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4. ECONOMIA POLÍTICA, DIREITO E LIBERALISMO

4.2. O problema da escassez de alimentos e o governo dos acontecimentos

Embora essa não pareça ter sido, de início, a intenção de Foucault, no desenvolvimento de suas pesquisas acerca do biopoder e, em particular, do dispositivo de segurança, ele vai chegar ao problema do liberalismo. Mas como, mais precisamente, Foucault chega a esse problema? Como e por que o liberalismo vai aparecer em seu pensamento, se tratar desse tema não fazia parte de propósito inicial de suas análises?

Foucault aborda o problema do liberalismo na aula de 18/01/1978 do curso

Segurança, território, população. A aula é dedicada à análise do dispositivo de segurança, mas, logo de saída, deparamo-nos com a relação entre governo e acontecimento. Foucault187 toma

como exemplo o problema da escassez de alimentos (disette), entendida não apenas como fome, mas como carência de uma quantidade mínima de provisões, por exemplo, de cereais, para que uma população possa sobreviver. Pela lei da oferta e da procura, a escassez de certa mercadoria faz com que seu preço suba. Ora, quanto mais os preços sobem, maior é a escassez de alimentos porque quem vende, visando a elevação dos preços, tende não a vender, mas a armazenar suas mercadorias até que os preços subam ainda mais. Assim, a escassez de alimentos é um processo que tende a retornar, a se acumular e a se aprofundar à medida que retorna. Além disso, é evidentemente um fenômeno capaz de pôr em risco a vida de uma população. Infortúnio para a população, crise para o governo, na Idade Clássica, a escassez alimentar é um acontecimento a ser, a todo custo, evitado.

185 Alexander Soljenítsin (1918-2008) foi um romancista e historiador russo, vencedor do prêmio Nobel de

literatura de 1970, cujas obras denunciariam a eliminação da liberdade individual por parte do Estado totalitário e tornaram famosa, em todo mundo, a imagem das prisões-fazendas de trabalhos forçados soviéticas, os Gulag. Cf. SOLJENÍTSIN, Alexander. Arquipélago Gulag. Tradução: F. Ferreira et al. São Paulo: Círculo do Livro, 1975.

186 Entre 1974 e 1982, o cargo de chanceler da Alemanha Ocidental foi ocupado por Helmut Schmidt (1918-2015),

do Partido Socialdemocrata (SPD), que é considerado um dos criadores do Euro e um dos principais responsáveis pelo aprofundamento das políticas neoliberais em seu país.

Do século XVII e até o início do século XVIII, o quadrante político-filosófico no interior do qual se pensa o problema da escassez alimentar é definido pelo conceito político- cosmológico de “má fortuna” e pelo conceito jurídico-moral de “natureza humana má” que, na Idade Média, eram as causas da “desgraça”. Ou seja, na época da razão de Estado, a escassez de alimentos é entendida como uma desgraça provocada pela falta de sorte ou pela maldade ingénita do homem. Para combater essa desgraça, será criado “todo um sistema [...] ao mesmo tempo jurídico e disciplinar, um sistema de legalidade e um sistema de regulamentos que se destina a impedir a escassez de alimentos”188. Trata-se de um sistema jurídico e disciplinar que

vai promover a limitação dos preços, do direito de armazenar as mercadorias, das vendas para o exterior, do tamanho das plantações etc. Para tal, o governo impõe, por meio de leis e regulamentos, toda uma série de proibições e impedimentos que engendra um sistema de repressão e de vigilância permanentes, o qual tem o objetivo não apenas de conter, mas de erradicar a escassez de alimentos.

Em outras palavras, a fim de assegurar a disponibilidade e o acesso da população a uma quantidade adequada de alimentos, estabelece-se uma regulação, por baixo, dos preços de compra e de venda, o que acarreta a diminuição dos lucros dos produtores e vendedores. Estamos claramente no período do mercantilismo, esse conjunto de “técnicas de governo e de gestão da economia que praticamente dominaram a Europa desde o início do século XVII até o início do século XVIII”189. Daí, o tipo de intervenção que é praticado pelo governo baseado na

razão de Estado. Todavia, Foucault190 esclarece que o sistema anti-escassez clássico acabou

sendo um fracasso, as políticas simplesmente não funcionaram, sua tentativa de regulação dos comportamentos se mostrou ineficaz. Desse modo, ao invés de se encaminhar para a eliminação do problema da escassez de alimentos, o mercantilismo o reproduzia. Nesse ponto, o sistema mercantilista simplesmente travou.

