ZURIQUE, I909
Aos dezessete anos, um Einstein confiante havia se matriculado na Politécnica de Zurique e conhecido Mileva Maric, a mulher com quem se casaria. Agora, em
de 1909, aos trinta anos, ele retornava àquela cidade para assumir a função de professor júnior na Universidade de Zurique.
A volta ao lar recuperou ao menos temporariamente parte do romantismo da
relação. Maric gostou do retorno ao local onde eles se conheceram, e no final do primeiro
mês engravidou de novo.
Eles alugaram um apartamento e descobriram que no prédio residiam Frie-drich Adler e a esposa, e a amizade dos casais se estreitou mais ainda. "Eles têm um lar boémio",
Adler escreveu ao pai, em tom elogioso. "Quanto mais converso com Einstein, mais me convenço de que minha opinião favorável a ele se justifica."
Os dois amigos discutiam física e filosofia quase todas as noites, com
frequência no sótão do edifício de três andares, para não ser incomodados por es-
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posas ou filhos. Adler mostrou a Einstein a obra de Pierre Duhem, cujo livro La ikéorie physique acabava de ser publicado por Adler em alemão. Duhem apresentava uma abordagem mais holística do que Mach para a relação entre as teorias e evidências experimentais, e essa abordagem aparentemente influenciou Einstein, que desenvolvia
sua própria filosofia da ciência.1
Adler respeitava sobretudo a "total independência" da mente de Einstein. Havia em Einstein um traço não conformista que se manifestava em segurança interna, mas
não em arrogância, contou ao pai. "Chegamos a um entendimento em questões que a maioria dos físicos nem sequer compreende", gabou-se Adler.2
Einstein tentou persuadir Adler a se concentrar na ciência em vez de se deixar seduzir pela política. "Tenha um pouco de paciência", disse. "Você será
certamente
meu sucessor em Zurique um dia." (Einstein já presumia que logo passaria a uma universidade de maior prestígio.) Mas Adler ignorou o conselho e decidiu se tornar
editor do jornal do Partido Socialdemocrata. A lealdade a um partido, na opinião de Einstein, significava abdicar da independência do pensamento. Tal conformismo o exasperava. "Um sujeito inteligente aderir a um partido é para mim um completo mistério", lamentou Einstein mais tarde, referin-do-se a Adler.3
Einstein também reencontrou seu ex-colega de classe e anotador de matéria Mareei Grossmann, que o ajudara a conseguir o emprego no escritório de patentes e agora lecionava matemática na mesma Politécnica. Einstein costumava visitar Grossmann após o almoço, para pedir ajuda na complexa geometria e no cálculo necessário para
ampliar a relatividade e torná-la uma teoria de campo mais geral.
Einstein travou amizade ainda com outro respeitado professor de matemática da Politécnica, Adolf Hurwitz, cujas aulas costumava cabular e que prejudicara seus pedidos
de emprego. Einstein passou a frequentar regularmente os recitais de música que aconteciam aos domingos na casa de Hurwitz. Quando Hurwitz lhe contou durante um passeio que a filha trouxera como lição de casa um problema de matemática que ela não conseguia compreender, Einstein apareceu na mesma tarde para ajudá-la a encontrar
a solução."
Como Kleiner previra, a habilidade de Einstein como professor tinha aumentado. Ele não era um mestre em didática, mas usava a informalidade a seu favor. "Quando
ele sentou na cadeira usando um temo puído com calças muito 175
curtas, ficamos um tanto céticos", recordou Hans Tanner, que frequentou a
maioria das aulas de Einstein em Zurique. Em vez de levar anotações previamente preparadas,
Einstein usava um pedaço de papel do tamanho de um car-tão-postal cheio de rabiscos. "Aprendemos um pouco sobre sua técnica de trabalho", disse Tanner. "E sem dúvida
valorizamos o jeito dele, era melhor do que qualquer aula estilisticamente perfeita."
A cada passo, Einstein fazia uma pausa e perguntava aos alunos se o estavam acompanhando, e chegava a permitir interrupções. "Aquele contato entre professor e aluno,
caracterizado pela camaradagem, era uma ocorrência rara na época", segundo Adolf Fisch, outro frequentador de suas aulas. Por vezes, ele fazia um intervalo e reunia
os alunos à sua volta para uma conversa informal. "Com naturalidade, ele
impulsivamente pegava os alunos pelo braço para discutir um assunto", recordou Tanner.
