2 O DEBATE METAÉTICO SOBRE O NÃO-COGNITIVISMO MORAL NO TRACTATUS LÓGICO-PHILOSOPHICUS
4. VALORES MORAIS COMO PROJEÇÕES: O NÃO COGNITIVISMO MORAL DE SIMON BLACKBURN
4.2 A RÉBPLICA DE BLACKBURN A MCDOWELL E O PROBLEMA DA ATITUDE MORAL
Examinaremos, nesta seção, como o debate metaético entre as posições realista e antirrealista de McDowell e Blackburn consideram o problema da atitude e da decisão moral. Visto que ambos, segundo aquilo que mostraremos, não apresentam uma análise suficiente que considere os vários aspectos dos escritos de Wittgenstein. Neste sentido, nosso objetivo aqui é reconstruir o próprio confronto instaurado sobre a hipótese que acabamos de mencionar no primeiro capítulo, isto é, da possibilidade de sustentarmos um cognitivismo moral pragmático a partir das Investigações Filosóficas. A publicação do texto de McDowell, intitulado Non-Cognitivism and Rule-Following, serviu
como motivação para a publicação do texto de Blackburn chamado Reply: rule-following and moral realism, cujo ponto central é apoiar a defesa do não-cognitivismo por meio das observações sobre seguir uma regra encontradas em Investigações Filosóficas. Antes de argumentar a respeito dessas interpretações, vale notar que as regras, para Wittgenstein, desempenham alguma função corretiva e essa função seria responsável por estabelecer as condições necessárias para que um juízo moral seja cognitivo.
Se procurarmos ver essas questões por outro ângulo, por um lado, estariam a imprecisão das menções feitas por Wittgenstein em seus fragmentos sobre o papel das regras e, por outro, a pergunta que está no próprio núcleo e que poderia apoiar as teorias apresentadas pelos autores em questão: Wittgenstein teria mantido nas Investigações uma posição similar ao Tractatus a respeito da Ética? Assim, reconstruir a interpretação de Blackburn sobre o papel das regras em sua teoria projetivista e suas principais limitações no modo de compreender uma leitura não-cognitivista a partir dos trabalhos de Wittgenstein explicitamente assume o interesse que pretendemos ultrapassar. Na realidade, há uma passagem em Truth: a guide for the perplexed, publicado em 2005, que nos parece uma clara evidência de que Blackburn tem mantido sua posição:
O que acontece depois simplesmente reafirma o rompimento entre ética e fatos. Numa conversa de 1942, conta Rhees, Wittgenstein analisa um dilema ético: “Alguém pode indagar se o tratamento de tal questão na ética cristã está certa ou não. Quero dizer que esta indagação não faz sentido”. Se imaginarmos decidir qual é a solução certa e qual é a errada, ele se queixa: “Mas não sabemos qual seria essa decisão – como seria determinada, que tipo de critérios seriam usados e assim por diante. Compare com dizer que deve ser possível decidir qual dos dois padrões de precisão é o certo. Nem sequer sabemos o que procura uma pessoa que faz essa pergunta”. (BLACKBURN, 2006, p.208-209).
Assim, o antirrealismo moral de Blackburn reafirma que o rompimento entre fatos e valores, enunciado no Tractatus, é amparado porque Wittgenstein não está interessado no apelo de uma realidade moral. Além disso, podemos notar que já nas primeiras linhas de Reply:
Rule-Following and Moral Realism, Blackburn resgata o problema humeano: descobrir como os objetos realmente estão na natureza, sem adição ou diminuição de nada, e se esses são resultado da produção ou projeção da razão. Assim descreve que “o foco de nossos problemas é a maneira na qual a teoria dele sobre o poder produtivo ou projetivo da mente deveria ser definido e debatido.” (BLACKBURN, 1993, p.163). Assim, apoiado na teoria projetivista, pela qual não há fatos morais, Blackburn compreende que moralizamos ao reagirmos a fatos naturais do mundo. O quase-realismo, portanto, procura explicar, em metaética, o que os juízos morais não são, conforme aponta o autor50, esclarecendo seu afastamento da posição de McDowell e de sua interpretação sobre Investigações Filosóficas.
