2 A EXPERIÊNCIA DO CORPO E SEU MOVIMENTO COMO
2.3 O PROCESSAMENTO DO AMBIENTE NO PRINCÍPIO ESTÍMULO-
Entender o fundamento que está por trás do princípio estímulo-resposta é importante na medida em que nos direciona também para a compreensão das propostas que se opõem a esse. Iremos fazer, então, um pequeno apanhado histórico-conceitual desse constructo para que possamos discutir com suas oposições e, mais adiante, nos acercar das implicações que nos levam a pensar que os movimentos corporais, na observação de uma videodança, estariam além de um comportamento baseado nesse princípio.
A noção de que nossos comportamentos físicos são respostas aos estímulos do ambiente tem uma longa história, mas podem ser demarcados, cientifica e fisiologicamente, com a descoberta de duas vias diferentes de condução do impulso nervoso pelos cientistas Charles Bell (1774-1842) e Francois Magendie (1783-1855), conhecidas como via aferente e
eferente e localizadas no sistema nervoso periférico. Constituem-se dos nervos sensitivos (raiz dorsal) e nervos motores (raiz ventral), denominados assim a partir de suas funções. Segundo essa visão, a função dos nervos sensitivos (via aferente) é receber a informação sensível (calor, luz, som, etc.) do ambiente, transformá-la em impulso eletroquímico e conduzir este impulso através dos neurônios até o sistema nervoso central. Depois de processada a informação no sistema nervoso central, ou seja, no encéfalo (cérebro e cerebelo) e medula espinhal, os nervos motores (via eferente) têm a função de transmitir a resposta até os músculos e efetivarem a ação motora. A captação da informação do ambiente e o despejo da informação na musculatura acontecem pelas terminações nervosas especializadas, que são as terminações de um prolongamento neural; um dendrito, no caso das terminações receptoras, ou um axônio, no caso das transmissoras. A conexão entre um neurônio a outro é realizada através da sinapse, descoberta em 1906 por Charles Sherrington (1857-1952). Assim, os comportamentos humanos foram interpretados a partir do aparecimento e do término de um estímulo. Foi dada aos comportamentos uma base fisiológica, olhando com bastante distinção para dentro do corpo a partir da utilização de aparelhos de medição da velocidade do estímulo e do seu limiar.
Esse processamento ficou conhecido como arco-reflexo e foi criticado, primeiramente, pelo pragmático John Dewey (1859-1952) em seu artigo “O Conceito de Arco-Reflexo em Psicologia” (The reflex arc concept in psychology - 1896). O entendimento de Dewey sobre o arco reflexo é importante para nossa pesquisa, pois sua análise nos proporciona uma visão crítica e detalhada desse constructo corroborando com os autores da empatia estética e cognição situada que discutiremos nas próximas seções.
Dewey atacou, veementemente, o reducionismo psicológico deste conceito e sua diferenciação estrita entre estímulo e resposta, que foi bastante promovida pelos fisiologistas experimentais80 no século XIX. Entre eles, aqueles fisiólogos que fundamentaram as primeiras abordagens dos teóricos da empatia estética como Hermann von Helmholtz (1821- 1894) e Wilhelm Wundt. Para Dewey, mais do que receber estímulos e responder ao ambiente, o ser humano interage com esse e não podem ser vistos de modo facilmente separáveis. Ele propôs que o caminho do estímulo para a reação deve ser visto como um _______________
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A psicologia experimental apoiou-se primeiramente na psicofísica, ciência fundada por Ernst Heinrich Weber (1795-1878) e Gustav Theodor Fechner (1801-1887), que estudavam a relação entre a percepção de um estímulo e a dimensão física desse estímulo, ou seja, partia dos processos da inter-relação entre a experiência subjetiva mental e estímulos físicos objetivos e quantificáveis. Weber, além de mapear as áreas de sensibilidade da pele, com pesquisas do limiar de dois pontos, estudou também o limiar da percepção do peso e demonstrou, através de uma equação matemática, o limiar minimamente perceptível, que é o limiar de diferença ou a diferença necessária entre um estímulo e outro para que uma pessoa perceba essa diferença.
processo dinâmico que mostra todo o organismo em contato ativo com seu ambiente e que se configura mais como um contínuo da coordenação sensório-motora do que duas entidades facilmente distinguíveis.
