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4 A “NOVA” ESTRUTURA FUNDIÁRIA DO LITORAL

4.1 O PROCESSO DE FORMAÇÃO DA PROPRIEDADE PRIVADA

De acordo com Ribeiro D. (2000) os verdadeiros donos das terras brasileiras são os indígenas, que habitavam as terras pré-cabralinas há tempos. As terras “descobertas” pelos portugueses, em 1500, deram origem à formação histórica da propriedade estatal no Brasil, sob a Coroa portuguesa. Nesse sentido, pode-se dizer que as terras foram “expropriadas” dos habitantes locais, o que permitiu à Coroa portuguesa traspassá-las por “doação” — Capitanias Hereditárias — a terceiros com posses (incentivando, com isso a concentração de terras23), que detinham a propriedade privada no país, baseada na escravidão da população indígena e, posteriormente, da população negra trazida da África. Esse tipo de gestão da propriedade da terra e da formação social brasileira desde o período colonial, consolidou a apropriação concentrada da propriedade da terra e a desigualdade econômica, social e espacial presentes hoje na formação sócio-espacial brasileira (GONÇALVES, 1995).

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A concentração e fragmentação da propriedade são processos simultâneos presentes na história agrária do Brasil: de 1920 a 1940, época da Grande Depressão, a fragmentação predominou; entre 1940 e 1950, predominou a concentração; a fragmentação continuou a dominar nas décadas seguintes (1960 a 1970), mas em 1975, com a intervenção do Governo federal no sentido claramente concentracionista, o movimento global de fragmentação é superado pelo de concentração da propriedade. Essa estratégia, bem como os incentivos e subsídios do Governo favoreceram a concentração da propriedade agrária, e, com mais intensidade, a concentração da produção e da renda (GUIMARÃES, 1982).

Ribeiro, D. (2000) destaca o enorme patrimônio fundiário que se estendia de norte a sul do país, no século XIX, na forma de missões e concessões territoriais outorgadas pela Coroa portuguesa, muitas célebres, como a de Garcia D’Ávila. As sesmarias não compreendiam as terras lindeiras ao mar (marinhas) e, consideradas bens públicos desde o período colonial, estavam sujeitas ao pagamento da respectiva renda pelo direito de uso. Essa forma jurídica que presidiu o processo de apropriação fundiária no Brasil colonial faz valer seus efeitos até hoje (ABREU, 2011).

A formação da propriedade privada da terra no atual LNE baiano remete à própria história da colonização do Brasil. No sentido de formalizar a posse e ocupação da colônia portuguesa no país, em 1549, Tomé de Souza chegou e fundou a cidade do Salvador, a capital da nova colônia. Com Tomé de Souza, que foi o primeiro Governador Geral do Brasil, dentre outros membros da corte portuguesa, veio também Garcia d’Ávila24

, um fidalgo, que obteve uma sesmaria que ao longo do tempo foi constituindo um vasto patrimônio, cujos descendentes, continuaram a expandir os seus domínios, a partir da porção nordeste do atual município de Salvador, avançando por todo o sertão norte baiano, ocupando terras da Paraíba, do Piauí até o Maranhão.

As terras de Garcia d’Ávila começavam em Itapuã, nos limites da cidade do Salvador, seguia em direção ao atual LNE da Bahia, em que entrava a cobiçada angra de Tatuapara, onde se localiza hoje a Praia do Forte, local cuja ocupação era estratégica para a defesa do sítio. Lá se instalou, fazendo benfeitorias: uma povoação de casas de sua vivenda, a Igreja de N. Sra. da Conceição e a Casa da Torre (também conhecida como Castelo Garcia d’Ávila) (MONIZ, 2007).

Segundo Moniz (2007) o Garcia d’Ávila, proprietário absenteísta, tornou-se um dos principais e mais ricos habitantes da cidade do Salvador, e um dos maiores sesmeiros do Brasil, conquistando terras à custa da aniquilação dos índios tupinambás, que dominavam o sertão nas proximidades da enseada de Tatuapara.