Se não existem fatos morais, uma vez que esses são projeções sobre o mundo, a tese de Blackburn, como propõe Dreier (1992, p.19), é que as regras também não podem expressar valores referentes aos fatos morais. Seguindo a interpretação de Dreier (1992, p.19-20), Blackburn é um “naturalista reducionista”, isto é, as propriedades morais não podem ser deduzidas das propriedades naturais. Além disso, como afirma, as regras não podem determinar que tipo de ações podem ser verdadeiras ou falsas, pois elas também são expressões das reações que projetamos sobre o mundo. Por isso, seguir uma regra não determina nenhum conteúdo objetivo, nenhuma concordância determinada sobre um fato, expondo o argumento de que elas devem ser entendidas apenas como aprovações ou reprovações das projeções feitas sobre o mundo. (DREIER, 1992).
Neste sentido, Blackburn, especialmente no artigo que já mencionamos, pretende responder a uma crítica essencial observada por McDowell: o que deve ser considerado como projetado para que este nos forneça a imagem de que algo ocorre daquela forma e não de outra? Uma “inclinação”, segundo McDowell (2002b), não seria uma resposta satisfatória, porque isso não justificaria o fato de escolhermos a opção A e rejeitarmos a opção B. Por exemplo, acreditar que matar é moralmente errado não consegue explicar o que realmente é a essência que torna o homicídio, a violência gratuita, etc., como algo repugnante. Assim, precisamos notar, especificamente aqui, que há uma confusão metodológica para o projetivismo. Por um lado, nega a existência de propriedades morais; por outro, parece buscar a existência de princípios
50 Conforme estabelece Blackburn, “um projetivista deveria focar bastante
claramente sobre noções de descrição, verdade, mundo, explorar o que ele pensa que os julgamentos morais não são [...].” (BLACKBURN, 1993, p.164).
éticos para consolidar uma ética normativa com o objetivo de sanar a discussão. Para alguém que afirma não ver o problema de tal teoria, o elemento wittgensteiniano para resolver tal discussão, nas Investigações, é que os conceitos e juízos, sejam eles morais ou não, não se comprometem com qualquer reducionismo de natureza empírica.
A resposta de Blackburn para solucionar essa questão, a partir dos desdobramentos wittgensteinianos, é a de que seguir uma regra é uma resposta automática, em que o comportamento é derivado do hábito. A “inclinação” é proveniente do acordo regularmente organizado entre os homens. Assim, não haveria fatos que pudessem explicar uma regra, mas apenas explicações das ações que são derivadas das próprias ações. A partir da leitura de Wittgenstein, Blackburn aponta que as regras são seguidas por hábito, uma vez que fomos treinados numa comunidade para obedecê-las. Entretanto, o autor não pretende tornar o trabalho de Wittgenstein uma espécie de relativismo, conforme se pode notar:
A obra de Wittgenstein tem sido frequentemente acusada de conduzir a uma espécie de relativismo (se é o seu jogo, então é adequado para você), e especialmente se estendermos seu trabalho para casos onde realmente sabemos sobre diferentes sistemas de pensamento, será importante para evitar uma armadilha. Eu não acho que isso tenha sido feito: me parece que no desenvolvimento de McDowell não há espaço para um conceito de verdade moral, que permita que um homem que discorde do rebanho ainda possa estar certo. (BLACKBURN, 1993, p.171).
Blackburn pretende apontar, segundo aquilo que sustentamos, que em Wittgenstein não encontraríamos a definição que temos da compreensão da regra (e por isso seguimos uma série ou uma ordem), mas como resultado temos apenas o fato de que ela é seguida por um hábito dentro de um jogo de linguagem. A sentença “Matar é errado” não exige uma compreensão interna da regra, como pretende um realista em sua proposta metafísica. E, associando-se a isso, mesmo que a tivéssemos apreendido, nada garantiria sua aplicação futura, o que torna Blackburn defensor de um “ceticismo de regras”. (BLACKBURN, 1993, p.172).
