2 O DEBATE METAÉTICO SOBRE O NÃO-COGNITIVISMO MORAL NO TRACTATUS LÓGICO-PHILOSOPHICUS
5. O PRAGMATISMO COMO FERRAMENTA DE INTERPRETAÇÃO DO COGNITIVISMO MORAL: A
5.2 O PRAGMATISMO JAMESIANO COMO TEORIA DA VERDADE
“O pragmatismo desbloqueia todas as nossas teorias, flexibiliza- as e põe-nas em ação.” (JAMES, 1997, p.47), aponta James em O Pragmatismo. Essa afirmação harmoniza-se com muitas tendências filosóficas antigas, conforme afirma o próprio James: o nominalismo, que recorre aos particulares, o utilitarismo, que enfatiza aspectos práticos e, por fim, com o positivismo, no seu afastamento das abstrações metafísicas por meio de soluções verbais. Essa simbiose entre várias correntes filosóficas demonstra que o pragmatismo comporta um conjunto de características que, de maneira heterogênea, tornam difícil a própria compreensão da teoria. Entretanto, como alguém poderia argumentar, qual o interesse de apresentarmos o pragmatismo e sua teoria da verdade?
Podemos, inicialmente, enumerar dois motivos principais. O primeiro é que para o pragmatismo, como corretamente salienta Putnam, a verdade está localizada no meio do caminho entre a teoria e os fatos. (PUTNAM, 2003, p.15). Por exemplo, se queremos construir um edifício, precisamos respeitar certos princípios de engenharia e, além disso, as condições geográficas do local, onde pretendemos construí-lo. Neste sentido, o melhor projeto que concretizar o edifício será o verdadeiro. Uma crença verdadeira, portanto, é aquela que resolve nossos problemas, que funciona no cotidiano trazendo-nos benefícios. Segundo James (1997, p.48), “verdadeiro é o nome do que quer que prove ser bom no sentido da crença, e bom, também, por razões fundamentadas e definitivas”. Já o segundo motivo, dependente do primeiro, é que a interpretação da teoria pragmatista permite dizer que, para Wittgenstein, os conceitos e juízos morais não existem num mundo metafísico ou empírico, diferentemente daquilo que já apresentamos na posição realista de McDowell e quase-realista de Blackburn.
Partindo do pressuposto de que a compreensão da realidade só existe através da contribuição humana, para James somos nós que interpretamos simbolicamente a realidade. (JAMES, 1997, p.49). Isso sugere que, longe de determinar uma forma estática e independente do universo, como pretende a ciência em geral, quando afirmamos algo sobre a realidade estamos construindo nosso mundo. Assim, para o pragmatismo, não há uma linguagem privilegiada, formada por conceitos essencialistas, que possa ser capaz de descobrir a linguagem própria da natureza dando-nos total objetividade e imparcialidade. Está
é, sem dúvida, a chave para a compreensão das considerações jamesianas sobre a verdade.
A confusão apresentada por James, no prefácio de O Pragmatismo, remete-se à reunião de elementos provenientes, de forma irregular, de algumas correntes filosóficas do século XIX, interessadas em mostrar uma realidade independente do gênero humano e de nossas interpretações linguísticas, conforme define Murphy (1997, p.80-81). Por isso, o método pragmatista não representa nenhum resultado particular, mas “uma atitude de desviar o olhar das coisas primeiras, princípios, ‘categorias’, supostas necessidades; e de olhar para as coisas últimas, frutos, consequências, fatos.” (JAMES, 1997, p.47). Neste particular, concordamos com aquilo que notou Murphy, a saber, que para James as ideias são responsáveis por verificarem a si mesmas, mediando o modo mais feliz e vantajoso entre experiências consolidadas e novas experiências. (MUPRHY, 1997, p.85). O resultado que temos, portanto, é que uma verdade acontece a uma ideia e, por isso, essa se torna verdadeira pelos acontecimentos do cotidiano.
Relacionando com o ponto apresentado por Murphy, ao nos aproximarmos das discussões de James sobre, por exemplo, a moral, é possível extrair que o conteúdo dos juízos morais se tornariam verdadeiros na medida em que entram numa relação satisfatória com a nossa experiência. Entretanto, isso acontece sem qualquer redução da moralidade a termos estritamente cognitivistas ou não-cognitivistas, uma vez que um juízo é instrumentalmente verdadeiro na medida em que permite entrar numa relação satisfatória com outras partes de nossa experiência61. Neste sentido, o pragmatismo
significa apenas isto, que as ideias (que não passam de partes da nossa experiência) se tornam verdadeiras na medida em que nos ajudam a entrar numa relação satisfatória com outras partes da nossa experiência para as resumir e viajar entre elas por atalhos conceituais, em vez de seguir a interminável sucessão de fenômenos particulares.