Em meados do século XVIII, o sistema de combate à escassez de alimentos vai ser destravado pela introdução de uma nova concepção, precursora do liberalismo em vários aspectos, isto é, a doutrina dos fisiocratas, que vai pôr em jogo um princípio fundamental do governo econômico: o princípio da liberdade de comércio. A ideia é que se quiser, de fato, combater o problema da escassez de alimentos, ao invés de instaurar limites ou interdições, o governo deve liberar (laisser passer) a compra e venda das mercadorias. Com a introdução do princípio da liberdade de comércio, não é apenas uma mudança de concepção que se registra,

188 STP, p. 42. 189 STP, p. 43. 190 Cf. STP, p. 44.

mas é toda uma nova forma de programar a regulação da atividade econômica e as intervenções do governo que começa a se estabelecer. Com efeito, um novo conjunto de técnicas de governo, toda uma nova arte de governo vai se construir. Consequência de uma reflexão teórica, portanto, o princípio da livre circulação vai implicar uma transformação radical das tecnologias de poder: a implantação do que Foucault191 chama de dispositivo de segurança. Assim, começa a se

delinear o jogo entre liberdade e segurança que caracteriza, até hoje, as estratégias governamentais. Daí em diante, não se tratará mais de limitar ou proibir a liberdade (seja de comércio ou não), mas de assegurá-la e, portanto, de corrigi-la, de assisti-la e, num certo sentido, de sustentá-la, por meio de um sistema de incentivos. Assim, em lugar de uma forma de governo que, baseada na razão de Estado, tenta evitar a ocorrência de um acontecimento, no caso, a escassez de alimentos, temos uma forma de governo que tenta ser o próprio governo dos acontecimentos.

É muito mais a realidade do cereal do que o medo da escassez alimentar que vai ser o acontecimento que vamos procurar entender. E é nessa realidade do cereal, em toda a sua história e com todos os vaivéns e acontecimentos que podem de certo modo fazer sua história oscilar ou se mexer em relação a uma linha ideal, é nessa realidade que se vai tentar enxertar um dispositivo graças ao qual as oscilações da abundância e do preço baixo, da escassez e da carestia vão se ver, não impedidas de antemão, não proibidas por um sistema jurídico e disciplinar, que, impedindo isto, forçando aquilo, deve evitar que elas ocorram. [...] um dispositivo que, conectando-se à própria realidade dessas oscilações, vai atuar de tal modo que, por uma série de conexões com outros elementos da realidade, esse fenômeno, sem de certo modo nada perder da sua realidade, sem ser impedido, se encontre pouco a pouco compensado, freado, finalmente limitado e, no último grau, anulado. Em outras palavras, é um trabalho no próprio elemento dessa realidade que é a oscilação abundância/escassez, carestia/preço baixo, é apoiando-se nessa realidade, e não tentando impedir previamente, que um dispositivo vai ser instalado, um dispositivo que é precisamente, a meu ver, um dispositivo de segurança e não mais um sistema jurídico-disciplinar.192

A solução encontrada pelos fisiocratas vai consistir na formulação de um dispositivo de segurança capaz de se amoldar aos acontecimentos, interferindo em suas oscilações, de modo a levá-los a se aproximar de um padrão ideal. Não se trata mais de um sistema jurídico-disciplinar que embargaria, de antemão, a ocorrência das oscilações, mas de um dispositivo de modulação dos acontecimentos que se conecta à realidade para influenciá-la, seja em um sentido, seja em outro. E isso, sem que se perca nada da capacidade de governar essa realidade. Na medida em que definia para si um objetivo de governo ilimitado e tentava controlar por completo os acontecimentos, o Estado de polícia acabava deixando de fora muitas coisas. Partindo de uma relação diferente com os acontecimentos, os fisiocratas vão aplicar à realidade uma grade de inteligibilidade muito mais refinada e sofisticada do que a da razão de

191 Cf. STP, p. 45. 192 STP, pp. 48-9.

Estado. O resultado a que eles chegam com isso é um governo dos acontecimentos muito mais eficaz, sobretudo, no que concerne às questões econômicas, a começar pelo problema da escassez de alimentos. Doravante, se tratará de suprimir todas as proibições e de governar pela liberação. Daí que Foucault mencione que, mais do que apenas um legado dos fisiocratas, essa é a “solução liberal”193.

Lidar com a escassez de alimentos como um acontecimento significa entender que ela não é uma desgraça, como se pensava na Idade Média e ainda no início do século XVIII. Trata-se de compreender que a escassez nem é boa, nem é má, mas algo que simplesmente acontece. Foucault194 cita um autor de meados do século XVIII, chamado Abeille, que chega a

afirmar que, como nunca se registrou uma população que tenha morrido inteira por causa da escassez de alimentos, ela não existe, é uma espécie de quimera. O ponto é que, a partir do momento em que o comércio, entre as pessoas, mas também entre os países, é deixado livre, gera-se uma série de fenômenos e oscilações que, natural e espontaneamente, defendem os fisiocratas, acarretam a solução de problemas de mercado como a escassez de alimentos. “Essa concepção dos mecanismos do mercado não é simplesmente a análise do que acontece. É ao mesmo tempo uma análise do que acontece e uma programação do que deve acontecer”195.

