• Nenhum resultado encontrado

Considerando que a ligação entre direitos humanos, o problema da exclusão e a necessidade da inclusão social está entre as preocupações de maior relevância nos estudos dos cientistas sociais (Catão, 2004), o presente tópico preocupa-se com a análise da exclusão digital e de suas consequências para a população que não possui acesso à rede mundial de computadores. Entende-se que a necessidade de tratar de temáticas como esta é inadiável, pois, segundo Manuel Castells (2001, p. 325):

[...] mesmo que você não se relacione com as redes, as redes vão relacionar- se consigo. Enquanto quiser continuar a viver em sociedade, neste tempo e neste lugar, terá que lidar com a sociedade em rede. Porque vivemos na Galáxia Internet.

Nesse aspecto, de acordo com Rodrigo Baggio (2000), é importante salientar que a internet veio para ficar, e que seus efeitos já podem ser sentidos em todos os âmbitos da sociedade. Essa nova tecnologia está influenciando a vida dos indivíduos da mesma maneira como um dia ocorreu com o telefone, a televisão e o rádio. O autor destaca que cem anos atrás ninguém imaginava que a sociedade iria se desenvolver tecnologicamente em grandes proporções até chegar a receber o nome de sociedade da informação. Ele (BAGGIO, 2000, p. 1) frisa:

Agora temos uma infinidade de soluções digitais cada dia mais surpreendentes e avançadas. Entretanto, devemos estar atentos para não nos iludirmos confundindo progresso com pirotecnia. Se esse conhecimento acumulado não for compartilhado pela sociedade como um todo, corremos o risco de ratificarmos o abismo que separa os ricos dos pobres.

Pierre Lévy (1999, p. 196) já dizia “Habitamos (ou habitaremos), [...], o ciberespaço da mesma forma que a cidade geográfica e como uma parte fundamental de nosso ambiente global de vida”. E realmente é isso que vem acontecendo.

As atividades da vida pós-moderna estão interligadas com o acesso qualificado à internet, e aqueles que não estão conectados a ela sofrerão consequências decorrentes do verdadeiro “apartheid digital” constituído na sociedade da informação, pois várias atividades, dentre elas econômicas, relacionais, governamentais e culturais, estão migrando para o ciberespaço. (FREIRE; SALES, 2011; SILVEIRA, 2001).

Logo, percebe-se que a exclusão digital é uma “[...] fonte de desigualdade cultural e social no futuro”. (CASTELLS, 2001, p. 298). Esse é um problema preocupante, pois embora o número de pessoas que possuem acesso à internet vem aumentando, ainda hoje vários indivíduos latino-americanos estão isolados desse progresso digital. É essencial discutir essa questão, pois a evolução do mundo digital vem apresentando contribuições significativas para as mudanças culturais e no modo de gerar e difundir informações, afirma Cicilia Maria Krohling Peruzzo (2011).

Tal situação, de acordo com a mesma autora (PERUZZO, 2002), faz com que se crie uma nova categoria social para aqueles que não possuem acesso à internet. Ou seja, a exclusão digital aprofunda ainda mais a exclusão social vivida, visto que o acesso à internet marca uma era inédita de transformações expressivas nas formas de comunicação, de cultura, no trabalho, na economia, nos serviços e na participação social. Em razão disso, André Lemos e Paulo Cunha (2003) ilustram a necessidade de se dar abertura para as potencialidades da internet; no entanto, é imprescindível também que se fique atento ao lado negativo que a cibercultura permite – o apartheid digital entre ricos e pobres de informação.

Na visão dos autores Emiliano Rostand de Morais Célio, Angelina Palmeira e Ricardo Moreira da Silva (2012, p. 12), a exclusão socioeconômica causa a exclusão digital, ao passo que a exclusão digital agrava a exclusão socioeconômica, pois se trata de fenômenos estreitamente correlacionados. Para tais autores esse fato se justifica porque “[...] ao mesmo tempo em que proporcionam o acesso às diversas fontes de informação, as TICs exigem de seus usuários habilidades e conhecimentos para lidar com a informação disponibilizada”.

[...] a exclusão digital impede que se reduza a exclusão social, uma vez que as principais atividades econômicas, governamentais e boa parte da produção cultural da sociedade vão migrando para a rede, sendo praticadas e divulgadas por meio da comunicação informacional. Estar fora da rede é ficar fora dos principais fluxos de informação. Desconhecer seus procedimentos básicos é amargar a nova ignorância.