61 Para o pragmatismo de James, a verdade deriva de ideias e crenças que, ao se
consolidarem através de nossas experiências, tornam-se “verdades velhas”. Isso acontece porque novas crenças surgem, estabelecendo relações mais satisfatórias com a realidade, isto é, ocorre quando uma nova verdade surge como resultado das experiências anteriores. Assim, Murphy é enfático ao notar que o pragmatismo é mais do que um método, é uma atitude, uma orientação, uma teoria da verdade. (MURPHY, 1997, p.82).
É esta a perspectiva “instrumental” da verdade [...]. (JAMES, 1997, p.49).
A apreciação realizada por James é, claramente, uma aproximação de que a correção de um juízo moral, ou de uma crença, por exemplo, deve ocorrer sob as condições pelas quais ela foi experienciada na prática. Por exemplo, no juízo “Mentir é moralmente errado”, a verdade pragmática da proposição depende de seus efeitos práticos, supondo-se, naturalmente, que esses efeitos sejam aceitos como verdadeiros. Mentir para proteger alguém de um dano ainda maior pode ser um exemplo desse caso. Parece-nos claro, portanto, que a noção de verdade pragmática aproxima-se nitidamente daquilo que se pode observar nos escritos tardios de Wittgenstein, isto é, juízos morais são verdadeiros na medida em que os usos que fazemos deles lhe conferem sentido. Mas, se de um lado James admite que uma ideia é verdadeira, quando concorda ou corresponde com a realidade (JAMES, 1997), por outro, admite distintas versões corretas do mundo, tornando, com isso, impossível reduzir a verdade a uma única noção, o que compromete-se com uma visão relativista. É dentro destas imprecisões que atravessa o pensamento de Wittgenstein.
Para reconhecer que o argumento em questão possui bases sólidas, esta tese fica demonstrada quando James (1997, p.51) afirma que ser verdade significa apenas “executar uma função de aliança” entre a crença e a possibilidade de seu valor cognitivo derivado da prática. Assim, esse ponto se associa a uma discussão já apresentada por James, duas décadas antes, num trabalho intitulado The Dilemma of Determism, publicado em 1884. Nesse ensaio, James explica que se os humanos não tivessem livre-arbítrio, a moralidade não poderia existir. A moralidade existe somente se as pessoas forem responsáveis por sua própria conduta, uma vez que se elas não pudessem escolher livremente o que fazer, também não poderiam se responsabilizar por seus atos. Segundo a interpretação de Shook:
Além disso, a moralidade [para James] existe porque as pessoas às vezes se arrependem de seus atos errados. Mas uma pessoa não se arrepende de algo que ela não tenha sido incapaz de impedir que acontecesse. Se ninguém tem livre-arbítrio, ninguém poderia evitar suas próprias ações. Se não existe o livre-arbítrio, ninguém deve arrepender-se de seus atos, o que impediria a existência da moralidade. (SHOOK, 2002, p.95).
É interessante notar que Shook, ao abordar o problema da moralidade no pragmatismo de James, também resgata a definição que o autor apresenta sobre as experiências místicas para a compreensão da religião, especialmente em Varietes of Religious Experience (1902). Como Shook corretamente notou, uma das características fundamentais da experiência mística, para James, é a inefabilidade, que desafia a experiência da linguagem por não ser exprimível. (SHOOK, 2002, p.96- 97). Para clarificarmos essa questão, vejamos o que afirma James:
O mais frequente dos traços por meio dos quais um estado psíquico apresenta-se como místico é negativo. O sujeito desse estado diz imediatamente que a experiência desafia a linguagem, que não é possível qualquer relativo verbal sobre ela. Daí se segue que sua qualidade deve ser experienciada diretamente; ela não poderá ser comunicada, nem transferida a terceiros. (JAMES, 1997, p.107).
