É muito comum utilizarmos os substantivos “ensino” e “aprendizagem” para nos referirmos aos processos de “ensinar” e de “aprender”. Difi cilmente fi ca claro que essas palavras estão se referindo a uma ação, a algo que esteja em movimento, em processo e não a coisas estáticas ou fi xas. Também não podemos dizer que se trate de dois processos independentes ou separados. Nesse sentido, é melhor usar verbos que se refi ram a esse processo, fundamentalmente constituído por uma interação entre duas ações.
Desta forma, surgem alguns questionamentos importantes: O que é ensinar?
O que é aprender? Como é que estes dois processos se relacionam? Quais tipos de características constituem esses fenômenos? Como produzi-los? Como interferir em suas características?
As respostas tradicionais não satisfazem. Defi nições como as de dicionários afi rmam que ensinar é dar instrução, doutrinar, mostrar com ensinamento, demonstrar, instruir, transmitir conhecimento ou conteúdo, informar, preparar, dar consciência, e aprender é adquirir conhecimento, instruir-se.
Freire (1971) denunciou que essas expressões são compatíveis com o que defi ne uma ‘concepção bancária’ de educação e não permitem o desenvolvimento de uma ‘prática educacional’ adequada e crítica. Isso se dá pelo fato de a educação bancária não buscar a conscientização dos educandos. Nesse caso, a educação “é puro treino, é pura transferência de conteúdo, é quase adestramento, é puro exercício de adaptação ao mundo” (FREIRE, 2000, p. 101).
Assim, Freire (2005) afi rma que uma verdadeira libertação dos homens e a sua humanização não podem ser realizadas por meio de ‘depósitos’, tal qual a educação bancária faz. Deve-se, sim, realizar-se com a práxis: ação e refl exão sobre o mundo. A educação libertadora e problematizadora do sujeito não pode ser a favor de ‘depósitos’ de conteúdos nos corpos ‘vazios’ dos educandos, nem de uma consciência mecanizada. Homens e mulheres precisam ser corpos conscientes. Desta forma:
A educação libertadora, problematizadora, já não pode ser o ato de depositar, ou de narrar, ou de transferir, ou de transmitir “conhecimentos” e valores aos educandos, meros pacientes, à maneira da educação “bancária”, mas um ato cognoscente. […] O antagonismo entre as duas concepções, uma, a “bancária” [grifos do autor], que serve à dominação;
outra, a problematizadora, que serve à libertação, toma corpo exatamente aí. Enquanto a primeira, necessariamente, mantém a contradição educador-educando, a segunda realiza a superação (FREIRE, 2005, p. 78).
Freire (2004, p. 69) ressalta ainda que a educação bancária tem como objetivo realizar uma divisão entre “os que sabem e os que não sabem, entre oprimidos e opressores”, negando o diálogo e a educação problematizadora, em contrapartida, “funda-se justamente na relação dialógico-dialética entre educador e educando: ambos aprendem juntos”. A libertação acontece por meio de uma educação que desenvolve a consciência e a humanização nos educandos e educadores, possibilitando a superação da opressão, da domesticação e da adaptação.
É preciso destacar que uma das funções do professor é a organização e o planejamento do ensino, recorrendo constantemente à escolha de uma didática apropriada e efi ciente, adequada à realidade da turma e aos objetivos e conteúdos que serão trabalhados e que se pretende levar os discentes a alcançarem. É reconhecendo a importância da didática que o profi ssional docente aceita que teoria e prática são indissociáveis no processo de ensino e aprendizagem, já que, como ramo específi co da pedagogia, investiga os fundamentos, as condições e os processos próprios para a construção do conhecimento.
A escola oferta um conhecimento organizado e possibilita uma educação intencional. Neste sentido, ela deve estar conectada com as transformações da sociedade para propiciar em todos os aspectos a formação integral do indivíduo.
Assim, é primordial que possibilite ao educando uma formação humanizadora, que concorde com as novas concepções de cidadania; ao mesmo tempo, fertilize no estudante a capacidade de refl exão e de criticidade com o conhecimento histórico-cultural para contribuir na construção de um pensamento autônomo e independente. Esse pensamento sobre educação é compatível com a concepção de Libâneo (2004, p. 64), ao explicitar que a:
Educação compreende o conjunto dos processos, infl uências, estruturas, ações, que intervêm no desenvolvimento humano de indivíduos e grupos na sua relação ativa com o meio natural e social, num determinado contexto de relações entre grupos e classes sociais, visando à formação do ser humano. [...] é uma prática social, que modifi ca os seres humanos nos seus estados físicos, mentais, espirituais, culturais, que dá uma confi guração a nossa existência humana individual e grupal.
