Compreender
Tmn.o o r i g i n a l:
Comprendre Kant
C Armand Colin. 2003 ISBN: 2-200-26426-7
P r e p a r a ç ã o : Maurício B. I.cal
P r o j e t o G r . u i c o Ronaldo Hideo Inoue R g v i s à o : Mana dc Fátima Cavallaro
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Nota b ibliog ráfica
7
IntroduçãoA disposição filosófica
9
U m â lo s o fia d a M o s o fia __ 1Q A herança kantiana 13 Capítulo IA definição kantiana da filosofia
15
0 dispositivo arquitetônico do pensam ento kantiano 26
A invenção do transcendental
33
O sentido de uma revolução na teona do conhecimento 33 A estética, ou o a p rio n dos sentidos 43
A analítica. Conceitos, princípios, subjetividade 47 A dialética, ou o desejo das idéias 70
Capitulo III
0 fato do dever 85
Factum ratiom A moral como reflexão sobre a consciência da obrigação 85 Os imperativos o homem e seu dever 97
Da moral à religião, ou a religião moral 119
O principio reflexivo
141
0 lugar da reflexão 141
Do belo ao su b lim e as facu ld a d es em sua livre correspondência 148
Os fins da natureza__ 163 O síin s-d a hom em 166 Capítulo V
O arquipélago da p o lítica
171
Resistencias do p o lítico 171 H istória e política 1730 d ire ito e a racionalidade política 181
Política sensível e política racional: a necessidade da ação 189
Conclusão
O dever de filosofar 197
O filósofo e sua atualidade 198 A infância do pensamento 199
B ibliografia
201
As obras de K an t são citadas segundo a paginação da edição de referência dita "da Academ ia de Berlim" (abreviatura “AK” seguida do núm ero do volum e em rom ano e a página).
In tro d u çã o
A disposição filosófica
Há filósofos sobre os quais n o s p e rg u n tam o s ãs vezes p o r que sua obra co n tinua a influenciar, m u ito te m p o depois de sua m o rte , o cam po do p e n sa m e n to. A influência de um texto filosófico pode dever-se à sua qualidade objetiva, à personalidade do h o m e m que o engendrou, à ruptura que introduziu no curso tranqüilo da história das idéias ou ainda ao m o m e n to de sua irrupçào. Quando se trata de Kant, uma questão assim parece destituída de sentido, pois o s seus escritos superam , em originalidade e força conceituai, os escritos da maior parte de seus co n tem p orân eo s, bem com o da m aior parte da produção filosó fica. As razões do sucesso são aqui m anifestas: criatividade da obra, m ajestade do sistem a, sutileza das análises — tudo isto concorre para a excelência do propósito. M ais ainda: a filosofia de K a n t parece co nd enar todo p e n sa m e n to ulterior a um novo exam e de seus próprios princípios, tornad os frágeis pelo sopro da critica. Com o refletir se ria m e n te sobre a origem dos co n h e cim en tos h u m an o s sem levantar a questão de seus limites, nos próprios term os,
insubstituíveis, da
Critica da razão pura? Com o fundar a consciência moral,
m esm o que fosse para contestá-la em seguida, sem evocar o que Kant cham a de um fato da razão: a presença e m nós, m isteriosa e incom preensível, da lei? Com o dizer o belo, os fins da hum anidade ou o s do indivíduo sem aplicar essa
faculdade de julgar da qual Kant soube, malgrado tudo o que se possa censurar eventu alm ente e m su a definição, exprim ir a flexibilidade tão particular? Há, pois, u m antes e um depois de K ant, e terem os ocasião de m o strar em que essa revolução filosófica é se m dúvida uma revolução, para além da invejável fortaleza e m que a tradição situa, de bom grado, o kantism o.
U m a filosofia da filosofia
M as há m ais ainda. Para expressá-lo de m o d o simples, o p e n sa m e n to crítico parece-nos dever ser definido co m o u m a filosofia da filosofia. D evem os nos e n te n d er bem sobre esta fórm u la, que poderia ser ap en as u m
slogan. K an t não
propõe, em n e n h u m caso, u m a filosofia últim a, que reagruparia, unificando- as, as ten tativ as anteriores, fo rnecend o-lh es desse m odo a caução do sistem a. K ant, c o m o h o m e m e com o filósofo, não tem tais preten sõ es. M as não se trata tam pouco de reduzir o p e n sa m e n to crítico a u m a longa interrogação s o bre a identidade da filosofia, em que K an t seria só um exem plo e n tre outros desse exercício habitual que co n siste em pergu ntar "o que é a filosofia?''. Esse estilo de prosa co n stitu i um verdadeiro g én ero na h istó ria do pen sam en to, que não gerou ap en as obras-prim as. D ito de o u tro m odo: se o criticism o é u m a filosofia da filosofia, n ã o é por se fu rtar ao trabalho daconstrução da fi
losofia, m as porque inventa a própria fo rm a de reflexividade que toda filosofia
põe em an d am en to .
N este sentido, K an t, em cada um de seus escritos, faz duas coisas ao m e s m o tem po: de um lado. elabora, e m uito bem , as condições de possibilidade do co nhecim ento , da moral ou do juízo e sté tico (entre outros); de outro, deter mina, de m odo casual, o próprio in stru m e n to de seu p e n sa m e n to , aquilo que deve e m sum a figurar n o princípio de todo procedim ento filosófico.
A obra kantiana é. p o rtan to , u m a filosofia da filosofia por u m a razão a in da m ais profunda, que se poderia expressar assim : o p e n sa m e n to critico pre tende ser a elaboração de u m a filosofia do h o m e m como anima! filosófico. Kant considera, com efeito, que há, n o m ais profundo do ser h u m an o , u m desejo, uma tensão apo ntand o para o além da experiência, que seria ilusório p reten der controlar. A natureza m etafísica do espírito é um dado, ou antes, uma disposição originária do pen sam en to, que a filosofia pode e deve exprimir, mas que não é chamada a com bater. Kant vai m ais longe. Esta tendência de pensar Deus. a liberdade, o m undo — esta orientação do h o m e m em direção
A disposição filosófica
ao incondicionado é ju sta m en te o que é preciso preservar e salvar, desem
baraçando-a de seus aspectos m ais contestáveis e de suas errâncias ilegítimas.
A crítica pode assim ser entendida com o u m dispositivo intelectual destinado a
afirm ar o direito a u m a disposição do h o m e m co m relação à metafísica.
O k an tism o é, pois, u m a filosofia da filosofia por sua letra — a elaboração da reflexào co m o princípio de todo p e n sa m e n to — e por sua finalidade — sal var o filósofo natural que habita em todo h o m e m . Tal é, ao m en o s, o sentido ú ltim o das análises que gostaríam os de propor aqui, e o de algumas observa ções que nos parece necessário acrescentar a esta breve apresentação, antes m esm o de en trarm o s n o cerne do corpus kantiano.
A n a tu re z a filosófica
Define-se co m u m e n te a crítica kantiana com o u m a avaliação dos poderes da razão, tan to teórica co m o prática. Tratar-se-ia. em suma, de d e term in ar os lim ites da razão cognoscen te e o dever da razão agente. Tudo isso é verdade. É preciso acrescentar, p rim eiram en te, que esse procedim ento n ã o visa p rin ci palm en te a restringir as aspirações da razão, m a s antes a guiá-!a, a fim de que ela m an ifeste seu valor, sua utilidade e sua vocação da m aneira m ais sólida e m ais legítima. K a n t constrói, pois, seu p e n sa m e n to com o u m a defesa e uma ilustração da razão h u m a n a em seu destin o fundam ental. C onvém , pois, que nos interroguem os brevem ente sobre a natureza dessa faculdade.