Uma adequada interpretação para a questão da inefabilidade, para James, é notar que ela só pode ser experienciada diretamente, já que o místico deve ser vivenciado. Além disso, o místico não cabe em palavras, podendo apenas ser mostrado, mas não dito. Aqui é importante salientar que James compreende o místico em caráter negativo simplesmente para separá-lo da possibilidade de dizibilidade. Toda a experiência mística, neste sentido, não poderá ser comunicada ou transferida a terceiros, pois, como é possível observar, a sua comunicabilidade esbarra nos limites da própria vivência que é pessoal. (JAMES, 1997, p.107-108). Haveria, portanto, duas barreiras que seriam instransponíveis na inefabilidade da experiência religiosa. A primeira, de caráter pessoal, que apenas o sujeito pode experienciar o místico, e, a segunda, de caráter linguístico, que a dizibilidade do místico esbarra nas barreiras da própria linguagem que procura descrevê-lo. (JAMES, 1997, p.108). Esse último ponto está fortemente conectada ao Tractatus, especialmente quando Wittgenstein diz que “O Místico não é como o mundo é, mas que ele é” (TLP 6.44) e que “Há por certo o inefável. Isso se mostra, é o Místico” (TLP 6.522).
Entendemos, assim, que o próprio pragmatismo está carregado de um viés metafísico, e que, embora James se refira à possibilidade de mostrar a experiência religiosa, é na experiência direta que o problema
passa a se diluir. A partir daí, a questão da inefabilidade, vista sob um enfoque pragmático, está presente de forma significativa na filosofia de Wittgenstein. Ao remeter-se a esta questão e ao fato da religião ser transformada num espírito de dominação e justificativa para grandes perseguições e massacres, a partir do pensamento de James, Spica afirma que isso se deve “geralmente pela razão que vê a necessidade de justificar toda a ação humana de um ponto de vista da verdade.” (SPICA, 2011, p.203). Torna-se, então, evidente que a verdade religiosa não é vista por Wittgenstein como um dispositivo metafísico do qual podemos extrair princípios gerais para o comportamento humano. Neste caso, essa convicção parece reclamar que não se pode fazer nada com qualquer tipo de doutrina religiosa. Ao contrário, para Wittgenstein a religião é um sistema de referências porque, em determinadas circunstâncias, pode nos ajudar numa decisão, num problema prático, como salienta num fragmento de Cultura e Valor (2012, p. 147) “Parece-me que uma fé religiosa poderia ser algo assim como o apaixonado decidir-se por um sistema de referências (Bezugssystem).
Como se além de ser fé, fosse uma forma de vida ou uma forma de julgar a vida [...].”
Deste modo, ligar as ideias de James sobre a inefabilidade da experiência religiosa ao pensamento de Wittgenstein torna-se possível uma vez que “as ideias de Wittgenstein sobre a religião são extremamente práticas”, como bem salienta Spica (2011, p.203). Contudo, Wittgenstein não coloca a religião na esfera da verdade, afastando dela qualquer aparato metafísico ou científico. A religião, nesse caso, só cumprirá seu papel se der sentido à vida, se auxiliar na resolução dos conflitos e dilemas práticos. Associando a religião a um sistema de referências, a segunda filosofia de Wittgenstein remete à mesma a noção de forma de vida, dentro da qual podemos predizer juízos sobre a vida. Por fim, é importante notar o que Cyril Barrett corretamente destaca na sua Ética y creencia religiosa en Wittgenstein: Wittgenstein se encontraria mergulhado pela fragilidade de que entender os preceitos divinos em termos humanos seria em certo sentido um empobrecimento do religioso. (BARRETT, 1994, p. 291). Temos, então, alguma evidência para sustentar que as questões relacionadas aos valores e à própria vida, para Wittgenstein, não podem dizer algo sobre o mundo, mas apenas mostrar aquilo que deve ser feito.
Na realidade, não pretendemos esgotar os aspectos sobre o problema da inefabilidade, mas apenas situá-la no contexto de como o pragmatismo encara essa questão. Assim, é bom salientarmos que, nas Investigações, a mesma inexpressabilidade descrita na primeira filosofia
torna impossível qualquer teoria ética. Essa interpretação fica clara quando Rush Rhees, no artigo Acerca de la concepción wittgensteiniana de la ética62, transcreve conversas mantidas com Wittgenstein e considera três exemplos: o primeiro, o assassinato de Julio César por Bruto; o segundo, se um homem tem direito a se deixar matar pela verdade; e, o terceiro, o dilema que enfrenta um homem que deve decidir entre deixar a sua esposa ou abandonar sua pesquisa sobre o câncer. Segundo Rhees, os dois primeiros exemplos não são problemas éticos para Wittgenstein, uma vez que não podemos saber o que acontece na cabeça dos agentes. Já no terceiro caso, a ausência de critérios absolutos para a escolha ética faz com que o sujeito deva escolher num determinado momento sua melhor ação. É nesse aspecto da ação em que o juízo de valor se torna objetivo, não sendo possível separar a fronteira entre o fato e a escolha moral.
