1. Revisão de literatura
3.7 O processo de (De)Codificação baseada em categorias
Para a análise dos dados qualitativos foi utilizada a análise de conteúdo. Conforme Bardin, “o objeto da análise de conteúdo é a fala, isto é, o aspecto individual e atual (em ato) da linguagem” (BARDIN, 2011, p.49.).
A análise de conteúdo desta pesquisa foi feita em três etapas. De acordo com GIBBS (2009. p.72) cada etapa recebe um nome. Para cada questão do roteiro de pesquisa foi adotado esse processo, ou seja, o conjunto das análises dos diferentes respondentes foi reunido num “memorando” o qual passou a constituir células analíticas de cada objetivo específico.
Importante chamar a atenção de que a elaboração de memorandos não é uma escrita aleatória. De acordo com GIBBS (2009),
Os memorandos são pensamentos analíticos sobre os códigos e proporcionam esclarecimento e orientação durante a codificação [e] esta necessita de uma ideia ou tema fundamental, que seja indispensável para explicar os muitos eventos, situações, ações e outros fenômenos que seu relatório discuta (GIBBS, 2009, p.51; p.57).
As etapas de decodificação foram as seguintes:
a) Etapa 1: “Corresponde a (De)Codificação aberta: o texto é lido de forma reflexiva para identificar categorias relevantes”. Esta etapa ocorreu quando da elaboração do capítulo 1 (Revisão de Literatura). A partir das referências bibliográficas foram identificadas as categorias de análise necessárias à investigação;
b) Etapa 2: “Categorização axial: as categorias são refinadas, desenvolvidas e relacionadas ou interconectadas”. O refinamento das categorias desta investigação decorreu da realização dos pré-testes. Nesta fase ocorreu a supressão de algumas categorias redundantes relacionadas a fatores determinantes do comportamento do (a) consumidor (a);
c) Etapa 3: “Codificação seletiva, na qual a ‘categoria fundamental’ ou central faz com que todas as outras categorias se conectem em uma história”. Ainda no pré-teste foi incorporada a categoria de trajetória para coleta de dados junto às respondentes.
A “análise de conteúdo deste trabalho teve sua (de)codificação baseada em conceitos ou categorias que emergiram da literatura de pesquisa, no roteiro da entrevista e de percepções do que aconteceu” durante a realização da pesquisa (GIBBS, 2009, p.67)
Os resultados das entrevistas foram então (de)codificados. Chama-se atenção para o fato de que nesta pesquisa compreende-se por “decodificação”, o que GIBBS (2009, p.60) trata por “codificação”. Entende a autora desta pesquisa que codificação se refere às tentativas de transformar o que é conhecimento tácito anterior, em algo codificado através das suas narrativas. Já a decodificação trata do esforço analítico de quem tenta traduzir esses códigos dos respondentes. Para GIBBS (2009, p.60),
É a forma como você define sobre o que se trata os dados em análise. Envolve a identificação e o registro de uma ou mais passagens de texto ou outros itens dos dados, como partes do quadro geral que, em algum sentido, exemplificam a mesma ideia teórica e descritiva. Geralmente várias passagens são identificadas e então relacionadas com um nome para a ideia, ou seja, o código (GIBBS, 2009, p. 60).
A análise de conteúdo consiste então, nas falas das respondentes, de como elas tentaram resumir em forma de códigos verbais (expressão) suas representações mentais as perguntas das “passagens nas entrevistas relacionadas com um nome para a ideia. O código. Que exemplificam a mesma ideia teórica e descritiva”34 (GIBBS, 2009, p.60).
Desta forma foi possível à codificação pelas falas das respondentes e decodificação pela pesquisadora para análise por conteúdo. Vale salientar que “a análise de conteúdo tenta compreender os jogadores ou o ambiente do jogo num momento determinado, com o contributo das partes observáveis” (BARDIN, 2011, p.49). Este tipo de análise é pertinente a essa pesquisa, por se tratar de “atos e comportamentos específicos, atividades, estratégias, práticas ou táticas” [...] a qual emergiu da fundamentação teórica apresentada, mas com o cuidado de não se limitar apenas “a aceitar as visões de mundo dos participantes”, sem refletir sobre estas (GIBBS, 2009, p.69; 77-78).
A operacionalização dos dados para análise passou então pelas etapas de “pré-análise, exploração do material e tratamento dos resultados obtidos e interpretação”. As entrevistas, sendo os dados brutos, foram “tratadas de maneira a serem significativas (‘falantes’) e válidas” (BARDIN, 2011, p.125; p.131;132.).
Retomando aos memorandos, observe-os “como uma forma de teorizar e comentar à medida que [o (a) pesquisador (a)] faz a codificação temática de ideias e desenvolve a estrutura analítica em termos gerais” (GIBBS, 2009, p.50). É um processo que ocorre concomitantemente. A (de)codificação e a elaboração dos memorandos estão representadas na Tabela 6 [“Exemplo de (De)Codificação: Trajetória e Mobilidade Ocupacional”].
Apresenta-se como exemplo, a codificação e o memorando referente à trajetória e mobilidade ocupacional representados na Tabela 6. Sua elaboração teve por base os tópicos do Roteiro de Entrevista de n.º 3 (GIBBS, 2009, p.67) precedidos das categorias de análise eleitas para realização da coleta de dados junto às respondentes desta pesquisa.
Tabela 6: Exemplo (DE)Codificação de Trajetória e Mobilidade Ocupacional 2.1.1 Como começou a exercer a atividade
de comerciante de moda-vestuário? (DE)Codificação Respondente
1
Quando abriu a venda em Sta. Cruz, não tinha C&A, essas lojas. Era somente malha. Não tinha nem ônibus prá lá! Ia de excursão ou ônibus Caruaru na rodoviária tinha Brasília (modelo de carro) para Sta.Cruz. Soube por uma amiga.
Por indicação de amiga
2 Com a minha mãe. Desde pequena. De mãe pra filha.
Seguiu atividade materna 3 De porta em porta. Por iniciativa própria. Iniciativa própria Memorando:
A maioria (21) diz ter começado por iniciativa própria. Outras dizem ter seguido indicação/sugestão de amigas e familiares próximos (9). Em síntese, as comerciantes reproduzem o que vivenciaram junto a pessoas de seu convívio, por vezes responsáveis pela formação de suas identidades (DUBAR, 1996). Por sua vez, Bourdieu (1990, p.30- 32 apud BRITTO MOTTA, 2002, p. 40) ‘irá trazer o conceito de “habitus”, uma construção de práticas “imediatamente ajustadas ao presente”. No qual o ‘habitus’, é produto de toda a história individual, bem como, através das experiências formadoras da primeira infância, de toda a história coletiva da família e da classe [...]. O que foi mais bem evidenciado quando dos motivos que levaram as comerciantes a adotarem a ocupação de comerciantes de moda-vestuário.
Fonte: Elaborado pela autora.
As ferramentas elaboradas para a coleta de dados e análise dos resultados por conteúdo constituíram-se na metodologia desta pesquisa. Por esta foi possível trazer à luz como as comerciantes iniciaram sua atividade de agente de comercialização, seus aprendizados com o exercício da atividade, e principalmente como exercem sua atividade no cotidiano e como o exercício de sua ocupação contribui para o consumo de moda-vestuário dos produtos oriundos das pequenas empresas de confecções de Santa Cruz do Capibaribe.