3 A CONTABILIDADE NO BRASIL, AS RECENTES ALTERAÇÕES E OS DESAFIOS
3.6 O Processo de Convergência no Brasil e a Lei 11.638/07
Em 28 de dezembro de 2007, após 7 (sete) anos de debates, emendas e outras questões relacionadas, o Projeto de Lei 3.741/2000 foi aprovado e sancionado pela Presidência da República, transformando-se na Lei no. 11.638/07,
tendo validade a partir do dia 1º de Janeiro de 2008.
Nas palavras de Almeida; Braga (2008, p.2) a finalidade maior do projeto de lei era possibilitar a eliminação de algumas barreiras regulatórias que impediam a inserção total das companhias abertas no processo de convergência contábil internacional. Também era de aumentar o grau de transparência das demonstrações financeiras em geral, inclusive em relação às empresas que não estivessem constituídas na forma de sociedades por ações, mas que representassem grande parte da riqueza gerada no país.
A Lei no. 11.638/07 traz em seu cabeçalho a informação de que altera e revoga dispositivos da Lei n. 6.404, de 15 de dezembro de 1976, e da Lei no 6.385, de 7 de dezembro de 1976, e estende às sociedades de grande porte disposições relativas à elaboração e divulgação de demonstrações financeiras
É possível destacar que essa lei tem dois grandes objetivos: i) atualizar a legislação societária brasileira no que se refere à preparação de demonstrações financeiras, haja vista o longo hiato desde a lei de 1976 e ii) convergir a legislação societária brasileira, quanto às demonstrações financeiras, às normas internacionais de contabilidade.
Muito embora os profissionais de contabilidade estivessem atentos ao fato de que havia um Projeto de Lei em tramitação, é possível afirmar que a promulgação da lei causou grande surpresa no meio profissional da contabilidade. Aqui, nos referimos aos profissionais, acadêmicos, empresas, organismos profissionais e outros atores deste processo.
Isso porque a lei entrou em vigor e vários aspectos estavam (e outros ainda estão) por definir, considerando as características de nosso sistema. Os principais fatores que causaram certa indefinição podem ser resumidos em: i) falta de pronunciamentos que orientassem a preparação e apresentação das demonstrações financeiras; ii) aspectos fiscais-tributários envolvidos, quando se trata de alteração de disposições contábeis na apuração do resultado.
Um problema sério surgiu ao largo do tempo que o então Projeto de Lei no. 3.741/00 levou no congresso para se transformar na Lei no 11.638/07: as normas internacionais evoluíram, e sofreram grandes modificações em função inclusive da adesão da União Européia, mas o projeto de Lei não capturou essas inovações. Assim, a Lei no. 11.638/07 trouxe grande evolução, mas com algumas defasagens e
alguns conceitos ultrapassados (...) (IUDICIBUS; MARTINS; GELBCKE, 2009, p.5).
Os mesmos autores destacam sobre as questões fiscais:
Outra pendência bastante forte para que a Lei no. 11.638/07 pudesse entrar em plena vigência era relativa às questões fiscais que mudanças dessa natureza acabam por provocar. Mesmo tendo o texto da referida Lei referência expressa (artigo 177, parágrafo 7º) de que os registros de ajustes efetuados com o objetivo da harmonização às regras internacionais não poderiam ser base de incidência de impostos ou contribuições ou quaisquer outros efeitos tributários, havia certo desconforto no mercado no sentido da efetiva neutralidade tributária da Lei. Esse desconforto aumentou ainda mais quando a própria Receita Federal do Brasil passou a reconhecer a dificuldade nesse sentido (...) (Ibidem, p.5).
Assim, os meses que se passaram após sua promulgação foram de muitas discussões, pesquisas, trabalhos e regulamentações para que houvesse um atendimento correto às profundas alterações por ela trazidas.
A legislação apresenta diversas alterações de forma, como por exemplo, exigência de novas demonstrações financeiras e diferente forma de apresentação de algumas delas. No entanto, as principais alterações se referem a aspectos essenciais sobre a maneira como se pensa e se faz contabilidade, diferentemente das situações as quais estávamos acostumados.
