CAPÍTULO 4 ROGERS E FREIRE NA ATENÇÃO PRIMÁRIA À SAÚDE: A
4.3 O PROCESSO DE CONSTRUÇÃO DAS AÇÕES
4.3.3 O grupo de criatividade com crianças
4.3.3.2 O processo do grupo
4.3.3.2.2 Prosseguindo com o grupo
Em vista do ocorrido, no primeiro encontro do grupo, na reunião seguinte, de avaliação e planejamento das atividades do grupo, decidimos marcar os encontros subsequentes para as 13:30 ao invés das 13:00, porque observamos que as crianças só começaram a chegar por volta desse horário. Vimos também que precisávamos usar menos a fala verbal com elas, mais atividades de expressão em desenho e/ou outra forma de criação e que envolvessem o movimento e a cooperação entre eles, como foi a do vôlei d‟ água, que elas adoraram. Concluímos, então, que uma atividade de expressão/criação seria o suficiente para cada encontro e deveria ser seguida de outra que envolvesse o lúdico e/ou desportista.
Além disso, considerando o comportamento muito agressivo e disperso de algumas crianças, decidimos colocar cada um (a) dos (as) facilitador (a) para estar mais junto de cada uma delas, acompanhando-as no decorrer do encontro, com atividades, como forma de protegê-las de maiores riscos. Os facilitadores passaram a se autodenominar de “anjos da guarda” das crianças e se responsabilizaram por acompanhar, mais de perto, alguma criança do grupo. O lanche também deveria ser servido no final de cada encontro, para evitar interrupção e tumulto. Foram essas as primeiras reformulações feitas, ao longo do processo e da história do grupo, visando criar as condições favoráveis para o seu bom funcionamento, tendo em vista os objetivos visados.
Assim, observando as demandas e o comportamento das crianças no grupo, fomos, gradativamente, desenvolvendo atividades das mais variadas formas e recursos, no processo de evolução grupal - desenhos ou expressão gráfica; movimento e consciência corporal e extracorpórea; comunicação e expressão gestual de música e relaxamento; de elaboração individual e/ou coletiva de textos e contação de histórias representadas em desenhos, pintura, arte em argila, canto; danças; oficina de origami, brincadeiras; teatro interativo, envolvendo situações cotidianas vividas pelas crianças para reflexão acerca de valores como solidariedade, amor, paz entre as pessoas, troca de afetividade entre os (as) participantes, cuidados com os livros, com o meio ambiente, preconceitos, entre outras.
Nessa mesma perspectiva de trabalho, as crianças eram convidadas a se expressar, a partir de um tema ou brincadeira de seu interesse, propostas pelos (as) facilitadores (as) do grupo, ou sugeridas pelas próprias crianças. Para isso, realizamos várias conversas com elas para elencar os seus interesses e avaliar o trabalho que vínhamos desenvolvendo. Observamos, nesse sentido, que as atividades passaram a despertar o entusiasmo da maioria das crianças participantes do grupo, sinalizando que nossas avaliações e propostas assim decorrentes estavam respondendo às suas expectativas e demandas, em termos de sua inserção e sentido no grupo. Porém, o comportamento agressivo e barulhento de algumas predominou por muito tempo, gerando desconforto, tensionamentos, apreensão e insegurança nos (as) facilitadores (as), em termos de como saber lidar com isso e com as situações geradas.
Esse comportamento agressivo se expressava através de agressões verbais e físicas direcionadas a outros (as) participantes do grupo e pó meio da depredação do ambiente onde se realizava a atividade, o que assustou a mãe das duas crianças com necessidades especiais que participavam do grupo. Fato que provocou a retirada de seus filhos do grupo. Ela disse, na ocasião, estar chocada com a “falta de educação” das outras crianças, que elas “mereciam uma boa peia para aprenderem a se comportar”. Devido a esse comportamento das crianças, fomos convidados, três meses depois do primeiro encontro, a procurar outro espaço para realizar as atividades do grupo, uma vez que a escola onde estávamos realizando nossas atividades já não se dispunha mais a nos acolher. Assim, mudamos para outro estabelecimento de ensino e, posteriormente, para a sede da associação comunitária da comunidade (ACOMAN), onde as atividades têm ocorrido atualmente, por este espaço se mostrar mais adequado para o trabalho com as crianças.