Para José Marques de Melo (2002, p. 37) a exclusão digital conduz à exclusão cultural e tem suas raízes solidificadas na exclusão socioeconômica. Ele sustenta que, em termos históricos, sempre esteve presente na sociedade mundial algum tipo de exclusão desde que surgiu a imprensa. Existiram aqueles sem acesso ao rádio, à televisão e agora os excluídos da cibermídia. Isso porque “Qualquer sociedade que possui excluídos de bem-estar social, evidentemente conta com um grande número de excluídos midiáticos”. Em razão disso, o autor alega que ao falarmos de exclusão digital não se está referindo a um problema comunicacional, mas sim a um problema de ordem socioeconômica e política.

Antonio Miranda e Ana Valéria Machado Mendonça (2006, p. 2) corroboram com esse posicionamento. Os autores acreditam que a pobreza não se dá apenas quando ocorre a falta de aquisição de riquezas produzidas, mas também quando há impossibilidade de acesso à educação, à saúde, à habitação, à participação social e às tecnologias de informação e comunicação, como a internet. Portanto, democratizar as redes é um fato fundamental quando se trata de reduzir a pobreza, e, em decorrência, a exclusão digital. A formação de um ambiente digital acarretou mudanças não só culturais, mas também nas relações de trabalho, novas formas de produção e extinção de outras formas de comunicação mais antigas; enfim, os autores concluem que estar distante do acesso à internet “condena o indivíduo à miséria permanente”. Outrossim,

[...] a exclusão digital é óbice para que se alcance a cidadania plena. De fato, o distanciamento ou não envolvimento nessa área cada vez mais coloca o indivíduo à margem dos benefícios que a tecnologia contemporânea vem proporcionando, no mundo do trabalho, dos negócios ou atividades de lazer. (PRETTO; SOUZA; ROCHA, 2011, p. 65).

Sob a mesma linha de raciocínio, Néstor García Canclini (1997) acredita que a configuração de processos de inclusão e exclusão, como este discutido, são resultados oriundos da globalização dos bens materiais e da informação. De acordo com o posicionamento de Tadao Takahashi (2002) é possível compreender esse fenômeno da seguinte maneira: o maior acesso à informação por meio do acesso à

internet possui um lado positivo bastante evidente – fomenta sociedades e relações sociais mais democráticas, e com isso, contribui para a promoção da cidadania. No entanto, esse mesmo fato acaba por gerar um novo tipo de exclusão que, infelizmente, possui um lado negativo também bastante evidente, dado que aprofunda ainda mais as desigualdades que já fazem parte do nosso cotidiano.

Então, além das vantagens advindas da consolidação da sociedade da informação já discutidas no primeiro capítulo,

A sociedade da informação tem atuado como instrumento que amplia o distanciamento de classes e povos. Estamos falando da muralha digital entre o norte e sul, entre pobres e ricos, e por outro lado também entre povos super- informados e sub-informados. (MELO, 2002, p. 40).

Desse modo, a fim de que se possa compreender a reflexão proposta neste capítulo é primordial deixar claro que ao tratar de exclusão digital – um termo criado no final da década de 80 e potencializado na década de 90 – estamos nos referindo sobre o “[...] fosso entre as pessoas com acesso efetivo às tecnologias digitais de informação e, em particular, a Internet, e aqueles com acesso muito limitado ou nenhum acesso a tudo.”7, afirma a ONU (UNITED NATIONS, 2011, p. 17). A mesma

definição também pode ser dada para os termos apartheid digital, defendido por Rodrigo Baggio (2000), e para infoexclusão, sustentado por Manuel Castells (2001).

Os Estados Unidos foram o primeiro país a usar e trabalhar com as referidas expressões, pois lá, desde o início, se entendeu que a superação desse problema aumentaria consideravelmente as chances se de liderar a sociedade do conhecimento e, logo, possuir um dos maiores índices de desenvolvimento, seja ele humano, civil, social, econômico ou político, por exemplo. Logo após, entre o final do século XX e o início do novo milênio, a exclusão digital se torna um assunto de suma importância para as nações do mundo inteiro. (MORI, 2011).