24 De acordo com alguns genealogistas e historiadores, buscou-se uma linhagem nobre para Garcia

d’Ávila sugerindo-se sua filiação bastarda a Tomé de Sousa, questão que permanece, ainda hoje, como conjectura. Apesar de que, fora os “queixumes” que dele tinha, conta o padre Manuel da Nóbrega em carta a Tomé de Sousa: “[...] achava nele um rastro do espírito e bondade de V. Mercê do que eu sempre me contentei, e como ter cá me alegrava, parecendo-me estar ainda Tomé de Sousa nesta terra [...]” (CALMON, 1983: 26, grifos nossos). “Possivelmente Garcia d’Ávila nunca se identificou como filho de Tomé de Sousa porque a lei portuguesa proibia aos capitães- mores e governadores conceder sesmarias aos seus familiares, ainda que isto pudesse haver ocorrido” (MONIZ, 2007: 622).

Verifica-se, então, o domínio econômico e político da família dos “Ávila” sobre as terras do Litoral Nordeste baiano, bem como o prestígio que conseguiu acumular, ao longo de dez gerações em três séculos. Os Garcia d’Ávila mantiveram a propriedade da terra em família até 1852, quando o patrimônio começou a ser disperso mediante partilha de heranças e depois em vendas25

.

Segundo Silva, L. (2014), os grandes sesmeiros — a exemplo de Garcia d’Ávila — tinham total autonomia sobre seus domínios fundiários, podendo negociar as terras (arrendá-las ou vendê-las). Nesse sentido, de acordo com a autora, já era forjado um “mercado” de terras, não sendo necessária uma lei de terras para caracterizá-la como mercadoria. Assim, a Lei nº 601/1850 (que ficou conhecida como Lei de Terras), instituída pelo Governo imperial no sentido de regulamentar a propriedade privada da terra no Brasil, tornou-se o instrumento legal em 1854, com a publicação do Decreto nº 1.318. Esta lei

[...] foi feita exclusivamente para dar continuidade ao poder dos grandes latifundiários, já que o sistema de sesmaria caíra em 1822, não permitindo que europeus recém-chegados ou a caminho [...] tivessem acesso fácil à terra. Para possuí-las eles teriam que comprá-las a preços altos, determinados por um mercado dominado pelo monopólio dos grandes proprietários (SILVA, L., 2014: 86).

Entretanto, segundo a autora, a terra permanecia sendo monopólio de grandes proprietários que cada vez mais ampliavam os seus domínios fundiários, concentrando mais terras, mais rendas, mais poder econômico e político26 e o “[...] seu impacto sobre a estrutura fundiária do país faz-se sentir até hoje” (ABREU, 2011: 541).

O período se caracterizou por amplo e indiscriminado movimento de

25 Em 1922, o coronel Otacílio Nunes de Sousa tornou-se proprietário do Castelo Garcia d’Ávila e

terras adjacentes onde iniciou o cultivo do coco associado à pecuária extensiva, até a época do seu tombamento, em 1938, pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Embora seja um dos principais monumentos do patrimônio histórico e cultural brasileiro, este continua sendo uma propriedade particular da Fundação Garcia d’Ávila, criada em 1981. Esta fundação é uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip). Segundo Gomes Sobrinho (1998) o poder político e econômico da Fundação enfraquece o poder político municipal e favorece seu papel como principal elemento articulador de forças políticas locais.

26 No final do século XIX já era registrado no Sudeste brasileiro “[...] um número considerável [de]

unidades agroprodutivas, originárias, em parte, das migrações européias que inicialmente destinaram-se às fazendas de café. [...] no Sul do Brasil, mediante um processo diferente, de migrações subsidiadas, concentram-se também pequenas propriedades”. A partir dos anos 1950, o capital transnacional detém os maiores latifúndios do país, nas regiões Centro-Oeste e Norte, aumentando as contradições no campo brasileiro (SILVA, L., 2004: 88).

apossamento de terras, na sua nova modalidade (com intenção definida pelas elites do país) de constituição do latifúndio. A partir daí foram estruturadas as bases através das quais o Estado conferia legitimidade à propriedade da terra e objetivaria a separação entre as esferas do público e do privado.