Durante uma aula, Einstein ficou momentaneamente confuso em relação aos passos necessários para completar um cálculo. "Deve haver alguma tola transformação matemática
que eu não consigo encontrar no momento", disse. "Algum dos senhores consegue percebê-la?" Ninguém conseguiu, claro. Einstein continuou: "Então deixem um quarto
de página em branco. Não podemos perder tempo". Dez minutos depois, Einstein interrompeu a explicação de outro assunto e exclamou: "Já sei!". Como Tanner relatou,
maravilhado: "Durante o complexo desenvolvimento do tema seguinte, ele ainda arranjou tempo para refletir sobre a natureza daquela operação matemática específica".
No final de muitas aulas noturnas, Einstein indagava: "Quem vai ao Café
Terasse?". Ali, em sua cátedra informal no terraço com vista para o rio Limmat, eles conversavam
até a hora de o café fechar.
Certa ocasião, Einstein perguntou se alguém queria acompanhá-lo até seu
apartamento. "Recebi esta manhã um trabalho de Planck em que deve haver algum erro", disse.
"Podemos ler o artigo juntos." Tanner e outro estudante aceitaram o convite e foram com ele até sua casa. Lá, debruçaram-se sobre o estudo de Planck. "Vejam se encontram
o erro enquanto eu passo um café", disse Einstein.
Após algum tempo, Tanner respondeu: "O senhor deve estar enganado, Herr Professor, não há erro aqui".
"Sim, há", insistiu Einstein, apontando algumas discrepâncias nos dados, "pois do contrário isso e isso passariam a ser aquilo e aquilo." Era um exemplo
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notável da grande vantagem de Einstein: ele era capaz de olhar para uma equação matemática complexa, que para outros não passava de mera abstração, e enxergar a realidade física que havia por trás dela.
Tanner surpreendeu-se. "Vamos escrever ao professor Planck", sugeriu, "e informá-lo do erro."
Einstein tornara-se então um pouco mais cuidadoso, sobretudo com quem ele
colocava num pedestal, como Planck e Lorentz. "Não vamos dizer a ele que cometeu um erro",
disse. "O resultado está correto, mas as provas são falhas. Vamos simplesmente escrever-lhe dizendo como a prova real deve ser elaborada. O principal é o conteúdo,
não a matemática."5
Apesar do trabalho na máquina de medir cargas elétricas, Einstein tornara-se um teórico conhecido, e não físico experimental. Quando lhe pediram que
supervisionasse
atividades de laboratório, em seu segundo ano como professor, ele ficou
desconsolado. Não tinha nem coragem, disse a Tanner, de "pegar um equipamento, por medo de
provocar uma explosão". A outro eminente professor ele confidenciou: "Meu medo do laboratório era mais que justificado".6
Quando ele terminava o primeiro ano académico em Zurique, em julho de 1910, Maric deu à luz o segundo filho deles, com muita dificuldade. O menino recebeu o nome
de Eduard e o apelido de Tete. Ela passou semanas acamada, depois do parto. O médico, alegando que ela estava com estafa, sugeriu que Einstein desse um jeito de
ganhar mais dinheiro e contratasse uma empregada. Maric ficou furiosa e o protegeu. "Não está claro ainda para todos que meu marido praticamente se mata de tanto
trabalhar?", disse. Assim, a mãe dela veio de Novi Sad para ajudá-los.7
A vida toda, Einstein passou uma impressão de distanciamento dos dois filhos, especialmente de Eduard, o qual sofria de uma doença mental que se agravava com seu
crescimento. Mas, quando eles eram pequenos, Einstein foi um bom pai. "Quando minha mãe estava ocupada cuidando da casa, meu pai deixava o trabalho de lado e tomava
conta de nós durante horas, e nos balançava no joelho", recordou Hans Albert mais tarde. "Lembro que ele contava histórias para nós — e tocava violino com frequência,
para nos acalmar."
Um de seus destaques como pensador, mas talvez não como pai, foi a capacidade e a inclinação para afastar todas as distrações, categoria que para ele incluía por
vezes os filhos e a família. "Nem mesmo o bebé mais chorão parecia 177
perturbar meu pai", disse Hans Albert. "Ele prosseguia em seu trabalho, completamente alheio ao barulho."
