J á o havíam os m encionad o ao ap resen tar o dispositivo k antiano e m seu co n ju n to . O problem a da terceira Crítica tem u m no m e: o im en so abism o que se para natureza e liberdade. Na diversidade das direções tom adas por esse texto nebuloso, a idéia de uma necessária unidade dos dom ínios da razão é sem dú vida o p o n to focal d e todo o em preen dim ento. As duas prim eiras criticas m o s traram com o estavam estruturados o cam po da natureza e o da liberdade. A terceira, em sua introdução, terá que indicar em que a faculdade de julgar pode ocupar o lugar de m ediaçào ou de instância de passagem por cima do abism o que a própria critica cavou. Ela irá tam b é m indicar aquilo que, n o fundo, reali za co n cre ta m en te n o ju ízo esse trabalho relacional, ou seja, a reflexão.
0 lu ga r da reflexão
Voltem os, pois. ao te xto de introdução.O território da experiência está divi dido em dois dom ínios. Mas há, n o cam po crítico, três faculdades su p erio res de co n h ecer e trés faculdades da alma. O te xto em que K an t afirm a essas duas tripartições segue-se im ed iatam ente ã delim itação term inológica entre o
C om preender
Dois cam pos de intervenção da reflexào pura podem, en tão , ser d esig na dos no espaço crítico: prim eiram ente, no cam po teórico, o espaço que separa as leis da n atureza em sua pluralidade, e a idéia de sua unidade; em seguida, no território da experiência, o que nela se refere, na qualidade de estética ao se n tim en to de prazer e de dor do sujeito. Nos dois casos, a faculdade de ju l gar reflexiva deve produzir ela m esm a a regra de sua determ in ação e dispor, p o rtan to , em seu princípio tran scen dental, do equivalente a u m a legislação ju sta m e n te onde esta não é mais possível.
Se a estética surgiu c o m o o p o n to de neutralidade e de resolução do p ro blem a da passagem e n tre o s cam pos, resta d e te rm in ar agora que ela é tam bém o lugar de m anifestação privilegiada da reflexão pura em sua função de quase- legislação da rede facultaria, o que torna indispensável u m a análise severa dos e lem en to s que distinguem esté tica e teleologia.
Essa distinção apóia-se e m três séries de argum en tos: a primeira funda- se na diferença das faculdades em jogo em u m caso e no outro; a segunda, no operador subjetivo/objetivo aplicado ao principio tran scen dental da faculdade de julgar; a terceira, na d eterm in ação d e u m espaço m ais ou m e n o s próprio, m ais ou m e n o s específico da teleologia e da estética na cartografia crítica.
O p rim eiro p o n to é postu lad o p o r K a n t e m sua elaboração da n o çã o de técn ica da natureza. E sta pode, co m efeito , aparecer em duas configurações facu ltárias d ife ren te s. Q u an d o a apreen são do que é diverso da sensibilidade pela im ag in ação concorda liv rem en te co m a ap resen tação do co n ce ito pelo e n te n d im e n to , se m que e ste seja d e te rm in a n te , "e n te n d im e n to e im aginação co m b in a m -se recip ro cam e n te n a sim p les reflexão para a p re sen tar sua obra, e o o b je to é percebido co m o final u n ic a m e n te pela faculdade de ju lg a r"'3. Essa finalidade do o b je to é aqui su bjetiv a, e o ju íz o que a postu la não pode, pois, ser qualificado de ju íz o de c o n h e c im e n to , m a s de ju ízo reflexivo estético . Este é, assim , co n stitu íd o pelo livre jo g o da im agin ação e do e n te n d im e n to . O ju ízo teleológico, por su a vez, põe em jo g o o u tras faculdades, pois c o m para os co n ce ito s do e n te n d im e n to co m a razão e se u principio sistem ático, qualificando, en tão , de final a fo rm a do o b jeto , p e rm itin d o o acordo dessas duas faculdades em sua a p re en são 1'’ . Essa finalidade é o bjetiv a, e o ju ízo que
13 Ibid.. AK XX. 2 2 1 ; P II. p. 874
W Cf. ibid , AK XX. 221; P II. p. 8 7 5 :"... e sc a faculdade dc julgar compara tal conceito do entendimento com a razão e com seu principio da possibilidade de um sistema, então, quando essa forma e reencontrada no objeto, a finalidade e objeto dc um juizo de apreciação objetiva’
universais, tam bém o é seu livre jogo, o que to rna comunicável o prazer que delas se extrai. A im aginação e o e n te n d im e n to não estão aqui em uma relação d eterm in ante, co m o é o caso do co nhecim ento . Essas faculdades e stão em u m a relação flexível, livre, desprovida de conceito, em singular harm onia.