A razão kantiana é, prim eiram ente, o poder m ais elevado do espirito, pelo qual as regras do entendim ento — que organiza a experiência dos sentidos — são conduzidas à unidade de um princípio'. Esta razão é, contudo, marcada por u m a tendência m ais essencial ainda: aspira ao infinito, ao além dos fe n ô m enos. ao que K an t cham a de Idéias. Mão é, pois. a arm a triu n fan te de um espírito inteiram en te se n h o r de si. m a s a faculdade própria do h o m e m , pela qual e ste se abre o b scu ram e n te àquilo que nào pode verdadeiram ente c o n h e cer: Deus e a liberdade. Na origem do projeto kantiano, acha-se assim uma potência inquieta, "curvada sob o peso de q u estõ es que não pode d e scartar”2, que ela própria produz, sabendo que nào poderá responder a elas. Se ela não é, com o acabam os de ver, u m a faculdade p erfeitam e n te ind epend ente, nào se
1 Cf. Critica da razão pura (doravante CRP), A 302/B 359. 2 lbid,. A VII.
ao incondicionado é ju sta m en te o que é preciso preservar e salvar, desem baraçando-a de seus aspectos m ais contestáveis e de suas erràncias ilegitimas.
A crítica pode assim ser entendida com o u m dispositivo intelectual destinado a
afirm ar o direito a u m a disposição do h o m e m co m relação à metafísica.
O k an tism o é, pois, u m a filosofia da filosofia por sua letra — a elaboração da reflexão co m o principio de todo p e n sa m e n to — e por sua finalidade — sal var o filósofo natural que habita em todo h o m e m . Tal é, ao m en o s, o sentido ú ltim o das análises que gostariam o s de propor aqui, e o de algumas observa ções que nos parece necessário acrescentar a esta breve apresentação, antes m esm o de en trarm o s n o cerne do corpus kantiano.
A n a tu re z a filosófica
Define-se co m u m e n te a critica kantiana com o u m a avaliação dos poderes da razão, tan to teórica co m o prática. Tratar-se-ia, em suma, de d e term in ar os lim ites da razão cognoscen te e o dever da razão agente. Tudo isso é verdade. É preciso acrescentar, p rim eiram en te, que esse procedim ento n ã o visa p rin ci palm en te a restringir as aspirações da razão, m a s antes a guiá-!a, a fim de que ela m an ifeste seu valor, sua utilidade e sua vocação da m aneira m ais sólida e m ais legítima. K an t constrói, pois, seu p e n sa m e n to com o u m a defesa e uma ilustração da razão h u m a n a em seu destin o fundam ental. C onvém , pois, que nos interroguem os brevem ente sobre a natureza dessa faculdade.
A razão kantiana é, prim eiram ente, o poder m ais elevado do espirito, pelo qual as regras do entendim ento — que organiza a experiência dos sentidos — são conduzidas à unidade de um princípio'. Esta razão é, contudo, marcada por u m a tendência m ais essencial ainda: aspira ao infinito, ao além dos fe n ô m enos, ao que K an t cham a de Idéias. Mão é, pois. a arm a triu n fan te de um espírito inteiram en te se n h o r de si. m a s a faculdade própria do h o m e m , pela qual e ste se abre o b scu ram e n te àquilo que não pode verdadeiram ente c o n h e cer: Deus e a liberdade. Na origem do projeto kantiano, acha-se assim uma potência inquieta, "curvada sob o peso de q u estõ es que não pode d e scartar”2, que ela própria produz, sabendo que não poderá responder a elas. Se ela não é, com o acabam os de ver, u m a faculdade p erfeitam e n te ind epend ente, não se
1 Cf. Critica da razão pura (doravante CRP), A 302/B 359. 2 lbid,. A VII.
C om preender
deve tam pouco considerá-la um puro espaço de recepção daquilo que ultrapas sa o saber. A razào kantiana nào é nem m ística, nem su bm etid a a u m a fonte exterio r qualquer da experiência. O trabalho crítico deve. assim, com preen- der-se com o u m a partilha entre u m a boa receptividade da razào e m relação a certas Idéias ou em relação à lei m oral e u m a m á receptividade da razào, que a condena a perder sua au to n o m ia constitutiva.
A razão kantiana está em semiliberdade. Produtora d e conceitos e capaz de síntese, não é livre na escolha de suas questões. M ais exatam ente: a razão nào é livre para buscar o que é verdadeiram ente a finalidade do h o m e m , ou aquilo que existe além da experiência sensível3. Com o esta n u nca satisfaz sua aspiração ao absoluto, a razão é obrigada a ir além do sensível. O s conceitos que ela vai criar en tão — a alma, o mundo, Deus — não são nunca o fruto de um poder, m as o efeito de uma dependência interna da razão em relação a seus próprios fins. A crítica nunca deverá reprimir ou desconsiderar essa aspiração. Deverá se co n te n ta r — m as a tarefa é talvez ainda m ais difícil — em orientar a tensão m etafísica para seu dom ínio de aplicação legítima, isto é. em K ant, para o dom ínio da moral.
K an t qualifica de
dialética tal tendência do espírito a superar os limites
do saber assegurado. Existe aí, bem entendido, certo vício em pretend er co n hecer o que não pode ser conhecido; mas tal vício é virtude, na medida em que essa louca p reten são dá ao filósofo a possibilidade de com preender que uma outra relação co m o além da experiência, distinta da ciência é, ao m e sm o tem po, possível e legítima, a da lei moral. O trabalho a p aren tem en te negativo da critica teórica tran sform a a exigência da razào su bm etid aa priori ao fogo
de q u estõ es que ela não escolheu em fonte fecunda de conceitos práticos que e n co n tra todo o seu valor precisam ente n o fato de não provir da experiência.O criticísmo não é um ceticismo. C ertam ente, a razào vagueia freqüente mente. Mas tal errância é salutar, pois nos indica um espaço de pensam ento, o da prática, onde o filósofo vai construir o que é, para ele, o essencial. Condenar a razão em n om e da certeza cientifica atentaria contra seu direito mais funda mental, o de pensar a liberdade e o dever. Voltaremos a essa hierarquia dos cam pos da razào, que vê a moral como verdadeiro objeto do p ensam ento crítico.
3 Cf Proiegõmenos a toda metafísica futura que possa se apresentar como ciência, AK IV, 351;
P II. p 135: mb verdade, não podemos dar. fora de toda experiência possível, um conceito deter
minado do que podem ser as coisas cm si. Mas nào somos contudo livres, em face das investi gações que as concernem, de delas nos abster completamente".
A h e ra n ç a k a n tia n a
Filosofia da filosofia, filosofia do hom em , filosofia da razão, o kantism o aparece assiin como um p ensam ento antes de mais nada preocupado em não quebrar o grande impulso do espírito hum ano. A recepção dada a K ant, desde seus pri meiros leitores alemães, insistiu m uito no caráter destruidor de sua obra, que exclui, com efeito, todo conhecim ento teórico de um objeto não-sensível. Esse juízo deve ser matizado à luz do que dissemos sobre os direitos da razão. Kant é, segundo sua própria terminologia, u m pensador dos limites, mais que um pen sador das fronteiras4; isso significa que ele não busca restringir o campo de apli cação da razão, mas sim delimitar suas diferentes partes. F. é aqui que intervém a faculdade cuja importância sublinham os logo n o início de nossa exposição: a reflexão. A crítica é o exercício pelo qual a reflexão determ ina a fronteira entre os campos possíveis da racionalidade; tal levantam ento do campo da reflexão
permite,
in fine, à razão expressar sua natureza metafísica onde deve fazê-lo (a
moral), e fazé-la calar o nd e é preciso (a ciência). O kantism o não destrói, pois, a razão clássica, unificante e soberana; ele a rompe, constituindo espaços de espe cialização. cada u m com suas regras próprias de funcionam ento. A razão prática pode se perm itir o que é proibido à razào teórica; m ais ainda: deve fazê-lo.