Um dia, seu aluno Tanner foi visitá-lo e encontrou Einstein no escritório, debruçado sobre uma pilha de papéis. Escrevia com a mão direita e segurava Eduard com
a esquerda. Hans Albert brincava com tijolinhos e tentava chamar sua atenção. "Espere um pouco, estou quase terminando", disse Einstein, passando Eduard para Tanner
enquanto continuava a rabiscar equações. "Tive uma boa noção", disse Tanner, "de seu imenso poder de concentração."8
praga, 1911
Einstein passara menos de seis meses em Zurique quando recebeu uma solicitação para considerar um emprego de maior prestígio, em março de 1910: professorado pleno
no setor alemão da Universidade de Praga. Tanto a universidade como o cargo académico significavam subir um degrau; contudo, mudar da conhecida e amigável Zurique
para a menos receptiva Praga seria problemático para a família. Para Einstein, as considerações profissionais falaram mais alto que as pessoais.
Ele enfrentava um novo período de dificuldades em casa. "O mau humor que notou em mim não teve nada a ver com você", escreveu à mãe, que na época residia em Berlim.
"Remoer as coisas que nos deprimem ou irritam não ajuda a superá-las. E preciso liquidá-las sozinho."
Seu trabalho científico, por outro lado, dava-lhe imenso prazer, e ele não escondeu a excitação com a nova oportunidade. "É muito provável que me ofereçam um cargo
de professor pleno numa grande universidade, com um salário bem melhor que o que recebo agora."9
Quando a notícia da possível mudança de Einstein se espalhou em Zurique, quinze de seus alunos, liderados por Hans Tanner, assinaram uma petição exigindo que a diretoria
"fizesse o máximo possível para manter este prestigiado pesquisador e professor em nossa universidade". Eles destacaram a importância de ter um professor para "esta
disciplina criada recentemente" de física teórica e o elogiaram como pessoa também, nos termos mais efusivos. "O professor Einstein possui um talento espantoso para
apresentar os problemas mais difíceis da física teórica de modo tão claro e compreensível que se torna para
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nós um grande deleite assistir a suas aulas, e ele é ótimo para estabelecer uma harmonia perfeita com a classe."10
As autoridades de Zurique estavam tão ansiosas para segurá-lo que aumentaram seu salário de 4500 francos, a mesma coisa que ganhava como examinador de patentes, para 5500 francos. Os interessados em atraí-lo para Praga, porém, enfrentavam muitas dificuldades no momento.
A chefia do departamento, em Praga, optara por Einstein como primeiro nome, e encaminhara a indicação ao ministro da Educação, em Viena. (Praga fazia parte do Império
Austro-Húngaro, e a nomeação dependia da aprovação do imperador Francisco José e de seus ministros.) O relatório foi acompanhado da melhor recomendação da
autoridade
máxima no assunto, Max Planck. A teoria da relatividade de Einstein
"provavelmente excede em audácia tudo o que foi realizado até agora na ciência especulativa",
proclamou Planck. "Seu princípio causou uma revolução na compreensão física do mundo que só pode ser comparada à provocada por Copérnico." Num comentário que pode
ter parecido profético para Einstein, Planck acrescentou: "A geometria não euclidiana é brincadeira de criança, em comparação".11
A recomendação de Planck deveria ter bastado. Mas não bastou. O ministro decidiu preferir o segundo colocado entre os candidatos, Gustav Jaumann, que possuía duas
vantagens: era austríaco e não era judeu. "Não recebi o chamado de Praga", lamentou Einstein a um amigo em agosto. "Fui chamado pelo departamento, mas o ministério
não me aprovou por causa de minha origem semítica."
Jaumann, no entanto, logo descobriu que era a segunda opção do departamento e se revoltou. "Se Einstein foi proposto como primeira opção, em virtude da crença de que tem a seu favor descobertas superiores", declarou, "então eu não quero ter nada a ver com uma universidade que busca a modernidade mas não aprecia o mérito."
Portanto, em outubro de 1910, Einstein declarou confiante que sua nomeação era "quase certa".
