutrina italiana, a maior aceitação foi para a teoria da parassubordinação, considerada capaz de explicar as modificações recentes da divisão jurídica do trabalho, pois, pela sua amplitude, pode reunir diversas formas de trabalho nos mais diferentes setores econômicos do mundo atual e as novas formas organizativas empresariais compatibilizadas com o número crescnete de trabalhadores não empregados, que exigem proteção porque estão fora do sistema legal vigente e se encontram na economia informal, problema que, na Europa, se agrava com os imigrantes e, no Brasil, com os excluídos.
Como alternativa, Amauri Mascaro Nascimento aponta, então, a mudança de
paradigmas da concepção baseada no binômio autonomia-subordinação e a passagem
para
uma
concepção
tricotômica
baseada
em
autonomia-subordinação-
parassubordinação. Essa é a alternativa que apresenta para a atual dificuldade do
Direito do Trabalho em classificar as novas categorias de profissionais que vêm
surgindo com o avanço tecnológico.
Posteriormente, ao tratar do teletrabalho, o autor menciona a possibilidade de
utilização da parassubordinação para tutelar as relações que se encontrem na zona
intermediário entre a autonomia e a subordinação
207, antes de mencionar que
208:
Na sociedade pós-industrial, com a modificação no processo produtivo, novas formas de atividades surgem, descentralizadas e sem a concentração do trabalho em unidade, o que poderá abrir nova perspectiva para o trabalho
205Ibidem, p. 84-86. 206Ibidem, p. 215. 207Ibidem, p. 1.011. 208Ibidem, p. 1.012.
executado na residência e que cada vez mais deixa de se alinhar na diretriz do art. 6 da CLT, para adquirir fisionomias próprias de empreendimento que uma pessoa resolve desenvolver por sua conta e risco.