A leitura que propom os será a narrativa desse le v an tam en to critico. T en tarem os ver com o a reflexão age, a cada vez, para conceder o devido lugar à voz da razão, salvaguardando desse m odo a disposição filosófica que K a n t detecta, em germ e, em todo ser hu m ano. Atravessarem os su cessivam ente seus m o m e n to s essenciais: a crítica do poder da razão teórica; a de uma razào prática que se dá na evidência de um fato, a consciência moral; enfim, a de um a razão ainda mais h esitan te, que busca, tatean te, sinais de sua própria presença no território da estética ou n o da política. Esse percurso estaria in com p leto sem u m a análise m ais aprofundada de algumas pistas que acabam os de esboçar ra pidam ente; a definição kantiana da filosofia, a do h o m e m c o m o ser m etafísico e, enfim, a d eterm in ação original do co n ce ito de reflexão, tal c o m o podem os
encontrá-lo na
Crítica da faculdade de julgar. É, pois, por essas questões que
com eçarem os. Elaborá-las nos perm itirá talvez seguir, sem perigos excessivos, as sinuosidades do procedim ento kantiano, que co n stitu em toda a força e — por que não dizê-lo? — todo o e n ca n to de seus escritos.
4 Esta distinção essencial e longamente elaborada nos Proiegõmenos Cf. AK V. 352; P II.
C a p ítu lo I
A definição kantiana da filosofia
Se nossa hip ótese de leitura é correta — o k an tism o é uma filosofia da filoso fia — , o s te x to s consagrados ã definição da filosofia deveriam naturalm en te ser num erosos e im p ortan tes. Eles o são, o que facilita m u ito o trabalho do intérprete. Mas não n o s eng anem os. K an t não determ in a verdadeiram ente a especificidade do trabalho da filosofia nas passagens que lhe consagra. As pá ginas, ta m b é m nu m erosas e im p ortan tes, em que K an t elabora sua doutrina do juízo, da reflexão ou do procedim ento crítico são bem m ais significativas a
esse respeito, já que essas diferentes noções estão n o princípio de
toda filoso
fia, e não so m e n te no de sua própria filosofia.
Que é filosofia?
D ito isto, é im p o r ta n te ler u m pouco m a is a te n t a m e n t e alguns te x to s exp li c ita m e n te d estin ad o s a d e te rm in a r os o b je to s da filosofia. K a n t põe aí em a n d a m e n to a separação crítica, e e x p õ e a organização de seu p e n sa m e n to , e enu n cia o resultado da aplicação da reflexão à to talid ad e dos o b ie to s p o s s í veis de análise.
Os o b je to s da filo s o fia
Dois te x to s podem ser aqui evocados. O primeiro é tirado da
Teoria transcen
dental do m étodo, que fecha a
Crítica da razão pura. K an t define aí o co nceito
de interesse da razão, isto é, as q u estõ es às quais a razão está condenada a responder por seu próprio interesse. A passagem é das m ais celebres:Todo interesse de m inha razào (ta n to especulativo com o prático) co n cen tra-se nas três q uestões seguintes:
l -* Que p osso con h ecer? 2* Que devo fazer? 3 a Que p osso esperar?'
O segundo te xto em que u m a m esm a tentativa de definição aparece e o
da
Lógica. Mão se trata aqui propriam ente de u m te xto de K ant, m a s de ano
tações feitas por ocasião do curso de lógica que ele deu ao longo de sua vida de professor. K an t repete aí as três perguntas citadas, explicando que se trata nào so m e n te de de term in ar os fins da razào, mas tam b é m de delim itar o c a m po da filosofia3. Dito de outro modo: a Filosofiaé um p en sam en to que tenta
responder às q uestões que a razào se põe, ou antes, que ela é obrigada a se pôr. Essa divisão tripartida do trabalho da filosofia é côm oda, e K an t esforça-se por respeitá-la cada vez que apresenta sua obra. O que ela n o s ensina?As três perguntas nào nos dizem o que é a filosofia, m a s aquilo de que ela se ocupa. Seu prim eiro objeto, a resposta à pergunta "Que posso co nhecer?”, corresponde, diz K an t na
Lógica, à m etafísica. Esta observação de Kant traz,
na verdade, pouco esclarecim ento sobre a natureza exata do trabalho reque rido. Pode-se, contudo, com preender esta afirmação com base n o que ele e screve em outra parte sobre a m etafísica, por exemplo nos
Prolegóm enosa toda
metafísica futura: “a crítica, e só ela, co n téin em si o p lan o total bem exam inado
e provado, e m e sm o todos os m eios de execuçào que p erm item realizar a m e tafísica co m o ciência"3. Em outros term os: a m etafísica é a fo rm a exaustiva e detalhada da crítica, considerada c o m o a exposição das condições de possibi lidade a priori e dos limites do co n h e cim e n to hu m ano. A Crítica da razão pura,1 CRP. A 8 0 5 /B 8 3 3 .
2 Cf Lógica. AK IX, 25; trad. Guiliermit. Paris, Vrin, 1969, p. 25.
C om preender
KANT
Os o b je to s da filo s o fia
Dois te x to s podem ser aqui evocados. O primeiro é tirado da
Teoria transcen
dental do m étodo, que fecha a
Crítica da razão pura. K an t define aí o co nceito
de interesse da razão, isto é, as q u estõ es às quais a razão está condenada a responder por seu próprio interesse. A passagem é das m ais celebres:Todo in teresse de m inha razào (ta n to especulativo com o prático) co n cen tra-se nas três q uestões seguintes:
l -* Que p osso con h ecer? 2* Que devo fazer? 3 a Que p osso esperar?'
O segundo te xto em que u m a m esm a tentativa de definição aparece e o
da
Lógica. Não se trata aqui propriam ente de u m te xto de K ant, m a s de ano
tações feitas por ocasião do curso de lógica que ele deu ao longo de sua vida de professor. K an t repete ai as três perguntas citadas, explicando que se trata não so m e n te de de term in ar os fins da razão, mas tam b é m de delim itar o c a m po da filosofia3. Dito de outro modo: a Filosofia é um p en sam en to que tenta responder às q uestões que a razào se põe, ou antes, que ela é obrigada a se pôr. Essa divisão tripartida do trabalho da filosofia é côm oda, e K an t esforça-se por respeitá-la cada vez que apresenta sua obra. O que ela n o s ensina?As três perguntas não nos dizem o que é a filosofia, m a s aquilo de que ela se ocupa. Seu prim eiro objeto, a resposta à pergunta "Que posso co nhecer?”, corresponde, diz K an t na
Lógica, à m etafísica. Esta observação de Kant traz,
na verdade, pouco esclarecim ento sobre a natureza exata do trabalho reque rido. Pode-se, contudo, com preender esta afirmação com base n o que ele e screve em outra parte sobre a m etafísica, por exemplo nos
Prolegóm enosa toda
metafísica futura: “a crítica, e só ela, co n téin em si o p lan o total bem exam inado
e provado, e m e sm o todos os m eios de execução que p erm item realizar a m e tafísica co m o ciência"3. Em outros term os: a m etafísica é a fo rm a exaustiva e detalhada da crítica, considerada c o m o a exposição das condições de possibi lidade a priori e dos limites do co n h e cim e n to hu m ano. A Crítica da razão pura,1 CRP. A 8 0 5 /B 8 3 3 .
2 Cf Lógica. AK IX, 25; trad. Guiliermit. Paris, Vrin, 1969, p. 25.
que faz o inventário dessas condições, form a o esqu eleto da m etafísica, se pelo m e n o s nos co n ten ta rm o s com esta definição p u ram ente teórica do term o. A separação entre um saber legitim o e uma pretensão ilegitima de saber é a pri meira função da filosofia. Essa separação to rna necessária a elaboração do que Kant cham a de transcendental, isto é. o co n ju n to das condições de possibilida
de do co n h ecim en to , conceito em to rn o do qual se organiza a primeira
Crítica.
V oltarem os a este ponto.