Trata-se, portanto, de uma “análise-programação” que, partindo de uma singular ontologia dos acontecimentos, aciona uma série de mecanismos individualizantes e totalizantes, a fim de produzir o comportamento que o governo espera das pessoas, que é, por exemplo, no caso da escassez de alimentos, o estabelecimento de um equilíbrio entre a procura e a oferta: uma quantidade de alimentos suficientes, vendidos a um preço acessível.

Na última aula (05/04/1978) de Segurança, território, população, Foucault retoma ao problema da escassez de alimentos, para mostrar que foi a partir dele que foi feita a crítica ao Estado de polícia e a um conjunto de medidas políticas que pode ser caracterizado como a “polícia dos cereais”. Com efeito, foi a partir desse problema que se deu, em meados do século XVIII, a desarticulação e o desmantelamento do Estado de polícia. Foucault196 explica que sinal

disso é a formulação de um certo número teses por parte dos economistas que criticam a razão de Estado. Primeira tese: para que os cereais não sejam escassos, ao contrário da política mercantilista de preços baixos, os fisiocratas defendem que eles devem ser bem pagos. Segunda: é preciso substituir o modo de regulamentação típico do Estado de polícia por uma

193 Cf. STP, p. 50. 194 Cf. STP, p. 51. 195 STP, p. 53.

modulação que deixe atuar a regulação espontânea das coisas e, portanto, é necessário deixar os preços livres. Terceira: não se deve buscar um crescimento indefinido da população, como propunham os mercantilistas, mas buscar um número ótimo de pessoas para produzir e consumir em um determinado território. E esse número há de se ajustar por si só. Quarta: deve- se deixar agir a liberdade de comércio e a concorrência, tanto entre os indivíduos quanto entre os países, e deixar que os interesses se ajustem até que seja anulada a escassez de alimentos. Em suma, no lugar de um Estado de polícia que procura disciplinar a atividade econômica o máximo possível, entra em cena um Estado regulador dos interesses comerciais, que vai deixar agir (laisser passer) a liberdade dos agentes econômicos. É dessa maneira que a nova racionalidade política propõe que se governe os acontecimentos.

Na medida em que se encontra no nascimento de uma nova governamentalidade, que vem se opor ao Estado de polícia e, de modo mais geral, à razão de Estado, o problema da escassez de alimentos é o que leva Foucault ao problema do nascimento da economia política e, daí, ao problema do liberalismo.

Vocês estão vendo como, através dessa discussão sobre os cereais, sobre a polícia dos cereais, sobre os meios de evitar a escassez de alimentos, o que se vê esboçar-se é toda uma forma nova de governamentalidade, oposta quase termo a termo à governamentalidade que se havia esboçado na ideia de um Estado de polícia.197

De acordo com Foucault198, no momento do nascimento da razão de Estado, seus

defensores, considerados hereges, podiam ser designados como a “seita dos políticos”. Os primeiros a se levantar contra essa seita, foram os juristas, que não chegaram a restaurar a situação anterior, nem a constituir uma nova “seita”, na medida em que suas críticas se mantiveram meramente negativas, limitadoras, repressivas do poder. Na Idade Clássica, os juristas não foram capazes de pensar uma arte de governar efetivamente nova, que já não se apoiasse no princípio da razão de Estado e mimetizaram, no plano do direito, sua circularidade. A nova heresia, de onde partiram críticas mais positivas e efetivas em relação à razão de Estado, só foi cometida, já no início da Modernidade, pela “seita dos economistas”, que dará à luz uma arte de governar até então inédita.

[...] foram eles que inventaram uma nova arte de governar, sempre em termos de razão, claro, mas de uma razão que não era mais a razão de Estado, ou que não era mais apenas a razão de Estado, que era, para dizer as coisas mais precisamente, a razão de Estado modificada por essa coisa nova, esse novo domínio que estava aparecendo e que era a economia. A razão econômica está, não substituindo a razão de Estado, mas dando um novo conteúdo à razão de Estado e dando, por conseguinte, novas formas à racionalidade de Estado. Nova governamentalidade que nasce com os

197 STP, p. 466. 198 Cf. STP, pp. 467-8.

economistas mais de um século depois da outra governamentalidade [ter] aparecido no século XVII. Governamentalidade dos políticos que vai nos dar a polícia, governamentalidade dos economistas que vai, a meu ver, nos introduzir em algumas das linhas fundamentais da governamentalidade moderna e contemporânea.199

Convém apenas acrescentar que essas governamentalidades, moderna e contemporânea, podem ser chamadas, respectivamente, de liberalismo e neoliberalismo. Mas isso ainda precisa ser demonstrado.