O dualismo mais antigo entre sensação e ideia é repetido no atual dualismo das estruturas e funções periféricas e centrais; o dualismo mais antigo de corpo e alma encontra um eco distinto no atual dualismo de estímulo e resposta. Em vez de interpretar o caráter de sensação, ideia e ação a partir de seu lugar e função no circuito sensório-motor, ainda nos inclinamos a interpretar o segundo a partir de nossas ideias preconcebidas e pré-formuladas de distinções rígidas entre sensações, pensamentos e atos. O estímulo sensorial é uma coisa, a atividade central, representando a ideia, é outra coisa, e a descarga motora, representando o ato propriamente dito, é uma terceira. Como resultado, o arco-reflexo não é uma unidade abrangente ou orgânica, mas uma colcha de retalhos de partes desarticuladas, uma conjunção mecânica de processos não combinados. (DEWEY, 1896, p. 357 - 358).81
Dewey aprofunda sua reflexão discordando da predeterminação do sensorium sobre o
motorium e que a reação motora não pode se configurar apenas como uma reação, pois
também determina a sensação. Para ele, não começamos a perceber com um estímulo sensorial, mas com uma coordenação sensório-motora. Na sua análise da percepção visual, por exemplo, é o movimento dos músculos do corpo, da cabeça e dos olhos que determinam a qualidade do que é experimentado visualmente, concluindo que o movimento que é primário e a sensação que é secundária, ou melhor, é um ato, uma coordenação sensório-motora, que estimula a resposta, por sua vez sensório-motora, e não uma sensação isolada que estimula um movimento. “Em outras palavras, o verdadeiro começo é com o ato de ver; está olhando, e não uma sensação de luz. O quale sensorial dá o valor do ato, assim como o movimento fornece seu mecanismo e controle, mas tanto a sensação quanto o movimento estão dentro e não fora do ato”. (DEWEY, 1896, p. 359).82
Dewey não nega a existência de um sistema aferente e eferente, mas discorda que essa dimensão fisiológica estrita, em termos de uma especificidade, tenha validade como existência psíquica. A interpretação de Dewey do arco reflexo sugere que a percepção e o comportamento estão diretamente relacionados e formam uma entidade dinâmica, na qual é difícil determinar onde começa o estímulo e termina em resposta, pois na vida real uma _______________
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The older dualism between sensation and idea is repeated in the current dualism of peripheral and central structures and functions; the older dualism of body and soul finds a distinct echo in the current dualism of stimulus and response. Instead of interpreting the character of sensation, idea and action from their place and function in the sensori-motor circuit, we still incline to interpret the latter from our preconceived and preformulated ideas of rigid distinctions between sensations, thoughts and acts. The sensory stimulus is one thing, the central activity, standing for the idea, is another thing, and the motor discharge, standing for the act proper, is a third. As a result, the reflex arc is not a comprehensive, or organic unity, but a patchwork of disjointed parts, a mechanical conjunction of unallied processe. (DEWEY, 1896, p. 357, 358).
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In other words, the real beginning is with the act of seeing; it is looking, and not a sensation of light. The sensory quale gives the value of the act, just as the movement furnishes its mechanism and control, but both sensation and movement lie inside, not outside the act. (DEWEY, 1896, p. 359).
resposta também é estímulo para a próxima ação, ou seja, é um circuito, e não um arco. Também neste circuito, os órgãos dos sentidos apoiam-se mutuamente e não percebem cada um de maneira isolada. E do mesmo modo que Dewey entende a inseparabilidade do sensório do motor, entende também a inseparabilidade dos objetos que percebemos das nossas ações e, por fim, a inseparabilidade das nossas ações e dos significados que damos a esses objetos.
Além disso, esses laços sensório-motores tornam-se portadores de significado, porque em sua formação, o organismo aprende o que é importante para eles. [...] os laços sensório-motores também se tornam portadores de significado nas interações sociais. Quando essas interações são ritualizadas e estabilizadas, finalmente temos uma base para o surgimento de um significado simbólico compartilhado. Com base nisso, Dewey pôde considerar, em outro trabalho seu, a experiência, o pensamento, a ciência e a arte também como algo que emerge com base na interação entre o organismo e o meio ambiente. (FINGERHUT; HUFENDIECK; WILD, 2013, p. 41).83
A base da reflexão de Dewey está na origem da argumentação empática de Wölfflin (1886) - antes mesmo de Dewey (1896) escrever sobre o arco-reflexo - quando advoga que estímulo nervoso óptico desencadeia uma excitação direta dos nervos motores sem passar por uma “incompreensível” transferência do self, apontando para a importância do Motorium na compreensão da arte. O pensamento dualista que está por trás do arco-reflexo também se compara ao pensamento cognitivista em que se compreende o cérebro como o processador dos nossos comportamentos. Desta forma, a crítica de Dewey ao arco reflexo também é uma das bases dos discursos das abordagens enativistas, ao afirmarem que “a rede neuronal não funciona como uma rede de sentido único da percepção para a ação. Percepção e ação,
sensorium e motorium se encontram interligados na qualidade de padrões sucessivamente
emergentes e mutualmente selecionados”. (VARELA; THOMPSON; ROSCH, 1991, p. 215). É no sentido de uma não predeterminação da sensação sobre a ação que entendemos que o fenômeno dos movimentos cinestésicos, gerado na experiência de assistir a videodança, não tem uma razão unilateral. O movimento do corpo, ao ver videodança, não pode estar apoiado na explicação da sensação causada pelo estímulo da informação das imagens vistas na tela e processadas no cérebro e retornadas para os músculos para a realização da ação. O próprio movimento do corpo que acontece em quem vê pode ser entendido aqui, também, como estímulo e fazer gerar sensação, significação e compreensão das imagens que vemos. _______________
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Mehr noch, diese sensomotorischen Schleifen werden selbst zum Träger von edeutung, denn in ihrer Ausbildung lernt der Organismus, was f r ihn wichtig ist. [...] werden sensomotorische Schleifen auch zu Trägern von Bedeutung in sozialen Interaktionen. Werden diese Interaktionen ritualisiert und stabilisiert, haben wir schlie lich eine Grundlage f r die Entstehung geteilter, symbolischerer Bedeutung. Auf dieser Grundlage konnte Dewey in seinem weiteren Werk auch Erfahrung, Denken, Wissenschaft und Kunst als etwas verstehen, was auf der Grundlage der Interaktion zwischen Organismus und Umwelt entsteht. (FINGERHUT; HUFENDICK; WILD, 2013, p. 41).
Nesse sentido, o movimento apoiaria e estaria incluso na própria percepção e não seria apenas o resultado dessa.
Depois dessa breve explanação sobre o conceito estímulo-resposta, iremos ver agora cada uma das abordagens empáticas mais detalhadamente, sua convergência com as abordagens da cognição situada e como pode ser a ação ou o movimento um engajamento perceptual fora desse constructo. Essas abordagens utilizam dados de pesquisas empíricas para explicar seus argumentos; também iremos fazer usos desses dados algumas vezes para esclarecer melhor suas posições.