Na visão de Manuel Castells (2001, p. 287) a exclusão digital é um sinônimo da desigualdade de acesso à internet, fato que contribui para o aumento do hiato da exclusão social. Para ele, a promessa de avanços na era da informação colide com a “crua realidade” na qual muitas pessoas estão desconectadas do ambiente digital, formando um grande grupo de infoexcluídos. Nessa lógica, o autor realça que a

7 Tradução nossa. Texto original: “[..] gap between people with effective access to digital and information

internet é uma tecnologia da liberdade que apresenta dois lados distintos. Na medida em que ela é bem utilizada para a libertação dos poderosos, os desinformados que não alcançam o acesso à internet são ainda mais oprimidos da sociedade e aprofundam a exclusão digital.

Em seguida, André Lemos e Leonardo Costa (2007, p. 42) concluem “Podemos definir exclusão digital como a falta de capacidade técnica, social, cultural, intelectual e econômica de acesso às novas tecnologias e aos desafios da sociedade da informação”. No entanto, o mesmo autor refere que este problema não pode ser analisado como uma dificuldade em termos técnicos ou econômicos, mas, principalmente como um problema também cognitivo e social – conforme se abordará no decorrer deste capítulo.

Ainda que a exclusão digital seja um ponto negativo do advento da internet, trata-se de um problema inevitável que somente o exercício de políticas poderá controlá-lo e diminuí-lo porque “[...] as lógicas de produção, concorrência e gestão baseadas na Internet constituem um requisito indispensável para a prosperidade, a liberdade e a autonomia” (CASTELLS, 2001, p. 312).

Pierre Lévy (1999) confirma essa questão ao defender que todo o avanço no sistema de comunicação, independente de qual seja ele, necessariamente provoca algum tipo de exclusão. Por exemplo, não havia analfabeto antes de existir a escrita. O analfabetismo é um tipo de exclusão criado após o desenvolvimento do ato de escrever. No entanto, este problema não é um argumento plausível para condenar a escrita, pois o que se precisa é conhecer os empecilhos do fato para, então, buscar políticas que possam solucioná-lo, afirma o autor.

Ele (LÉVY, 1999, p. 212) ainda frisa que “a escrita não fez com que a palavra desaparecesse, ela complexificou e reorganizou o sistema da comunicação e da memória social”. Da mesma forma ocorre com a internet: ela não irá acabar com os tradicionais meios de comunicação, mas sim, irá aprimorar as técnicas com o condão de contribuir para o desenvolvimento da sociedade. É preciso reconhecer o potencial emancipatório da internet para universalizar seu acesso, o qual ainda é um longo caminho a ser percorrido, sendo que o empobrecimento econômico e a baixa escolaridade são algumas das principais causas para a dita exclusão digital, defende Cicilia Maria Krohling Peruzzo (2002).

Para Manuel Castells (2001, p. 319) existem pelo menos quatro fatores que atuam significativamente como barreiras de acesso à internet. Seriam eles: a falta de

infraestrutura tecnológica, os obstáculos econômicos e institucionais para o acesso ao mundo digital, a insuficiente capacidade educativa e cultural para usar a internet com autonomia e a desvantagem na produção do conteúdo comunicado por meio das redes. Para o autor, esses fatores contribuem em grande escala para a divisão da sociedade, não um mero fracionamento entre norte e sul, reforça ele, mas sim uma triste segmentação entre aqueles que possuem acesso e domínio digital e aqueles que estão desconectados dessas redes. Por razões como esta que a infoexclusão não deve ser vista como algo simples. Bernardo Sorj (2003, p. 13) reforça:

Não são poucos os que argumentam que o problema da exclusão digital é irrelevante ou secundário, já que as novas tecnologias seriam um luxo de uma sociedade consumista e que a desigualdade deve ser combatida no lócus clássico das carências de alimentação, habitação, saúde e emprego. Este trabalho discorda de tal perspectiva, pois ela representa, [...] uma visão estreita e elitista do mundo do consumo. Embora aceitemos que as novas tecnologias não sejam uma panacéia para os problemas da desigualdade, elas constituem hoje uma das condições fundamentais da integração na vida social; portanto, o combate à exclusão digital deve ser concomitante e articulado ao conjunto do elenco de políticas sociais de luta contra a desigualdade social.

Para ilustrar esse quadro em debate que separa os indivíduos com e sem acesso à internet, é importante expor alguns números que evidenciam esse fato no Brasil. Em 2003 foi publicado o primeiro Mapa da Exclusão Digital. Naquele período os estudos apontavam que apenas 12,46% da população brasileira tinha acesso ao computador, sendo que destes somente 8,31% tinha conexão de internet. De lá para cá muita coisa mudou, mas os dados obtidos ainda não satisfatórios. (NERI, 2003).