Consideramos importante registrar que, na fase inicial do grupo, esse comportamento barulhento e agressivo das crianças se mostrou muito mais desafiador, por ter exigido muita disponibilidade amorosa, habilidade e segurança da parte dos (as) facilitadores (as). Nesse período, as crianças, apesar de já se mostrarem bastante estimuladas com o grupo, tiveram dificuldades de internalizar os limites de convivência por elas próprias sugeridos. Dessa maneira, no intervalo entre
uma atividade e outra, a indisciplina imperava, chegando até à manifestação de constantes agressões verbais e físicas entre as crianças.
Diante das referidas circunstâncias, algumas vezes, os extensionistas- facilitadores (de Psicologia, Nutrição, Enfermagem, Fisioterapia, Serviço Social) se sentiam impotentes, acuados e, ao mesmo tempo, provocados em sua capacidade inventiva de criar estratégias por meio das quais se estabelecessem a disciplina e a formação de valores relacionados à cooperação e à sociabilidade entre as crianças. Essa experiência possibilitou o afloramento de dons especiais de alguns (as) extensionistas que se tornaram importantes. Através dela, os (as) facilitadores sentiram-se protagonistas e agiram como tais. Muitas soluções não vieram de Rogers e de Freire, mas desse saber específico de alguns estudantes que, por meio do encontro e do diálogo entre essas duas perspectivas teórico-epistemológicas, tornou isso possível.
A partir desse diálogo, somada à criatividade dos estudantes, algumas estratégias foram sendo inventadas e utilizadas, como, por exemplo, foi criado um quadro de acompanhamento do comportamento da criança no grupo, onde ela mesma pudesse se localizar através de seu nome, uma carinha e uma atitude social positiva desenvolvida em cada encontro do grupo. Avaliando sua própria conduta, a criança ganharia ou perderia pontos, até ser premiada pelo comportamento adequado. Embora a autoavaliação seja enfatizada como recurso pedagógico, tanto pela abordagem e Psicologia rogereana quanto pela Educação Popular freireana, a premiação da conduta das crianças, por outro lado, se distanciava dos pressupostos da perspectiva psicológica e educativa enfocadas. Em vista disso, a ideia proposta foi problematizada pela pesquisadora, como coordenadora do Projeto, por considerá-la incoerente com os princípios norteadores do trabalho, uma vez que a premiação envolvida convergia, mais precisamente, com as orientações do behaviorismo clássico, no tocante às condições de manipulação e modelagem do comportamento (JACÓ-VILELA. FERREIRA e PORTUGAL, 2005).
Entretanto, depois de um forte debate com os (as) facilitadores (as) do grupo, resolvemos utilizar o recurso devido ao consenso de que a premiação poderia ser útil no desenvolvimento da disciplina do grupo. Na experiência desenvolvida, aprendemos a acolher o que resolvia e contribuía para o objetivo do grupo. As teorias estavam ali como instrumentos, e não, como uma forma rígida, a qual
teríamos que nos encaixar. Portanto, a práxis foi fundamental e, mesmo com as dificuldades, o grupo foi avançando, em termos de novas descobertas e aprendizados da parte dos (as) facilitadores e das crianças, rumo à internalização do respeito aos limites pactuados. Observamos que essas dificuldades não geraram nem representaram razões para desistência e saídas das crianças do grupo, muito menos dos (as) facilitadores (as). De forma surpreendente, desde o seu primeiro dia de funcionamento, o grupo foi aumentando o número de participantes, chegando até a ter vinte e cinco crianças participando das atividades.
Por outro lado, observamos que a característica indisciplinada e agressiva das crianças no grupo, por várias vezes, não foi bem compreendida por pessoas externas à experiência vivenciada, por passar a ideia de bagunça, de desorganização (e, em certo sentido, isso é verdadeiro), de que não havia disciplina no grupo e, portanto, ali não estava ocorrendo um processo educativo, formativo. Mas, ao acompanhar o processo do grupo, ao longo de sua história, observamos que algo educativo e transformador, do ponto de vista da educação e da inclusão social daquelas crianças, estava ocorrendo. Observamos, assim, o estabelecimento e fortalecimento gradativo do vínculo afetivo e da confiança estabelecida entre as crianças e os facilitadores do grupo, como também pelas crianças entre si, revelando a formação da matriz, da identidade e do sentido grupal, condições fundamentais para o crescimento do grupo e que se desenvolveram em sua primeira fase, que abrangeu, mais ou menos, uns oito meses. Nesse contexto, merecem destaques a expressão e o estabelecimento do calor (afetividade) e da segurança (confiança), como condições propiciadoras do vínculo entre as crianças e as facilitadoras, sendo essas, imprescindíveis para uma relação promotora de mudança e crescimento, como a descreveu Rogers (1977a; 1977b), ao se referir ao trabalho individual e ao grupal.
