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3.2 OBJEC ¸ ˜ OES EM POTENCIAL

3.2.1 O problema da base

A primeira destas poss´ıveis objec¸˜oes ´e conhecida como o “problema da base”. Em linhas gerais, a objec¸˜ao consiste em questionar o status de ver que pcomo base epistˆemica para saber que p. A ideia ´e a de que se ver que p´e uma maneira de saber que p, como pode ver que p ser a base epistˆemica para saber que p? Por exemplo: se eu vejo que h´a uma ´arvore no jardim, dado que ver que h´a uma ´arvore no jardim ´e apenas uma maneira mais espec´ıfica de dizer que eu sei que h´a uma ´arvore no jardim, no sentido em que ver que p ´e factivo e epistemicamente robusto, como defendido pelo DE, como ver que h´a uma ´arvore no jardim pode servir como suporte epistˆemico para saber que h´a uma ´arvore no jardim, sendo o item factivo ele mesmo conhecimento de que h´a uma ´arvore no jardim?

Para Pritchard, o que sustenta esse problema ´e o que ele chama de “tese do acarretamento”36. A tese que diz que se eu vejo que p ent˜ao eu sei que p. Se eu vejo que h´a uma ´arvore no jardim, eu sei que h´a uma ´arvore no jardim, dada a natureza epistemol´ogica de ver que p. Ver que p, ´e importante lembrar, ´e diferente de meramente ver p. Como mencionei anteriormente (3.1), uma crianc¸a pode ver uma ´arvore no jardim e n˜ao possuir o aparato conceitual necess´ario para ver que h´a uma ´arvore no jardim. Ver que p, por

36Uma defesa de uma tese deste tipo pode ser encontrada em WILLIAMSON, Timothy. Kno- wledge and its Limits. Oxford University Press on Demand, 2002, p. 34.; CHISHOLM, Ro- derick. Theory of Knowledge, 3 ed. Englewood Cliffs, NJ: Prentice Hall, 1989, pp. 40-41; MOORE, G. E. Some main problems of philosophy. New York: Collier, 1953, p. 92 n. 1, p. 61 n. 7; e RUSSELL, Bertrand. Human Knowledge: Its Scope and Limits. New York: Routledge, 1948 (1992), p. 440.

ser factivo, acarreta que p ´e o caso. Mas n˜ao ´e s´o isso, por ver que p ser epistemicamente robusto, o DE defende que podemos saber que vemos que p, e portanto que p, atrav´es apenas da reflex˜ao. Posto dessa maneira, ent˜ao, o problema parece apresentar uma dificuldade real para o DE. Se a objec¸˜ao est´a correta, ent˜ao n˜ao parece ser poss´ıvel, defenderiam algumas posic¸˜oes tradicionais em epistemologia, conceber ver que p como suporte epistˆemico para nossas crenc¸as perceptivas cotidianas37. Se na proposta disjuntivista ver

que p acarreta saber que p, ent˜ao ver que p n˜ao pode constituir um item epistˆemico que suporta o nosso conhecimento perceptivo na proposic¸˜ao em quest˜ao.

A sa´ıda para este problema, ent˜ao, seria resistir a essa leitura da pro- posta disjuntivista, no que diz respeito `a natureza epistemol´ogica de ver que p. Pritchard defende que ´e poss´ıvel resistir `a ideia presente na tese do acar- retamento e mesmo assim capturar uma conex˜ao pr´oxima entre ver que p e saber que p. Sua proposta ´e que seja feita uma distinc¸˜ao crucial entre estar em um estado que garante conhecimento, que o acarreta, e estar em um estado que garante que estamos em uma boa posic¸˜ao para adquirir conhecimento, ainda que possamos terminar sem o conhecimento em quest˜ao38.

Para ele, ver que p e saber que p se separam dessa maneira. Ver que p, embora factivo e epistemicamente robusto, n˜ao garante conhecimento de que p. Considere por exemplo, uma situac¸˜ao na qual eu estou diante de uma banana tendo uma percepc¸˜ao ver´ıdica dela. No entanto, eu recebo um teste- munho de uma pessoa que julgo altamente confi´avel de que aquilo que per- cebo n˜ao ´e uma banana real, mas uma r´eplica feita de cera. Sem que eu soubesse no momento da troca testemunhal, a testemunha havia se enganado e estava me passando uma informac¸˜ao falsa. Em um caso como este, se- gundo Pritchard, n˜ao h´a nada de errado na relac¸˜ao objetiva que estabelec¸o com o objeto em quest˜ao. O problema est´a no suporte subjetivo que tenho para a proposic¸˜ao-alvo. Neste exemplo, e no momento imediatamente poste- rior ao testemunho, eu n˜ao tenho conhecimento de que h´a uma banana diante de mim, tampouco deveria acreditar que h´a uma banana diante de mim - n˜ao seria epistemicamente respons´avel ignorar a informac¸˜ao de uma testemunha confi´avel39. Todavia, n˜ao h´a nada de errado em, depois de descobrir que a

37Para uma discuss˜ao aprofundada sobre maneiras de conhecer e acarretamentos desse tipo, ver TURRI, John. Does Perceiving Entail Knowing?. Theoria, v. 76, n. 3, p. 197-206, 2010; e CASSAM, Quassim. XIV - Ways of Knowing. Proceedings of the Aristotelian Society. The Oxford University Press, p. 339-358, 2007.