É nessa concepção abrangente de educação, que considera a formação integral do indivíduo, que o aluno é considerado o principal foco e, por sua vez, o educador tem um papel bem mais relevante na sociedade contemporânea.
Ele deve assumir a postura de mediador do ensino, desempenhando a relação ativa dos alunos com a matéria, considerando os conhecimentos prévios que eles trazem à sala de aula, seu potencial cognitivo, suas capacidades de interesse e suas formas de pensar.
Com base no exposto, o professor deve ajudar no desenvolvimento de competências do pensamento de estudantes, estimulando a elaboração de situações-problema, perguntas, escutando os alunos, ensinando a argumentar, dando a oportunidade de expressarem seus sentimentos e desejos para fi car informado sobre sua realidade vivida.
Coadunando com este entendimento, Libâneo (1992, p. 222) destaca “que o planejamento é um processo de racionalização, organização e coordenação da
ação docente, articulando a atividade escolar e a problemática do contexto social”.
Desta forma, é dever do professor prever condições concretas e as estratégias didáticas para orientar discentes, de maneira intencional, para fi ns de educação formativa. Para isso, é imprescindível a refl exão na ação. Sobre esse prisma, Gomes (1997, p. 104) explicita:
[...] a refl exão na ação é um processo de extraordinária riqueza na formação do profi ssional prático. Pode considerar-se o primeiro espaço de confrontação empírica com a realidade problemática, a partir de um conjunto de esquemas teóricos e de convicções implícitas do profi ssional. Quando o profi ssional se revela fl exível e aberto ao cenário complexo de interações da prática, a refl exão na ação é o melhor instrumento de aprendizagem. No contato com a situação prática, não só se adquirem novas teorias, esquemas e conceitos, como se aprende o próprio processo dialético da aprendizagem.
Em tempos passados, a atuação do docente se restringia à mera transmissão de informações, contudo, na atualidade, este profi ssional é constantemente desafi ado a refl etir não somente na ação, mas também sobre a ação, para diagnosticar os dilemas da prática educativa, determinar os objetivos dessa ação e entrar com os meios viáveis para alcançar os objetivos. É justamente neste aspecto que a didática deve atuar como ciência da educação, subsidiando as escolhas com os recursos adequados para atingir os objetivos formativos.
A tarefa de ensinar a pensar e a aprender a aprender exige do educador o conhecimento de estratégias de ensino e o desenvolvimento de suas próprias competências de pensar, porque, se este é incapaz de refl etir e planejar sua ação, será impossível aguçar nos alunos a necessidade de aprender. Ademais, o educador precisa propiciar aos estudantes uma educação humanizadora.
Para tanto, é fundamental que refl ita no “ser” como sujeito do próprio conhecimento, nos seus sentimentos e nas relações interpessoais, nos seus contextos sociais e econômicos. Mais do que instigar o crescimento cognitivo, a educação deve auxiliar na interação dos sujeitos com o contexto social, para pensar e atuar de maneira crítica e autônoma, reconhecendo seus direitos e deveres enquanto ser social.
É necessário enfatizar que a apropriação crítica da realidade através dos conteúdos que o docente administra deve considerar os valores sobre a prática social e contextualizar, de modo que estimule a indagar, a argumentar, a decidir e a agir na comunidade. Além disso, a sociedade exige do profi ssional da educação que trabalhe de forma interdisciplinar.
É preciso salientar que, até hoje, percebemos que vigora em muitas escolas uma prática pluridisciplinar, cujo conceito trazido por Alves (2001) ressalta que esta segue as disciplinas do currículo, as quais são impostas isoladamente sem integração entre as diversas áreas do conhecimento. Normalmente, segue um cronograma de horários rígidos, sem levar em consideração as defasagens de aprendizado dos estudantes.
Já no contexto da interdisciplinaridade, há uma integração entre duas ou mais áreas do conhecimento que se complementam para explorar os confl itos que ocorrem na vivência social. Para Paiva e Silva (2015), a prática interdisciplinar não se dá, unicamente, de maneira a introduzir o conhecimento científi co na educação e, sim, entender o que se passa fora da escola, com o intuito de transformar a história da sociedade. É importante destacar que a ação interdisciplinar requer inovação no pensamento e, consequentemente, na atividade docente, para que educandos consigam a maturidade intelectual de sempre fazer a integração das disciplinas ao seu contexto histórico.
Então, para que as conexões entre ensino e aprendizagem aconteçam de forma interligada, proposital e consciente, faz-se necessário que a didática seja a ponte que liga a prática à teoria. Sobre isso, Libâneo (1992, p. 28) explicita:
[...] a didática se caracteriza como mediação entre as bases teórico-científi cas da educação escolar e a prática docente.