Havia um último obstáculo, também relacionado à religião. Ser judeu era
desvantajoso; ser descrente e proclamar que não tinha religião o desqualificava. O império
exigia que todos os funcionários, inclusive professores, fossem membros de alguma religião. Em formulários oficiais, Einstein afirmava não ter nenhuma. "Einstein
é tão prático quanto uma criança, em casos assim", comentou Friedrich Adler. 179
No final das contas, o desejo de Einstein de conseguir o emprego foi maior que sua postura geniosa. Ele concordou em escrever "mosaica" no campo destinado à fé e
aceitou a cidadania austro-húngara, com a condição de reter também a cidadania suíça. Ao lado da cidadania alemã, que desprezara mas que logo lhe seria
oferecida
outra vez, ele teve três cidadanias antes dos 32 anos, alternadamente ou não. Em janeiro de 1911, ele foi oficialmente nomeado para o posto, com o dobro do
salário
Einstein tinha dois heróis científicos com quem não se encontrara — Ernst Mach e Hendrik Lorentz —, e conseguiu visitar a ambos antes de se mudar para Praga. Quando
foi a Viena para a apresentação formal aos ministros, procurou Mach, que morava num subúrbio da cidade. O físico idoso, pregador do empirismo, que tanto
influenciara
a Academia Olímpia e instilara em Einstein o ceticismo acerca de eventos não observáveis, como o tempo absoluto, tinha uma barba desgrenhada e uma
personalidade
mais desgrenhada ainda. "Fale alto comigo, por favor", vociferou, quando Einstein entrou em seu quarto. 'Além de outras características desagradáveis, estou praticamente
surdo."
Einstein queria convencer Mach da realidade dos átomos, que o velho sábio sempre rejeitara como sendo elaborações imaginárias da mente humana. "Vamos supor que, ao presumir a existência de átomos num gás, fôssemos capazes de prever uma propriedade observável desse gás, que não poderia ser prevista com base na teoria não
atomista", disse Einstein. "Você aceitaria tal hipótese?"
"Se, com o auxílio da hipótese atómica, alguém puder estabelecer uma conexão real entre diversas propriedades observáveis que sem ela permaneceriam isoladas, então
eu diria que essa hipótese é 'económica'", respondeu Mach, contrariado. Não era uma aceitação plena, mas bastava a Einstein. "No momento, Einstein mostrou-se satisfeito", afirmou o amigo Philipp Frank. Mesmo assim, Einstein passou a
se afastar do ceticismo de Mach acerca de teorias sobre a realidade que não foram construídas com base em dados observáveis. Ele desenvolveu, segundo Frank, "uma
certa aversão à filosofia de Mach".13 Iniciava-se uma conversão importante. Pouco antes de se mudar para Praga, Einstein foi à cidade holandesa de Lei-den para se encontrar com Lorentz. Maric acompanhou-o, e eles aceitaram o
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convite para se hospedar na casa onde Lorentz vivia com a esposa. Einstein escreveu que ansiava por uma conversa "sobre o problema da radiação", acrescentando: "Gostaria
de assegurar antecipadamente que não sou um defensor ortodoxo dos quanta de luz, como me considera".14
Einstein idolatrava Lorentz à distância fazia tempo. Pouco antes de visitá-lo, escreveu a um amigo: "Admiro esse homem como a nenhum outro; ouso dizer que o amo".
O sentimento foi reforçado quando eles enfim se conheceram. Ficaram acordados até tarde, no sábado, discutindo questões como a relação entre temperatura e condutividade
elétrica.