Conforme a última pesquisa brasileira de mídia realizada pela Secretaria de Comunicação Digital da Presidência da República (SECOM) averiguou-se que 51% dos brasileiros (entrevistados pela pesquisa) não possuem acesso à internet. O estudo ainda verificou que fatores como renda e escolaridade contribuem em grande escala para a formação do hiato digital entre quem possui e quem não possui acesso ao mundo digital. (BRASIL, 2015).

Além disso, o Comitê Gestor da Internet no Brasil, CGI.br, (.2015) também realiza periodicamente pesquisas nessa área. Percebe-se que aos poucos os números revelados estão progredindo, mas de forma bastante lenta. O último estudo divulgado em 2015, com dados coletados em 2014, constatou que 50% dos domicílios brasileiros possuem acesso à internet. Porém, enquanto na zona urbana este índice

chega a 54% dos domicílios, na zona rural esse número cai para 22%, conforme ilustra a tabela a seguir.

Tabela 1:

Fonte: CGI.BR (2015)

Outrossim, é pertinente destacar que esses percentuais encontram muita disparidade entre as diferentes regiões do país. Enquanto a região sudeste do Brasil alcança a proporção de 60% da população com acesso à internet, essa proporção cai para 36% na região norte. (CGI.br, 2015).

Tabela 2:

Fonte: CGI.BR (2015)

A desigualdade de acesso dentro do país continua ao se tratar de classes sociais. Por exemplo, 98% dos domicílios brasileiros de classe A possuem acesso à internet, 82% dos domicílios brasileiros de classe B possuem acesso à internet, 48% dos domicílios brasileiros de classe C possuem acesso à internet e 14% é o índice a

que se chega com a conjugação das classes D e E – o que constitui um fato realmente preocupante. (CGI.br, 2015).

Em 2002, José Marques de Melo (2002, p. 41) afirmava: “a internet brasileira é um canal de comunicação das elites, das classes A e B. Em outras palavras, das classes mais favorecidas e de segmentos específicos das classes médias”. Pelos dados observados é possível notar que esse quadro vem sofrendo algumas alterações. Em especial a classe C foi a que mais cresceu quanto ao acesso à internet. Mas, os números apresentados evidenciam que ainda há graves problemas e, por isso, a discussão sobre o apartheid digital criado no Brasil não pode parar.

Essa disparidade observada nos índices de acesso à internet entre as classes sociais brasileiras evidencia a desigualdade de oportunidades e, assim, uma afronta à construção da justiça social. Para se construir uma sociedade justa, as chances/possibilidades concedidas na linha de partida devem ser iguais entre os indivíduos de diferentes classes, pois somente assim os sujeitos chegarão até a linha de chegada de forma justa. Não podemos tolerar o abandono das classes dos excluídos. (SOUZA, 2016).

Além disso, a questão da velocidade também é um fator muito desigual. Enquanto que a velocidade acima de 8 Mbps está presente em 54% dos domicílios da classe A, apenas 7% dos domicílios da classe D e E alcançam isso. (CGI.br, 2015). Acredita-se que o acesso à internet deve ser acompanhado de velocidade rápida para desenvolver as atividades com êxito. Nesse sentido,

A velocidade e a largura de banda são obviamente essenciais para que se cumpra a promessa da Internet. Todos os serviços e aplicações actualmente em projecto, de que as pessoas vão realmente necessitar na sua vida e no seu trabalho, dependem do acesso a estas novas tecnologias de transmissão. (CASTELLS, 2001, p. 297).

Esses fatores, como já destacado pelas ONU, devem ser considerados e analisados com cautela ao falar em universalização da internet, pois com velocidade reduzida também se reduz as possibilidades de manuseio e interação deste meio. (UNITED NATIONS, 2011). Indubitavelmente, o acesso à internet na sociedade contemporânea é uma necessidade inadiável, principalmente quando se trata de acesso à informação, à educação, ao trabalho e à remuneração digna, destaca Rodrigo Rollemberg (2011), dentre tantos outros direitos que poderiam aqui ser citados. Nesse aspecto:

A equidade relacionada à utilização dos recursos tecnológicos torna-se uma aliada no combate à exclusão social, já que a inserção no mundo digital oferece um conjunto de recursos cruciais para o acesso à cultura, ao trabalho, à educação, à informação e, principalmente, ao conhecimento. (CÉLIO; PALMEIRA; SILVA; 2012, p. 2).