A prim eira q u e stão co n ce rn e ao saber, à ciência, em su m a, a tu d o o que K an t ch am a de teoria. A segunda é, por sua vez. e x clu siv am en te prática. O que significa sim p le sm e n te que se trata, para K an t, de refletir sobre a ação e sobre a m an eira de conduzi-la. Flabo rar a q u e stão "Q ue devo fazer?" c o n s is te, pois, e m exp licitar aquilo que se a p re sen ta ã co n sciên cia c o m o obrigação moral. A filosofia a b so lu ta m e n te nào delibera mais aqui a respeito da n a tu reza de n o sso saber; ela n ã o é mais, n e sse sen tid o, tra n scen d e n ta l, m as trata do que a razão prática deve s e r e n q u a n to faculdade moral. O s
Fundamentos
da m etafísica dos costum es
e a Critica da razão prática ap licam -se em respon der a e s ta qu estão , que é. para K an t. a m ais im p o rta n te.A últim a questão é m u ito m ais difícil de com preender. R e te n h a m o s p ro v iso riam en te que K an t, ao respondê-la, d eterm in a o que o h o m e m pode e s perar de u m a vida conduzida segundo o respeito ã lei moral. Essa questão vem , pois, lo g icam e n te na seqü ên cia da segu nd a e concerne, m u ito direta m e n te, co m o diz a Lógica, à religião. Isso nào significa que o s te x to s que Kant
consagra à religião p rin cip alm en te -A
religião nos lim ites da simples razão
— respon d am ã questão. Pode-se até dizer que é b a sta n te delicado atribuir a u m a única o bra a tarefa de respondê-la. D igam os sim p lesm en te, e ainda provisoriam ente, q u e a cada vez que K an t se interroga sobre a finalidade do h o m e m c o m o ser moral e ten ta e stabelecer que gênero de felicidade u m h o m e m v irtu o so tem o direito de esperar ele responde a essa terceira questão. E é a e ste título que a
Critica da faculdade de julgar, m a s tam b é m n u m e ro sas
passagens da
Crítica da razão prática
co rresp on d em a esse objetivo.A filosofia kantiana — e a filosofia em geral — deve abordar sucessiva m e n te o problem a dos lim ites do co n h ecim en to , o do dever e, enfim, o das esperanças legítim as de todo h o m em . Tal programa de trabalho pode fazer pensar que a filosofia se reduz, n o fundo, a u m co n ju n to sistem ático de c o n h e cim en tos que u m e stu d an te consciencioso poderia assim ilar progressivam en te. K a n t não se atém n atu ralm en te a esta concepção escolar da filosofia, que ele qualifica até m e sm o de escolástica. A crescenta, pois, u m pouco adiante.
C om preender
KANT
na teoria transcendental do m étodo, que a filosofia não é uma disciplina que se dom ine ou que se possua, m as um exercício, sem pre recom eçado, o exer cício de u m a razão crítica, desconfiada de tudo, principalm ente de si m esm a. Que e n sin am en to extrair disso para o no sso p ropósito? Sim p le sm e n te que a essência da filosofia está em uma aplicação, m ais que em seus objetos, e que definitivam ente a elaboração das condições de possibilidade do trabalho filosófico constitu i u m a definição bem m e lh o r de sua natureza que o e n u n ciado de se u s cam pos de aplicação. Isso significa co n cre ta m en te tam b é m que a partilha crítica que funda a divisão de filosofia em três q uestões repousa
num a experiência da filosofia m ais original, aquela que a
Crítica da faculdade
d e julgar* desenvolve longam ente.
A filo s o fia co m o a n tro p o lo g ia
O texto da
Lógica
co n tém uma q uarta questão, ausente daCrítica da razão
pura: "O que é o h o m e m ? ”. K an t não se co n ten ta em acrescentar u m o bjeto
de estudo ao catálogo dos tem as possíveis de reflexão. Sublinha logo. em uma observação cheia de conseqüências: “no fundo, poder-se-ia pôr tudo isso na conta da antropologia, porque as três q uestões se reportam à últim a”J. A filo sofia n ã o seria, n o fundo, senão uma form a de antropologia. A n tes de tentar com preender por que K an t afirma isso, observem os sim p lesm en te que esta tese só faz form u lar claram ente o que havíam os assinalado desde a in tro d u ção: a filosofia kantiana co m o defesa da natureza m etafísica do h o m e m é n e cessariam ente, ao m e sm o tem po, uma filosofia da filosofia e u m a filosofia do h o m em , indissociáveis entre si. Dizer o que é o hom em e definir a filosofia procedem de um só e único esforço de conceitu ação do desejo de m etafísica que anim a um e outro.A relação entre filosofia e antropologia não é sim ples de estabelecer no texto kantiano. Kant não diz so m e n te que a reflexão sobre o h o m e m unifica e resum e a m etafísica, a moral e a religião. Afirma, precisam ente, que há no h o m e m u m a certa disposição para a finalidade que preside à própria filosofia,
4 Isto será objeto dc demonstração no capitulo seguinte. A respeito desse ponto, subs crovomos as análises de Alexis PhilonenkO cm sua introdução da Critica da faculdade dejufaar.
Paris, Vrin. 1993, p. 11.
definida co m o a "ciência da relação de todo co n h ecim en to e de todo uso da razão para o fim ú ltim o da razão h u m an a"6. Responder à questão do hom em consiste em elucidar, e m seu fu n d am en to, essa disposição particular do ser h u m an o , explicitando o princípio das três prim eiras questões, organizando-se o co n ju n to e m to rn o do conceito de fim. A natureza filosófica é a condição de possibilidade da filosofia s o b todas as suas form as: descrever o h o m e m resul ta, pois, e m m o stra r p o r que e co m o há filosofia.
Para designar essa aptidão particular do h o m e m em relação ao q u e o transcende, K an t emprega o belo te rm o “cultura"''. Essa qualidade propria m e n te h u m an a confere ao h o m e m toda a sua dignidade e o to rna digno de respeito. Ela é o que perm ite a todo su jeito dar-se fins, objetivos, princípios e obrigações: m as é tam bém , e m K ant, sin ô n im o de uma certa receptividade ãs Idéias ou, de m odo m ais geral, ao que transcende a experiência sensível.
R e te n h am o s sim p lesm en te aqui alguns índices da presença da cultura nas descrições que K an t n o s dá do h o m em . Mo cam po teórico, v im os que o h o m e m tend e n atu ralm en te ao absoluto: é. literalm ente, m ais fo rte que ele. Mo campo moral, as coisas se ap resen tam u m pouco diversam ente: m as Kant fala de novo de u m a "cultura da razão"8 para designar a aptidão para escutar a exigência da lei moral, malgrado sua severidade e a infelicidade a que parece co nd enar o indivíduo. Dá-se o m esm o n o cam po estético: não é possível, diz Kant. se n tir alguma coisa c o m o o sublime, na arte ou na natureza, sem ser
a
minima receptivo ao que ultrapassa a natureza. O h o m e m kantiano, nessas
diferentes figuras, m anifesta, pois, u m a racionalidade m arcada por u m a forma de passividade, de abertura ao infinito. Se a filosofia kantiana é u m a an tro pologia, e se toda filosofia deve sê-lo, seria, pois, por esta única razão: há no coração do h o m e m , co m o no coração do p e n sam e n to , u m só e m e sm o desejo das Idéias. Resta co m p reen d er agora aquilo a que c o n ju n ta m e n te tend em o h o m e m e a filosofia. A ju n ção ou a quase identificação entre a cultura, a filo sofia, a m etafísica e a hum anidade poderá en tão ser feita, e no sso percurso do p en sam en to k an tian o se desenrolar, sem que percam os de vista essa singular confu são de interesses entre o h o m e m e sua razão.6 ibid