Ao longo da segunda metade do século XIX, poucas terras foram regularizadas ou tituladas, e as ocupações irregulares multiplicaram-se. Na República, a Constituição de 1891, transferiu aos Estados-membros o controle político da maior parte das terras devolutas (livres), portanto públicas, situadas nos seus respectivos domínios político-administrativos. Isso significou colocar as terras do país sob o arbítrio das forças oligárquicas e proprietários de terras que passaram a controlar sua distribuição, através da venda a grandes grupos e empresas privadas, perpetuando-se a apropriação e legitimação privilegiadas, circunstância esta que marcou o início da luta legal pela terra no país (SMITH, R., 1990). Desta forma, segundo Maricato (2011), a propriedade da terra continua a ser um nó na sociedade brasileira, estando no centro do conflito social, alimentando as desigualdades no país.

Com o declínio dos Garcia d’Ávila, no final do século XIX, as terras no LNE baiano foram adquiridas por Sigisfred Sigismundo Schindler, prussiano naturalizado norte americano, que as ocupou basicamente com o extrativismo da piaçava27, látex da mangaba para produção de borracha e a castanha do caju (CALMON, 1983). Segundo Gomes Sobrinho (2011), Schindler posteriormente vendeu essas terras para a companhia inglesa de borracha British and Brazilian Rubber Plantters & Manufaturados LTDA, que manteve o extrativismo para exportação em grandes extensões de terras  aproximadamente 80.000 hectares  que se extendiam do litoral para o interior. Com a falência desta empresa em 1940, o Bank of London ficou como responsável pelo remanescente da companhia e, em 1949, vendeu as terras para a empresa Odebrecht28, que da área original titulou, em 1957, 2.500 hectares, conservando aproximadamente 1.700 hectares (GOMES SOBRINHO, 2011). Esta área que corresponde à Fazenda Sauípe no município de Mata de São

27 Conhecida também como piaçaba, nomes populares de duas espécies (Attalea funifera e

Leopoldinia piassaba) de palmeira, que produzem uma fibra usada na confecção de vassouras e coberturas.

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A empresa Odebrecht, sediada em Salvador desde 1945, atualmente atua na maioria dos estados brasileiros, com ações diversificadas nos setores de engenharia, construção, indústria e no desenvolvimento de projetos de infraestrutura, energia e militar.

João foi mantida sem utilização pela Odebrecht até os dias atuais, quando promoveu a construção do complexo hoteleiro Costa de Sauípe, em 2000, ano que foi inaugurada a primeira etapa do empreendimento.

Durante longo tempo a estrutura fundiária foi mantida praticamente, inalterada no LNE baiano, com grandes extensões de terra — remanescentes das primitivas “plantations” açucareiras implantadas à época da colonização —, em mãos de poucos proprietários que as detinham, parasitariamente, para “engorda” como alternativa altamente rentável de reserva de valor, aguardando valorização decorrente de intervenção governamental com infraestrutura (SMOLKA, 1979).

Assim, até meados do século XX, pouco se alterou a organização sócio- espacial e econômica da região29, assentada na agricultura de subsistência, na pesca e no extrativismo vegetal, e como únicas atividades agropecuárias com alguma expressão: o cultivo do coco e, inicialmente, a pecuária de corte praticada em regime extensivo; a pecuária leiteira também foi incorporada no LNE baiano, que seguiu assim até os anos de 1957/1958, formando a base de uma importante bacia leiteira abastecedora do mercado de Salvador, quando começou a declinar, pelo acelerado e extensivo processo de urbanização e industrialização regional que não comportava mais atividades do tipo extensivo (BAHIA, 1972?, t. III) e em grande parte como reflexo da própria decadência da economia baiana nos anos 1950. Recentemente, havendo leves tendências para uma inversão desta atividade para a primitiva pecuária de corte (BAHIA, 1972?, t. III).

Em face do declínio dessa atividade, modificou-se a estrutura fundiária da região, entre 1950 a 1960: estabelecimentos de até 1.000ha foram fracionados e os de 1.000 a 10.000ha sofreram um processo de concentração de terras, devido à venda de algumas fazendas e incorporação de outras com menor área. Vale ressaltar que a Petróleo Brasileiro S.A. (Petrobras), com a introdução de suas atividades30, promoveu uma série de desapropriação de terras31 nos municípios

29 A região agora referida é a do Recôncavo Norte (constituída dos municípios de Camaçari,

Candeias, Catu, Itanagra, Itaparica, Lauro de Freitas, Mata de São João, Pojuca, Salvador, Simões Filho e Vera Cruz), que fez parte do zoneamento econômico da Microrregião do Recôncavo Baiano (IBGE, Sinopse Preliminar do Censo Demográfico de 1960), para o Projeto Agropecuário do Recôncavo Baiano, que teve como meta a implementação da estratégia de desenvolvimento agropecuário da região.