Já na fase intermediária, caracterizada pela introdução de novos sujeitos e facilitadores, as crianças foram se acomodando no grupo de forma mais disciplinada e integrada, desenvolvendo atividades mais relacionadas à música e ao canto, exercitando e demonstrando o seu potencial artístico. Essa foi a época em que tivemos a colaboração do articulador cultural da educação popular, Oris Nigth (de Recife-PE), e a inserção de outras figuras masculinas que muito contribuíram para dar uma ordem e disciplina melhor ao grupo, por suas habilidades pessoais e de
gênero. As crianças se mostraram mais produtivas e sociáveis durante esse período. Os trabalhos em pequenos grupos foram organizados, considerando-se as identificações específicas das crianças, o que possibilitou o desenvolvimento das expressões artísticas individuais das crianças, como fruto da construção coletiva produzida entre seus pares.
Nessa fase, os facilitadores (as) se dividiam e se organizavam para ficar mais junto de determinado grupo, visando dar uma atenção mais específica às crianças, considerando suas diferenças em termos de interesses, habilidades, ritmos e faixas etárias. Durante esse período, algumas crianças consideradas mais indisciplinadas revelaram habilidades artísticas para a música e a dança, o que suscitou uma atenção mais focada nelas, lançando as sementes de um grupo artístico denominado de “Asas‟ Boys”. Mas, infelizmente, pelo fato do arte-educador Oris Night não ter podido continuar no grupo e também pela saída e a entrada de outros facilitadores, o grupo passou a sofrer uma retração e voltou a desenvolver atividades semelhantes à que já vinha desenvolvendo até antes da entrada do referido colaborador e da inserção de extensionistas do gênero masculino.
Assim, no período em que essa pesquisa estava em sua fase de análise, o grupo estava desenvolvendo ações focadas em estratégias de expressão gráficas, visuais, manuais, movimento corporal, entre outras, de acordo com as demandas apresentadas pelas crianças e os desafios de lidar “aqui e acolá”, com situações de tumulto e de agressão física e verbal entre algumas crianças. Essas situações nos levaram a pensar e a repensar sobre a questão da autoridade, da necessidade de pôr limites para as crianças e de identificar outros aspectos que possam nos ensinar ainda mais sobre as crianças do meio popular, suas linguagens, formas de expressão e sentidos, como também sobre os nossos limites, em termos de atuar nesse contexto de atividade grupal.
No âmbito da experiência e do processo do grupo enfocado, dentre os limites vivenciados, merece ser mencionada a dificuldade de envolvimento dos pais das crianças no processo, pois, apesar de algumas reuniões e contatos feitos com essas famílias, não conseguimos avançar, no sentido de envolvê-las, de modo significativo, no referido processo. Acreditamos que esse pouco envolvimento e a participação dos pais com o grupo podem ter várias possibilidades de interpretação. Uma delas pode estar relacionada à falha do próprio Projeto em não ter conseguido sensibilizar
os pais para a importância de sua participação e envolvimento com a experiência, tendo em vista sua relevante contribuição com o processo educativo dos seus filhos. Nesse sentido, avaliamos que foi frágil a interlocução do grupo com as duplas multiprofissionais e interdisciplinares, que acompanhavam as famílias, no sentido de sensibilizar os pais para se envolverem com o processo educativo desenvolvido pelo grupo.
Podemos pensar ainda, que, apesar de as reuniões com os pais acontecerem aos sábados à tarde, ouvindo sugestões deles próprios, muitas vezes, eles estavam impedidos de participar por estarem trabalhando em atividades informais, atuando como diarista, pedreiro, mecânicos, etc. Essa dificuldade de participação e de envolvimento dos pais em processos como esses poderia estar refletindo a desmotivação gerada, a partir das reuniões tradicionais de pais e mestres realizadas nas escolas, onde os pais, geralmente, não são ouvidos e são convocados mais para ouvir críticas e queixas sobre o comportamento de seus filhos, e até, muitas vezes, são culpabilizados por esse comportamento.
