A docência universitária constitui um tema relevante em diferentes países e também no nosso. No atual panorama nacional e internacional, conforme anunciam Pimenta e Anastasiou (2002), há uma preocupação com o crescente número de profissionais não qualificados atuando na docência universitária, o que estaria apontando para uma preocupação com o resultado do ensino de graduação (p. 25).
A problemática apontada em relação à qualidade da educação superior envolve os docentes que atuam nesse nível de ensino e, no caso desta pesquisa, a preocupação é com os professores que atuam nos cursos de Licenciatura em Matemática.
Em relação à docência universitária busca-se conhecer os docentes que formam os profissionais da Educação Básica que são os professores formadores.
Para entender o conceito de formador, apoiamo-nos em Vaillant (2002)9 que conceitua o termo formador e direciona seus estudos na América Latina, e em Beillerot (1996) que se reporta ao contexto europeu. As definições aqui consideradas têm o intuito de ajudar a compreender quem pode ser considerado formador, de acordo com as funções que desempenha.
Os formadores de professores, conforme Vaillant (2002), são aqueles que se dedicam à formação de professores e realizam tarefas diversas, não só na formação inicial e permanente dos docentes, mas também em planos de inovação, assessoramento, planejamento e avaliação de projetos em áreas de educação formal, não formal e informal. De acordo com os estudos da autora, observam-se algumas características que são indispensáveis para a atuação do formador.
O formador deve possuir uma grande experiência docente, rigorosa formação científica e didática, ser conhecedor das principais linhas de aprendizagens que sustenta, apto para trabalhar com adultos e, em definitivo, preparado para ajudar os docentes a realizar a mudança atitudinal, conceitual e metodológica que está demandando o sistema educativo (VAILLANT, 2002, p. 9).
A autora também se refere ao formador como sendo um profissional capacitado e credenciado para exercer uma atividade de formação. O formador é um mediador entre o conhecimento e as pessoas que devem adquiri-los (p. 16).
No entanto, ressalta que este profissional deve mostrar coerência entre seu discurso e sua prática e ter compromisso com a profissão.
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9 Todas as citações de textos estrangeiros são aqui apresentadas em tradução livre, de autoria da autora.
O termo formador, conforme aponta Vaillant (2002), pode ser entendido como sinônimo de:
− docente é o responsável pela formação de formadores envolvendo todo o campo de conhecimento que se entende por formação de professores em seus diferentes níveis;
− como profissional que forma os docentes, neste caso são profissionais que formam os docentes da educação inicial, primária, secundária, formação profissional, institutos de formação docente e faculdades e institutos de Pedagogia ou Ciências da Educação. São os formadores dos cursos de Licenciaturas;
− tutores de práticas são profissionais que participam da formação inicial dos formadores, assessoram e supervisionam os futuros docentes ao longo de suas práticas que integram a formação inicial;
− professores mentores que assessoram e supervisionam os professores iniciantes, estão envolvidos com os professores mentores que apoiam os docentes nos primeiros anos do ensino, por meio de programas de inserção profissional;
− assessores de formação são profissionais que se relacionam com programas de ensino, que desempenham atividades de planejamento, desenvolvimento e avaliação da formação permanente dos professores.
São os formadores da formação continuada e
− nos ambientes de educação não formal, usa-se a palavra professor em lugar de formador. Este termo é empregado para os profissionais da formação ocupacional ou continuada.
Ao considerar tais características, a autora espera que os formadores possuam uma grande experiência docente e estejam aptos a trabalhar com adultos e prepará-los para a atuação.
Um dado a ser lembrado em relação ao trabalho do formador refere-se às experiências que muitos trazem de outros níveis de ensino e nas quais eles se apoiam para realizar sua atividade docente. Para estes, o saber ensinar em seu
papel de formador de outros professores vem enriquecido pela experiência anterior, porém é importante que o formador compreenda que a centralidade dessa função concentra-se em [...] como fazer aprender alguma coisa a alguém, como destaca Roldão (2007, p. 94).
A perspectiva de Roldão é confirmada também por Valenzuela e Barnett (2013) em seus estudos com professores iniciantes no Ensino Superior. Os autores entendem que talvez seja razoavelmente fácil identificar o que ensinar, ou seja, os conhecimentos e habilidades esperadas dos alunos. No entanto, segundo eles, o mais problemático é o como ensinar para promover aprendizagem profunda entre os alunos com diferentes backgrounds (VALENZUELA; BARNETT, 2013, p. 893).
Outro autor que serve de apoio teórico à presente pesquisa é Beillerot (1996). Ele afirma que o formador de professores é antes de tudo um profissional da formação que intervém para formar novos formadores ou para aperfeiçoar, atualizar, etc., os que estão em exercícios (p. 2).
O autor ressalta que a palavra formador é um termo recente e destaca que, do ponto de vista semântico e histórico, podem ser consideradas algumas terminologias utilizadas para essa palavra como: docente, pedagogo, professor, quando se refere ao professor da escola secundária; e instrutor, monitor, educador e animador, quando se refere ao formador da universidade (BEILLEROT, 1996, p. 11).
Em relação ao seu trabalho, o autor entende que [...] o trabalho do formador consiste em estabelecer e implementar procedimentos que permitem ao adulto aprender (p. 20).
Um aspecto importante abordado pelo autor refere-se às tarefas do formador. Dentre as mais comuns: saber analisar o entorno, saber construir a co-participação, ou ainda, saber construir uma progressão pedagógica. Chama a atenção para a maneira de pensar o ofício de formador – comprometer-se a ter desafios consigo mesmo (p. 26). A tarefa do formador apontada por Beillerot é por ele caracterizada, com base em seu entendimento, que esse profissional exerce uma função que é social, intelectual e também é função de conhecimento. Esta
perspectiva da função do formador será perseguida na pesquisa ao tratar das especificidades do trabalho do formador iniciante dos cursos de Licenciatura em Matemática.
Outras características que são requeridas inicialmente para ser formador e, sobretudo ao formador iniciante no desempenho da atividade docente, são indicadas por Altet, Paquay e Perrenoud (2003) como: ser capaz de ajudar os professores a construir competências profissionais e acompanhar/favorecer a análise das práticas docentes para se adaptar melhor à evolução das condições de exercício do ofício de professor (p. 63).
Estes autores indicam as especificidades e os aspectos essenciais da prática desse profissional que forma outros profissionais. Se, como destaca Ruiz (2008), um dos maiores desafios dos professores universitários que iniciam a carreira diz respeito às suas práticas de ensino, essa preocupação é ainda maior quando se refere às práticas de ensino do professor formador dos cursos de licenciatura, em especial, os iniciantes.
Os aspectos trazidos pelos pesquisadores parecem essenciais à presente pesquisa, pois o foco de estudo é o trabalho do formador que forma profissionais do ensino, ou seja, os futuros professores de Matemática da escola básica, cuja prática docente constitui-se o centro da formação. Conhecer essa prática, acompanhá-la e analisá-la são, como se referem os autores, condições primordiais do trabalho do formador.