A essência das alterações pode ser resumida em três tópicos, como citados por Iudicibus e Martins e Gelbcke (2009, p.8) e descritos abaixo, em redação do autor deste trabalho de pesquisa. Citaremos exemplos elucidativos, mas sem entrar em aspectos técnicos avançados.
• Primazia da essência sobre a forma – há tempos que no Brasil temos esse princípio contábil, do ponto de vista conceitual, mas que nem sempre fora levado em consideração. Esse tópico ressalta que as operações na contabilidade devem ser reconhecidas e mensuradas de acordo com a essência econômica da operação, independente do que emana a forma contratual ou jurídica. Um bom exemplo é a forma como deve ser reconhecida a receita nas demonstrações contábeis: a emissão de uma nota fiscal (forma) não necessariamente representa que o processo para o reconhecimento da
receita esteja concluído, pois algumas condições devem ser atingidas, como por exemplo, a efetiva entrega de produtos ao comprador;
• Primazia da análise de riscos e benefícios sobre a propriedade jurídica – por anos, em função de nossa legislação societária, deixamos de reconhecer ativos nas entidades, uma vez que, do ponto de vista da forma jurídica, não se havia transferido a propriedade. Em alguns casos, como das operações de arrendamento mercantil financeiro, ainda que a entidade tivesse o controle substancial de riscos e benefícios do ativo, estes permaneciam reconhecidos nas demonstrações contábeis do arrendador;
• Normas orientadas por princípios e não por regras excessivamente detalhadas e formalizadas – essa é uma alteração bastante genérica, no sentido que tem interferência sobre praticamente todas as operações realizadas por uma empresa quando reconhecidas pela contabilidade. Os pronunciamentos emitidos pelo Comitê de Pronunciamentos Contábeis, em consonância com os pronunciamentos emitidos pelo IASB são baseados em princípios, que tem caráter mais genérico, e não em regras, que seriam mais específicas. Essa situação, ao contrário da história da contabilidade no Brasil, exige que os profissionais de contabilidade exerçam seu julgamento profissional para decisões sobre reconhecimento, mensuração e evidenciação de práticas contábeis.
Outra alteração importante trazida pela Lei no. 11.638/07 é de que inclui, para efeitos de preparação de demonstrações financeiras, as empresas de grande porte, ainda que não constituídas sob a forma de sociedade por ações. Nesse caso, dá indicação de que essas empresas são aquelas que, ainda que divididas em várias empresas, mas sob controle comum no exercício anterior, tenham apresentado Ativos com valores maiores do que R$ 240.000.000 (duzentos e quarenta milhões de reais) ou Faturamento maior do que R$ 300.000.000 (trezentos milhões de reais). Trata-se de uma alteração importante, pois traz para a realidade destas normas contábeis um número maior de empresas.
emitir um grande número de documentos, tendo como base os pronunciamentos das normas internacionais de contabilidade. Foram 15 em 2008 e mais de 20 emitidos em 2009, até o momento presente.
Embora vários destes contenham práticas contábeis já adotadas no Brasil há algum tempo, diferenças significativas são apresentadas em outros pronunciamentos e, para várias empresas e profissionais, constituem nova forma de se preparar e apresentar demonstrações financeiras.
É importante destacar que, considerando a realidade de Direito Codificado do Brasil, os pronunciamentos do CPC devem ser aprovados pelos órgãos reguladores que, à exceção do Banco Central do Brasil, vêm aprovando sistematicamente tais pronunciamentos, com destaque para: i) o Conselho Federal de Contabilidade, fazendo com que os novos pronunciamentos sejam convertidos em Normas Brasileiras de Contabilidade e, portanto, façam parte do exercício profissional de todos os bacharéis em Ciências Contábeis, e ii) pela Comissão de Valores Mobiliários, que emite deliberações que tem força de lei para as companhias abertas brasileiras, determinando que esses pronunciamentos devem ser adotados. Em conseqüência disso, os auditores independentes das demonstrações financeiras realizam seus trabalhos também com base nesses pronunciamentos.