A questão que surge agora é esta: se aceitamos que os valores sejam uma propriedade que depende da natureza do fato, em que sentido podemos dizer que os valores, para o pragmatismo, são expressão objetiva da realidade? Para respondermos a essa questão, é importante recordar que para o empirismo radical toda a realidade é formada por várias experiências, as quais não são feitas de um único tipo de material, mas de um número incalculável de diferentes tipos de coisas que podem ser parte de um fluxo contínuo de consciência. Com isso, no pragmatismo, os valores não são objetivos, porque expressam perfeitamente a realidade, mas porque são úteis quando aplicados sobre essa. Neste sentido, a teoria pragmática da verdade, exposta por James, retrata que o conhecimento é algo relativo a um contexto de intenções, o que significa que os “métodos de conhecimento são verdadeiros em suas aplicações específicas, pois funcionam em suas aplicações específicas.” (SHOOK, 2002, p.127). Por essa razão, James diz que as teorias científicas, assim como os valores, são produzidas apenas porque as pessoas têm de solucionar problemas da vida de ordem prática. (JAMES, 1997, p.128).
Para concluirmos essa ideia, é possível apontarmos que o próprio James parece não estar satisfeito com uma apresentação daquilo que constitui o cerne do “pragmatismo”. Na segunda conferência de O Pragmatismo, por exemplo, afirma que “em nenhum lado se pode encontrar verdades puramente objetivas.” (JAMES, 1997, p.51), sustentando que “ser verdade” significa apenas executar a função de
62 Publicadas na Conferência sobre a ética na versão em espanhol. (WITTGENSTEIN, 1990).
aliança entre as partes prévias da experiência com partes novas. A partir disso, por exemplo, até que ponto seria razoável considerar a eutanásia ativa um problema imoral e ilegal, quando consideramos contextos em que há plena autonomia e capacidade do sujeito na decisão sobre sua própria vida? Parece, então, plausível, que James aponte que o pragmatismo, em primeiro lugar, é “um método” (JAMES, 1997, p.51) e, em segundo, “uma teoria genética do que significa a verdade.” (JAMES, 1997, p.51). Ou ainda, como afirma em alguns parágrafos posteriores, que “o pragmatismo não se sente confortável longe dos fatos [...], assim como o racionalismo só está confortável na presença de abstrações.” (JAMES, 1997, p.52).
Por isso, o pragmatista agarra-se aos fatos e ao concreto, observando a verdade enquanto opera em casos particulares e, a partir de então, as generaliza. Nessas afirmações anteriores, vê-se que a verdade surge como nome de uma classe para todas as espécies de valores definidos operantes na experiência. O propósito do pragmatismo, portanto, pretende converter a noção absolutamente vazia de uma relação estática de correspondência entre nossas mentes e a realidade a uma troca entre nossos pensamentos e a variedade que é a experiência. Esse elemento permite que James compreenda aquilo que ele determina como “Absoluto”, que deve representar os benefícios vitais produzidos a partir das crenças que temos sobre o que nós mesmos consideramos consequências práticas. Assim, James explica:
Podeis ver por isto o que é que eu queria dizer quando chamei ao pragmatismo um mediador e reconciliador, e disse, tomando a expressão de Papini, que ele “flexibiliza” as nossas teorias. De fato, o pragmatismo não tem quaisquer preconceitos, nem dogmas obstruidores, nem cânones rígidos sobre o que deve contar como demonstração. É completamente genial. Acolherá qualquer hipótese, considerará qualquer evidência. Como consequência, no terreno religioso tem uma grande vantagem quer sobre o racionalismo religioso, com o seu interesse exclusivo no remoto, no nobre, no simples e no abstrato. (JAMES, 1997, p.56).