Da finalidade
Para com preender co m o funciona tal harm onia, K a n t introduz a idéia da fi nalidade, o bjeto do terceiro m o m en to . Ma realidade, o prazer obtid o pela contem plação do belo não pode ser o fato de u m a relação qualquer entre a im aginação e o en te n d im e n to . Não há prazer senão na "consciência da fina lidade p u ram ente form al n o jogo das faculdades de co n h ecer do su jeito "” . O se n tim en to do belo é a constatação de que nossas faculdades são capazes de se organizar livrem ente em um equilíbrio finalizado. A finalidade em questão não reside, pois, no próprio o b jeto : u m a obra de arte. u m a paisagem não têm n e n h u m a finalidade objetiva, no sentid o de possuírem uma utilidade ou u m a perfeição próprias. Ela não pode ser se n ão subjetiva, m e sm o se faz uso de uma faculdade própria da objetividade, o en ten d im en to .
O ju ízo do belo sem pre é universal. M as isso não implica que se possa
d e term in ar um critério universal do belo, que seria por hipótese válido em todas as épocas e para todas as civilizações, co m o o é um co nceito do e n te n d im en to em sua utiiização cognitiva. Não se pode falar de um Ideal de beleza com o de um arquétipo, quer dizer, uma simples Idéia da razão, segundo a qual se possa julgar este ticam en te os o b jeto s artístico s e naturais. K an t especifica ainda: essa Idéia da beleza não é o resultado de uma pluralidade de exp eriên cias sucessivas, pelas quais se possa estabelecer os p o n to s co m u n s de todas as coisas belas. F.la é,
anteriorm ente á experiência, a Idéia de u m a harm onia das fa
culdades em seu livre jogo, condição m e sm a da existência do belo. do m esm o m odo que o esq u em atism o é a condição da experiência do verdadeiro2®. K an t daí extrai, por fim. u m a terceira definição do belo:A beleza è n form a d.i finalidade de um objeto, na m edida em que é percebida
n esse objeto sem representação de um fim7*.
23 Ibid . AK V. 222: PII, p. 982, 24 Cf. ibid . AK V. 234: P I I . p 997. 25 Ibid . AKV. 2 3 6 ; P I I p. 999.
C om preender
As páginas que se seguem aplicam o critério aqui definido às artes e x is tentes. Com o é co stu m e seu, K an t divide e classifica os diferentes tipos de
artes, hierarquizando-as. A im p ortância desta parte da terceira
Crítica é acima
de tudo histórica, ela nada n o s e n sin a sobre a natureza própria da beleza. C o n tra ria m e n te ao e n o rm e edifício da dialética tra n sce n d e n ta l da
Cri
tica da razão pura, a dialética da Critica da faculdade de julgar é de grande
concisào. O s p roblem as abordados nào têm a m e sm a am plitude, n e m a m e s m a dificuldade. Por que uma dialética? S im p le sm e n te p orqu e a faculdade de julgar, a ssim co m o a razão, tend e às vezes a afirm a r te se s a p a re n te m e n te co ntrad itó rias, naquilo que K an t ch am a de a n tin o m ia do gosto . Ela o p õ e as segu in tes afirm ações:1 ’ Tese. O juízo de gosto não se funda em conceitos, pois nesse caso seria possível contraditá-las (decidir por meio de provas).