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Em 1939, foi descoberto o petróleo no Recôncavo Baiano e a Petrobras foi fundada em 1953. Em 1954, tiveram início as ações diretas dessa empresa nessa parte do espaço geográfico. Até 1973, a região “[...] era responsável por 80% da produção nacional de petróleo, diminuindo progressivamente com as descobertas de grandes jazidas petrolíferas noutras partes do país, em especial, na

petrolíferos, em Candeias, Catu, Pojuca e Alagoinhas tornando-se proprietária de cerca de 60.000ha de terras na região, diminuindo a quantidade de terras antes destinada à agricultura e a oferta, direta ou indireta de empregos. Associado a isso ocorria a negociação da posse ou da propriedade pelos pequenos agricultores estimulados pela possibilidade de ingressarem na Petrobras como trabalhadores ou nas empresas que lhe prestava serviços, tendência que foi acentuada, nos anos posteriores a 1960, com a criação: do CIA, em 1968, do Pólo Petroquímico de Camaçari (COPEC), em 1978, e de algumas fábricas isoladas que atraíam para as cidades da região a população rural (BRITO, 2008), aumentando o fracionamento das terras, determinado, também, pela divisão das terras por herança (BAHIA, 1972?).

Observa-se que a região apresentou, ainda em 1960, a maior extensão de terras ociosas — consideradas as que não estavam incorporadas ao processo produtivo — correspondendo a 31,1% do total do estado, e que na região chegou a atingir 66,5% (BAHIA,1972?, t. III). Tal fato resultava principalmente da suspensão da utilização econômica das terras pela desapropriação em favor da Petrobras, a partir de 1956 (BRITO, 2008), que associado a isso pesava a própria decadência da Bahia e a pobreza natural dos solos arenosos predominantes nos terrenos de tabuleiros costeiros.

O Censo Agropecuário de 2006 apresenta a estrutura fundiária e a utilização das terras nos municípios litorâneos no LNE baiano, com o predomínio de grandes estabelecimentos, sendo que Lauro de Freitas apresenta um maior percentual (36,4%) de pequenos estabelecimentos, pois é um município eminentemente urbano e onde predominam pequenas chácaras, e possui a menor área da região e uma das menores do estado (5.770ha). Por outro lado, o município de Esplanada se destaca com o maior percentual de minifúndios (23,5%), tendo a maior área da região (129.800ha). O total de terras dos municípios com 562.470ha são ocupadas principalmente com a pecuária (315,7%) destacando-se Jandaíra com 62,3% e Mata de São João com 52,2%. Em segunda posição vem a lavoura (188,9%) tendo pouca plataforma continental, com destaque para a Bacia de Campos-RJ” (BRITO, 2008: 105).

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Ato do Governo federal (Decreto-Lei nº 40 489 de 4 de dezembro de 1956) em declarar de utilidade pública para fins de servidão ou desapropriação, em favor da Petrobras, de maneira genérica por cinco anos, todas as terras de nove municípios do Recôncavo Baiano (Salvador, São Francisco do Conde, Santo Amaro, São Sebastião do Passé, Camaçari, Mata de São João, Pojuca, Catu e Alagoinhas), descreve de maneira precisa como a Petrobras, alicerçada pelo Governo, agia na região, comprando as propriedades por preços aviltantes (BRITO, 2008).

expressão os municípios de Entre Rios e Lauro de Freitas. Nesse ano, a ocupação das terras com a produção florestal ainda é pequena (117,2%), comparada com a ocupação da agropecuária (Tabela 4 e Tabela 5).