James se recusa a aceitar as verdades como simples proposições estáticas, o que implica, necessariamente, que as verdades são plásticas. Vale observar que as demais conferências publicadas em O
pragmatismo tratam de temas diversos relacionados direta, ou indiretamente, ao próprio pragmatismo: os problemas metafísicos, o uno e o múltiplo, o senso comum, o humanismo, a verdade e a religião. Entretanto, é na sexta conferência que James enfatiza, de modo particular, sua concepção de verdade, afirmando que a doutrina pragmatista percorre estádios clássicos de uma teoria. Nesse sentido, “em primeiro lugar uma teoria é atacada como absurda; depois se admite ser verdadeira, mas óbvia e insignificante; finalmente é considerada tão importante que os seus adversários reivindicam a sua descoberta.” (JAMES, 1997, p.101). Ele, então, reconhece que o pragmatismo se encontra no primeiro estádio, com sintomas do segundo, uma vez que a teoria começa a despontar entre os círculos filosóficos. Mas, se procuramos ver essa questão por outro ângulo, então, por que Wittgenstein não corrobora de forma integral com a teoria do pragmatismo jamesiano?
Precisamos manter presente que a resposta a essa questão, nas Investigações, está no fato de que uma das preocupações centrais de Wittgenstein é destruir o edifício fundado no pressuposto de que a linguagem funcionaria como figuração do mundo. Numa outra perspectiva, a afirmação de que a verdade deve corresponder à realidade, a qual se poderia denominar de “verdade por correspondência”, implica na defesa do empirismo radical enquanto teoria da verdade. Com isso, nos casos em que as ideias não podem copiar o seu objeto, o que realmente significa correspondência com esse objeto? Como vimos acima, diferentemente de Wittgenstein, para o pragmatismo, em primeiro lugar, é preciso frisar que, ao contrário de “pressupostos intelectualistas”, como o próprio autor define, ideias verdadeiras são as que podemos “assimilar, validar, corroborar e verificar. As ideias falsas são as que não o permitem. É esta a diferença prática que faz ter ideias verdadeiras; é este, portanto, o significado da verdade [...].” (JAMES, 1997, p.102).
A hipótese discutida anteriormente nos leva a concluir que, no pragmatismo de James, a posse de pensamentos verdadeiros torna-se a posse de instrumentos para a ação. Em metaética, isso significa que, longe de imperativos morais vazios, a obtenção dos valores é proveniente da experiência que fornece significativas razões para o comportamento prático. Deste modo, James aponta que “o valor prático das ideias verdadeiras deriva assim em primeiro lugar da importância prática que os seus objetos tiveram para nós.” (JAMES, 1997, p.103). Extrai-se, portanto, que a máxima do pragmatismo retira a sua noção de valores de algo essencialmente ligado à forma pela qual um momento da
experiência pode nos conduzir a outros momentos que “valeram a pena”. (JAMES, 1997, p.103). Assim, não há dúvidas que Wittgenstein mantém proximidade com o pragmatismo de James, especialmente quando indica que “nossas regras deixam alternativas abertas e a prática deve falar por si própria” (DC, § 139).
É importante, agora, mencionar que as notas sobre o conceito de pragmatismo, elaboradas por James em O Pragmatismo, embora pretendam marcar que experiência e utilidade sejam dois campos extremamente próximos, tornam-se, ao longo de uma série de evidências textuais, objeto de certas irregularidades. Entre os obstáculos pouco resolvidos, ou não resolvidos totalmente pelo autor, está a associação entre o advento do objeto e a verificação do significado. (JAMES, 1997, p.105-112). Ao utilizar o exemplo de um relógio fixado na parede, James sustenta que a certeza nasce apenas quando nossas ações puderem verificá-lo como tendo as características suficientes para defini-lo como sendo um relógio63. Portanto, os valores morais verdadeiros seriam aqueles que conduzem a outros pensamentos ou partes da experiência que, por serem úteis, tornam-se também verdadeiros.
Uma leitura mais cuidadosa permite inferir que o intuito de James é apontar que os processos de verificação e validação são mecanismos que conduzem à ideia original ou ao valor original, tese que se compromete com algum tipo de realismo moral. Podemos, então, sustentar que para James, concordando com aquilo que escreve Putnam, os pensamentos verdadeiros são instrumentos da ação, cuja posse, longe de ser um fim, é um meio preliminar para satisfação das necessidades vitais. (PUTNAM, 2003, p.17-18). Esse argumento demonstra que, no pragmatismo, aquilo que faz dos pensamentos verdadeiros pensamentos úteis é seu valor prático, sobretudo o valor prático dos objetos e ações que eles visam. James assim indica:
É esta tese que quero defender. A verdade de uma ideia não é uma propriedade estável que lhe seria inerente. A verdade acontece a uma ideia. Ela