Simultaneamente ao grupo de crianças descrito, foram desenvolvidas duas outras ações do Projeto com grupos que, dessa vez, direcionavam-se aos adultos. Esses grupos surgiram visando responder a uma das solicitações feitas por uma das agentes comunitárias de saúde (ACS), no sentido de se criar um espaço de escuta e de compartilhamento entre os moradores da comunidade para fortalecer os vínculos e a solidariedade entre os moradores, haja vista que ela identificava essa necessidade no contexto da comunidade. Frente a essa demanda, e após discussões realizadas no Projeto e no PEPASF, decidimos criar, na comunidade, mais uma estratégia de grupo, dessa vez voltada para o compartilhamento de experiências entre pessoas de maiores faixas etárias. Assim, seguindo a proposta feita pela pesquisadora e tomando como referência a modalidade de trabalho grupal, desenvolvida e denominada por Rogers (1970), criamos os “grupos de encontro” comunitário, cuja experiência descrevemos a seguir.
4.3.4 Os Grupos de Encontro Comunitário
Antes de explicitarmos a referida experiência, torna-se necessário esclarecer que a expressão “Grupos de Encontro” foi formulada por Carl Rogers, para se referir
às experiências de grupos desenvolvidas, a partir da década 1970, nos Estados Unidos, com o objetivo de “acentuar o crescimento pessoal e o desenvolvimento e aperfeiçoamento da comunicação e das relações interpessoais, através de um processo experiencial” (ROGERS, 1986, p.16). Nessa perspectiva de grupo, as pessoas se reúnem, com a presença de um (a) ou mais facilitadores (as), durante certo período de tempo, com a finalidade de estabelecer um encontro humano, profundo, ou seja, de vivências e compartilhamento de experiências, visando ao crescimento mútuo.
No seu primeiro momento e formato inicial de funcionamento, esse grupo envolveu alguns moradores (as) da comunidade, de forma geral, e alguns extensionistas dos nossos projetos. Nesse sentido, o grupo propunha-se, dentro dos moldes da Psicologia Humanista de Rogers (1986; 1991), subsidiada pela dialógica da perspectiva dialógica de Freire (1975; 1996), a criar um espaço de compartilhamento de aprendizados mútuos acerca das experiências, sofrimentos, lutas e enfrentamentos vividos pelas pessoas no seu cotidiano. Desse grupo, participavam três agentes comunitárias de saúde, moradores da comunidade, estudantes e professores dos projetos (Para Além e PEPASF), profissionais voluntários de Psicologia e estagiários do último ano do referido curso, os quais, juntamente com a coordenadora do Projeto, atuavam como facilitadores oficiais do grupo.
O primeiro encontro desse grupo aconteceu em fevereiro de 2008, às dez horas da manhã, na quadra da Escola Antônio Mariz, com a presença de treze participantes. Na ocasião, após as boas-vindas dadas pelos facilitadores do grupo, foi feita uma rodada de apresentação e de explicitação das expectativas das pessoas presentes em relação ao grupo. Em seguida, foram explicitados os objetivos do grupo e solicitada a contribuição de todos os participantes para definir as regras de cuidado com o grupo. Assim, foram sugeridas e definidas as seguintes regras: respeitar as falas dos colegas; respeitar o tempo e o ritmo de cada pessoa; guardar o sigilo do grupo; apoiar os colegas do grupo compartilhando sua própria experiência; iniciar e terminar o grupo no horário combinado e aprender a ouvir e silenciar na hora certa.
Nesse momento inicial do grupo, ficou também pactuado que os encontros do grupo deveriam ocorrer semanalmente aos sábados, iniciando às dez horas da
manhã e terminando por volta do meio-dia. Feitas as pactuações necessárias, os facilitadores do grupo se colocaram explicitamente disponíveis para ouvir as pessoas presentes sobre quaisquer assuntos que lhes fossem de interesse, naquele momento. Dessa forma, procuraram de maneira respeitosa, estar atentos aos movimentos e às expressões não verbais dos participantes, visando facilitar as comunicações explicitas e implícitas no grupo. Foi então que, depois de algumas falas dos participantes que pareciam, a princípio, superficial e sem sentido, que a questão da perda e do sofrimento daí derivado passou a ser compartilhada no grupo com muita emoção e dor. Dessa forma, as falas das várias pessoas presentes passaram a expressar experiências dolorosas relacionadas à perda ou ameaça de perda de entes queridos.