Tabela 4 – Estrutura fundiária dos municípios do Litoral Nordeste da Bahia, 2006 Municípios Extensão dos estabelecimentos agropecuários (%)

Minifúndio Pequena Média Grande

Camaçari 9,0 12,7 5,3 55,4 Conde 15,0 5,5 27,5 36,3 Entre Rios 3,4 3,5 20,7 68,3 Esplanada 23,5 2,7 15,2 58,6 Jandaíra 11,6 4,1 22,1 49,2 Lauro de Freitas 11,5 36,4 - -

Mata do São João 2,6 12,4 8,5 49,6

Fonte: IBGE/ Portal SIDRA/ Censo Agropecuário 2006; INCRA, 2013.

Nota: As áreas com menos de três informantes foram desidentificadas no censo. Elaboração: Denise Magalhães, 2015.

Em que pese a questão fundiária, a área petrolífera no Recôncavo Baiano surgiu como um centro de forte atração de população para a região, acusando altas taxas de migração (destacando-se os municípios de Candeias e Camaçari) e de elevado crescimento urbano, estimulados pelas atividades diretas e indiretas da Petrobras que demandava pessoal, produtos e serviços, em grande escala. Com o aumento da arrecadação de receitas nos municípios petrolíferos, as municipalidades implantaram e/ou ampliaram a infraestrutura pública, com serviços de saneamento, pavimentação de ruas, energia elétrica, abastecimento de água etc. (BRITO, 2008).

Nessa época, no LNE baiano, foram reiniciados os conflitos relacionados à posse e propriedade da terra. Grande parte dos estabelecimentos rurais mudaram para as mãos de poucos proprietários e de grandes empresários. A exemplo, a

Tabela 5 – Utilização das terras nos municípios do Litoral Nordeste da Bahia, 2006

Municípios Área (ha) Lavouras (%) Pecuária (%) Produção Florestal (%) Florestas Nativas (%) Outras Total 562.470 188,9 315,7 117,2 8,6 24,8 Camaçari 78.470 40,1 49,8 0,4 1,8 7,9 Conde 96.460 41,7 38,5 19,3 0,4 0,1 Entre Rios 121.530 6,3 33,4 58,9 0,8 0,6 Esplanada 129.800 40,6 41,3 11,2 5,6 1,3 Jandaíra 64.120 35,8 62,3 - - 1,9 Lauro de Freitas 5.770 5,1 38,2 - - 56,7

Mata de São João 66.320 19,3 52,2 27,4 - 1,1

Fonte: IBGE/ Portal SIDRA/ Censo Agropecuário, 2006.

Nota: - Dado numérico igual a zero não resultante de arredondamento. Elaboração: Denise Magalhães, 2015.

construtora Odebrecht, que comprou a Fazenda Sauípe, e o empresário paulista de origem alemã Klaus Peters, adquiriu a Fazenda Praia do Forte, da família Padilha de Souza (descendente de Otacílio Nunes de Souza, que a comprou de herdeiros da família d’Ávila), ambos os estabelecimentos sediados no município de Mata de São João (MAGALHÃES, 2003).

Durante os anos 1970, novas dinâmicas foram introduzidas na região, principalmente com a silvicultura em grandes extensões para produção de celulose e carvão vegetal com a plantação de pinus e eucaliptus, a partir da criação do Distrito Florestal do Litoral Norte (DFLN)32, possibilitado pelas condições climáticas favoráveis, abundância de recursos hídricos, proximidade de áreas portuárias como Salvador e Aracaju, disponibilidade de mão de obra barata já fixada na região, grande concentração fundiária e preço baixo das terras. Esse fato implicou a substituição das terras até então ocupadas pela agricultura de subsistência e a respectiva transferência da população rural para as cidades, vilas e povoados da região (MAGALHÃES, 2003).

O fenômeno de transferência da população rural para as áreas urbanas pode ser constatado nos municípios do LNE baiano, desde a década de 1970 (Tabela 6). Observa-se que no município de Camaçari, com uma população total, em 1970, de 33.273 habitantes, 60,5% era urbana e 39,5% rural. Já em 2010, de uma população total de 242.970 habitantes, 95,5% era urbana e 4,5% rural. Em Mata de São João verifica-se igual situação, mas com menor intensidade: em 1970, de uma população com 27.188 habitantes, 51,1% era urbana e 48,9 rural; em 2010, de uma população com 40.183 habitantes, 74,2% era urbana e 25,8% rural. Lauro de Freitas reflete uma situação inversa no ano de 1970, onde a população rural (60,7%) era maior que a urbana, com 39,3%; já em 2000, a população total cresceu sensivelmente (113.543 habitantes), apresentando somente 4,4% de população rural. Atualmente, pela expansão e conurbação da cidade do Salvador com a de Lauro de Freitas, este município se encontra totalmente urbanizado.

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Com o início da crise da atividade petrolífera e como alternativa econômica regional, dado o preço favorável da celulose no mercado internacional, por iniciativa do Governo estadual foi implantado em 1970 o DFLN, abrangendo 763.000ha em vários municípios da região. A Companhia de Ferro Ligas da Bahia (FERBASA) que atua com atividades florestais na região por meio da REFLORA, sua subsidiária para fins madeireiros, cultiva o eucapitus em nove municípios — dentre estes o de Mata de São João, Entre Rios, Esplanada e Conde — com 25.000ha de área plantada.

Tabela 6 – Crescimento populacional dos municípios costeiros do Litoral Nordeste da Bahia – 1970 a 2010 Continua Localidades

População

1970 1980 1990

Urbana Rural Total Urbana Rural Total Urbana Rural Total Camaçari 20.137 13.136 33.273 76.123 13.041 89.1645 108.232 5.407 113.639 Conde 3.734 13.482 17.216 5.734 9.494 15.228 5.494 10.655 16.149 Entre Rios 4.748 14.440 19.188 9.761 12.784 22.545 16.897 10.821 27.718 Esplanada 5.969 10.702 16.671 10.527 8.489 19.016 15.198 8.007 23.205 Jandaíra 2.290 4.424 6.714 2.929 3.674 6603 4.471 3.754 8.225 Lauro de Freitas 3.902 6.099 10.001 23.405 12.026 35.431 44.374 24.892 69.266 Mata de São João 13.878 13.310 27.188 23.727 8.934 32.661 24.143 6.392 30.535

Conclusão Localidades

População

2000 2010

Urbana Rural Total Urbana Rural Total Camaçari 154.402 7.325 161.727 231.973 10.997 242.970 Conde 10.492 9.934 20.426 12.129 11.491 23.620 Entre Rios 23.016 14.494 37.510 23.824 16.048 39.872 Esplanada 17.538 9.692 27.230 20.822 11.980 32.802 Jandaíra 5.211 4.816 10.027 6.147 4.184 23.620 Lauro de Freitas 108.595 4.948 113.543 163.449 - 163.449 Mata de São João 24.964 7.599 32.568 29.825 10.358 40.183 Fonte: IBGE/Portal SIDRA.

Elaboração: Denise Magalhães, 2015.

As instalações do CIA, em 1968 e do Copec, em 1978, no entorno do município de Salvador, bem como a construção da rodovia BA-099, em 1975, no LNE baiano, proporcionaram diversas implicações na urbanização sub-regional (BRITO, 2008). A economia de aglomeração gerada pelo processo de industrialização e o próprio processo de metropolização da cidade do Salvador a partir dos anos 1970 implicaram transformações fundamentais na estrutura urbana da capital e sua expansão futura em vários vetores de crescimento do município: no subúrbio, na parte central e na Orla Atlântica. Ao tempo em que ocorria a expansão da cidade o veraneio se consolidava na Ilha de Itaparica, mas, aos poucos, já começava a se destacar a incorporação de setores de praia no LNE baiano ao processo de valorização capitalista da terra aproveitando a infraestrutura pública até então disponível — a rodovia BA-099  “Estrada do Coco”.

O potencial turístico da região começou a ser explorado a partir da instalação, em 1985, do Hotel Club Robinson Crusoé (atual Resort Praia do Forte), em Praia do Forte, visando, segundo Gomes Sobrinho (1998), atender ao turista internacional. A partir daí mudanças se fizeram sentir no espaço: geração de novos empregos; alteração da composição social tradicional; na configuração e estruturação urbana (novas demandas para o setor imobiliário, de construção civil e infraestrutura); intensificação dos fluxos através da nova rede viária e o movimento especulativo das