Há, portanto, uma clara indicação de que é um equívoco pensar, como o projetivismo, que as regras são apreendidas de uma única vez. A concepção de que uma regra pode ser compreendida e seguida sem
equívocos, como afirma Blackburn, não possui nenhum fato que mostre a realização dessa crença. Isso também é estabelecido, quando Blackburn acusa a posição de McDowell de ver uma dificuldade nos chamados hard cases (casos difíceis). As considerações de Wittgenstein, por sua vez, mostram que o seguimento de regras tem uma origem consensual51, ao contrário daquilo que estabelece a posição do realismo moral:
No entanto, esse dilema deveria apenas nos prender se não formos capazes de lucrar com as seguintes considerações de Wittgenstein. Estes nos mostram o caminho em que seguir qualquer regra tem uma origem consensual: eles nos afastam da ideia de que há trilhos platônicos na mente, que estabelece a maneira pela qual novos casos devem ser descritos, e nos mostrar como simples consenso em novas aplicações de quantias de termos para a única ou fundamental realidade inerente a todo o processo de julgamento. (BLACKBURN, 1993, p.171-172).
Para validar esse argumento, Blackburn atribui à força do hábito a responsabilidade de agir conforme as regras, em sintonia com a posição humeana, descrita no segundo capítulo. A força do hábito é responsável por organizar o regramento dos jogos de linguagem que, de acordo com um consenso sobre o certo e o errado, permitem instruir o comportamento e a prática a ser seguida. Neste sentido, a tese apresentada demonstra que “seguir uma regra” tem uma origem consensual, a qual procura negar a ideia das regras como trilhos platônicos que estão na mente. Para isso, Blackburn ampara-se na seguinte passagem de Investigações, por meio da qual Wittgenstein afirma que entre as várias interpretações, arrisca-se uma que permite a continuidade ou não do discurso, mostrando ser insustentável conceber as regras como propriedades reais:
“Mas você elucida para ele realmente o que você compreende? Você não o deixa adivinhar o
51 Essa questão pode ser sustentada pelo parágrafo 206 de Investigações, no
qual Wittgenstein aponta que “o modo de agir comum a todos os homens é o sistema de referência, por meio do qual interpretamos uma linguagem desconhecida.” (IF, § 206).
essencial? Você lhe dá exemplos – ele, porém, deve adivinhar sua tendência, adivinhar, pois, sua intenção.” – Toda elucidação que posso dar a mim mesmo dou-a também a ele. – “Ele adivinha o que quero dizer” significaria: pairam em seu espírito diferentes interpretações de minha elucidação e ele se decide por uma delas ao acaso. Ele poderia nesse caso perguntar e eu poderia, e iria, responder-lhe. (IF, §210).
Wittgenstein, segundo Blackburn, estaria definindo que não há nenhuma realidade prévia que antecipe o processo de compreensão. Isso também significa dizer que não há nenhuma regra que justifica a aplicação da regra que está sendo usada, uma regra que anteceda o uso. Entretanto, segundo Wittgenstein, não se pode adivinhar como uma palavra funciona, apenas as regras podem ser entendidas no contexto de seu uso. Portanto, a posição metaética de Blackburn frisa em seu argumento, apontando para uma realidade divergente do realismo de McDowell: seguir uma regra torna-se um movimento automático, uma resposta a um jogo de linguagem estabelecido consensualmente, uma reação que é dependente das projeções que estabelecemos sobre algo52. Dessa maneira, as regras não são expressão de um conteúdo objetivo, uma vez que para estabelecer a correção de um juízo moral, por exemplo, é necessário apenas verificarmos o uso no consensualismo de onde a regra é proveniente.
Mas, seriam esses argumentos suficientemente adequados e claros para pensarmos o cognitivismo moral pragmático? A resposta é, certamente, não. Essas implicações repercutem diretamente sobre o debate metaético, porém, não mostram efetivamente a virada pragmática ocorrida nas Investigações. Blackburn pretende indicar, portanto, que a ausência de uma propriedade objetiva, pela qual as pessoas possam ter respostas idênticas, não é possível a partir das considerações wittgensteinianas. Neste sentido, a principal crítica do projetivismo é que ele precisa demonstrar como são possíveis juízos e reações diferentes aos mesmos fatos como, por exemplo, “A acredita que a ação X é correta” e “B acredita que a ação X é incorreta”. Consequentemente, a resposta mais conveniente à posição adotada pelo
52 Essa posição será rejeitada no quinto capítulo, uma vez que o
cognitivismo pragmático, encontrado em Investigações Filosóficas, não compreende as regras como um movimento automático ou apenas consensualista.
projetivismo foi afirmar o não-cognitivismo como fio condutor entre o Tractatus e as Investigações, isto é, o mundo é destituído de valor moral.
4.3 REPENSANDO A NATUREZA AUTOMÁTICA DE “SEGUIR