38PRITCHARD, Duncan. Epistemological disjunctivism. Oxford: OUP, 2012, p. 26. 39E poss´ıvel combinar cen´arios de diferentes tipos para testar a proposta disjuntivista. Em´ Epistemological Disjunctivism, Pritchard apresenta variac¸˜oes taxonˆomicas entres os casos, de modo que se possa combinar casos epistemicamente bons ou ruins, do ponto de vista subjetivo e objetivo. A ideia ´e que nossa relac¸˜ao objetiva com o mundo n˜ao est´a necessariamente conectada

testemunha se enganou, considerar que eu de fato tinha visto que havia uma banana diante de mim. Afinal, a banana estava l´a, minha relac¸˜ao objetiva com ela n˜ao enfrentou nenhum impedimento perceptivo, e eu possu´ıa no momento o aparato conceitual para ver que havia uma banana diante de mim40.

Ver que p nos coloca ent˜ao em uma posic¸˜ao favor´avel para adquirir conhecimento, mas esta posic¸˜ao pode n˜ao ser explorada por n´os da maneira adequada. Portanto, ainda que a relac¸˜ao subjetiva possa ser minada de alguma maneira, a relac¸˜ao objetiva em casos de percepc¸˜ao ver´ıdica se mant´em intacta. McDowell defende uma posic¸˜ao semelhante no que diz respeito a esta relac¸˜ao de acarretamento. Note:

‘Eu pensei que estava olhando para sua blusa sob uma daque- las luzes que tornam imposs´ıvel dizer que cor as coisas s˜ao, mas agora eu percebo que estava de fato vendo que ela era marrom’. Ao dizer isso, registramos que tivemos, no tempo passado rele- vante, uma autorizac¸˜ao (entitlement41) que n˜ao percebemos que

t´ınhamos. Est´avamos em uma posic¸˜ao para adquirir um pouco de conhecimento sobre o mundo, mas por conta de uma m´a apre- ens˜ao das circunstˆancias, n˜ao usufru´ımos da oportunidade42.

Ver que p, desta forma, ainda que possa ser a base epistˆemica para sabermos que p, n˜ao acarreta conhecimento de que p, dado que pode haver casos em que estamos de posse dessa base epistˆemica factiva, mas sequer acreditamos na verdade daquilo que percebemos veridicamente. Se ver que p sequer acarreta necessariamente a crenc¸a de que p, como o faz saber que p, ent˜ao a relac¸˜ao de acarretamento ´e derrotada, junto com o problema que ela motiva. A suspeic¸˜ao que Pritchard lanc¸a sobre a tese do acarretamento salva a posic¸˜ao de sofrer o ataque do problema da base43 44.

`as obrigac¸˜oes epistˆemicas no sentido de formar crenc¸as de modo respons´avel. Mais sobre isso em PRITCHARD, Duncan. Epistemological disjunctivism. Oxford: OUP, 2012, pp. 29-34.

40PRITCHARD, Duncan. Epistemological disjunctivism. Oxford: OUP, 2012, pp. 26-27. 41E poss´ıvel encontrar este termo traduzido para a express˜ao “direito epistˆemico”. Essa´ traduc¸˜ao expressa aquilo que eu quero expressar com o termo “autorizac¸˜ao”, mas acaba tra- zendo consigo tamb´em uma carga adicional em sua linguagem deontol´ogica. Portanto, preferi me ater ao termo “autorizac¸˜ao”.

42MCDOWELL, John. The engaged intellect: Philosophical essays. Harvard University Press, 2009, p. 158.; Para um tratamento desta posic¸˜ao de McDowell, ver HADDOCK, Adrian. The disjunctive conception of perceiving. Philosophical Explorations, v. 14, n. 1, p. 23-42, 2011.

43Em TURRI, John. Does Perceiving Entail Knowing?. Theoria, v. 76, n. 3, p. 197-206, 2010, o autor assume uma posic¸˜ao semelhante contra a tese do acarretamento.

44Para uma apresentac¸˜ao geral do problema da base para o disjuntivismo, ver GHIJSEN, Har- men. The Basis Problem for Epistemological Disjunctivism Revisited. Erkenntnis, v. 80, n. 6, p. 1147-1156, 2015.