1 Cf. Critica da faculdade de julgar (doravante C FJ), AK V. 265; P II. p 1036.
C om preender
KANT
Os fin s do hom em
Num texto curto, publicado n o o u to n o de 1 7 8 6 —
Que é orientar-se no pensa
mento? — , K an t formula, ainda m ais claram ente que n a Crítica da razão pura, o
princípio que fu nd am enta sua concepção do hom em e da metafísica. Escreve que o espírito tem o direito de ultrapassar os estritos lim ites do co nhecim ento teórico, ou seja. os da experiência sensível, para se aventurar n o espaço im enso do supra sensível. A critica, nesse sentido, deve preservar "o direito da neces sidade da razão, com o princípio subjetivo"'. A razão kantiana não é razoável, tende sem pre a ultrapassar os limites de seu uso teórico legítimo. Ao m esm o tempo, co m o é ju sta m en te n o espaço do supra-sensível que se acha seu interes se fundam ental, quer dizer, aqui a lei moral, convém consolidar essa tendência orientando-a corretam ente. A filosofia crítica pode en tâo ser definida com o uma jurisdição do direito da necessidade da razão, que o controla e o reafirma, ao m esm o tem po. Trata-se sim plesm ente de preservar os interesses da razão, que seu m au uso ou um ceticismo m uito virulento poderiam pôr em perigo.Esses interesses, dissem os, são de trés tipos. A preocupação epístem oló- gica, a preocupação moral e a questão da finalidade do indivíduo e da h u m an i dade sào os três cam pos e m que a razão vai buscar seu interesse. Este é, a cada vez, diferente. É do interesse da razão não pretender co n h ecer o supra-sensível no cam po teórico: é de seu interesse, ao contrário, n ã o utilizar a sensibilidade na elaboração do dever moral. M as o p en sam en to kantiano, com o filosofia sistem ática, não pode se c o n te n ta r em enu m erar esses diversos interesses. Irá esforçar-se para organizar sua arquitetura, distinguindo o que é essencial à razão do que, em definitivo, é só um meio a serviço de um fim m ais elevado. É talvez nesta singular hierarquia das diferentes facetas de racionalidade que reside a originalidade do kantism o.
S a lv a ra lib e rd a d e
A celebridade bem compreensível da Crítica da razão pura e u m a longa tradição da interpretação fizeram do p en sam en to crítico uma filosofia do conhecim ento, preocupada, antes de mais nada. em fundar a ciência, com o tentaram fazê-lo. antes dela, os racionalismos do século XVII ou as teorias empiristas nascidas de
Locke. Para simplificar, pode-se dizer que a fundação da ciência obtida por sua definição com o unidade entre a sensibilidade e os conceitos do entendim ento é u m efeito secundário do em preendim ento kantiano. K an t salva os fenôm enos, determina precisamente a condição de seu saber, elabora os limites insuperáveis de todo conhecim ento científico. Tudo isso é verdade. Contudo, não é esse o o b jetivo primeiro da tarefa da critica. Salvar a ciência só tem significado, para Kant, se esse procedim ento permite salvar a liberdade e a metafísica com o disposição natural do hom em . O s textos são, quanto a esse ponto, de grande clareza, mais
ainda, talvez, na segunda edição da
Critica da razão pura que na primeira.
O prefácio da segunda edição esforça-se para esclarecer o e statu to do tex to que apresenta. K an t escreve ai, especialm ente, e esta frase é da mais alta im portância:
Utna crítica que restringe a razáo especulativa é seguramente negativa nisso, mas ao suprimir, assim, ao mesmo tempo, um obstáculo que restringe o uso prático, ou ameaça mesmo aniquilá-lo, ela é. de fato. de uma utilidade positiva e muito importante, desde que se esteja convencido de que há um uso prático absoluta mente necessário da razáo pura (o uso moral)'*.
Este trecho exige duas observações. Primeiro, a crítica supõe com o um fato indubitável a existência de um interesse prático da razão. K an t n ã o de m o n stra por que a m o ral é vital; ele o afirm a com o um dado incontestável. Em segundo lugar, o obstáculo que se trata de destruir é a negação da liberdade, que resultaria da e x te n sã o ao supra-sensível das leis da causalidade que c o n vém aos fe n ó m en o s sensíveis. Q uebrando o im pulso da razão teórica em suas preten sõ es de co n h e ce r o supra-sensível, a critica abre um espaço para a razão prática, que n ã o é m ais um espaço de co n h e cim en to científico, m as um espaço de p e n sa m e n to e de ação. Tal delimitação não é, em n e n h u m caso, u m a m ar ca de ceticism o ou um procedim ento repressivo. Kant precisa: é tão absurdo considerar q u e a crítica n ã o traz nada de positivo quanto dizer que a polícia é inútil sob o pretexto de que ela restringe a violência individual".
A lógica do argu m en to k antiano pode facilm ente ser reconstruída a partir do segundo prefácio. Interessa à razão reconstruir u m a moral; ora. toda moral supõe que a liberdade seja possível; é preciso, pois, que a crítica da razão es
10
CRP. B xxv.
11 íbid.C om preender
KANT
peculativa não to rn e contraditório o co nceito de liberdade. M ostrand o que as leis da física, principalm ente a lei da causalidade necessária, só se aplicam aos fe n ô m en o s sensíveis, K an t to rna pelo m e n o s pensável uma liberdade, delas escapando. Ele não pretende ter u m a intuição dessa liberdade; m en o s ainda u m co n h e cim en to científico; co n ten ta-se em afirm ar que a idéia da liberdade é compatível com a d e u m m u nd o.Em outros term os: a crítica da razão pura per m ite à disposição m etafísica que constitu i o ser h u m a n o m an ifestar-se legiti m a m e n te n u m cam po d e p e n sa m e n to não su bm etid o às condições do saber científico. C o m o estabelecim ento dos lim ites deste, abre-se um universo, um espaço de liberdade, de dever, um lugar tam b é m para que a idéia de Deus nào seja m ais u m a quim era ou conceito vazio de u m a teologia pretensiosa.
0 p ro b le m a p rá tic o da filo s o fia
A função da prim eira crítica é, a n tes de m ais nada, propedêutica. Além do in teresse próprio das teses propostas, essa obra deve, pois, ser avaliada em vista do que pretende realizar. K a n t é m u ito claro nesse ponto:
Todos o s preparativos da razão, no trabalho que se pode ch a m a r de filosofia pura, são, pois, n a realidade, dirigidos aos trê s problem as em q u estão. M as estes têm , por sua vez, um fim m ais d istan te: saber o que é preciso fazer, s c a vontade 6 livro,
se Deus existe e se existe um a vida fu tu ra,?.
A crítica teórica assegura os direitos da necessidade da razão — a que põe a questão de Deus, da liberdade e da im ortalidade da alm a — para que o fim moral da filosofia possa ser considerado. O kantism o, a n tes m e sm o que entre m os no im en so edifício da prim eira Crítica, deve sem pre ser interpretado à luz desses objetivos reivindicados. K ant, aliás, esforça-se, no fim do texto, para esclarecer seu propósito, introduzindo considerações de moral cuja função ini cialm ente não pode ser vista, num a reflexão sobre os lim ites do saber'3. Trata- se a n tes de inspirar o te xto da obra, reorientando seu leitor para o verdadeiro interesse de K ant, q u e é o de todo h o m e m : estar c e rto de ser livre, para que a própria idéia do dever ten h a um sentido.
1? A 8 0 0 /B 828. 13 Cf A 8 0 6 /B 834
É nesse espírito que é preciso com preender as palavras fam osas do se gundo prefácio: “Devia, pois, suprim ir o saber, para e n co n trar um lugar para a
fé
" M. Suprim ir o sa b e r co nsiste e m d em o n strar a ilegitimidade de u m co n h eci m en to que pretendesse ultrapassar a experiência; e n co n trar um lugar para a fé significa restituir á moral o espaço deixado vazio pelo d o g m atism o m oribu ndo dos racionalism os não-críticos. M ais co n cre ta m en te ainda: a crítica da razão pura perm ite suprim ir as ilusões e os erros do espírito que pudessem levartoda m etafísica ã m esm a depreciação.
