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3. LITERATURA AFRICANA EM LÍNGUA PORTUGUESA

3.1 Alguns aspectos teóricos

3.2.3 O primado do conto

No ponto 1.2.3 foi abordada a situação do conto no continente africano onde, entre outros aspectos, focámos a relação existente entre o conto africano de autor e a narrativa de tradição oral. Também o escritor moçambicano, nomeadamente o actual, faz uso do “espólio de saberes, mitos73 e tradições, veiculado ao longo de gerações” (Afonso 2004: 207), integrando-o nas suas produções escritas. Essa relação entre os enunciados escritos e a tradição oral é visível a partir da utilização tanto das estruturas textuais e linguísticas da narrativa oral como da sua subjacente simbologia.

Apesar de muitos escritores moçambicanos terem um apreciável afastamento das zonas rurais, uma vez que são quase todos de origem urbana e escolarizados em português, verificamos que

há neles um entusiasmo crescente pela reutilização de materiais culturais que inscrevem a palavra tradicional no âmago da escrita narrativa. Servindo-se de diferentes estratégias que passam por um trabalho de recriação da língua e pela enunciação de um legado mítico, alguns contistas (entre os quais Mia Couto) inscrevem uma estética da oralidade no próprio enunciado titular. (…) Assim, na encruzilhada da escrita com a oralidade, o aparelho titular, produz, semanticamente, um duplo efeito, abrindo frontalmente num limiar de leitura que permite esperar a recuperação das estruturas da narração oral e popular. (Afonso: 2004: 207).

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Mircea Eliade, na sua obra Aspects du mythe, explica:

Les personnages des mythes sont êtres Surnaturels. Ils sont connus par ce qu’ils ont fait dans le temps prestigieux des «commencements». Les mythes révèlent donc leur activité créatice et dévoilent la sacralité de leurs œuvres. (…) Les mythes décrivent les diverses, et parfois dramatiques, irruptions du sacré (ou du «sur-naturel») dans le Monde. C’est cette irruption du sacré qui fonde réelment le Monde et qui le fait tel qu’il est aujourd’hui. (Eliade 1963: 17). Aspas do autor.

Vemos, então, a distinção entre um tempo sagrado e um tempo profano. O mito na narrativa tem, assim, “o poder de recuperar o tempo sagrado, de instaurar o tempo mítico. O tempo do mundo contado é também um tempo cíclico, o do «eterno regresso»,” (Afonso 2004: 154. Aspas da autora) em que “a repetição permite ao homem deixar o tempo profano, o da morte e da corrupção, para recoincidir com o tempo sagrado da Origem.” (Aubrit 1997: 100).

Em termos literários, o mito está “situado no âmbito não só da ficcionalidade, como construção imaginária e fantástica, mas também enquanto elemento constitutivo da poeticidade e da sua estrutura simbólica. (Sousa 2002: 83). Sublinhados nossos.

Esta recuperação da tradição oral através do conto de autor permite, numa primeira instância, afirmar a moçambicanidade,74 ou seja, a afirmação e identificação de uma maneira de estar moçambicana. Ao mesmo tempo, a opção pelo conto permite a afirmação de um novo “discurso literário, polifonizado, ancorado numa sociedade em plena mutação, dando a conhecer as novas realidades sócio-culturais, procurando conciliar a memória de uma cultura oral e os ganhos da modernidade.” (Afonso 2004: 158).

Esta opção pelo conto, ou melhor dizendo pela «estória», já tinha sido tomada, de forma indelével, desde 1952, por autores como João Dias, Luís Bernardo Honwana e Carneiro Gonçalves. Mas o deliberado privilégio do género conto, no panorama literário moçambicano, é apanágio da geração da Charrua. A partir dos anos 80 do século XX, o conto é o género mais cultivado, embora muitos dos autores sejam, também, poetas.75 Dentro deste aglomerado de autores, Mia Couto destaca-se como sendo “o mais emblemático de todos.” (Afonso 2004: 158).

A geração da Charrua, consagrada, igualmente, pela Associação de Escritores Moçambicanos,76 publicou diversas obras através de várias revistas (para além da própria Charrua): Eco, Forja, Cartola, Garimpeiro, Munhacueita e Xiphefo.

Tendo em conta a súmula desta produção narrativa, temos a prova inegável que a «estória» é “o tipo de texto escolhido para reflectir as múltiplas facetas culturais de um Estado-Nação em vias de construção.” (Afonso: 2004: 159.). A «estória» “adapta-se bem à captação de uma realidade multifacetada” (Chabal 1994: 66), assente num mosaico sócio-cultural multiétnico, “centrada em postulados por vezes contraditórios” (Afonso 2004: 160) e conflituosos.

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Vejamos a opinião de Gilberto Matusse ao relacionar a tradição oral com a imagem de moçambicanidade: “A presença dos modelos da tradição oral (…) é orientada, fundamentalmente, por um espírito de afirmação da identidade cultural e da identidade de uma literatura que, sendo jovem, percorre ainda os caminhos da sua definição, ou seja, por uma necessidade de construir uma imagem de moçambicanidade.” (Matusse 1998: 159).

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Podemos destacar estes contistas-poetas: Albino Magaia, Aníbal Aleluia, Juvenal Bucuane, Calane da Silva, Ungulani Ba Ka Khosa, Suleiman Cassamo, Hélder Muteia, Isaac Zita e Lília Momplé.

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A AEMO - Associação de Escritores Moçambicanos, fundada em 1982, sob a égide do Comité Central da FRELIMO, tinha como objectivos: “promover a publicação das obras, (…) (e) assegurar a actividades literárias dos escritores moçambicanos.” (Afonso 2004: 159). Contudo, esses intuitos foram subvertidos passando este órgão a funcionar mais como instrumento de censura. O escritor Aníbal Aleluia, citado por Michel Laban, relata como o seu livro Mbelele e outros contos foi perseguido: “Tudo se fez para o livro não sair. Chegou a ser composto numa editora e ser retirado dizendo-se que as máquinas não funcionavam. (…) O Mbelele só foi lançado seis anos depois, precedido por muitos outros que não estavam na lista das prioridades.” (Aleluia, citado por Laban 1998, I vol.: 13-14).

Podemos afirmar que “talvez o conto, a short-story, transgredindo regras (…) e permitindo uma relação vagabunda77 com a escrita” (Afonso 2004: 160), seja uma via de a literatura moçambicana “conceder eficácia histórica ao discurso da ficção, mas, sobretudo, (dotar) a história, a diegese, de marcas valorativas” (Laranjeira 1995b: 327) que levem o leitor a assimilar as ideias de ancestralidade, nacionalidade e universalidade.

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Mia Couto fala dessa relação vagabunda: “A minha via é viver (…) manter este relacionamento múltiplo com a vida numa espécie de vagabundagem que ainda me é permitida. (Couto 1999: 137). Sublinhado nosso.