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CAPÍTULO 4 ROGERS E FREIRE NA ATENÇÃO PRIMÁRIA À SAÚDE: A

4.3 O PROCESSO DE CONSTRUÇÃO DAS AÇÕES

4.3.3 O grupo de criatividade com crianças

4.3.3.2 O processo do grupo

4.3.3.2.1 O primeiro encontro

No primeiro dia de encontro do Grupo CriAção, realizado em 26 de maio de 2008, às 13:00, numa da salas da Escola Moema Tinoco, contávamos com a presença de onze crianças, a maioria do sexo masculino, com idades entre seis e 15 anos de idade, três das quais três eram pessoas com necessidades especiais, por terem déficit cognitivo e dificuldades de fala, dois desses acompanhado pela mãe. A atividade do grupo foi iniciada com uma brincadeira de roda realizada em uma sala de aula disponibilizada para o nosso grupo, onde demos as boas-vindas às crianças. Propusemos, em seguida, uma apresentação de cada participante, colocando, na sequência, os objetivos do grupo. Feito isso, passamos para o processo de construção do pacto de convivência, tentando conversar com as crianças sobre a importância de colocar limites para funcionarmos melhor. Para isso, solicitamos aos participantes que dessem sugestões sobre o que não podia acontecer no grupo. Em meio a muito tumulto, barulho e correria de alguns participantes, a maiorias das crianças presentes responderam: “não gritar”, “não bater”, “não dizer palavrão”, “não

colocar apelido”, “não perturbar a tarefa do outro”, “não quebrar”, entre outras. Esses limites foram registrados numa cartolina, ao final de cada encontro, avaliarmos com as crianças como o grupo havia se comportado no dia.

Neste encontro, devido à bagunça e à correria provocadas por algumas delas, ficamos um pouco perdidas (o) e sem saber como chamar a atenção do grupo, para que elas nos ouvissem e participassem da atividade. Havia muita dispersão. Mas, após certo tempo de caos, conseguimos fechar as regras e antecipar a avaliação do comportamento, no meio do encontro, destacando a conduta das crianças que estavam provocando tumulto, no que foi apontado o desrespeito às várias regras definidas pelo grupo. Sem saber bem como lidar com essa situação, tentamos, de maneira precipitada (e acreditamos, de modo incoerente com a proposta do grupo), provocar uma decisão grupal sobre o que fazer com essas crianças.

Observamos, nesse momento, que essa atitude poderia promover um risco de exclusão, porquanto as outras crianças apontavam como solução a retirada de algumas delas do grupo. Ficamos meio preocupados (as) com a situação, mas as crianças prometeram se comportar e colaborar com a atividade. Assim, considerando essa promessa, partimos para a atividade da apresentação pessoal em desenho e pintura, dispondo folhas de papel ofício, lápis hidrocor, tinta guache e pincel para que elas (elas) expressassem quem eram. O interessante foi que, antes dessa apresentação, observamos o quão desafiadora iria ser para nós aquela atividade de grupo, pois algumas crianças estavam soltas, correndo e circulando pelos diversos espaços do colégio, gritando, na maior algazarra e agressividade com seus colegas.

Demoramos um pouco para levá-las de volta à sala reservada para as atividades de criação e de expressão. Depois de muita dificuldade, conseguimos convencê-las a sentar-se para desenhar e participar da apresentação. Observamos, então, que, apesar de dois participantes do grupo continuarem agitados e sem se concentrar na tarefa, a maioria ficou tranquila e se envolveu com o seu desenho e a pintura. Naquele momento, vimos o quanto a maioria das crianças gostava de desenhar e de pintar. Elas nem pareciam aquelas que, há pouco tempo, estavam tão agitadas. Até mesmo as duas que, inicialmente, corriam por toda a sala gritando e resistiam a se envolver na atividade, gradativamente, foram se inserindo, desenhando e pintando os próprios desenhos, após a intervenção de algumas

facilitadoras. Esse dado foi um indicador importante, no sentido de considerar e incluir desenho e pintura nas atividades propostas para as crianças nos próximos encontros do grupo.