A primazia concedida à prática não é o fato de u m a sim ples hierarquiza ção dos problemas da filosofia. Ela apóia-se em u m a determ in ação da razão com o faculdade capaz de tudo, do m elho r co m o do pior: a crítica é só a sepa ração entre u m a m etafísica legitim a, quer dizer, a moral, e u m a m etafísica da ilusão, que pretende conhecer, quando se trata só de pensar.
C rític a e m e ta fís ic a
Retom em os. O p ensam ento kantiano é u m a filosofia da filosofia, na medida em que elucida e explicita a disposição metafísica que fu ndam enta e provoca toda investigação filosófica. É, ao m esm o tempo, u m a filosofia do h o m em , pois esta m esm a disposição é constitutiva da humanidade. Kant cham a de necessidade da razão tal tendência do espírito hum ano a pensar além do que os sentidos nos perm item conhecer. O projeto kantiano pode, então, ser compreendido com o uma jurisdição da necessidade da razão: trata-se de afirmar o direito da razão, estabelecendo os limites de seu u so legítimo no campo teórico, para m elhor as segurar seu direito no cam po prático. A separação critica consiste em distinguir uma utilização repreensível da razão, a que pretende conhecer objetos não sus cetíveis de ser experim entados pelos sentidos, de sua utilização necessária, a que põe os fundam entos da moral sem recorrer aos dados da sensibilidade.
O itinerário arg u m en tativ e da primeira
Crítica pode igu alm ente ser re
construíd o a p artir do próprio co nceito de m etafísica. K an t parece, co m efeito, fazer um uso imoderado desse term o, concedendo-lhe u m a esp an tosa pluri vocidade. Para dizer de m odo m ais simples: a filosofia kantiana quer recon h ecer a im portância da
metafísica como disposição natural da razão
; para tanto,deve m o stra r por que a
m etafísica como conhecimento teórico do supra-sensível é
C om preender
KANT
impossível; deve, em seguida, indicar em que co nsiste a
metafísica como ciên
cia, quer dizer, como conjunto sistemático das condições de possibilidade do conhe
cimento-, ela pode. enfim, em toda a sua necessidade e em todo o seu valor,
pensar a m etafísica como doutrina da liberdade, n verdadeiram ente impossível com preender a critica sem esclarecer u m a term inologia que K an t emprega de m odo m uito desordenado e freq ü en te m e n te su rpreendente. Convém estudar em detalhe cada um dos sentidos possíveis do termo.A metafísica como disposição natural da razão
Desde Os sonhos de um visionário. Kant declara-se um apaixonado pela m e ta fí sica, m esm o se ela m u itas vezes n ã o lhe m anifesta e stim a 1'. A
Crítica da razão
pura diz isso de m aneira m u ito m ais explícita: a m etafísica é, antes de mais
nada, u m a tendência ineren te ao espírito h u m an o , que n ã o pode se satisfazer só co m a experiência sensível e inevitavelm ente afirma no m undo supra-sen- sível os conceitos de que a razão tem necessidade, em virtude de sua própria natureza. Na determ in ação desta disposição. K an t oscila entre o elogio e o opróbrio: ora ela é a filha querida da razão, um “germ e originário sab iam en te organizado e m vista de grandes fins"’8; ora ela é essa dialética inevitável da razão que finalm ente a conduz a se enganar. Mas. em todos os casos, a m e ta fí sica deve ser protegida, m ais que destruída. O h o m e m nunca renunciará a ela, com o não renuncia a respirar1'; m ais ainda, ela tem co m o vocação com pletar a cultura da razão, conduzindo-a a seu verdadeiro destino.A metafísica como conhecimento teórico do supra-sensíve!
Essa metafísica é, inicialmente, caracterizada como transcendental e raciocinan- te. Ela é o fato dos pensadores que não souberam perceber os limites reais do co nhecim ento hum ano, e que pretendem poder conhecer teoricamente o que não corresponde a n en h u m a experiência sensível. É o efeito perverso da metafísica com o disposição natural, que contribui para desacreditá-la pelos absurdos aos
15 Sonhos de um visionário, AK II. 367; P I, p. 585.
16 Prolcgômenos a toda metafísica futura, AK II. 353; PII, p. 137.
quais inevitavelmente conduz. Nesse sentido, é uma "pseudociência sofistica"1-, uma tagarelice dogmática insuportável que nào repousa em nada de sólido. Kant desqualifica aqui a quase totalidade de seus predecessores, ao m en o s no campo da filosofia alemà, ao m en o s aquela que acreditou poder abster-se de uma refiexào sobre os limites de nosso saber. Pode-se e deve-se pensar Deus, a alma, a liberdade: m as pretender conhecé-los esbarra na impostura.
A metafísica como ciência
Mo primeiro sentido, a m etafísica é u m a disposição; n o segundo, é um erro. Kant nào exclui que ela possa ser qualificada d e ciência, m as é obrigado, para dem onstrá-lo, a adaptar sensiv elm ente sua própria definição inicial da m e tafísica. Não se trata m ais aqui de u m a tend ência ao supra-sensível; nào se trata tam pouco de ir além da experiência, m a s de co m p reen d er o que a torna possível. A m etafísica co m o ciência conserva o gosto do universal e da n e c e s sidade, que justifica que se persista em cham ã-la assim . M as a universalidade em questão é interpretada c o m o o índice do caráter a priori das condições de experiência. Um co n h ecim en to teórico ab so lu tam en te certo e universal é p o s sível desde que se co n te n te em estabelecer o sistem a com pleto das condições de possibilidade do co n h ecim en to teórico. A m etafísica é e n tã o u m a ciência dos lim ites da razão h u m an a e co n tém todos o s princípios puros da razão'5. No fundo, é idêntica à filosofia tran scen d ental e m se u conjunto.
A metafísica como doutrina da liberdade
Esta q uarta acepção do te rm o não é incom patível co m a terceira. Corresponde, antes, a uma especialização da m etafísica co m o ciência. Esta. co m efeito, pode co n ter todos os princípios puros da razão, que se referem ao co n h ecim en to teórico das coisas; mas pode tam b é m co n te r "os princípios que d eterm in am
a priori e to rn am necessário
o fazer e o nào fazer'™. Kant cham a este ram o de
m etafísica de m etafísica dos co sm m es. Pode-se considerar, contudo, que ele18 Ibid.. A K , 3 6 6 ; PII. p. 152
19 Cf. CRP. A 84 1 /B 8 7 0 : P 1. p . 1391.
C om preender
constitui um cam po em si, pois sua possibilidade só é estabelecida uma vez posto o sistem a da filosofia transcendental. S e m critica da razào teórica — propedêutica à m etafísica com o ciência — , a liberdade n ã o é sequer conside rável. e o conceito de dever é destituído de significação. Parece e n tã o que este ú ltim o sentido do te rm o seja o m ais im p ortante, se recordam os que para Kant a filosofia afinal é u m a doutrina da liberdade.
0 d is p o s itivo a rq u ite tô n ic o
do p e n s a m e n to k a n tia n o
A disposição m etafísica na qual reside a essência da filosofia, bem com o a da hum anidade, só está salva e confirm ada em seus direitos pela divisão crítica. A Crítica da razão pura deia participa, evid entem ente, estabelecendo explicita m e n te lim ites ao uso teórico da razão, liberando u m espaço novo por seu uso prático. M as a
Critica da faculdade de julgar elabora de m odo m ais com pleto
ainda o
modus operandi dessa divisão do campo filosófico: de um lado. deter
m inando as fronteiras de cada cam po da razão, de outro definindo o agen te de tal recorte territorial, a reflexão. O k an tism o é uma filosofia da filosofia com o jurisdição do desejo m etafísico; m as o é ta m b é m com o filosofia da reflexão, in stru m e n to originário de toda co n stru ção sistem ática e de todo p en sam en to preocupado em respeitar a geografia da realidade.