No decorrer desse e demais encontros do grupo, os (as) facilitadores evitavam fazer interpretações psicológicas acerca do que estava sendo compartilhado, centrando sua conduta mais na função de escutar e de facilitar o diálogo entre os (as) participantes sobre as questões trazidas. Assim, seguindo a perspectiva da Psicologia Humanista de Rogers, numa relação de complementaridade com a perspectiva freireana da Educação Popular, os (as) facilitadores buscavam explicitar as falas dos (as) participantes, no sentido de favorecer a uma maior expressividade daquilo que estava sendo experienciado e de facilitar a comunicação entre os sujeitos.
Algumas vezes, os (as) facilitadores intervinham mais profundamente para comunicar ao grupo a dor e o sofrimento captados a partir das falas feitas pelos participantes. Outras vezes, para lembrar uma das regras que estava sendo quebrada no processo do grupo. Diante da postura, não explicativa e interpretativa adotada pelos (as) facilitadores, estes eram questionados repetidamente por alguns participantes sobre algumas questões e suas explicações psicológicas, relacionadas a alguns sentimentos experimentados. Nesses momentos, buscava-se introduzir um pouco de informação sobre o tema abordado, visando amenizar a angústia e a ansiedade que os (as) participantes expressavam. Essa conduta adotada pelos (as) facilitadores (as), no primeiro encontro, serviu de base para os encontros seguintes. Essa experiência com os “Grupos de Encontro” foi adequando-se à realidade comunitária, passando por adaptações, respeitando as demandas e as características do grupo.
No início de cada encontro, subsequente ao primeiro, os objetivos do grupo e as regras (definidas pelo grupo) eram lembrados. Como o grupo era aberto, dando possibilidade a novos sujeitos se inserirem no grupo, havia a necessidade de ser feita uma apresentação das pessoas presentes em cada encontro. Não existia uma questão pré-determinada a abordar, e as questões emergiam do próprio grupo. Assim, foram introduzidas e compartilhadas experiências relacionadas às questões da perda e do medo de perder, à violência, ao alcoolismo, ao tabagismo, ao preconceito e à discriminação social, entre outras. Nesse contexto, os (as) facilitadores oficiais do grupo tinham a função de mediar as falas, para facilitar as comunicações, e problematizar alguns aspectos colocados para que se pudesse refletir mais sobre determinadas vivências. Todos eram convidados a se envolver com o que estava sendo compartilhado no grupo. Ao final, era solicitado aos participantes que expressassem, em uma palavra ou frase, o que se aprendeu naquele encontro.
Durante o período de funcionamento do referido grupo, que se resumiu a seis encontros, os participantes se mostraram muito estimulados em estar presentes, expressando verbalmente como o grupo estava sendo importante em suas vidas e como se sentia mais próximos das pessoas da comunidade que participavam do grupo. Os (as) estudantes dos diferentes cursos também se mostraram mobilizados com o grupo, compartilhando, com muita emoção e inteireza, suas próprias questões de vida. Não havia, nesses encontros, uma necessidade de intervenção, usualmente, considerada “psicológica”, no sentido de interpretar, à luz de um modelo explicativo, a vivência do outro. O que importava era expressar respeito, acolhimento e oferecer apoio às pessoas participantes do grupo, compartilhando sentimentos e aprendizados.
Mas, apesar de os (as) participantes, até o sexto encontro, se apresentarem motivados (as), frequentando o grupo, regularmente, e ativamente, a partir do sétimo encontro, esses passaram a demonstrar dificuldades de se reunir. Diante disso, o Projeto decidiu suspender o funcionamento do grupo, até que essas dificuldades fossem resolvidas. Várias justificativas foram colocadas para as dificuldades de o grupo se reunir. Uma das dificuldades apontadas estava relacionada à questão do horário, que dificultava as donas de casa de fazerem suas tarefas domésticas. Outro aspecto referido foi o fato de algumas pessoas do grupo terem conseguido emprego
e estarem trabalhando nos horários das reuniões do grupo. Além disso, também foi apontada a dificuldade das pessoas entenderem os objetivos do grupo, entre outras. Essas justificativas não se apresentavam muito convincentes, tendo em vista a motivação, até então, demonstrada pelos (as) participantes.
Ressalte-se, entretanto, que, investigando mais cuidadosamente a situação, identificamos a insatisfação de uma das agentes de saúde com o grupo, por se sentir cortada e desconsiderada por uma das facilitadoras, quando compartilhava