Depois de concluírem os seus desenhos e a pintura, as crianças foram convidadas a compartilhar, na roda, a sua produção criativa, apresentando-se mais uma vez para os colegas. A partir de cada expressão feita através do desenho, as facilitadoras interviram perguntando o nome das crianças e os detalhes sobre o que haviam desenhado. Assim, elas apontaram elementos, revelando a percepção e a imagem que tinham de si mesmas, mostrando seus gostos, sua casa, sua família. Sem querer psicologizar as expressões das crianças, mas reconhecendo a importância do Self (noção do Eu) e o papel da autoestima no desenvolvimento humano (KINGET e ROGERS, 1977), ficamos focadas em incentivá-las a falar sobre seus desenhos e elogiá-los, visando valorizá-las. Essa conduta surtiu um bom efeito, pois a maioria das crianças demonstrou-se orgulhosa ao apresentar seus desenhos, falando de si.

Ressalte-se, contudo, que, nesse processo, algumas delas tiveram dificuldade de se apresentar na roda por razões diferentes. Umas, por timidez, outras, por dificuldades de articular a fala (no caso das crianças com necessidades especiais) e outras, por se mostrarem agitadas e com dificuldade de se envolver nessa etapa da atividade. Visando incluí-las no grupo, as facilitadoras ajudavam, apresentando os seus desenhos e elogiando-os. Depois, foi solicitado que cada criança trocasse o seu desenho com a que estava ao seu lado. Ao término dessa atividade, vimos que o tempo de duração previsto para o encontro do grupo já havia sido extrapolado. Diante disso, resolvemos suspender o lanche, tal como havíamos pensado no planejamento do encontro, e passamos para a atividade de vôlei d‟água (jogo de vôlei, realizado com bola de sopro cheia de com água), na quadra do colégio, que deixou as crianças muito felizes. No final do encontro, servimos água, chocolates e biscoitos e nos despedimos das crianças, muito cansadas do trabalho daquele dia, mas conscientes de como teríamos desafios a enfrentar e reformulações a fazer, em relação ao horário do grupo, à quantidade e aos tipos de atividade por encontro, à linguagem a ser empregada com elas, ao controle do seu comportamento, ao lanche, entre outros.

4.3.3.2.2 Prosseguindo com o grupo

Em vista do ocorrido, no primeiro encontro do grupo, na reunião seguinte, de avaliação e planejamento das atividades do grupo, decidimos marcar os encontros subsequentes para as 13:30 ao invés das 13:00, porque observamos que as crianças só começaram a chegar por volta desse horário. Vimos também que precisávamos usar menos a fala verbal com elas, mais atividades de expressão em desenho e/ou outra forma de criação e que envolvessem o movimento e a cooperação entre eles, como foi a do vôlei d‟ água, que elas adoraram. Concluímos, então, que uma atividade de expressão/criação seria o suficiente para cada encontro e deveria ser seguida de outra que envolvesse o lúdico e/ou desportista.

Além disso, considerando o comportamento muito agressivo e disperso de algumas crianças, decidimos colocar cada um (a) dos (as) facilitador (a) para estar mais junto de cada uma delas, acompanhando-as no decorrer do encontro, com atividades, como forma de protegê-las de maiores riscos. Os facilitadores passaram a se autodenominar de “anjos da guarda” das crianças e se responsabilizaram por acompanhar, mais de perto, alguma criança do grupo. O lanche também deveria ser servido no final de cada encontro, para evitar interrupção e tumulto. Foram essas as primeiras reformulações feitas, ao longo do processo e da história do grupo, visando criar as condições favoráveis para o seu bom funcionamento, tendo em vista os objetivos visados.

Assim, observando as demandas e o comportamento das crianças no grupo, fomos, gradativamente, desenvolvendo atividades das mais variadas formas e recursos, no processo de evolução grupal - desenhos ou expressão gráfica; movimento e consciência corporal e extracorpórea; comunicação e expressão gestual de música e relaxamento; de elaboração individual e/ou coletiva de textos e contação de histórias representadas em desenhos, pintura, arte em argila, canto; danças; oficina de origami, brincadeiras; teatro interativo, envolvendo situações cotidianas vividas pelas crianças para reflexão acerca de valores como solidariedade, amor, paz entre as pessoas, troca de afetividade entre os (as) participantes, cuidados com os livros, com o meio ambiente, preconceitos, entre outras.