C a rto g ra fia filo s ó fic a
O percurso que nos propusem os aqui — u m a leitura das duas introduções da
Crítica da faculdade de julgar — só terá com o o b je to com preender m elho r o
princípio arquitetônico do p e n sa m e n to kantiano. A análise das duas prim eirasCríticas, q u e descrevem a população conceituai do cam po teórico e do cam po
prático, será assim preparada pela elucidação da distinção entre teoria e prática. A cronologia das obras, que vê a
Crítica da faculdade de julgar concluir em
parte o em p reen d im ento kantiano, deve. pois, ser derrubada ein favor de u m a ordem lógica: com preender primeiro co m o K an t estabelece a cartografia do p e n sam e n to ; re fle tire m seguida sobre as características e os lim ites do cam po teórico; analisar, enfim , os fu n d am en tos m orais do cam po prático, aquele para o qual tudo é definitivam ente em preendido. A estética, a história e a política
se inscreverão em ú ltim o lugar n o s espaços deixados vazios, ou na relação pro blem ática dos dois prim eiros campos.
As duas introduções à terceira
Crítica têm com o objetivo d e term in ar as
diferentes legislações que organizam o espaço da filosofia. O o b je to de ta! car tografia é estabelecer o mais firm e m e n te possível dois cam pos distintos, em função dos co n ceito s que são, nu m e noutro caso, determ in antes, a fim de tor nar desejável a existência do juízo com o term o mediador. O te xto essencial a respeito disso acha-se na segunda introdução, na sessão intitulada ju sta m e n te "Do cam po da filosofia em geral”. K an t propõe aí um léxico m u ito útil para a com preensão geral de seu p e n sa m e n to : seu princípio consiste em distinguir diferentes m aneiras, para um conceito, de estar em relação corn u m a faculdade do espírito: ou seja. sucessivam ente:1 . “Conceitos, na m edida em que são rep ortad os a objetos, sem considerar se vim co n h ecim en to deles é possível ou não, possuem seu cam p o.H,,0 cam po cobre assim a totalidade do m undo sensível, m as tam b ém o supra sensível, onde nenhum co n h ecim en to é possível.
2 . "A p arte desse cam p o na qual é possível, para nós, um con h ecim en to é um terren o para os co n ceitos e para a faculdade de con h ecer requerida para tanto."” O terren o corresponde ao conjun to dos fenôm en os suscetíveis de ser exp e rim e n ta d o s, pois, para K an t, n en h u m co n h ecim en to além deles pode ser considerado.
3. "A parte do terren o na qual esses conceitos legislam é o cam p o."'3 Kant passa aqui do conh ecim en to ã legislação. C oncretam ente, isso significa que, no te r reno da experiência, dois tipos de legislação coabitam : o do entendim ento que con stitu i as leis da natureza e o da razão que elabora as leis da liberdade.
O e n te n d im e n to e a razão são duas faculdades in teiram en te distintas, contudo igualmente legisladoras n o terreno da experiência. Q uando o e n te n d im en to está no poder, e stam o s no cam po da natureza e do co n h e cim en to teórico: quando a razão tem força de lei, e stam o s no cam po da liberdade e, pois, da prática. Dito d e outro m odo: a Critica da razão pura é o código jurídico do e n te n d im e n to cognoscente; a Crítica da razão prática é o da razão agente.
21 Crítica da faculdade de julgar, AK V. 174: P II, p. 927.
22 Ibid. 23 Ibid
C om preender
Essas duas legislações coexistem no terreno da experiência. Contudo — e é daí que Kant tira o sentido da palavra "campo" — , "existe um abismo im en so entre o cam po do conceito da natureza, enquanto sensível, e o cam po do conceito de liberdade, enquanto supra-sensível”*4. A legislação do entendim ento concerne à experiência e repousa sobre a experiência. A legislação da razão con
cerne tam bém à experiência trata-se do agir co n cretam en te mas repousa
por definição n o além da experiência, não sendo concebivel em outra parte a liberdade. A terceira Critica tem. pois, como único objeto preencher esse abismo, não por simples preocupação co m a unidade sistem ática, m as antes porque “o conceito de liberdade tem o dever de tornar efetivo, no m undo sensível, o hm imposto por suas leis"*5. Desse dever de influência Kant conclui pela necessi dade de pensar a natureza de tal sorte que ela concorde com a possibilidade dos fins postos pela liberdade. Não se pode afirmar mais claramente o primado da prática, que já evocamos acima. Se se reconstitui o conjunto do procedimento:
1 . A Filosofia com o cartografia delim ita dois cam pos, de tal so rte que to d a pas sagem parece excluída.
2. O prim ado da prática im põe, co n tu d o , que a m oral ten h a um a influência real no m undo da experiência sensível.
3 . Esse m undo deve. pois, ser concebido para se aceitar em si o exercício da liberdade.
A faculdade de julgar é p recisam en te a insistência de tal unidade final dos cam pos e dos poderes do espírito. E a terceira Crítica, a sim ples descrição dos diferentes m eios utilizados para alcançar esse objetivo.
A filosofia critica pode ser concebida com o u m vasto trabalho de organi zação do território. Im porta, pois. saber um pouco mais precisam ente o que o texto que acabam os de co m en tar nos perm ite entender — a quem efetivam en te cabe tal missão. As duas introduções não são sem pre claras quanto a esse ponto. Ora Kant parece atribuir ao juízo teleológico — aquele que postula a organização finalizada da natureza — a tarefa de unificação dos campos, ora o juízo estético — que estatui sobre a beleza e a feiúra da arte ou da natureza — é considerado o verdadeiro terna da passagem, dado que exprim e a livre relação entre as diferentes faculdades do espirito. Essa dupla tendência não indica ne*
24 lbid.. AK V. 176; P II. p. 929. 25 lbid
nhu m a contradição no procedim ento de K ant: assinala so m en te que é preciso talvez buscar e m outra parte o verdadeiro p o n to de passagem entre os campos da ciência e da moral, da natureza e da liberdade, u m lugar que se encontraria no fu nd am ento da teleologia com o da estética. A reflexão, que é a base co m u m das duas m anifestações possíveis da faculdade de julgar, é sem dúvida o principal ator da organização do espaço filosófico. É ela quem estabelece os limites dos diferentes campos; é ela quem assinala a cada conceito o espaço de seu uso legítimo; é ela quem ten ta organizar as po ntes e as passarelas entre as diversas zonas de influência do en te n d im e n to e da razão. R etornarem os, bem entendido, a esse problema quando lerm os em detalhes os desenvolvimentos de
Crítica da faculdade de julgar. Lem brem os aqui apenas aquilo que. n o texto
das introduções, pode ajudar-nos a com preender o co n ju n to da obra de K ant: o papel primordial da reflexào n a organização do espaço fiiosófico.G e o filo so fia
Posição da disposição m etafísica n o fu n d a m e n to do h o m e m e da filosofia; n e cessidade de consolidá-la. em virtude da destinação m oral do h o m em ; insti tuição de u m a divisão crítica co m o m elhor meio de preservar os direitos da necessidade da razão; invenção de u m a técnica territorial conduzida pela re flexão para levar a b o m term o essa divisão. Essas diferentes etapas n o s co nd u zem naturalm en te ao interesse por esse dispositivo reflexivo.
Que é a reflexão? Ela é, diz K ant, “o estado de espírito n o qual n o s dis pom os. prim eiro, a descobrir as condições subjetivas so b as quais podem os chegar a co nceitos"20. Trata-se so m e n te , nu m prim eiro m o m e n to , de n o s in teressarm os pela relação e n tre nossas representações — intuições, conceitos, idéias — e as diferentes fo n tes de co nhecim ento . M ais e x a ta m e n te — e ela pode en tão ser qualificada de transcendenta! , a reflexão co n fro n ta os di ferentes tipos de relações possíveis entre representações para d e term in ar a faculdade de co n h e cim e n to o nd e esta relação se dá. Pode. assim , se p ro nu n ciar sobre a relação entre dois dados sensíveis e decidir s o b qual co n ce ito esses dados seriam co n v en ien te m e n te colocados para produzir um conhecim ento.
