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CAPÍTULO III. CONTRATO INTERNACIONAL DE TRABALHO

4. O PRINCÍPIO PROTETOR E O PRINCÍPIO DA COMPENSAÇÃO

A base principiológica do Direito do Trabalho está concebida sobre o Princípio Protetor, nos moldes disciplinados pelo consagrado professor uruguaio Américo Plá Rodriguez138.

Parte importante da doutrina considera esse princípio como o mais importante do Direito do Trabalho, pois foi sobre seu conceito que o direito do trabalho surgiu.

O princípio protetor se refere ao critério fundamental que orienta o Direito do Trabalho, pois este, ao invés de inspirar-se em um propósito de igualdade, responde ao objetivo de estabelecer um amparo preferencial a uma das partes: o trabalhador.

É o que MARIA DO ROSÁRIO PALMA RAMALHO chama de quebra ou modificação

dois dos dogmas do direito privado. O tradicional dogma da igualdade dos entre jurídicos privados, principal característica das instituições privadas, principalmente após o Iluminismo, foi profundamente alterado na esfera do Direito do Trabalho. O primeiro deles é o dogma da igualdade dos entes jurídicos privados: a norma de direito do trabalho, ao impor uma igualdade formal entre os sujeitos da relação de trabalho, o faz assumindo a existência de uma posição material de inferioridade negocial. O segundo dogma é o da liberdade contratual: a intervenção e regulamentação do vínculo contratual por intermédio da norma veio evidenciar que a liberdade existente em uma relação contratual é ilusória quando há um desequilíbrio econômico nessa relação139.

138 RODRIGUEZ, Américo Plá. Princípios de Direito do Trabalho. 3ª ed. atual., São Paulo: LTr, 2002. 139 RAMALHO, Maria do Rosário Palma. Direito do Trabalho. Parte I – Dogmática Geral. Coimbra: Almedina, 2005, p. 47.

AMÉRICO PLÁ RODRIGUEZ, ao analisar o princípio protetor desdobra este

princípio em três regras de aplicação: regra do in dubio pro operario, regra da norma mais favorável e regra da condição mais benéfica140.

O in dubio pro operario se perfaz em uma regra de interpretação. Segundo tal regra, quando houver uma dúvida entre o trabalhador e o empregador, deve-se sempre privilegiar o trabalhador, por ser a parte mais fraca na relação jurídica. Essa é uma regra de interpretação da norma.

De acordo com a regra da norma mais favorável, o operador do Direito do Trabalho, ao se deparar com duas ou mais regras aplicáveis ao caso concreto deverá optar pela regra que for mais favorável ao trabalhador. Esta é uma regra de hierarquia entre normas igualmente aplicáveis ao caso concreto, que demonstrarão que o Direito do Trabalho não se submete à tradicional regra de hierarquia de normas, esculpidas no positivismo kelseniano. Assim, guardadas as devidas proporções, como hipóteses expressamente previstas em lei, bem como os casos excepcionais, encontramos regras de conduta estabelecidas individualmente que terão prevalência sobre uma norma constitucional, por exemplo.

Já no que se refere à condição mais benéfica, a regra impõe que as garantias e os benefícios adquiridos ao logo do contrato de trabalho devem ser preservados, pois se revestem, de certa forma, de direitos adquiridos (art. 5º, XXXVI, CF). Essa regra busca resguardar a aplicação da norma no caso concreto, viabilizando assegurar os direitos adquiridos pelo trabalhador.

Nos filiamos à opinião de MAURÍCIO GODINHO DELGADO, que afirma o princípio

protetor, ao estabelecer um patamar mínimo de igualdade entre empregado e empregador, retificando a situação de desigualdade que existe entre eles, abrange não somente as três regras acima elencadas, mas sim quase todos, senão todos os princípios do Direito do Trabalho141.

Como bem observa MAURÍCIO GODINHO DELGADO, “não se trata, aqui, de

contraponto entre normas (ou regras), mas cláusulas contratuais (sejam tácitas ou expressas, sejam oriundas do próprio pacto ou do regulamento de empresa)”142.

Entretanto, a Professora Maria do Rosário Palma Ramalho, numa concepção mais atual dos princípios do Direito do Trabalho, apresenta, em sua tese de doutorado defendida perante a Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, o princípio da compensação da posição debitória complexa das partes no contrato de trabalho. Para ela, esse é o primeiro princípio geral do direito do trabalho, que pode ser isolado a partir do sistema normativo.

Pelo princípio da compensação, tanto o trabalhador quanto o empregador ocupam uma posição debitória complexa na relação de trabalho.

O trabalhador encontra-se, na maioria das vezes, em posição de inferioridade jurídica e material ou econômica perante o empregador. A inferioridade jurídica justifica-se pelo fato de o empregador possuir os poderes de direção e organização da atividade e a inferioridade econômica evidencia-se na função alimentar do salário

141 DELGADO, Maurício Godinho. Princípios de direito individual e coletivo do trabalho. 2ª ed. São Paulo: LTR, 2004, p. 83.

e também no fato de o trabalhador não controlar o destino dos bens ou serviços que produz.

Já o empregador necessita de uma tutela para que haja subsistência do vínculo empregatício, possibilitando e dando condições fáticas reais que assegurem ao empregador o cumprimento dos deveres remuneratórios e não patrimoniais amplos que a lei lhe atribui nesse contrato.

Ao nos depararmos com o princípio da compensação, indagamos se há justificação de sua existência no sistema positivo. Se nos atentarmos para a complexidade estrutural da relação de emprego, especialmente nos elementos que a singularizam, verificaremos que essa complexidade se projeta na posição debitória das partes, tornando-a particularmente complexa.

Desta forma, o trabalhador não se obriga apenas a prestar a atividade de trabalho sob as orientações do empregador, mas compromete-se a colaborar com ele na empresa, submetendo-se, dentro de certos limites, às regras da organização, sujeita-se a modificações do conteúdo do contrato impostas pelo empregador e assume ainda deveres para com sujeitos terceiros em relação ao negócio, como os colegas de trabalho143.

Verificamos, assim, que o Princípio da Compensação possui uma estrutura bipolar. Como já afirmado anteriormente, o Direito do Trabalho subjaz um princípio geral de proteção. Entretanto, essa proteção não deve mais ser apenas em favor do trabalhador, mas também em favor do empregador. “Em consonância com este duplo objectivo, reconhecem-se duas vertentes no princípio da compensação: uma vertente

143 RAMALHO, Maria do Rosário Palma. Da Autonomia Dogmática do Direito do Trabalho. 1ª ed. Coimbra: Almedina, p. 969.

de protecção dos interesses do trabalhador e uma vertente de salvaguarda dos interesses de gestão do empregador.”144

144 RAMALHO, Maria do Rosário Palma. Direito do Trabalho – Parte I – Dogmática Geral. 1ª ed. Coimbra: Almedina, 2005, p. 490.