• Nenhum resultado encontrado

4.1 Entrada na carreira

4.1.1 O primeiro dia como professor do ensino superior

Nesse período de ingresso, um momento marcante refere-se ao primeiro dia de atuação, quando de fato se efetiva a atividade docente. Esse dia pode ser marcado por muita ansiedade e expectativas, pois, a partir desse momento, é que os docentes perceberão que vão se constituindo docentes do ensino superior. A seguir, ressaltam-se as declarações dos entrevistados em relação a esse além de tudo o meu primeiro dia foi com o pessoal que era meus colegas há um tempo. A gente se via nos corredores e passaram a ser meus alunos. Então, foi uma situação que não foi fácil, mas para mim foi muito gratificante (Professora Célia);

Eu levei um netbook para sala de aula e o data show não funcionou, entendeu? Então, é isso: não tem data show, eu vou contar a história, aí nós sentamos em círculo, nesta classe [...] nos sentamos em círculo e eu fui contando a História para eles e fui fazendo algumas anotações na lousa e depois eu passei os slides para eles por e-mail, para que eles vissem as imagens assim muito nervoso, não sei se aconteceu contigo, e você espera que as pessoas vão também perguntar, perguntar, perguntar e elas não perguntam. Você fala, fala, fala e pergunta: dúvidas?

Parece que está todo mundo entendendo e você até se sente um ótimo professor. Até o dia da avaliação (Professor Mário); e

Eu fiquei muito nervosa, mas talvez por já trabalhar na escola e a faculdade como uma extensão da escola, talvez tenha sido menos pior, mas eu tive muito medo também porque na turma, na primeira turma que eu comecei, eu tinha colegas de trabalho (Professora Silvia).

Na maioria dos depoimentos, constata-se um sentimento de nervosismo no momento da realização de seu sonho, atuar no ensino superior. O momento que, para a maioria, foi carregado de muita expectativa e de situações que demandaram decisões rápidas e não planejadas, como o caso dos equipamentos que não funcionaram. O improviso na hora de ministrar a aula fez parte do reconhecimento da complexidade do ato de ensinar, embora a maioria se sentisse preparada em relação ao conteúdo a ser ministrado no referido dia.

Outro fator que convém destacar foi o depoimento do professor Gilmar. Ele se preparou por uma semana para sua primeira aula na universidade, conheceu os alunos e começou sua aula. Pelo depoimento, percebe-se que sua escolha se confirma no momento em que está na prática no primeiro dia de aula e reconhece que gosta de atuar junto a um grupo mais adulto:

Eu percebi que era exatamente aquilo que eu queria fazer enquanto eu estava dando aula ali e, realmente, senti muito prazer dando aquela aula, uma satisfação muito grande de poder tratar com esse público que é um pouco mais adulto, que consegue se virar mais ou menos sozinho em algumas coisas. Você não precisa ficar colocando tantas regras que ele já tem uma responsabilidade maior do que as pessoas da Educação Básica.

Então, foi bem bacana essa primeira aula.

Todavia, apesar de todo seu envolvimento e preparação para a aula inaugural de sua carreira docente, sentiu uma enorme frustração, quando soube que não trabalharia mais com a disciplina para a qual se organizou e dedicou-se, já que com ela iniciaria sua carreira no ensino superior. Causa surpresa a forma como a instituição lida com seus profissionais e não parece reconhecer o significado e a importância desse início na vida do professor. Em seu depoimento, relata como se deu esse fato: O que foi interessante foi que quando eu terminei a aula, eu encontrei a minha chefe de departamento, ela perguntou: “O que você

estava fazendo aqui?” – Eu estava dando a aula de Álgebra Linear! “Essa disciplina mudou, não é mais para você” (Professor Gilmar).

O professor Jorge foi o único docente que não teve tempo prolongado para preparar sua aula inaugural no ensino superior. Ele relatou que sempre teve vontade de atuar nesse nível de ensino. Resolveu então cursar uma pós-graduação com a intenção de atuar no ensino superior na própria escola que, naquele momento, estava implementando esses cursos. Como era muito amigo do diretor da faculdade, que sabia de seu interesse em atuar no ensino superior, foi avisado que qualquer dia seria chamado para substituir um professor que estava sempre viajando, por ser avaliador do Ministério da Educação e Cultura (MEC). O formador relatou sua experiência e sua tentativa de encontrar material didático que pudesse atender a um grupo desconhecido para ele:

Não foi uma experiência muito boa, não [...] Quando foi no dia, me ligou uns minutos antes e falou: Jorge, hoje você vai dar aula na graduação de Matemática Financeira. Eu perguntei: e o material?

– Não tem. Aí, eu tive que preparar na hora, aí eu peguei o que eu tinha, faltavam uns 15 minutos, reuni o conteúdo no computador, até hoje eu tenho esse CD de quatro gigas, mas eu não achei legal, porque era para graduação, não para quem está no Ensino Médio e Fundamental; entrar na graduação é uma coisa assim diferente né? Imagina-se. Lá não era primeiro ano, devia ser quarto semestre ou quinto semestre, aí eu cheguei na sala e não tinha nada; não sabia nada do que as pessoas estavam fazendo de fato e se o que eu tinha era compatível com o que eles estavam fazendo. Aí, eu perguntei para os alunos o que eles estavam fazendo, ainda bem, eu me identifiquei. [...] E, nesse dia, as pessoas gostaram, e eu achei legal! Como eu disse eu sou uma pessoa de sorte e isso é muito bom, foi muito bom! Eu tive uma grande dificuldade, porque eu não tinha nada, eu tinha as minhas coisas, mas eu não sabia se era compatível ou não, e as pessoas gostaram (Professor Jorge).

O período de inserção no ensino superior engloba, conforme Feixas (2002), uma série de experiências ambíguas e confusas, podendo gerar sentimentos de ansiedade, incerteza e insegurança. Não é uma fase fácil e, conforme a autora, pode causar insatisfação e levar os docentes a questionar seu potencial de formador.

Em termos gerais, para os formadores iniciantes esse período, conforme Bozu (2009), caracteriza-se por uma confrontação inicial com a complexa realidade do exercício profissional, com a transição da vida de estudante e a vida mais exigente do trabalho (p. 63). Assim, este confronto é traduzido pelos depoentes como dificuldades encontradas no exercício da docência nos cursos de Licenciatura em Matemática.