T om ad o e m sua m aior simplicidade, o trabalho de reflexào é u m a desig nação de residência. Não tem outra funçào senào designar o lugar próprio de
C om preender
KANT
u m a representação, isto é, d e te rm in ar sua fonte: é, pois, u m a generalidade,
a m esm a que preside ao vasto recorte territorial da introdução à
Crítica da
faculdade de julgar. A filosofia reflexiva é u m p e n sa m e n to vagabundo, que per
corre o espaço das representações para determ inar suas linhas de força e decidir o lugar natural de cada uma delas. Sem e fetu ar esse trabalho de reflexão, a filosofia corre o risco de to m b ar n o s e x tre m o s do racionalism o ou do sensua lismo, duas tend ências representadas por Leibniz e Locke, segundo K ant. A originalidade do m odo de pensar kantiano, sua potência de ruptura em rela ção às duas m aiores corren tes da filosofia do século XVIII provêm da reflexão, pois é ela qu em julga a origem das representações e co n stata que n à o é única. Leibniz, diz K ant, considerava que todos os fe n ô m en o s são, em definitivo, cognoscíveis u n icam en te pelo en ten d im en to : Locke afirmava, ao contrário, que os conceitos desse m e sm o e n te n d im e n to eram apenas u m a elaboração sofisticada dos dados sensoriais.A filosofia crítica, graças a seu procedim ento tópico, estabelece que o e n te n d im e n to e a sensibilidade são "duas fo n tes in teiram en te diversas de re presentações, m as que não (podem) julgar as coisas de m odo objetivam ente válido senão quando estão em relação"2'. Vê-se que a reflexão não intervém so m en te na divisão critica ou na tópica: ela é parte integrante das teses mais
im portante de cada u m a das
Criticas, aqui a da necessária colaboração entre o
en te n d im e n to e a sensibilidade na constituição dos co n h ecim en to s objetivos.
Quid juris, quid facti
Um a últim a observação sobre a reflexào. In stru m e n to de comparação, de re corte e de passagem , ela parece dispor de u m a flexibilidade au sente n as fa culdades n o rm atizan tes q u e são o e n te n d im e n to , n o cam po da natureza, e a razào, no da liberdade. Podem os nos perguntar se ela nào e stá, tam bém , no princípio da oscilação, característico do p e n sa m e n to k antiano, entre
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edireito. Considerem os a
Critica da razão pura. Seu p o n to de partida é m uito
claro, c o m o verem os: aí tem o s ciência, m atem áticas e física, e o fa t o é que elas são coroadas de sucesso, ao contrário da m etafísica. M as Kant só se interessa pelo fato científico para dizer o direito de toda ciência, ind epend entem en te de sua existência real. M esm o se a ciência não existir, ela deve respeitar os limitesda experiência. A filosofia crítica apóia-se nu m fato para desem baraçar-se logo dele, e m favor da q u e stão do direito, única que verdadeiram ente interessa a K an t. D á-se o m e s m o n o cam po prático. K an t considera — verem os isso ta m bém — que a consciência moral é um fato, que ademais é u m fato da razão. Esse fato é indubitável, e a moral não pode explicá-lo, só pode explicitá-lo. A partir daí. tratar-se-á. para K ant, de d e te rm in ar o que a moral é de
direito,
m esm o que nenhu m ato moral jam ais ten h a sido realizado. Na configuração teórica, assim co m o na situação prática, a filosofia vai e vem entre fato e di reito, da m esm a m aneira que oscila entre os diferentes cam pos de legislação. Esse caráter particular do procedim ento k antiano é, talvez, a m arca de sua reflexividade constitu tiva. V oltarem os a este ponto.C rítica e filo s o fia
A ntes de e n tra r no te xto da Critica da razão pura, convém dizer algum as pala vras sobre o te rm o "crítica". Kant é muito eloq ü ente sobre esse p o n to, sem que contudo se possa fixar as diferentes abordagens que ele propõe n u m a única definição. Digamos, a título preliminar, que a crítica está p resen te em cada uma das etapas que até agora atravessam os: ela é aquilo que tom a com o o bjeto a disposição m etafísica; é aquilo pelo que o bom e o m au uso dessa m etafísica são separados; é, enfim ,
aquilo que
produz o exercício da reflexão. M esm o se parece ativa na totalidade do trabalho filosófico, não se co nfu nd e com ela. Sua relação com a filosofia em geral é talvez, aliás, o que inelhor a determ ina. Kant é m uito preciso em relação a isso, logo no início da Primeira introdução àCrítica da faculdade de julgar.
Se é verdade que a tilosoli«i é o sistem a do co n h ecim en to racional por conceitos, ela já se ach a suficientem ente assim diferenciada de u m a crítica d.i razão pura; esta co n té m sem dúvida u m a investigação filosófica que contem pla a possibili dade de tal conh ecim ento, m as n â o perten ce, co m o p arte, a tal sistem a: é ela, ao co n trário , que esboça em prim eiro lugar a idéia desse sistem a e o põe ã prov,iiS.
Os dois verbos que concluem esta citação são essenciais: a crítica é, ao m e sm o tem po, o esboço da filosofia c o m o sistem a e seu pôr à prova. Precede,
A invenção do transcendental
conhecim ento tem sua dignidade e sua clareza próprias, e utiliza representações específicas, o espaço e o tem po, sem as quais n en h u m a experiência é possível.
Esse rápido percurso m ostra bem que a
Crítica da razão pura está muito longe
de se reduzir a u m a simples compilação sistem ática das descobertas anteriores. K an t colocou bem algumas das balizas necessárias à com pleta formulação do projeto crítico; m as o essencial não está ainda explicitado e é preciso esperar até 1 7 8 1 para que, enfim, seja evidente a originalidade desse projeto.
P sico lo g ia e c rític a
Kant não é o único filósofo de seu tem po a se interessar pelo fu ncionam ento das faculdades de conhecim ento e pela construção do saber humano. Se existe uma especificidade do procedim ento crítico, não está na natureza de seu objeto, mas, antes, no m étodo empregado. Desde Descartes, os filósofos quiseram construir o quadro do conhecim ento, m ostrando igualmente a partir de quais fontes este
está constituído. Cassirer o diz muito ju stam ente, em sua
Filosofia das Luzes:
A psicologia está (...) colocada exp licitam en te na base da teoria do con h ecim en to e a té a Critica da razão pura de K ant reivindicará esse papel m ais ou m en o s sem
co n te sta çã o .
D ito de o u tro m odo: a filosofia do c o n h e c im e n to pode se reduzir à d e s crição dos d iferen tes p ro ce d im e n to s psicológicos utilizados em sua aq u isi ção. A ep istem o lo g ia não é u m a tópica, que situa cada re p resen tação em seu lugar da realidade; ela é u m a história dessas m e sm a s rep rese n taçõ e s, de sua origem sensiv el ã sua fo rm a co nceitu ai. Tal m an eira de proceder n ã o é fato exclusivo do em p irism o inglês ou francês. Os grandes sistem as racionalistas procedem da m e sm a m aneira, atrib u in d o a c e rta s idéias particulares uma origem divina ou u m ca rá ter de in atism o . Em to d o s os casos, a d e te rm in a çã o da fo n te é o problem a principal.
Kant não tem g osto nenhu m pela psicologia. Passa, aliás, m u ito tempo a evitar sua interv enção e m seu próprio trabalho, não sem que ela apareça às vezes no coração de certas teses suas. O verdadeiro p o n to de ruptura e n tre o criticism o e as teorias do co n h e cim e n to que o precederam é, sem dúvida, essa