2. Os Juízes Municipais
2.2 O processo de escolha dos juízes após 1841
Nas seções anteriores foi afirmado que a Reforma do Código do Processo Criminal previa que os Juízes Municipais deveriam ser escolhidos pelo poder central por meio de nomeações feitas pelo imperador ou seus representantes.
Nos últimos meses de 1845, o Juiz Municipal da época, João Vicente Nóbrega Dutra, elaborou uma lista, a pedido do presidente da Província, com dezoito nomes de
“cidadãos probos e aptos”179a tomarem posse do cargo de Juiz Municipal, de Órfãos e Delegado que entrariam em vacância com a sua saída.
A relação de nomes atendia a um pedido do próprio Presidente que buscava sugestões do atual juiz sobre os homens que poderiam substituí-lo. Essa atitude permite entrever que o processo de nomeação não era tão rígido e centralizado como a lei ordenava. Além disso, ao pedir que o atual juiz indicasse possíveis substitutos, o Presidente demonstrava que suas relações com a autoridade local estavam afinadas e eram pautadas pela confiança. Também sugere uma percepção das autoridades externas à vila de que as elites locais deveriam participar desse processo decisório. Portanto, na prática, não são mais listas tríplices, mas uma lista com muito mais nomes a partir da
179 .Ofícios do Juiz Municipal de São Francisco para o Presidente da Província de Santa Catarina, 1833-1850 – APESC. Relação das pessoas que se acham nas circunstâncias de exercerem os cargos de Delegado, Juiz Municipal e de Órfãos no termo desta Vila. Oficio seguramente datado de fins de 1845
qual o Presidente escolheria o Juiz Municipal, Órfãos e Delegado, assim como os suplentes.
Contudo, essa consulta do Presidente ao juiz Dutra com a finalidade de nomear um substituto não é fator suficiente para afirmar que as elites locais possuíam autonomia e grande poder nas escolhas dos ocupantes dos postos. Conforme já visto, o executivo provincial detinha prerrogativas de intervenção arbitral nas querelas locais.
Além disso, os Juízes Municipais exerciam funções que tradicionalmente eram atribuídas as Câmaras Municipais, tirando, portanto, atribuições do conjunto da elite local. Ou seja, aparentemente o poder provincial usava o mecanismo de referendar a autoridade de um membro local e acabava, com isso, minando a autoridade da elite em seu conjunto. Portanto, a situação sinaliza para uma negociação entre Presidente e elite local, porém essa se dava de forma desigual, pois o tom dessa relação caminha na direção de mostrar um Presidente que graciosamente consulta o seu colaborador que agia como braço da centralização para reforçar sua autoridade e manter o seu esquema provincial de cooptação de membros não preponderantes no tecido social.
Conforme se observará nos capítulos seguintes, o caso de São Francisco do Sul segue esse caminho. O Tenente Coronel Francisco de Oliveira Camacho, que fora Juiz Municipal na década de 1830, deputado da Assembleia Legislativa Provincial nas décadas de 1830 e 1840 e Comandante Militar na década de 1840, acabou sendo cooptado pelo poder provincial para ser a grande liderança local e, nesse processo, acabou por reduzir o poder de outros grupos. Os outros Juízes Municipais não foram tão acionados como padrinhos e observou-se, como se verá logo adiante, que a rede social era bastante conectada sem a participação deles.
O caso de Camacho demonstra que as elites locais ainda eram fundamentais para o Estado, contudo a autoridade dos potentados só se fortalecia na medida em que estavam enfronhados no Estado. Conforme observou Dolhnikoff, isso era possível a uma minoria que conseguia se fazer presente além de seu curral eleitoral. É necessário colocar que esses braços locais da centralização com raízes na Província faziam o jogo do centro com as elites locais, pois as enfraqueciam. Contudo, também construíam suas próprias posições, independentes das diretrizes do Estado.
A partir dos registros de batismo, foi possível fazer um exercício para verificar as relações de compadrio tecidas pelos indivíduos que ocuparam o posto de Juiz Municipal. Conforme Sugere Daniel Santilli,
“Se determinada pessoa escolhe outro não familiar como padrinho de seu filho, e por sua vez este aceita, se estabelece uma ligação voluntária entre eles que pode significar um acumulo de direitos e obrigações entre os compadres. Logo deverá estudar-se se esse compromisso ultrapassava a pia batismal, e, seu caráter voluntário sugere a constituição de redes.”180
A escolha dos padrinhos, portanto, aponta para o estabelecimento de redes sociais. Adotando esse procedimento, foi elaborado o Diagrama I que representa os compadres dos Juízes Municipais e o Diagrama II que agrega também os compadres dos compadres:
180 SANTILLI, Daniel. "Representación gráfica de redes sociales. Un método de obtención y un ejemplo historico". In: Mundo Agrario. Revista de Estudios Rurales. Centro de Estudios Histórico Rurales.
Universidad Nacional de la Plata. (n. 6). primeiro semestre de 2003.
DIAGRAMA I
Relações de compadrio dos cinco Juízes Municipais
Fonte: Registros de batismo da vila de Nossa Senhora da Graça do Rio de São Francisco do Sul. Arquivo da Mitra Diocesana de Joinville. Livros IX e X. Anos 1838 a 1839 e 1844 a 1850.
DIAGRAMA 2
Relações de compadrio dos Juízes Municipais e dos compadres de seus compadres
Fonte: Registros de batismo da vila de Nossa Senhora da Graça do Rio de São Francisco do Sul. Arquivo da Mitra Diocesana de Joinville. Livros IX e X. Anos 1838 a 1839 e 1844 a 1850. OBS: os Juízes Municipais encontram-se circulados em cor vermelha.
O Diagrama II foi constituído por duzentos e trinta e quatro indivíduos em uma população de 8 140 habitantes (6 896 livres e 1 244 escravos) que viviam em 1840181
181 Cf: Discurso pronunciado pelo presidente da provincia de Santa Catharina, o marechal de campo Francisco Joze de Souza Soares d'Andrea, na sessão ordinaria do anno de 1840 aberta no primeiro dia do mez de março. Disponível em www.crl.uchicago.edu
nos distritos de São Francisco do Sul. Uma parcela desses indivíduos pode ser considerada a elite de São Francisco do Sul (proprietários de terras, comerciantes e homens ocupantes de cargos públicos). Existem também indivíduos de camadas mais populares nesse diagrama, pois o compadrio era uma das maneiras de se reforçar alianças assimétricas. Eles podem ser observados nas partes periféricas da figura, normalmente com uma única linha de ligação com a rede.
O que se pretende em um primeiro momento é cruzar os nomes dos indivíduos que estão no Diagrama II com aqueles que figuraram na lista de dezoito nomes elaboradas pelo Juiz Municipal Dutra a pedido do Presidente, com a finalidade de encontrar os novos ocupantes dos cargos locais. A partir desse cruzamento, chega-se ao seguinte quadro: