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O processo dos imigrantes chineses em Portugal 43 §

No documento O processo da migração entre 1974 e 2010 (páginas 59-67)

Capítulo III A migração chinesa em Portugal

3.2 O processo dos imigrantes chineses em Portugal 43 §

3.2 O processo dos imigrantes chineses em Portugal

Como é sabido, o primeiro império global da história foi o Império Português ou o Império Colonial Português, tratando-se do mais antigo dos impérios coloniais europeus modernos, abrangendo quase seis séculos de existência, a partir da Conquista de Ceuta, em 1415 (altura da dinastia de Ming), até à devolução da soberania sobre Macau à China. O império espalhou-se ao longo de um vasto número de territórios que hoje fazem parte de 53 países diferentes. Desde a chegada ao Japão em 1542, os portugueses tinham iniciado um intenso comércio entre Goa 72e Malaca com o Japão. As primeiras referências à China num documento português remontam a 1508 e estão contidas no regimento de viagem dado a Diogo Lopes de Sequeira. A missão do fidalgo consistia em descobrir o entreposto marítimo - comercial de Malaca.73

No início da constituição da nova China, o governo do Salazar não admitiu que a República Popular da China fosse um país, devido a Portugal naquela altura estar muito ligado aos Estados Unidos da América, que lhe ofereceram o apoio económico e militar. Foi com o estabelecimento das relações diplomáticas entre Portugal e a República Popular da China, em 8 de fevereiro de 1979, que se iniciou um novo ciclo das relações entre os dois países. Em setembro do mesmo ano, enviaram-se os embaixadores mutuamente. O estabelecimento das relações correspondeu ao desejo manifestado pela parte portuguesa, logo a seguir à revolução de 25 de Abril de 1974 e

72 É um estado da Índia e, foi dominado por Portugal por mais de 400 anos. 73

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teve lugar uns anos depois, após delicadas negociações entre os dois governos. Os contactos entre Portugal e a República Popular da China foram dominados, até 1999, pela questão de Macau. O acordo de 1979 estabeleceu o princípio de que o estatuto do território poderia ser objecto de negociações.

Os principais marcos no processo de transferência do território para a soberania chinesa foram a visita do Presidente Ramalho Eanes a Pequim, em maio de 1985, durante a qual a parte chinesa exprimiu pela primeira vez a vontade de iniciar negociações com aquele objetivo.74 A assinatura da Declaração Conjunta, em Abril de 1987, e o processo de transição, que terminou com a cerimónia da transferência em 20 de dezembro de 1999. Completo este processo, que polarizou todas as atenções de parte a parte, abriu-se um novo capítulo entre os dois países de relações mais fluidas e abrangentes. Com os passados dos contactos íntimos e constantes, as relações entre a China e Portugal entram numa nova era.

Apesar do início da emigração chinesa a partir do século XIX e princípios do século XX, desde sempre, tendo estado muito ligada ao desenvolvimento do comércio internacional, foi sobretudo desde dos anos 1980, que a ambiente política da China não era muito bloqueado do que o antes, dando-se início a uma nova era de fluxos migratórios de chineses por todo o mundo.

No final de 2014 existiam mais de 395 mil imigrantes legais em Portugal, mesmo assim um número inferior se recuarmos cinco anos quando existiam mais de 445 mil. A crise levou muitos a abandonarem o país, mas o que é certo é que para

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muitos viver em Portugal continua a ser sinónimo de garantia para a vida melhor. Os chineses foram os campeões da imigração neste período, ocupando o primeiro lugar do ranking das comunidades que mais aumentou entre 2014 e 2010. No final do ano passado viviam 21 402 chineses em território nacional, ou seja, mais de 5700 que em 2010, altura em que ultrapassavam os 15 600, revelam os últimos dados divulgados pelo Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF).75

De acordo com os dados estatísticos do SEF, a comunidade chinesa para desta forma a ser a quinta mais representativa em 2015. Apesar dos indivíduos chineses não ocupar muito nos imigrantes totais em Portugal, a comunidade chinesa em Portugal não podemos ignorar, não só no aspecto económico, mas na integração da sociedade de Portugal. Como reflexo da globalização, a partir dos anos 1980, as emigrantes chineses passam a ser possível o estabelecimento de relações mais regulares Na figura 5, apresentamos a evolução dos imigrantes chineses em Portugal (1980-2013). Pela leitura deste gráfico, podemos constatar que o maior aumento a partir no ano 2000, a tendência do crescimento subia rapidamente.

Antes do ano 1980, é difícil entrar em Portugal para os chineses, e o registo dos emigrantes pode remontar aos anos 20 do século XX76, desenvolveram um comércio ambulante em Lisboa, Porto e Setúbal. Estes pioneiros chineses começavam a vender os “ produtos bonitos e baratos”. Eram muito poucos e só se tornaram mais visíveis a partir dos anos 70.

75 Este parágrafo citado no artigo do SAPO, que publicou em 3 de setembro do ano 2015

76 Guimarães, Susana Raquel e Fernandes, José Rio, O comércio de origem chinesa e o espaço comercial da

Varziela (Vila do conde), Universidade do Porto, Porto, 2009, Informação obtida em http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/7693.pdf, consultado no dia 1 de abril de 2017.

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Eram apenas 63 jovens ( do sexo masculino) entre os 20 e os 30 anos, a maioria solteiros ou recém-casados, que se fixaram sobretudo em Lisboa e no Porto, espalhando-se os restantes por Coimbra, Aveiro, Castelo Branco, Açores e Madeira. Eram provenientes de Qingtian, donde haviam saído para fugir à pobreza e à guerra. Alguns já tinham estado no Japão onde haviam sido expulsos. ( Neves & Bongardt, 2006:71)77

Durante o período da Primeira Guerra Mundial, cerca de 140,000 indivíduos chineses (largamente conhecida como corpo de trabalhadores chineses, em Inglês, Chinese Labour Corps78) foram recrutados para a força britânica e francesa. Depois da terminação da guerra , a maior parte dos chineses foram retornados para a China, e só 5,000 até 7,000 ficaram na França para reconstruir a económica do pós-guerra. Alguns destes chineses ainda participaram na Segunda Guerra Mundial. Assim primeira vaga deu-se, depois da segunda guerra mundial, para os países que já tinham comunidades chineses, como França, Alemanha, Reino Unido. A partir destes países iniciam novas migrações rumo ao Sul do Europeu, tais como, Itália, Espanha, Portugal.

Chegou a Portugal a primeira vaga de imigrantes chineses, normalmente, oriundos de Timor, Angola, Moçambique e Cabo Verde, devido a descolonização, como os “retornos” portugueses e, em geral, com elevadas qualificações profissionais. Contudo, o número dos imigrantes chineses neste período ainda não foi muito grande. A restrição da saída da China era um problema importante para os imigrantes

77 Liga dos chineses em Portugal apud Rocha-Trindade

78 The Chinese Labour Corps was a force of workers recruited by the British and French government in

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chineses.

Figura 5 - Evolução dos imigrantes chineses em Portugal (1980-2013)79,

Quanto aos indivíduos chineses emigratórios após 1980, e de acordo com o gráfico, podemos considerar que os imigrantes chineses se tornavam uma corrente ligada à política abertura do governo chinês. Neste período, não só Portugal, mas em todo o Sul da Europa, até toda a Europa, a diáspora chinesa não se fez de igual forma por todos os países de Europa. Ao contrário dos que vieram das ex-colónias de Portugal, os imigrantes chineses da década 80 desconhecem a língua portuguesa, e a comunidade deles é mais fechada, dedicando-se à restauração, comércio de vestuário, a empresa de importação e exportação e venda de produtos chineses. Podemos verificar na Figura 5, que o número dos imigrantes chineses refletem-se as relações que são cada vez mais íntimas e regulares.

Seguindo à corrente imigratório da década 80 no século passado, a presença mais

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significativa de migrantes chineses começa na década de 1990, devendo este fluxo ser enquadrado nos movimentos migratórios inter-continentais e intra-europeus80. No final de 2001, a China entrou na Organização Mundial do Comércio e a posterior abolição de quotas de importação dos seus produtos, e em 2005, teve significativas consequências no mercado mundial, com reflexos também em Portugal. Na Figura 6 podemos verificar que, os chineses ganharam grandes tanto dinheiro através do exportação, também contribuindo para os comerciantes chineses no estrangeiro que geram os restaurantes, as lojas chinesas e os armazéns de vestuário.

Figura 6 - Comércio de bens81

A tendência do crescimento do comércio de bens é igual à tendência dos imigrantes chineses em Portugal, portanto, podemos adquirir uma conclusão que o crescimento dos imigrantes chineses devido ao comércio bilateral. Apesar da crise económica em 2008, continuavam a manter as relações boas de cooperação comercial.

Embora os dois países mantêm uma boa relação, não é fácil entrar em Portugal 80 Almeida Mortágua, Maria João Vieira, Simbiose dos povos os imigrantes chineses no sul da Europa na viragem do século XX para o Século XXI, Universidade de Salamanca, 2011, Informação obtida em https://gredos.usal.es/jspui/bitstream/10366/115626/1/DHMMC_Joao_Mortagua_Maria_SimbioseDosPov osOsImigrantes.pdf 81 http://www.aeportugal.pt/comunicacoesemail/Legislacao%20Internacionalizacao/China%20-%20REB

%20-%202006-2010%20-%202011-02.pdf Fonte: INE-Instituto Nacional de Estatística. Unidade: Milhares de euros

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para os imigrantes chineses. A maior parte destes indivíduos de entrada imigraram de forma ilegal na década 90 no século XX. Vale a pena referir que houve imigrantes que estando em outros países europeus, vieram para Portugal nos anos de legalização extraordinária de estrangeiros para adquirir a autorização de residência legal, com a criação de autorização de residência permanente, especialmente em 2001, acabando por se fixarem em Portugal82. Segundo João Peixoto83, “O trajeto seguido pelos imigrantes apresenta semelhanças ao nível da forma utilizada para concretizar o desejo migratório: contato com agências de viagens; obtenção de vistos de turismo de curta duração para o Espaço Schengen ou documentos falsos; recepção no destino e encaminhamento para os locais de trabalho.”

Faço uma entrevista com a senhora Sun vinda da província de Shandong, disse me que ela tinha chegado a Portugal 10 anos atrás, e que desde então, ela tinha pago 100,000 RMB (cerca de 10 mil euros naquela altura)84 à agência de viagens para tratar uma visa de viagem a entrar em Portugal, acrescendo que tinha pegado dinheiro emprestado com os meus parentes, mas que eles também eram lavradores, por isso, era o grande número de dinheiro para toda a minha família. Perguntamos-lhe que as razões de deixar o seu marido e filho para chegar aqui e, ela disse que a fim de melhorar a vida dela, construir uma casa e depositar dinheiro para o casamento do filho no futuro, tinha deixado à terra natal e trabalhava nuns restaurantes diferentes 82 É um processo jurídico em reposta aos casos indocumentados – imigrantes clandestinos. Informação obtida em www.advogados.in/index.php?option=com_content&view=article&id=57:legisla-sobreregulariza-de-imigra ntes&catid=28:direito-das-pessoas&Itemid=39 83 Peixoto, João et al, O Tráfico de Migrantes em Portugal: Perspectivas Sociológicos, Jurídicas e Políticas, Alto Comissariado para a Imigração e Minorias Étnicas, Lisboa, 2005, p.214. 84 Agora, de acordo com alguns entrevistados, que entraram no país de forma ilegal, os preços pagos podem variar entre os 18 mil e os 30 mil euros, dependendo do transporte usado e da rota seguida.

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até aquele dia. Ela também disse que já tinha devolvido dinheiro emprestado e que voltaria para China nos últimos anos.

Um outro indivíduo chama-se o Senhor Ye vindo da província Zhejiang, com o intuito de melhorar a vida aqui. Contudo, o primeiro destino dele na Europa não é Portugal, é a França. Ele morava dez anos na França, e depois veio a Portugal e abriu um restaurante chinês em Aveiro até hoje. “Posso ganhar mais dinheiro na França, mas o custo da vida na França é alto, portanto, decidi deixar à França para Portugal, onde posso utilizar o meu dinheiro ganho para viver muito bem aqui.”

Nem todos os imigrantes chineses vieram diretamente para Portugal com a intenção de ficar durante muito tempo ou com permanência. Portugal não é o país de destino final dos chineses, funcionando como um destino intermédio para outros destinos europeus. Por vezes, alguns deles consideram Portugal como a porta para entrar nos outros países da União Europeia (UE), e em comparação dos outros países da UE, é mais fácil adquirir autorização de residência. Alguns indivíduos também disseram que eles iriam morar aqui quando se reformavam. Na verdade, Portugal é o destino popular para os reformados do Norte da Europa, devido ao tempo agradável e o ambiente favorável. No entanto, a razão da maior parte dos imigrantes chineses em Portugal é a melhoria da vida.

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3.3 As principais atividades e grupos étnicos dos imigrantes chineses

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