Ela opera como que uma ponte entre o ‘o que’ e o ‘como’ do processo pedagógico escolar. A teoria pedagógica orienta a ação educativa escolar mediante objetivos, conteúdos e tarefas de formação cultural e científi ca, tendo em vista exigências sociais concretas; por sua vez, a ação educativa somente pode realizar-se pela atividade prática do professor, de modo que as situações didáticas concretas requerem o ‘como’ da intervenção pedagógica.
É desta forma que a didática está intimamente ligada à teoria da educação, com a fi nalidade de colaborar para a superação do instrumentalismo e proporcionar ao profi ssional docente as estratégias pertinentes para pôr em prática a teoria e alcançar os objetivos do processo formativo.
Para que isso ocorra, alguns procedimentos são necessários no processo de ensino e aprendizagem. Libâneo (1992, p. 145) chama esses procedimentos de metodologia e esta pode seguir três passos articulados entre si, a saber, síncrese, análise e síntese. “Do sincrético pelo analítico para o sintético”. Com isso, ressalta que o conhecimento para ser apropriado pelo aluno segue determinados procedimentos de caráter científi co. O autor afi rma que:
A síncrese corresponde à visão global indeterminada, confusa,
fragmentada da realidade; a análise consiste no desdobramento da realidade em seus elementos, a parte como parte do todo; a síntese é o resultado da integração de todos os conhecimentos parciais num todo orgânico e lógico, resultando em novas formas de ação (LIBÂNEO, 1992, p. 145).
Para que o professor possa organizar sua aula e propor uma avaliação, é preciso considerar as etapas que o aluno percorrerá a partir de sua vivência social, de seu conhecimento prévio. Esse processo tem que ser entendido de forma dinâmica e não estática ou como um ritual burocrático que todos devem, necessariamente, cumprir, tendo como parâmetro um modelo ideal.
O docente tem consciência de que a sala de aula não é um ambiente passivo e homogêneo, que os estudantes não possuem o mesmo padrão de comportamento, não são como máquinas. Cada sujeito é diferente dos outros sujeitos e possui suas especifi cidades. Portanto, cabe ao docente pensar, refl etir e selecionar as melhores e mais variadas metodologias de ensino e de aprendizagem a serem utilizadas em cada uma de suas aulas, assim como estabelecer um ambiente de troca e cooperação na sala de aula.
Na relação professor-aluno, por exemplo, o diálogo é fundamental para que aconteça a mediação de conhecimentos, é no momento em que professor e alunos conversam sobre determinado assunto que o professor poderá observar os conhecimentos prévios de cada um e estabelecer os procedimentos necessários para a introdução de novos conteúdos.
Neste sentido, o professor precisa ser incentivador e orientador. Incentivador quanto a novas descobertas, descortinar novos horizontes e oportunidades aos alunos. Estimular a participação de todos nos debates e trabalhos propostos para que ocorra a construção de relações de respeito, ética e autoestima dos alunos.
Deve assumir papel de orientador e incentivador na busca pelo conhecimento.
Alguém que respeita a diversidade e a pluralidade de ideias, pois isso enriquece os debates, enriquece sua própria aula e assim cria condições para traçar mecanismos que lhe subsidiem os momentos de avaliação.
Assim, acredita-se que o processo de ensino e aprendizagem será desenvolvido respeitando a singularidade dos alunos, seguindo os fundamentos do trabalho educativo e do desenvolvimento da aprendizagem, dando sentido aos sujeitos envolvidos nessa ação.
Desta forma, o processo de avaliação não acontece como punição. A literatura educacional aponta a necessidade dessa superação, como os estudos de Hoffman (2000) sobre a avaliação mediadora. Mediadora do processo que valoriza o conhecimento prévio do aluno e o coloca frente ao conhecimento
científi co e assim possibilita as condições necessárias para a produção de novos conhecimentos.
Os estudos de Luckesi (1983) evidenciam como a avaliação deve ser proposta pela escola e pelo professor. O valor da avaliação encontra-se no fato de o aluno poder tomar conhecimento de seus avanços e difi culdades. Cabe ao professor desafi á-lo a superar as difi culdades e continuar progredindo na construção dos conhecimentos. A avaliação não deve ser autoritária e conservadora, precisa ter a missão de ser diagnóstica, ou seja, deverá ser o instrumento de identifi cação de novos rumos e novas aprendizagens.
A maneira de conceber a avaliação e de colocá-la em prática tem que atender uma proposta anterior a sua aplicação, bem como a defi nição dos instrumentos avaliativos que serão utilizados, com objetivos e critérios determinados, para estar em consonância com o tipo de abordagem pedagógica proposta e adotada pelo docente. Isso também defi nirá o tipo de educação ofertada e de que maneira se dá a relação entre ensino e aprendizagem.
1 A partir do que foi estudado nessa seção, fale um pouco sobre o papel do professor no processo de ensino e aprendizagem.
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