Lorentz pensou ter apanhado Einstein num pequeno erro matemático em seus artigos sobre quanta, mas na verdade, como Einstein declarou, houve simplesmente "um erro
de registro", pois ele deixara de fora um "1/2" que foi incluído mais tarde no artigo." Tanto a hospitalidade como o "estímulo científico" tornaram Einstein efusivo
na carta seguinte. "Você irradia tanta bondade e benevolência", escreveu, "que a perturbadora convicção de que não mereço tantas gentilezas e honrarias nem
chegou
a penetrar em minha mente durante a estada em sua casa."16
Lorentz tornou-se, nas palavras de Abraham Pais, "a grande figura paterna na vida de Einstein". Após sua agradável visita ao escritório de Lorentz em Lei- den, ele
voltava lá sempre que conseguia arranjar um pretexto. A atmosfera desses encontros foi captada pelo colega Paul Ehrenfest:
A melhor poltrona foi cuidadosamente instalada perto da escrivaninha enorme, para o querido convidado. Ele recebeu um charuto, e Lorentz calmamente começou a formular
questões referentes à teoria de Einstein sobre a curvatura da luz num campo gravitacional [...] Conforme Lorentz falava, Einstein passava a baforar com menos frequência
e a empertigar o corpo na poltrona. Quando Lorentz terminou, Einstein debruçou- se sobre a folha de papel em que Lorentz havia anotado fórmulas matemáticas. O charuto
apagara, e Einstein pensativamente girava o dedo em volta de uma mecha de cabelo acima da orelha direita. Lorentz permaneceu sentado, sorrindo para Einstein, que se perdera por completo na meditação, parecendo um pai a olhar para o filho muito amado — com plena confiança de que o filho resolveria o problema apresentado, mas
ansioso para ver como o faria. De repente, a cabeça de Einstein ergueu-se animadamente; ele resolvera o problema. A discussão prosseguiu ainda um pouco; um interrompeu
o outro, discorda- 181
ram parcialmente, resolveram com rapidez a disputa, e a compreensão mútua levou os dois homens, cujos olhos cintilavam, a contemplar a riqueza da brilhante nova teoria.17
Quando Lorentz faleceu, em 1928, Einstein disse em seu elogio fúnebre: "Estou ao pé do túmulo do maior e mais nobre homem do nosso tempo". E em 1953, na
comemoração
do centésimo aniversário do nascimento de Lorentz, Einstein escreveu um ensaio sobre sua importância. "O que quer que viesse de sua mente brilhante era lúcido e
belo como uma obra de arte", escreveu. "Ele significava mais para mim, pessoalmente, do que qualquer outra pessoa que conheci na vida."18
A mudança para Praga fez Maric infeliz. "Não vou para lá de boa vontade, e espero pouco divertimento", escreveu a uma amiga. Mas, inicialmente, até a sujeira e o
esnobismo da cidade se tornarem opressivos, a vida deles lá foi agradável.
Tinham eletricidade em casa pela primeira vez, além do espaço e do dinheiro para contratar
uma empregada que morasse com eles. "As pessoas são arrogantes, cordiais ou subservientes, dependendo de sua sorte na vida", disse Einstein. "Muitas possuem uma
certa graça."19
De sua sala na universidade, Einstein via um lindo parque com árvores frondosas e jardins bem cuidados. Pela manhã, apenas mulheres o frequentavam, e à tarde só homens. Alguns caminhavam sozinhos, como se absortos em seus pensamentos,
Einstein notou, enquanto outros formavam grupos e entabulavam discussões animadas. Um dia,
ele perguntou o que era aquele parque, e lhe disseram que pertencia a um asilo de loucos. Quando mostrou a vista a seu amigo Philipp Frank, Einstein comentou, jocoso:
"Aqueles são os loucos que não se ocupam com a teoria quântica".20
Os Einstein travaram conhecimento com Bertha Fanta, mulher profundamente culta, que realizava em sua casa um salão literário e musical para os intelectuais judeus
de Praga. Einstein era a presa ideal: académico em ascensão que se dispunha com o mesmo entusiasmo a tocar violino ou a discutir Hume e Kant, dependendo do espírito
do momento. Entre outros habitues, frequentavam o local o jovem escritor Franz Kafka e seu amigo Max Brod.
Em seu livro O caminho de Tycho Brahepara Deus, Brod pareceu usar (embora o tenha negado às vezes) Einstein como modelo para o personagem Johan-nes Kepler, o brilhante
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1600. O personagem devotado à pesquisa científica mostra-se sempre disposto ¦ descartar o pensamento convencional. Mas, no campo pessoal, é protegido das "aberrações
do sentimento" por seu ar distraído e ausente. "Ele não tinha coração, portanto nada a temer do mundo", escreveu Brod. "Ele não era capaz de emoção ou amor." Quando
o romance foi publicado, um cientista conhecido de Einstein, Walther Nernst, disse a ele: "Você é este sujeito, Kepler".21
Não era. Apesar da imagem de solitário que transmitia às vezes, Einstein
continuou a travar amizades firmes e a formar vínculos afetivos, como fizera em Zurique
e Berna, sobretudo com colegas pensadores e cientistas. Um desses amigos foi Paul Ehrenfest, jovem físico judeu de Viena que lecionava na Universidade de São