No mesmo sentido aponta Rodrigo Baggio (2000, p. 1):

Em plena Era da informação, é fundamental que se democratizem as ferramentas tecnológicas, um dos principais requisitos do novo mercado de trabalho, para que os novos recursos de comunicação e tecnologia não se transformem em um fator de aprofundamento de exclusão social.

Observa-se que a análise dos números de pessoas sem acesso à internet ou com acesso à internet, mas com velocidade lenta é imprescindível para que se possa dimensionar a quantidade de excluídos digitais que estão em nível de desigualdade hoje. Todavia, Manuel Castells (2001, p. 311) defende que o mais importante nesse problema é não apenas levar em conta os números, e sim é analisar as consequências que a falta de acesso ao mundo digital acarretam. Isso porque discutir o acesso à internet em tempos de pós-modernidade é tão importante quanto discutir o acesso à saúde, educação, água e eletricidade:

A info-exclusão fundamental não se mede pelo número de ligações à Internet, mas sim pelas consequências que tanto a ligação como a falta de ligação comportam, porque a Internet [...] não é apenas uma tecnologia: é o instrumento tecnológico e a forma organizativa que distribui o poder da informação, a geração de conhecimentos e a capacidade de ligar-se em rede em qualquer âmbito da atividade humana. Por este motivo, os países em vias de desenvolvimento estão apanhados na contradição da rede. Por um lado, o facto de estarem desligados, ou superficialmente ligados, à Internet supõe a marginalização do sistema reticular global. O desenvolvimento sem Internet seria equivalente à industrialização sem eletricidade durante a era industrial. É devido a isto que a afirmação tantas vezes ouvida relativamente à necessidade de começar “pelos problemas reais do Terceiro Mundo”, ou seja, a saúde, a educação, a água, a electricidade e outras necessidades, antes de se pensar no desenvolvimento da Internet, revela um profundo desconhecimento das questões que realmente importam hoje em dia. Com efeito, sem uma economia e um bom sistema de gestão baseados na Internet, é praticamente impossível que um país seja capaz de gerar os recursos necessários para cobrir as suas necessidades de desenvolvimento, numa base sustentável [...].

Antonio Miranda e Ana Valéria Machado Mendonça (2006, p. 1) corroboram esse entendimento. Para eles, o apartheid digital criado causa a limitação do

cumprimento dos direitos humanos, principalmente em sua esfera social, econômica e cultural. Logo:

A falta de acesso à informação e às tecnologias, assim como aos serviços e direitos cidadãos, deve ser uma preocupação constante dos governos no momento de pensar, planejar e instituir políticas e programas de inclusão social e combate à pobreza. Sabe-se, hoje, que a pobreza não é um fenômeno puramente econômico que pode ser superado apenas com a distribuição de renda. Ela não se caracteriza somente pela falta de acesso a riquezas produzidas, mas pela falta de acesso à educação, à saúde, à habitação, à participação social, aos direitos humanos e às tecnologias de informação e comunicação. Portanto, há de se considerar a importância à democratização de acesso às informações mediadas pelas tecnologias de informação, educação e comunicação como um capital fundamental no combate à exclusão digital, à pobreza e à ampliação dos direitos do cidadão.

De forma breve e didática, apenas para exemplificar sua importância, é corriqueiro que atualmente se cobrem conhecimentos em informática e internet inclusive nos concursos públicos que exigem apenas o ensino fundamental para a inscrição8. Com isso é notório que tanto o setor público, quanto o setor privado

desenvolvem cada vez mais sistemas informatizados para o seu funcionamento. Portanto, considerando que a internet está entre os meios de comunicação mais importantes para o acesso à informação em virtude da “[...] rapidez com que hoje fazem circular os conteúdos multimídia, elaborados com linguagens textuais, imagéticas e sonoras no mesmo suporte” (RADDATZ, 2012, p. 298), torna-se difícil imaginar como ficam as pessoas que não estão conectadas ao mundo digital.

Marialva Barbosa (2002, p. 119) assegura que a sociedade contemporânea sem os meios de comunicação é um fato impensável. A intervenção causada pelas TICs é tão presente na maior parte das ações desenvolvidas pelos seres humanos que se torna possível dizer que “[...] as atividades econômicas, políticas e sociais são